Na Embaixada da Itália junto à Santa Sé, ocorreu um debate entre o cardeal, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais, e o embaixador Massolo, moderado por Massimo Franco. Duas perspectivas para refletir sobre as transformações nos equilíbrios internacionais e sobre o papel da China, dos EUA, da Rússia e da Europa
[ Audio Embed Ouça e compartilhe] Guglielmo Gallone - Vatican News “Se quisermos compreender algo deste mundo, precisamos colocar a questão religiosa de volta no centro”.
É a partir dessas palavras do cardeal Claudio Gugerotti, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais, que podemos começar a relatar o debate com o embaixador Giampiero Massolo, realizado esta quinta-feira, 22 de outubro, no âmbito da XVII edição do Festival da Diplomacia, com moderação do jornalista Massimo Franco, na Embaixada da Itália junto à Santa Sé.
Colocar a questão religiosa de novo no centro Palavras centrais, as do cardeal Gugerotti, pois introduzem imediatamente um problema destacado pelo próprio purpurado: o cultural. “O horizonte não apenas das análises, mas até mesmo dos livros didáticos, já se restringiu aos últimos trinta anos: não estudamos mais história.
E é por isso que não damos a devida importância ao fator religioso”.
No entanto, observou ele, a questão religiosa “continua a representar um componente fundamental da identidade global e, sobretudo, de certos povos.
Isso é demonstrado pelas tensões na Terra Santa, onde as três grandes religiões monoteístas convivem com não poucas dificuldades, mas também pela história dos países da antiga União Soviética, nos quais nem mesmo décadas de ateísmo de Estado conseguiram apagar o tecido eclesiástico e a experiência religiosa”.
E é nessa perspectiva que Gugerotti também destaca o estilo da diplomacia pontifícia, caracterizado “sobretudo por gestos discretos, silenciosos e por intervenções longe dos holofotes”, assim como, por outro lado, menciona os telefonemas dos Pontífices aos chefes de Estado que, acrescenta, “visam, sobretudo, causar um impacto nas populações para que compreendam que não estão sozinhas”.
O risco de negligenciar esses aspectos, segundo o cardeal, não é tanto o ateísmo, mas a indiferença em relação a uma dimensão que influenciou e continua a influenciar profundamente a ordem global. [ In Evidence ] A questão da segurança E então surge espontaneamente a pergunta: por que a questão religiosa tem cada vez menos espaço no mundo contemporâneo?
Segundo o embaixador Massolo, “é preciso questionar até que ponto o fator religioso, sem dúvida importante, é, no entanto, incorporado ao processo de síntese que os governos realizam para tomar decisões políticas”.
Pois, acrescentou ele durante sua intervenção, “quando se trata de escolher, os Estados tendem a antepor o princípio da segurança a qualquer outro”.
Uma lógica que Massolo identifica na decisão russa de invadir a Ucrânia, assim como na vontade europeia de impedir uma vitória nítida de Moscou ou no slogan “America First” do presidente dos EUA, Donald Trump: a segurança está sempre no centro. [ In Evidence ] Diante da desordem global E foi assim que, estimulados pelas reflexões de Franco, a discussão se estendeu à instabilidade internacional.
Massolo descreveu um sistema articulado em dois níveis.
No topo, “no primeiro plano”, estão os Estados Unidos e a China, juntamente com a Rússia que, embora não tenha a mesma força econômica das duas superpotências, mantém o peso decisivo de seu arsenal nuclear: “Trata-se de três potências que não querem entrar em conflito; pelo contrário, estão interessadas em preservar alguma compatibilidade estratégica, evitando que as crises locais se agravem a ponto de gerar um confronto global.
A palavra-chave é compatibilidade com vantagens econômicas”.
E, de fato, do último encontro entre Donald Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, emergiu justamente o termo-chave “estabilidade estratégica construtiva”.
Mas, nos níveis inferiores, entretanto, o que está acontecendo? “Nos níveis inferiores — retomou Massolo — os conflitos se multiplicam, reina o caos: as guerras não chegam ao fim, luta-se sem encontrar a paz.
No máximo, há um armistício, chega-se a um equilíbrio: nada mais”.
E é aqui que, concluiu o embaixador, uma estrutura como a europeia começa a ruir: “A UE construiu boa parte de sua influência com base na capacidade de produzir e exportar regras, mas hoje essas mesmas regras são aplicadas seletivamente.
A força normativa europeia corre, assim, o risco de se transformar em um elemento de fraqueza.
E a geometria variável parece ser um dos poucos caminhos viáveis, sem, no entanto, oferecer um horizonte tranquilizador”.
Com quais ferramentas interpretar o mundo Resta, então, uma questão que permeia todo o debate: com quais ferramentas ainda podemos interpretar o mundo?
É possível compreender as guerras conciliando tanto a questão religiosa — e, portanto, também a identidade histórica — com as prioridades dos governos, que giram em torno da segurança e dos interesses nacionais?
E que espaço resta para a diplomacia em um sistema no qual as regras parecem ter cada vez menos importância?
Perguntas que mostram como, hoje, não é apenas o cenário geopolítico que é complexo, mas também a própria tentativa de compreendê-lo. [ In Evidence ]