Diante da crise social e dos episódios de violência, a Igreja francesa convida a dar uma resposta à angústia expressa pelos jovens e por todos aqueles que se sentem socialmente marginalizados. O arcebispo de Tours, Vincent Jordy, exorta a restabelecer o diálogo democrático por meio de órgãos intermediários e a ampliar o debate para questões espirituais. Deus é o garante da unidade, afirma o arcebispo de Lyon, Olivier de Germay, que propõe aos jovens colocar-se a serviço dos outros.
[ Read Also ] Marie Duhamel – Vatican News “Nosso país foi palco de atos de violência inaceitáveis”: foi assim que a Conferência Episcopal Francesa (CEF), em um comunicado, voltou a abordar as “graves desordens” ocorridas à margem das manifestações autorizadas de 17 de outubro.
Membros das forças de segurança foram agredidos e feridos, lojas foram saqueadas, infraestruturas públicas danificadas e edifícios representativos das instituições do Estado devastados. “Essas cenas de tumulto lançaram o país no desânimo, no medo e na desolação, levantando inúmeras questões sobre as causas profundas dessa crise”, observou a presidência da CEF.
As manifestações do último fim de semana ocorreram após um mês de protestos estudantis nas escolas de Ensino Médio.
Vários bispos se reuniram com os jovens que denunciam a deterioração progressiva das condições nas instituições, onde faltam os requisitos mínimos para estudar adequadamente, os professores estão frequentemente ausentes e se registram numerosas faltas e uma desorganização generalizada.
Mal-estar individual e convergência de interesses “É claro que há reivindicações legítimas”, explica dom Vincent Jordy, um dos vice-presidentes da CEF e signatário do comunicado. “Acredito que, em uma sociedade democrática, é importante que aqueles que vivem com dúvidas e sofrimentos possam expressá-los”, sejam eles jovens ou membros do movimento dos coletes amarelos.
Dom Jordy descreve a sociedade atual como “angustiante”: a nova ordem mundial, a crise europeia, as guerras, a questão ecológica e a precariedade. “Hoje nos perguntamos como será o futuro, por que ter filhos, por que acordar de manhã e, no fundo, por que viver”.
Uma situação de preocupação e angústia que une muitos dos jovens entrevistados, muitas vezes incapazes de expressar claramente seu mal-estar.
No sábado (17/10), observa dom Jordy, a esses jovens, juntaram-se nas praças, cidadãos franceses que sentem um sentimento de declínio social.
O bispo denuncia “um mal-estar bastante generalizado em uma sociedade que tem dificuldade em encontrar um ponto de comunhão e em construir unidade”, na qual cada um permanece “um pouco fechado em seu próprio mundo, defendendo seus próprios interesses e esquecendo o que deveria manter unida uma sociedade democrática, ou seja, a questão do bem comum”.
Combater a espiral de violência A essa situação de inquietação somou-se, no último fim de semana, a questão da violência.
A Conferência Episcopal Francesa fala de uma verdadeira espiral. “É evidente que alguns se aproveitam da desorganização temporária para agir com intenções completamente diferentes, que nada têm a ver com reivindicações legítimas, mas visam explorar o caos para acrescentar violência ao sofrimento”, ressalta o arcebispo de Tours. “Uma violência às vezes totalmente cega, que hoje faz com que pessoas honestas vejam o trabalho de uma vida inteira ser destruído”, sem contar os prédios públicos saqueados ou incendiados. “É evidente que alguns pretendem questionar também algo da ordem social”.
Na segunda-feira, 19 de outubro, a presidência da CEF convidou todos a não se deixarem arrastar pela espiral dessa violência mortal. “Nosso país merece algo melhor”, escrevem os bispos. “Tenho a sensação de que chegamos ao fim de um sistema que não responde àquela busca pela felicidade e pelo sentido presente no coração de cada ser humano”, declara, por sua vez, dom Olivier de Germay, entrevistado por Olivier Bonnel. O arcebispo de Lyon atribui a responsabilidade aos princípios nos quais se baseia a sociedade contemporânea, “fundada no consumo, no hedonismo e no individualismo”.
E, no fundo, hoje percebemos que esse sistema destrói o planeta, gera frustrações e desigualdades crescentes e, acima de tudo, nos faz perder o sentido de nossa existência.
Vemos, de fato, pessoas que têm tudo o que é necessário para viver, mas cuja sede de felicidade não é saciada”.
Devolver a voz aos cidadãos para construir a unidade Em comunicado, a Conferência Episcopal Francesa expressa solidariedade aos trabalhadores que viram seus esforços frustrados.
Reza para que cessem as desordens, “para que as reivindicações justas sejam ouvidas e levadas em consideração e para que, por meio do diálogo e do respeito à justiça, a paz possa ser restaurada”.
Dom Vincent Jordy, vice-presidente da CEF, diz-se “muito impressionado” com a atitude dos representantes políticos, que se atribuem mutuamente a responsabilidade pelas desordens em vez de “buscarem juntos o que possa permitir restabelecer uma forma de paz social, na qual o diálogo possa encontrar espaço e tornar-se parte da vida normal de uma sociedade democrática”.
Para promover a distensão, o prelado propõe diversas soluções.
Em primeiro lugar, uma reavaliação dos órgãos intermediários, fortemente enfraquecidos nos últimos anos por uma “nova verticalização e centralização” do país.
É necessário, afirma ele, que sindicatos e associações, “locais que deveriam ser espaços de diálogo”, sejam revitalizados para que possam voltar a desempenhar seu papel.
Colocar Deus de volta ao centro O arcebispo de Tours considera, além disso, necessário dar uma resposta ao sofrimento, à sensação de desvalorização e àquelas perguntas “muito mais profundas, que chegam a questões de ordem espiritual, sem necessariamente se referir às religiões institucionais: para que serve viver?
Para onde estamos indo?”.
O prelado observa que, durante décadas, o horizonte religioso foi deixado de lado — inclusive por meio de um endurecimento do conceito de laicidade — para concentrar as expectativas em um duplo horizonte ligado às promessas da política.
Mas hoje, ressalta ele, é preciso reconhecer que a política não é mais capaz de oferecer a perspectiva da conquista de um ideal. “Imaginava-se a grande virada revolucionária, um futuro radiante, mas hoje a política está em crise.
Muitos não confiam mais na política”, que deveria, ao contrário, servir para administrar as tensões dentro da sociedade.
E, segundo dom Jordy, nem mesmo o progresso cumpriu suas promessas.
Há, antes de tudo, a questão ecológica: os jovens, observa ele, sofrem porque uma ciência desprovida de consciência produziu uma sociedade que sofre as consequências do que ela mesma criou.
Depois, há o progresso tecnológico: “estão sempre colocando diante dos olhos dos jovens novos smartphones aos quais eles não têm acesso por não disporem dos meios econômicos necessários, gerando assim frustração”. A Igreja pode oferecer respostas a essas perguntas que, em última análise, não encontram espaço no debate da sociedade francesa.
O vice-presidente da CEF convida a ampliar o debate, o diálogo e a reflexão para além da esfera política, envolvendo “todos aqueles que podem contribuir para dar sentido a uma época que carece dramaticamente dele”. “A solução é Deus”, proclama dom Olivier de Germay.
O arcebispo de Lyon deseja que Deus volte ao centro da sociedade: [ Quem, senão Ele, pode criar unidade entre todas essas pessoas que pertencem a culturas diferentes, muitas vezes a religiões diferentes, e têm opiniões políticas divergentes?
Qual é o ponto em comum?
O ponto em comum é que todos pertencemos à mesma humanidade. ] Colocar-se a serviço dos jovens Com vistas às eleições presidenciais francesas de 2027, o primaz da Gália espera que os líderes das diversas confissões religiosas deem o exemplo organizando uma marcha pela paz, para demonstrar que eventuais divergências entre judeus, cristãos e muçulmanos, “e até mesmo dentro de nossas respectivas comunidades, não fazem de nós inimigos”.
Para o dom de Germay, os cristãos devem ser agentes da paz, convidando cada um a confrontar-se com opiniões diferentes, no respeito mútuo.
Um compromisso que, naturalmente, deve envolver também os jovens. “Devemos olhar para os jovens com esperança.
Quando conversamos com eles, percebemos que aspiram, como todos, à felicidade.
Estão cheios de generosidade.
Mas cabe a nós oferecer-lhes perspectivas, mostrar que a vida deles tem sentido e libertá-los dessa sociedade hedonista que os leva a acreditar que só serão felizes consumindo e pensando apenas em si mesmos”.
O arcebispo de Lyon espera que os jovens possam experimentar uma espécie de saída de si mesmos, colocando-se a serviço dos outros. "Fico impressionado, por exemplo, com os jovens que acompanhamos a Lourdes e que se colocam a serviço dos doentes.
Os adolescentes que cursam os primeiros anos do ensino médio às vezes partem relutantes, mas, quando voltam, estão transformados, pois experimentaram a alegria de se colocar a serviço”, explica o bispo.
Daí seu apelo para não perdermos a esperança em relação às novas gerações, mas, ao contrário, para lhes oferecermos oportunidades de viver experiências capazes de valorizá-las e dar sentido à sua existência.