Em um ano de pontificado, o Papa exortou centenas de vezes a uma reconciliação "desarmada e desarmante". Aos "senhores da guerra" que fazem do seu poder um "ídolo mudo, cego e surdo", ele contrapôs com a escuta de uma "melodia maior do que nós mesmos". Aquela harmonia para dançar quando o mundo parece esquecer até mesmo "a luz".
Edoardo Giribaldi – Cidade do Vaticano "Desarmada e desarmante." Assim, ao pôr do sol de 8 de maio de 2025, que também marcou o início de seu pontificado, o Papa Leão XIV descreveu sua ideia de paz. Não o silêncio das armas que surge de um "cessar-fogo", especificou ele na manhã de Natal, manifestando-se ainda mais veementemente contra os frágeis acordos da geopolítica internacional. Aqueles que levam ao risco de fazer soar desarmante — no sentido negativo de privar da vontade de reagir, responder ou opor-se - todo apelo à reconciliação. Esse "grande cansaço" que ameaça se insinuar nos corações e de esvaziar as palavras. E então, eis o horizonte da "paz selvagem", inspirado pelo poeta Yehuda Amichai, novamente durante a Bênção Urbi et Orbi, em 25 de dezembro. Reconciliação que brota "de repente", como "flores" selvagens, aquelas que teimosamente, com aparente ingenuidade, crescem entre as rachaduras do concreto. "Que essa harmonia se estabeleça", insistiu Leo, "porque o campo precisa dela." Mais de 400 vezes "paz" A palavra "paz" aparece mais de 400 vezes nos discursos proferidos pelo Bispo de Roma em seu primeiro ano de pontificado. Ela é aplicada a diversos contextos, a começar pela mídia, cujos operadores foram figuras proeminentes no primeiro encontro do Papa na Sala Paulo VI. "Vós estais na linha da frente", ao narrar as guerras e descobrir as ambições de reconciliação nelas intrínsecas", havia afirmado o Pontífice, incentivando a promoção da comunicação “capaz de nos fazer sair da ‘Torre de Babel’ em que às vezes nos encontramos, da confusão de linguagens sem amor, muitas vezes ideológicas ou tendenciosas”. Porque a paz não repousa sob bandeiras. Sobretudo, a paz não é ingênua. E portanto, é inútil que os “senhores da guerra” finjam “não saber que basta um momento para destruir, mas muitas vezes uma vida inteira não basta para reconstruir”. Que finjam, ainda, “de não ver que bilhões de dólares são necessários para matar e devastar, mas os recursos necessários para curar, educar e elevar não são encontrados”. É, portanto, inútil dissimular, já que “as pessoas estão cada vez mais alheias à quantidade de dinheiro que vai para os bolsos dos mercadores da morte”, afirmou Leão XIV em seu encontro com os participantes da sessão plenária da Reunião das Agências de Auxílio às Igrejas Orientais (ROACO), trazendo à luz o paradoxo de que, com isso, "Hospitais e escolas poderiam ser construídos com dinheiro; em vez disso, os que já existiam foram destruídos!" As consequências da guerra Das primeiras menções à paz no Vaticano até estas últimas, pronunciadas há menos de um mês no coração da África, em Bamenda, Camarões, durante o encontro na Catedral de São José para promover a reconciliação com a comunidade local, fica evidente que a mensagem de comunhão de Leão XIV se estende por diferentes dimensões: temporal, espacial. Mas, acima de tudo, a harmonia evocada pelo Papa se estende profundamente: para além dos imponentes edifícios onde os já mencionados "senhores da guerra" deliberam "ações de morte", ela se curva sobre os corpos devastados e indefesos daqueles que "se alimentam apenas de desespero, lágrimas e miséria". Essas palavras ecoaram por toda a sede da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em memória de um dos muitos efeitos colaterais dramáticos dos conflitos: a fome. Profundidade, proximidade: o joelho se dobra, oferecendo, como delineado na homilia da Missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira Santa, a imagem de um Deus onipotente a serviço. Os ídolos que alimentam o conflito A própria Semana Santa representou um dos pontos culminantes dos apelos do Bispo de Roma pela paz. Na manhã do Domingo de Ramos, ele reiterou que ninguém pode justificar a guerra em nome de Deus: Ele "não ouve as orações daqueles que fazem guerra e as rejeita, dizendo: 'Mesmo que multiplicassem suas orações, eu não as ouviria: suas mãos estão gotejando sangue'". O Papa, como sucessor de Pedro, inclina-se, portanto, sobre as feridas da guerra: ele olha de baixo para o alto, mas ao mesmo tempo elevando-se acima, daquele que é "escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo". Assim, da mesma forma que suas palavras abrangem todo o conhecimento da paz, Leão não deixa de fora nenhum dos ídolos que alimentam os conflitos atuais. Se não é a sede de autoridade, é frequentemente a sede de dinheiro, como lembrado durante sua viagem ao Principado de Mônaco. A leveza da reconciliação As palavras duras proferidas durante a Semana Santa, após o Rosário para invocar o dom da paz, são contrabalançadas por uma ideia de harmonia que é também leveza. Uma harmonia que a terra não pisa, exceto para dançar ao ritmo da música, como recordou o Papa no Líbano. "É como um movimento interior que flui para fora, permitindo-nos ser guiados por uma melodia maior do que nós mesmos, a do amor divino", assegurou ele, num país que sente os gemidos da guerra como poucos. Entre a dança e o caminho, portanto, a paz deve ser alcançada, com a certeza de que um dia será alcançada. Do contrário, o tema escolhido pelo Pontífice para o 59º Dia Mundial da Paz ficaria esvaziado de significado: "rumo a", orientado para uma paz que é precisamente "desarmada e desarmante". A Audácia do desarmamento Os apelos, mesmo neste texto, retornam à realidade, abordando diretamente a concretude dos conflitos e um de seus gatilhos mais óbvios: a corrida armamentista, que, como o próprio Bispo de Roma lembrou, viu os gastos militares globais aumentarem 9,4% ao longo de 2024, confirmando uma tendência de dez anos e atingindo US$ 2,718 trilhões, ou 2,5% do PIB mundial. "Guardem suas espadas!", exortou o Papa aos poderosos do mundo, ecoando as palavras de Jesus e convidando-os a ter "a audácia do desarmamento" na Vigília Mariana pela Paz em outubro de 2025. Hoje, os armamentos mudaram: de espadas a drones que distorcem a imagem da guerra em um "cenário de videogame". Mas esta é uma realidade dramática à qual não devemos nos acostumar, como foi veementemente solicitado ao final da Audiência Geral de 18 de junho de 2025. Esporte e cultura: instrumentos para a reconciliação Pelo contrário, devemos encontrar maneiras criativas de evitar a “indiferença ao direito”. Palavras que vêm de uma carta que o Papa escreveu especificamente para identificar um desses veículos de comunhão: o valor do esporte, que nos ensina que, em uma competição, mas especialmente na vida, “uma queda nunca é a última palavra”. Os próprios cristãos, afirmou Leão XIV na Audiência Geral de 3 de setembro de 2025, não vencem o mal pela força, “mas aceitando plenamente a fragilidade do amor”. A comunhão, além disso, vem pela contemplação e pelo valor do estudo, promovendo, como solicitado pelos bispos italianos, “caminhos de educação na não violência”. Falando de paz, o Pontífice reconheceu a necessidade de “um realinhamento de políticas” relacionadas à educação que incentive uma “cultura da memória” que preserve o “conhecimento desenvolvido no século XX e não esqueça seus milhões de vítimas”. “Como acreditar, depois de séculos de história, que a guerra traz a paz e não se volta contra aqueles que a travaram?” Ele perguntou, dirigindo-se novamente a ROACO. Porque se pode esquecer tudo, até mesmo "a luz", admitiu o Pontífice. E assim, que venha a "paz selvagem", a flor teimosa em meio ao concreto. De uma beleza desarmante.