O longo e complexo processo eleitoral termina em 25 de janeiro. Mais de 3,5 milhões de pessoas no país, que tem uma população de cerca de 55 milhões, estão deslocadas e em condições humanitárias precárias. O Papa fez o seguinte apelo, durante a bênção “Urbi et Orbi”, em 25 de dezembro: "Pedimos ao Príncipe da Paz, que ilumine Mianmar com a luz de um futuro de reconciliação".
Paolo Affatato - Cidade do Vaticano A votação em curso em Mianmar é diferenciada. No país, governado por uma junta militar e assolado por conflitos civis, a prática da democracia torna-se difícil e incompleta, segundo as denúncias de diversas organizações civis e internacionais. A junta militar governante exclui das listas eleitorais grupos de oposição, como a Liga Nacional para a Democracia, que liderava o governo democraticamente, eleito em fevereiro de 2021, quando o golpe militar derrubou seu poder. Eleições em meio a uma guerra em curso Outro fator que pesa: as eleições, programadas em três fases, realizam-se enquanto os combates continuam em mais de um terço do país. Segundo análises recentes, publicadas pela emissora britânica BBC, com base em dados locais, cerca de 21% do país é controlado pela junta militar, que governa a parte central; 42% do território está sob o controle de forças de resistência e milícias étnicas, enquanto o resto (aproximadamente 37%) é palco de hostilidades em curso. Eleições longas e complexas No entanto, o primeiro turno das eleições, deu-se em 28 de dezembro, em 102 municípios com a vitória de 90% dos votos ao Partido da União Solidária e Desenvolvimento (USDP), formado por funcionários públicos e personalidades políticas do regime. O segundo turno das eleições realiza-se em 11 de janeiro, em cerca de 100 municípios, em 12 estados, enquanto o turno final está previsto para 25 de janeiro. A votação foi abertamente boicotada tanto pelo Governo Civil de Unidade Nacional (GUN), exilado e ligado às forças de resistência, quanto por organizações armadas étnicas, historicamente presentes em Mianmar, que a classificaram como "farsa arquitetada pelo regime para se legitimar". Acesso ao voto limitado Conforme a Agência Fides, em particular, a contínua instabilidade penalizou ou impediu as operações eleitorais em alguns estados birmaneses: em Kachin, cidadãos de 6 dos 18 municípios podem votar; em Kayah, as urnas estão abertas em dois municípios; e no estado de Chin, no Noroeste, onde as forças de resistência controlam vastas áreas, as seções eleitorais estão apenas na capital Hakha e em outra cidade. A situação no estado de Rakhine, na parte oeste do país, também é complicada, pois o exército étnico Arakan conquistou 14 dos 17 municípios e, portanto, a votação só é possível em três municípios. No estado de Shan, onde os combates são intensos, a votação ocorre na capital, Lashio, e em outros 11 municípios. As mesmas condições são aplicadas em Sagaing, que também passa por confrontos violentos. Na região central do país, a votação nas principais cidades (como Yangon e Naypyidaw) atraiu o maior número de eleitores, com uma participação que, segundo a Comissão Eleitoral, ficou acima de 70%. Votação por um governo civil "Por um lado, muitos cidadãos votaram por medo de represálias, caso se abstivessem", disse ao L'Osservatore Romano, Joseph Kung, leigo católico e educador, que vive em Yangon, que acrescentou: "As pessoas também vão às urnas para exercer seu direito, apesar das limitações e dificuldades do processo. Fazem assim por questão de cidadania e por esperança em um futuro melhor, porque um governo civil seria sempre melhor que um militar: poderia abrir mais espaço para o diálogo, mesmo que ex-soldados governem em trajes civis, ao recordar eventos semelhantes na história de Mianmar”. Mas, Joseph Kung observa ainda: "As forças de resistência sempre afirmaram que o diálogo só será possível com um governo civil. Por isso, esperamos também um impacto positivo na paz interna". Segundo analistas, o USDP, partido dos militares, terá maioria no Parlamento e poderá formar um governo com facilidade, cuja nomeação está prevista para o próximo mês de abril. Um Estado em colapso O processo eleitoral ocorre em um país onde mais de 3,5 milhões de pessoas, de uma população de cerca de 55 milhões, estão deslocadas internamente e vivem em campos de refugiados informais, com acesso limitado a alimentos, água e assistência médica. O conflito civil de cinco anos gerou uma profunda crise humanitária para um terço da população e a sociedade sofre pelo colapso do Estado em setores essenciais como educação, saúde e atividades econômicas. A pequena comunidade de católicos birmaneses, com cerca de 500 mil fiéis, espalhados em todos os Estados da União e entre todos os grupos étnicos deste país, apesar da sua diversidade, continua a invocar a reconciliação e a trabalhar pela paz, como os Bispos fizeram em sua recente assembleia em Yangon. Os prelados relataram que as palavras do Papa Leão XVI, dirigidas a Mianmar, durante a sua Bênção “Urbi et Orbi”, em 25 de dezembro, foram encorajadoras: "Pedimos ao Príncipe da Paz que ilumine Mianmar com a luz de um futuro de reconciliação, restaure a esperança entre as novas gerações, guie todo o povo birmanês pelos caminhos da paz e acompanhe aos que vivem sem lar, sem segurança e sem confiança no futuro".