Do Brasil para a Úmbria, Frei Rafael partilha a emoção de testemunhar o silêncio e a fé de milhares de peregrinos que buscam o legado de entrega total deixado pelo poverello.
Pe. Rodrigo Rios e Silvonei Protz –Vatican News No coração da Úmbria, o silêncio que preenche a Basílica de São Francisco de Assis tem sido, nos últimos dias, mais profundo do que o habitual. Milhares de peregrinos de todos os países, inclusive do Brasil e de outros países lusófonos, cruzaram oceanos para um encontro face a face com a fragilidade da história: os restos mortais do poverello de Assis. Em entrevista exclusiva ao Vatican News, o brasileiro Frei Rafael Normando, coordenador da Basílica Papal de São Francisco em Assis, partilhou a emoção de acompanhar essa jornada espiritual única. Para ele, o impacto visual de ver o que restou do corpo de Francisco após 800 anos é um convite à reflexão sobre a própria existência e a permanência do divino. O contraste entre o corpo e a graça "Encontram os restos mortais... quase nada. O que sobrou é muito pouco; às vezes, para um primeiro momento, pode decepcionar alguém chegar ali e ver que sobrou só aquilo. Tudo bem, passaram-se 800 anos", observa Frei Rafael. No entanto, o religioso explica que essa despojada realidade não deve ser motivo de desilusão, mas de epifania. "Não é Francisco que deve permanecer, mas a graça de Deus em Francisco. É profundo chegar ali e ver que sobrou quase nada de um corpo, mas permaneceu tanta graça, permaneceu tanto amor, permaneceram os restos mortais de um homem onde o Espírito habitou um dia. E hoje ele, no céu, intercede por nós. E esse é o nosso caminho". Essa percepção ecoa o simbolismo da própria Basílica, onde os afrescos que narram a vida do santo não buscam exaltar o homem, mas sim a ação de Deus através dele. Para Frei Rafael, a exposição dos restos mortais ajuda a normalizar a morte, tratando-a com serenidade, empatia e a certeza de que tudo o que é terreno tem um fim. "Às vezes queremos esconder a morte, queremos perpetuar a vida, mas quem permanece sempre é Deus. Por isso, ver o Francisco nessa situação é relembrar isso: tudo tem um fim, mas Deus permanece", afirma. Um silêncio que converte A experiência dos peregrinos tem sido marcada por um comportamento que surpreendeu até mesmo os frades que residem no local. "É muito bonito ver os peregrinos que entram com tanta devoção, com tanto silêncio, um silêncio que eu jamais tinha escutado na Basílica. Quando eu entrei pela primeira vez nesse período, falei como Francisco é forte, ou melhor, como a graça de Deus em Francisco permanece viva em 800 anos", destaca. Além da oração, o período tem sido de intensa reconciliação. "É bonito ver conversões. Pessoas que não se confessavam há anos aproximando-se do sacramento da reconciliação, pedindo bênçãos e demonstrando uma gratidão extrema", relata o Frei. O trabalho conta com o apoio fundamental de inúmeros voluntários, sem os quais, segundo ele, seria impossível acolher tamanha multidão. O chamado de Assis Residindo em Assis desde 2019, tendo chegado apenas dois meses antes da pandemia, Frei Rafael confessa que nunca planejou morar na cidade, mas hoje sente-se eternamente grato pela oportunidade de viver um centenário em um local com uma atmosfera tão singular. "Assis tem um ar diferente, não dá para explicar", diz ele, num convite aos fiéis que ainda não visitaram o santuário. Para o Frei, o maior legado de Francisco, que ele busca seguir e transmitir aos peregrinos, é a entrega total: "Acredito que a coisa mais profunda de Francisco para mim é ser um homem que deixou Deus comandar. É alguém que deixou Deus conduzir a sua vida; é o que nós temos que fazer também. Porque, se não, a centralidade permanece no poder, no dinheiro, nas coisas... e nós esquecemos que o primordial é Deus". Ao final, Frei Rafael faz um apelo à intercessão dos fiéis por todos os frades, para que possam continuar a "manifestar o amor que Francisco ensinou" e a servir ao povo de Deus com a mesma simplicidade e profundidade do santo que, oito séculos depois, continua a mover o mundo através do seu "quase nada".