O arcebispo Kulbokas descreve a situação no país após os ataques aéreos russos que atingiram a infraestrutura energética: "Há falta de eletricidade e escassez de alimentos. A situação lembra, em certa medida, o Holodomor da década de 1930. A evacuação da capital, Kiev, não está descartada." Hoje, foi celebrada Missa no Santuário Mariano de Berdychiv: "Agradecemos ao Senhor pelas graças concedidas."
Svitlana Dukhovych – Cidade do Vaticano Em Kiev, até o meio-dia desta sexta-feira, 16 de janeiro, aproximadamente 100 prédios ficaram sem aquecimento. Os problemas no fornecimento de calor surgiram após o ataque maciço da Federação Russa em 9 de janeiro. Naquela ocasião, 6.000 prédios na capital perderam todas as suas fontes de aquecimento, conforme anunciou o prefeito Vitaliy Klychko. Segundo o prefeito, técnicos da cidade trabalham ininterruptamente para restabelecer o aquecimento em todos os prédios. "A situação do fornecimento de energia, da qual as famílias dependem, continua muito difícil. Kiev continua sofrendo com cortes de energia emergenciais. Os trabalhadores do setor energético também continuam trabalhando para estabilizar a situação", escreveu Klychko no Telegram. Também nesta sexta-feira, durante uma coletiva de imprensa sobre o resultado de sua reunião com o presidente tcheco Pyotr Pavel, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy agradeceu às equipes que trabalham diariamente para restabelecer a infraestrutura energética. "Todos os dias, trabalhamos não só para restaurar as centrais elétricas, mas também para aumentar as importações e a capacidade técnica, que também foram destruídas pelos ataques diários da Rússia", disse ele, acrescentando que, até a noite de ontem, a demanda de eletricidade da Ucrânia era de aproximadamente 18 gigawatts, enquanto a capacidade do sistema, devido aos bombardeios, era de apenas cerca de 11 gigawatts. A Rádio Vaticano/Vatican News conversou com o arcebispo Visvaldas Kulbokas, núncio apostólico na Ucrânia, sobre a situação no país e as dificuldades diárias enfrentadas pela população. Excelência, no contexto da crise energética que atingiu várias regiões da Ucrânia, incluindo a capital, gostaria de lhe perguntar como estão os cidadãos de Kiev? E como está a situação na Nunciatura? Agora, devido à guerra, estamos enfrentando uma grave crise energética como resultado dos bombardeios que atingem cidades e centros habitados. E agora, com o frio de janeiro, com temperaturas caindo para vinte graus abaixo de zero à noite, temos uma situação difícil, especialmente em Kiev, como dizem as autoridades. Mas quando converso com bispos, sacerdotes e fiéis, sei que mesmo nas regiões ocidentais, por exemplo, em Lviv, há falta de eletricidade. Muitas pessoas me dizem que só têm luz por três horas por dia. A mesma situação ocorre em Kharkiv, onde há períodos em que as famílias ficam sem eletricidade ou aquecimento por dois dias seguidos. Isso significa que até mesmo os padeiros muitas vezes não conseguem fazer pão, e há a mesma situação em relação a outros alimentos. Portanto, essa crise energética, além das graves dificuldades enfrentadas pela população civil devido ao frio, também causa escassez de alimentos. Eu diria que isso claramente tem alguma semelhança com o Holodomor que a Ucrânia sofreu na década de 1930. Na Nunciatura, temos nosso próprio gerador, então temos mais eletricidade, água e aquecimento do que outros. Mas, como disse o prefeito de Kiev há alguns dias, se a situação continuar assim, toda a capital ucraniana poderá precisar ser evacuada. Essa possibilidade permanece. Depende dos bombardeios e de suas consequências. Hoje, o senhor presidiu a Santa Missa no Santuário Mariano de Berdychiv, marcando o 35º aniversário da renovação das estruturas da Igreja de Rito Latino na Ucrânia e a inauguração do Ano do Sagrado Coração de Jesus, proclamado pelos bispos latinos para 2026. O que o senhor gostaria de dizer sobre este evento, que ocorreu neste contexto difícil? Hoje tivemos uma celebração muito importante para a Igreja Católica de Rito Latino na Ucrânia, no santuário principal de Berdychiv. Os bispos de todas as dioceses ucranianas se reuniram. Celebramos o início do ano dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, implorando-Lhe que nos acolha misericordiosamente, perdoe nossos pecados e nos proteja de todo o mal. Rezamos para que a bondade de Deus vença o pecado e a guerra e nos conceda a paz. O ano será vivido em família e nas paróquias, e cada pessoa é convidada a praticar a devoção pessoal ao Sagrado Coração de Jesus. Esta ocasião também foi proporcionada pela comemoração de hoje do 35º aniversário do restabelecimento da hierarquia católica de rito latino, em 16 de janeiro de 1991. Assim, agradecemos ao Senhor pelas graças concedidas. Sabemos que a guerra está ligada às insídias do demônio, e o demônio teme cada momento em que glorificamos a Deus. Mas temos consciência e confiança de que o Senhor está conosco. Celebramos estas festividades em união com o Papa Leão XIV e toda a Igreja. Para mim, foi uma celebração muito comovente e profunda, e nutro grandes esperanças em seus frutos. Em Berdychiv, o senhor teve a oportunidade de conversar com os bispos das regiões particularmente afetadas pela guerra? Como os viu? Encontrei-me com o ordinário de Kharkiv-Zaporizhzhia e seu auxiliar, que está em Zaporizhzhia, bem como com o bispo de Odessa. Espiritualmente, vi todos eles muito confiantes no Senhor. Ontem, em Kharkiv, eles ficaram sem eletricidade o dia todo: é um período muito desgastante. Gostaria de acrescentar que conversei com um católico de Sumy que realiza várias missões humanitárias na região de Kharkiv. Perguntei-lhe como ele estava. Ele me disse que está psicologicamente exausto porque vivenciou em primeira mão a morte de dois de seus companheiros que entregavam ajuda humanitária na região de Kharkiv, vítimas de um ataque de drone. Agora, toda vez que vê ataques de drone, ele se recorda desse trauma. Ele me disse: "Quando estou na Ucrânia, não sinto todo o peso da guerra. Mas quando saio do país, percebo que estou traumatizado pela guerra, porque cada som que ouço se assemelha a bombardeios, à passagem de mísseis e drones." Então, hoje, toda a população ucraniana está ferida e profundamente traumatizada. Mas tenho certeza de que nossos irmãos e irmãs ao redor do mundo também se lembrarão desse aspecto, orando pela saúde mental de todas as pessoas que sofrem o trauma direto da guerra.