O reitor do Seminário Maior de Coimbra considera que as mulheres devem estar num “nível primeiro da formação” nos seminários e “não num anexo ou num nível segundo de formação”. A Rede Sinodal em Portugal apresenta aqui o episódio 12 do podcast “No coração da esperança”.
Rui Saraiva – Portugal “No coração da esperança” é o nome da iniciativa em podcast da Rede Sinodal em Portugal. Apresentamos aqui o episódio número 12 de uma parceria inovadora de comunicação que faz caminhar em conjunto Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo. Neste episódio 12 o entrevistado é o padre Nuno Santos, reitor do Seminário Maior de Coimbra. Publicamos aqui as suas respostas às questões da Rede Sinodal em Portugal: O relatório do grupo de estudo n.º 4 do Sínodo faz uma revisão da "Ratio Fundamentalis Sacerdotalis" em perspetiva sinodal e propõe uma maior participação de mulheres na formação nos seminários. Num ambiente desde sempre masculino, trata-se de uma mudança radical? O grupo fez uma reflexão muito interessante sobre a realidade. A realidade dos seminários, mas também a realidade do mundo, e sublinhou aspetos como a dimensão relacional. Aliás, é das palavras que aparece mais. A conversão dos processos e dos modelos, e também a necessidade e as consequências que isso teria na formação. Os seminários, atualmente, na minha perspetiva, estão ainda com muita dificuldade de sair do século XX. Estão muito agarrados a um modo de ser seminário, a uma realidade sociológica, a uma realidade, também até em certa medida, pastoral e até presbiteral, dos seus presbitérios. E, portanto, pensar o papel da mulher hoje na formação é perceber a mudança também da sociedade e a importância de todos na construção e na formação de qualquer ser humano. E se isso é relevante na formação em geral, não é menos relevante na formação de um futuro presbítero. Razão pela qual introduzir, clarificar, reforçar, melhorar essa perspetiva, essa presença feminina na formação é determinante. Mas ainda assim, não de forma supletiva, porque as mulheres sempre tiveram… Mais ou menos cruzaram o espaço formativo dos seminários. Pelo menos da minha experiência de seminário. Mas o que nós precisamos não é apenas de trazer as mulheres ou refletir sobre o papel das mulheres para o processo da formação dos seminaristas, mas qual é a relevância de as termos no nível primeiro da formação, e não num anexo ou num nível segundo de formação. É também proposto por este relatório a necessidade de uma maior vivência nas comunidades e paróquias por parte dos seminaristas durante o seu percurso de formação. Como acha que se deve ativar ou atualizar esta ideia em chave sinodal? O mais importante é nós olharmos para a vida de todos os batizados e percebermo-nos todos membros da Igreja. E se somos todos membros da Igreja, na sua dignidade, ao mesmo nível pelo batismo, apesar de termos funções, papéis, ministérios distintos, isso não nos torna nem superiores nem inferiores. Razão pela qual a própria formação carece dessa natural inserção na comunidade. Os sacerdotes têm que nascer na comunidade. Os presbíteros nascem na comunidade. Eles preparam-se para servir a comunidade. E, portanto, sempre que nós excluímos a própria comunidade da formação, quer as comunidades de origem de onde eles vêm, quer as comunidades onde eles depois pastoralmente se envolvem, nós perdemos uma dimensão determinante também da formação. A experiência que eu tenho de seminário, quer do meu tempo de seminarista, quer do tempo agora como responsável do seminário, nós temos sido muito felizes com essa relação nas comunidades. E isso é importante para os dois lados. É importante para o próprio que está a ser formado. E, portanto, ele é formado não só pela formação intelectual da Universidade Católica, não só pela dimensão mais pastoral, espiritual, comunitária, pessoal, sacramental, da própria formação do Seminário, mas também a dimensão pastoral e comunitária das comunidades. E essa grandeza é importante, essa presença é importante para o próprio, mas é também importante para a própria comunidade. A comunidade cresce com a presença dos seminaristas e cria uma relação também de comunhão eclesial a partir dessa presença dos seminaristas. E até para os colegas padres que acolhem esses seminaristas, também é uma oportunidade. Eu diria que prescindir desse papel da comunidade é ficar a perder muitas oportunidades. É perder muitas oportunidades de crescimento. Num Igreja marcada ainda por uma cultura clerical, na qual dados preocupantes sobre suicídio de sacerdotes causam alerta, que mudanças concretas nos seminários poderão trazer as propostas deste grupo de estudo do Sínodo com vista a uma real conversão das relações, dos processos e dos vínculos? Este documento é feliz. Tem algumas lacunas, mas é genericamente muito feliz. Coloca a questão no sítio certo, que é o mundo das relações, e coloca o foco no lugar ajustado, que é a missão. E a missão com um estilo sinodal, e com um estilo profundamente eclesial, a partir da dimensão batismal em que nós nos percebemos todos filhos. E, portanto, há um desenvolvimento da filiação, da perceção da filiação por filhos de Deus, e também há um desenvolvimento do desafio da fraternidade. Portanto, a filiação e a fraternidade é, de facto, aquilo que nos vem do batismo. E o documento é feliz porque coloca sempre a questão não no poder, não na função, mas exatamente na missão e no serviço. E na riqueza, quando nós partilhamos uma missão comum, na riqueza que daí advém. Os dados sobre o suicídio são sempre preocupantes em geral, na sociedade. Nós vivemos num país que, segundo sei, tem cerca de mil suicídios por ano. Tivemos nos últimos dez anos cerca de treze suicídios de sacerdotes, o que significaria, em média, um bocadinho acima de um por ano. Qualquer suicídio é sempre uma pessoa, é sempre uma pessoa que chega ao fim. Antecipou uma história porque não conseguiu viver com ela. E nós ficamos sempre muito angustiados e preocupados quando isso acontece com pessoas com fé, onde pensaríamos que a fé seria suficiente. E mais ainda para sacerdotes ou presbíteros, pessoas que à partida são aqueles que levam a fé, a esperança, a outros, e depois deparam-se com situações de solidão, de burnout, de cansaço, ao ponto de eles próprios desistirem de um dom que é a vida. Quando outros lutam tudo e tudo no meio das doenças, de um cancro por exemplo, ou de situações complexas de outras doenças ou de circunstâncias difíceis, lutam tudo pela vida, há outros que, por cansaço, desgaste, expectativas não realizadas, desistem da vida. Não julgamos, obviamente. E isso provoca um pensamento sobre a formação. Contudo, não há nenhuma maneira de antecipar, de prevenir em absoluto o suicídio. Há maneiras de prevenir os processos e os níveis de formação que estão autocentrados. E, sobretudo, o modo como nós muitas vezes somos educados, ou pelo menos na formação dos seminários o padre é tudo, sabe tudo, tem resposta para tudo, é sempre o homem forte, tem sempre uma alegria, tem sempre uma palavra de esperança. E essa forma de super-homem quase, em que muitas vezes nos vemos, ela é o princípio da autodestruição, porque nós somos tudo menos isso. Nós somos pessoas com grandezas e com fragilidades, com muitos aspetos louváveis e com alguns criticáveis. E, portanto, somos como todas as pessoas, umas vezes super-homem, outras vezes nada disso. E esses aspetos, sobretudo a dimensão da expectativa não realizada, cria frustrações de tal maneira agudizadas que uma formação que não nos promova para a fragilidade, para o fracasso, para o limite, para assumirmos incapacidades, para dizer não sou capaz, para pedir ajuda, para sermos capazes de ter os alertas, aquilo que eu chamo os sinais vermelhos interiores, que é quando eu sinto que estou a passar por isto, eu tenho de pedir ajuda… Essa não educação, quando não o fazemos… Não estou a dizer que não se faz, estou a dizer quando não o fazemos, quando não trabalhamos para a frustração, nós potenciamos a possibilidade, então, da solidão levar, e a frustração levar a casos como esses, do suicídio. A história do suicídio é uma história na vida presbiteral longa. Não começa agora. Poderíamos começar em Judas, um dos doze, que termina a suicidar-se numa das versões do Evangelho. Mas eu era ainda seminarista e um dos temas que discutimos no seminário em Coimbra foi exatamente a morte, e começava com um texto de um padre que se tinha suicidado num país que não era Portugal, nessa altura. E é verdade que o seminário não gostou muito dessa forma de começarmos o tema. Mas eu quando era miúdo e andava no seminário, um dos padres com 80 anos deu o testemunho da sua vida e disse: “eu um dia estive em cima de uma ponte e pensei salto, não salto. Não saltei, hoje agradeço não ter saltado, mas há dias duros”. Isso foi uma coisa... Eu tinha poucos anos, o reitor ficou muito chateado com aquele testemunho, e eu agradeço muito aquele testemunho. Uma Igreja sinodal está menos centrada no presbítero e mais na comunidade? Uma Igreja sinodal só pode estar mais centrada na comunidade e na missão, e menos nas pessoas ligadas a poder e função. Ou seja, tal como numa família há papéis diferentes… Eu gosto muito de ter o paradigma familiar, até porque tenho a riqueza e a sorte de ter esse privilégio. Mas tal como numa família, cada um tem papéis diferentes, mas todos juntos construímos uma história e somos todos importantes. Numa comunidade nós precisamos de todos. Eu devo dizer que eu próprio tenho aprendido ao longo destes 25 anos de padre que sou sempre mais pobre quando tento fazer sozinho. E ainda hoje, às vezes penso: “talvez não vá incomodar”. E perco sempre quando não quero incomodar alguém para me ajudar na função, ou na missão, melhor. E hoje sinto-me muito reconfortado, porque sim, tenho menos forças, menos capacidades, sou muito mais limitado do que era há 25 anos… Também tenho outra maturidade, tenho outras capacidades que há 25 anos não tinha, mas hoje sei lidar perfeitamente, ou melhor pelo menos, perfeitamente nunca. Mas melhor, sim, com os meus limites. E saio muito mais rico com o contributo das comunidades. Há comunidades, de facto, mais fáceis de trabalhar. Eu fui pároco em várias comunidades e sei que há comunidades onde nós temos muitas pessoas com imensas capacidades, e é uma pena não as envolvermos. E há outras comunidades com menos potencial, menos capacidade de envolvência… Mas ficamos sempre mais pobres, porque as pessoas têm uma riqueza profunda. E eu costumo pensar: se as pessoas conseguem organizar uma casa, se têm filhos, se têm os seus trabalhos, elas estão mais do que aptas para poder dar um contributo na comunidade cristã. Se falta teologia, ou se falta catequese, ou se falta uma perspetiva sinodal sobre o tema, cabe-nos a nós ou a outras pessoas já formadas, porque já há muitos leigos formados em muitas matérias, poder dar esse contributo. Mas tenho sido sempre surpreendido, e cada vez mais sinto que as pessoas são o segredo. A construção comunitária é o segredo da nossa missão como Igreja. Mesmo como padres, e mesmo como seminários. Os seminários que percam a rede, percam estas redes… E mais, que não a alarguem, são seminários que facilmente ficarão para sempre no século XX, e nós já vamos há muitos anos no século XXI. Os desafios hoje são grandes, são muito grandes, e mais do que profundidade, que é determinante, e interioridade, que é absolutamente marcante, é a rede. Temos rede, ou não temos rede. Porque se tivermos rede, a profundidade ganha outro sentido, e a interioridade ganha um sentido de missão e de serviço. Por isso, eu prefiro pensar que essa comunidade sinodal, onde todos nos expressamos a caminhar em conjunto, centrados em Cristo obviamente, é isso que nos une… Mas também é uma oração feita mãos, é uma oração feita coração, é uma oração feita família. E termino só a dizer este aspeto. Muitas vezes olhamos para o serviço só como um desgaste. E o serviço também tem de ser o lugar do prazer, e do gosto, do sabor. E se há coisa que eu gosto é de estar a trabalhar com pessoas e sentirmos prazer no trabalho que fazemos. E eu tenho esse privilégio que é trabalhar com pessoas que têm muito prazer com aquilo que fazem. Às vezes, cansados, andamos um pouco cansados. Mas chegar ao fim do dia cansados e felizes é diferente de chegar ao fim do dia chateados. E até podemos estar pouco cansados, mas muito chateados. O padre Nuno Santos é reitor do Seminário Maior de Coimbra e com esta entrevista colaborou com a iniciativa podcast “No coração da esperança” da Rede Sinodal em Portugal, uma parceria que junta Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo. Laudetur Iesus Christus