Entre sirenes que interrompem a rotina em Tel Aviv e a vigilância silenciosa que marca o cotidiano de expatriados em Dubai, duas mães brasileiras relatam a mesma prioridade: proteger os filhos. Em um momento em que o Papa Leão XIV renova seu apelo pela paz e diálogo responsável, os testemunhos revelam como a escala de tensão no Oriente Médio, direta ou indiretamente, atinge sobretudo as famílias.
Andressa Collet - Vatican News "Sábado, 28 de fevereiro, 8h25 da manhã, tocou a sirene de alerta - é a mesma que toca quando vem mísseis, só que ela é mais curta - e, ao menos tempo, começou o telefone com notificações explicando que Israel estava atacando o Irã e que era pra gente ficar em alerta e perto de quartos de segurança. Os canais de televisão que estavam com outra programação começaram muito rápido a transmitir e a explicar ao povo o que estava acontecendo. E algumas horas depois já começaram a tocar as sirenes." Foram 17 sirenes ao longo do dia na cidade israelense de Rishon LeZion, ao lado de Tel Aviv, contou Perla Szaf Levy ao Vatican News, situação diferente no domingo (01/03) quando ouviram apenas 4. Sempre quando tocam, cerca de dez minutos após receberem os alertas de segurança pelo celular, ela e os dois filhos devem seguir os protocolos da proteção civil e se dirigir ao quarto de segurança que fica dentro do apartamento. Os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro, matando o líder supremo iraniano e os principais líderes militares, levando as autoridades à retalização com ataques a Israel e bases americanas em todo o Golfo. O marido de Perla foi pro exército no final da tarde do mesmo dia, começando mais uma fase em que a família tem a rotina impactada: de sirenes e abrigos a escolas fechadas e somente atividades essenciais sendo abertas, como supermercados, farmácias e hospitais. Os jovens Aviel, de 17 anos, e Ilay, de 15 anos, já começaram a seguir as aulas on-line nesta segunda-feira (02/03), "como se fosse o período de lockdown durante a pandemia da Covid-19", comentou Perla. Desde janeiro, a família e o país inteiro já esperavam esse ataque, tanto que na semana passada chegaram a ter um treinamento via zoom para retomar as atividades escolares em modalidade on-line. Com o filho mais velho quase completando 18 anos, a preocupação da mãe, além da nova rotina, é com o alistamento militar que "vai me deixar com o coração na mão", disse a guia turística que vive há quase 25 anos em Israel, ao finalizar: "por isso que eu desejo que seja a última (guerra) para tantas mães como eu, avós e futuras mães, que virão por esse mundo afora". A angústia vivida também nos Emirados Árabes Em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a pernambucana Aline Oliveira de Almeida não vive experiência equivalente à Perla por estar longe do conflito direto, mas sente que a região está em alerta. Independentemente do local, a preocupação também é com os filhos. Sofia, de 11 anos, e Leonardo, de 6 anos, já começaram nesta segunda-feira (02/03) com as aulas on-line porque as escolas também estão fechadas, "lembrando muito a época do lockdown", disse ela. Junto com os filhos e o marido italiano, por segurança decidiram temporareamente sair de onde moram, no edifício Burj Khalifa, o mais alto de Dubai, para ir a um hotel - onde já chegaram a ver fragmentos de mísseis pela calçada. Ela explicou ao Vatican News que, apesar da tensão, sentem-se seguros e seguem as orientações das autoridades, num monitoramento contínuo das notícias. No sábado (28/02), dia do ataque ao Irã, ela estava de partida a trabalho para Paris e chegou a ficar presa no aeroporto local por mais de 5 horas por causa de explosões a cerca de 150 Km dali, em Abu Dhabi: "a gente não estava entendendo nada até então. Até que a minha filha disse que tinham bombardeado Abu Dhabi. Fica muito próximo daqui. E ela estava preocupada, pensando que eu já estivesse no voo. Foi uma experiência muita tensa, desgastante e angustiante até porque eu tinha o contato com os meus filhos, mas eu não sabia o que estava acontecendo fora dali, porque estávamos bloqueados no aeroporto; não se podia entrar e nem sair". O que aconteceu no sábado (28/02) com a repercussão do ataque ao Irã foi "assustador", continuou a empresária, ao acrescentar: "Aqui nós conseguimos ver os mísseis e as explosões. Eles conseguem interceptar, mas alguns fragmentos acabam caindo em Dubai. E Dubai sendo um país neutro, a gente não esperava que acontecesse nada por aqui. Tem um ano que moramos aqui em Dubai, um lugar muito seguro, resolvemos vir para cá por esse motivo, pela segurança que Dubai oferece, e estamos chocados com tudo o que está acontecendo. A gente tem uma preocupação enorme a respeito, porque acreditamos que Dubai não era preparada para a guerra, como os outros países. E ainda mais porque temos crianças, têm muitos amigos e famílias aqui. A situação está bem crítica e tensa, mais que tudo. Mas confiamos em Deus que dê tudo certo." O apelo do Papa pela paz Duas brasileiras, então, que vivem hoje realidades distintas dentro do mesmo cenário geopolítico ampliado do Oriente Médio: uma em Tel Aviv, em Israel; outra em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Embora os contextos de segurança sejam diferentes, ambas relatam um elemento comum: a centralidade da proteção dos filhos em meio à instabilidade regional. Ao final da oração mariana do Angelus deste domingo (01/03), o Papa Leão XIV voltou a pedir que a comunidade internacional coloque a vida humana no centro de qualquer decisão através de "um diálogo razoável, autêntico e responsável". Nos relatos dessas mães, essa prioridade assume uma forma concreta na tutela das crianças. O Pontífice, então, reiterou o apelo pela paz mundial: