Em seus pouco mais de nove meses de pontificado, Leão XIV é visto por muitos como alguém que aposta na unidade. O anúncio de sua viagem à Espanha, de 6 a 12 de junho, nos leva a questionar qual será a importância do apelo à unidade na mensagem que o Santo Padre trará à sociedade e à Igreja espanhola.
Padre Miguel Modino - Madri O apelo à unidade esteve presente em suas primeiras palavras como Bispo de Roma. Naquela tarde de 8 de maio de 2025, o recém-eleito pontífice referiu-se a essa unidade necessária e aos passos para que ela se torne realidade: “ajudai-vos uns aos outros a construir pontes, com o diálogo, o encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz”. A sociedade espanhola precisa da união de todos para ser aquilo que o Papa Leão XIV pedia da Loggia de São Pedro: “um só povo sempre em paz”. Estamos conscientes da polarização, da ruptura social presente entre nós. Uma realidade que vemos em nossa vida cotidiana, em nossas famílias, no trabalho, nos espaços de lazer, no trânsito, nas redes sociais... também em nossa Igreja. Superar a polarização é um esforço comum. Só assim conseguiremos avançar no caminho da unidade. Uma unidade que se concretiza mais facilmente quando entendemos que ela vem acompanhada da diversidade. Ser diferentes, diversos, em qualquer âmbito de nossa vida, também na vivência da fé, nunca pode ser um impedimento para caminharmos juntos, unidos em prol de um bem maior. Acompanhar o debate político leva-nos a constatar que o cuidado da coisa pública não é o que mais preocupa os políticos. Os interesses pessoais, partidários, de grupos de pressão, constituem-se em elementos que determinam a tomada de decisões que deveriam procurar o bem comum. Isso gera um clima social em que o outro é visto como um inimigo que deve ser eliminado a qualquer custo. Unidos para proclamar o Evangelho A questão é até que ponto essa dinâmica está presente na vida da Igreja. Em seu agradecimento aos cardeais que o elegeram para ser Sucessor de Pedro, Leão XIV exortou a ser “Igreja unida, procurando sempre a paz, a justiça, esforçando-se sempre por trabalhar como homens e mulheres fiéis a Jesus Cristo, sem medo, para anunciar o Evangelho, para ser missionários”. A proclamação do Evangelho enfraquece quando deixamos que a polarização se instale entre nós. Quando esse fenômeno se faz presente entre nós, deixamos de ser “uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, que constrói o diálogo, sempre aberta para acolher a todos, como esta Praça, de braços abertos, a todos aqueles que precisam da nossa caridade, da nossa presença, de diálogo e de amor”, dizia o Papa. Nossos projetos humanos enfraquecem e muitas vezes acabam com aquilo que deveria ser nosso maior compromisso como Igreja: anunciar o Evangelho e ser fermento do Reino de Deus no meio da humanidade dividida. Diante disso, façamos nossas as palavras de Leão XIV e nos preparemos para recebê-lo com este sentimento: “sem medo, unidos de mãos dadas com Deus e uns com os outros”.