O cardeal prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, representando o Papa, celebrou na manhã de sábado 17 de outubro, na ilha espanhola, a beatificação do sacerdote Juan Torres Torres e de 19 companheiros, mortos "in odium fidei", em 1936. Eles nos ensinam, disse ele em sua homilia, que "seguir Cristo significa estar pronto para testemunhá-lo, mesmo quando isso tem um preço alto".
Lorena Leonardi – Vatican News Quando perdoar "parece mais difícil do que cultivar ressentimento", quando defender alguém "pode levar a mal-entendidos" e quando a tentação é "ficar em silêncio por conveniência" ou concordar com "o que todos os outros fazem": essas são algumas das "situações concretas do dia a dia" em que a fidelidade é medida.
Foi o que disse o prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, cardeal Marcello Semeraro, representante do Papa, na beatificação de Juan Torres Torres e de 19 mártires, presidida pelo purpurado na manhã de sábado, 17 de outubro, em Ibiza.
É nas pequenas escolhas cotidianas que o testemunho dos vinte sacerdotes mortos por ódio à fé "nos desafia", explicou o cardeal na Catedral de Nossa Senhora, durante o rito, o primeiro do gênero celebrado nas Ilhas Baleares.
Um testemunho sempre atual As notas do Himne als Beats Màrtirs d’Eivissa i Formentera abriram a missa, com o hino de entrada cantado por uma grande representação dos coros paroquiais.
Após o rito penitencial, o postulador da causa, monsenhor Alejandro Cifres, apresentou um breve perfil biográfico de cada um dos vinte mártires, e o bispo de Ibiza, dom Vicent Ribas Prats, solicitou que fossem inscritos no registro dos bem-aventurados.
O cardeal Semeraro leu então a Carta Apostólica de Leão XIV, com a qual os servos de Deus que deram suas vidas em defesa da fé foram proclamados beatos.
Em sua homilia, proferida em espanhol, Semeraro focou na atualidade do testemunho dos mártires de Ibiza, mortos no verão de 1936, no contexto da violenta perseguição religiosa que marcou a Espanha na primeira metade do século XX.
O exemplo deles suscita questões pertinentes ainda hoje: qual a importância de Cristo na vida dos homens e mulheres de hoje?
Até que ponto o Evangelho orienta as escolhas, suas relações e a maneira como enfrentam as dificuldades? [ Photo Embed: A celebração da beatificação em Ibiza] Nossa fidelidade é medida todos os dias "Normalmente não nos deparamos com a escolha dramática que aqueles mártires fizeram.
No entanto, nossa fidelidade também é medida nas situações concretas do dia a dia", observou o prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, "não porque toda dificuldade possa ser comparada ao martírio, mas porque a fidelidade que nos sustenta em provações extremas é preparada e alimentada por escolhas diárias." Comentando a passagem do Evangelho proclamada pouco antes (Lucas 12, 8-12), o cardeal enfatizou que "Jesus associa seus discípulos ao seu próprio destino, enviando-os como cordeiros entre lobos." Comentando a passagem, Santo Agostinho observou que a imagem não falava "de um lobo lançando-se no meio de um rebanho de ovelhas", mas de "um pequeno rebanho" enviado entre lobos.
As palavras de Jesus revelam sua intenção, "que não é desencorajar, mas encorajar-nos a ir sem medo", tranquilizando os discípulos "de sua presença e proximidade".
Embora não esconda "as dificuldades da missão", Ele, como um irmão, "permanece perto de nós, segura nossa mão, nos encoraja, nos dá força". [ Read Also ] A fé em Deus não nos poupa das provações No texto do Evangelho, “ouvimos falar de perseguições, traições e ódio que os discípulos podem enfrentar por causa do nome de Jesus”, continuou Semeraro, enfatizando que “a fidelidade a Ele não nos protege das provações da história”, mas pode, na verdade, nos expor “à contradição e até à violência”.
Isso “aconteceu com os seus mártires”, disse ele, dirigindo-se aos numerosos fiéis reunidos na Catedral de Ibiza, “os quais hoje a Igreja coloca nos altares e propõe como modelo de vida cristã”.
A história de Torres Torres e seus companheiros “nos leva de volta a uma das verdades mais exigentes da fé cristã: seguir a Cristo significa estar pronto para testemunhá-lo, mesmo quando isso tem um preço alto”.
Pe.
Juan, um jovem sacerdote ordenado dois meses antes O prefeito do Dicastério das Causas dos Santos lembrou em particular o sacerdote principal, de apenas vinte e quatro anos, ordenado apenas dois meses antes de ser morto e seu corpo lançado ao mar.
Este evento "é marcante pela brevidade de um ministério que acabara de começar e foi abruptamente interrompido", mas também nos lembra que "a fecundidade de uma vocação não se mede pela sua duração, mas pela fidelidade com que é vivida e pela oferta de si mesmo a Cristo".
O cardeal então recordou os outros sacerdotes que "foram mortos naqueles dias trágicos, alguns depois de serem levados para o castelo de Ibiza, onde compartilharam o destino de seus companheiros".
É diante de tais acontecimentos que "as palavras de Jesus ressoam com particular força: 'Sereis levados à presença de governadores e reis por minha causa, para dar testemunho'".
A fidelidade dos mártires é fruto da graça A palavra “mártir”, recordou o celebrante, “significa testemunho: o mártir não é aquele que procura a morte, mas aquele que não nega Cristo, mesmo quando a fidelidade ao Evangelho o expõe à morte”.
Por outro lado, não é a violência sofrida que torna “grande” um testemunho, mas sim o amor ao qual se permanece fiel, porque o martírio “não celebra a morte”, mas proclama que “a vida pertence a Cristo e que a morte não tem a última palavra”.
O próprio Jesus explica de onde vem tal fidelidade: "Não sois vós que falais, mas o Espírito do vosso Pai é quem fala por meio de vós", portanto a perseverança dos mártires “não deve ser entendida como heroísmo puramente humano”, pois é antes de tudo “fruto da graça”, da presença do Espírito que “sustenta a fragilidade” tornando possível permanecer “fiel” nas provações.
Neste sentido “não exaltamos o heroísmo de pessoas excepcionalmente fortes, mas a fidelidade daqueles que permanecem no amor e não deixam que o ódio dos outros se torne seu próprio ódio”.
Peçamos que não percamos Cristo nas dificuldades Recordando as palavras de São Paulo — "Somos mais que vencedores por meio Daquele que nos amou" — e de Orígenes — "Enquanto eu permanecer ligado ao amor Daquele que me amou, não sentirei dor, porque o amor com que Ele me amou é ainda mais eficaz" — o cardeal enfatizou que "a fidelidade dos mártires não nasce da pretensão de serem invencíveis, mas da certeza de serem amados por Cristo".
Celebrando os bem-aventurados mártires de Ibiza, Semeraro concluiu: "Não pedimos para sermos poupados de todas as dificuldades, mas para não perdermos Cristo nas dificuldades; não pedimos para estarmos livres do medo, mas para não sermos governados por ele; não pedimos uma vida sem contradições, mas a graça de permanecermos fiéis no amor".
Ao final da celebração eucarística, foi executado o hino "Set segles fa", dedicado a Nossa Senhora das Neves, padroeira de Ibiza e Formentera.