O Papa afirmou: “Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que fala ao nosso coração.”
Prof. Robson Ribeiro – Filósofo, Teólogo e Historiador No Ângelus do I Domingo da Quaresma, o Papa Leão XIV apresentou um convite que ultrapassa o âmbito estritamente litúrgico e toca diretamente um dos grandes desafios contemporâneos: o excesso de ruído provocado pelo uso indiscriminado da tecnologia. Ao propor um tempo de silêncio mais profundo, o Papa afirmou: “Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que fala ao nosso coração.” Trata-se de uma exortação simples na forma, mas profundamente crítica em seu conteúdo. Essa reflexão insere-se de modo significativo no debate atual sobre o uso excessivo da tecnologia e suas consequências para a vida interior. Inspirando-se na experiência de Jesus no deserto, o Pontífice recorda que a Quaresma é, antes de tudo, um caminho de escuta, discernimento e conversão, no qual o silêncio não constitui um luxo espiritual, mas uma condição essencial para o encontro com Deus. A mensagem deixa claro que a Quaresma não pode ser reduzida a práticas exteriores ou meramente simbólicas. O silêncio ao qual o Papa se refere não é simples ausência de som, mas uma disposição interior que permite escutar Deus e reencontrar o sentido mais profundo da própria existência. Em uma cultura marcada pela hiperconectividade, na qual a atenção é constantemente fragmentada por telas, notificações e estímulos incessantes, essa proposta assume um caráter claramente contracultural e provocador. Ao mesmo tempo, o discurso pontifício evita uma condenação simplista da tecnologia. O problema não reside nos dispositivos em si, mas no espaço desproporcional que eles passam a ocupar na vida cotidiana, substituindo o recolhimento, o diálogo e a reflexão. Quando o Papa convida a “silenciar” televisores e smartphones, ele denuncia uma dinâmica que dificulta o discernimento e favorece uma existência marcada pela pressa e pela superficialidade. Esse apelo dialoga com reflexões já presentes em análises críticas da cultura digital contemporânea. Observa-se que a tecnologia, embora seja uma ferramenta poderosa de comunicação, informação e até evangelização, tem ocupado de forma excessiva o cotidiano das pessoas. A exposição contínua a estímulos e conteúdos fragmentados compromete a capacidade de concentração, de reflexão profunda e de escuta, tanto de Deus quanto do outro. A ausência de silêncio tornou-se, assim, um dos traços mais evidentes da sociedade atual. O ruído permanente, mediado pelas telas, cria uma falsa sensação de preenchimento, ao mesmo tempo que enfraquece o contato consigo mesmo e com as questões essenciais da existência. Nesse contexto, o convite do Papa não deve ser interpretado como rejeição da tecnologia, mas como um chamado ao discernimento e ao uso responsável, capaz de recolocar os meios a serviço do humano e do espiritual, e não como seus substitutos. Essa crítica ganha ainda mais força quando Leão XIV alerta para as falsas promessas de satisfação imediata, lembrando que formas fáceis e rápidas de gratificação acabam por deixar o coração inquieto, vazio e insatisfeito. Em um ambiente digital que estimula o consumo constante de conteúdos, a busca por aprovação e os estímulos instantâneos, essas palavras soam como um chamado urgente à lucidez espiritual e humana. O Pontífice amplia essa reflexão ao destacar a importância de “escutar uns aos outros”, indicando que a falta de silêncio não compromete apenas a relação com Deus, mas também as relações humanas. A dificuldade de ouvir com atenção, de estar plenamente presente e de sustentar encontros autênticos está profundamente ligada a uma vida excessivamente mediada pelas telas. O silêncio quaresmal, portanto, não significa isolamento ou fuga do mundo, mas a criação de um espaço interior onde a Palavra pode ser acolhida e onde as relações podem ser vividas com maior autenticidade. Assim, o discurso de Leão XIV propõe uma crítica clara à cultura da dispersão e convida a uma revisão séria do uso da tecnologia. O desafio não consiste apenas em reduzir o tempo diante dos dispositivos, mas em recuperar a capacidade de parar, refletir e discernir. Sem silêncio, a fé corre o risco de tornar-se automática e superficial; com ele, abre-se a possibilidade de uma conversão mais consciente, livre e enraizada na realidade. Dessa forma, a mensagem do Ângelus reforça a urgência de repensar a relação com a tecnologia à luz de uma espiritualidade mais profunda e atenta.