O novo documento do Dicastério para a Doutrina da Fé sobre como anunciar o Evangelho em uma mudança de época
[ Audio Embed Ouça o Editorial de Tornielli] Andrea Tornielli “Quando, na percepção de muitos, a fé católica já não é patrimônio comum da sociedade (…) será muito difícil que ela consiga tocar os corações por meio de simples discursos ou apelos morais e, menos ainda, por meio de referências genéricas aos valores cristãos.
O apelo corajoso e integral aos princípios é essencial e indispensável; no entanto, a simples enunciação da mensagem não chega até o fundo do coração da pessoa, não toca sua liberdade, não transforma a vida.
O que fascina é, sobretudo, o encontro com pessoas crentes que, por meio de sua fé, atraem para a graça de Cristo, dando testemunho d’Ele”.
Quando Bento XVI proferiu essas palavras, em 13 de maio de 2010, em Fátima, a “mudança de época” repetidamente evocada por seus sucessores, Francisco e Leão XIV, já havia começado há algum tempo, mas ainda não era tão evidente.
LEIA AQUI O TEXTO INTEGRAL DO DOCUMENTO "VINITE AD ME" Essas palavras do Papa Ratzinger, dezesseis anos depois, representam uma síntese eficaz do que significa testemunhar o Evangelho, especialmente em contextos onde esse anúncio nunca chegou ou naqueles em que a transmissão da fé foi interrompida.
E, portanto, podem muito bem sintetizar a essência do novo documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, “Vinde a mim”, que reflete sobre como evangelizar nesta mudança de época e tem como objetivo fornecer material de reflexão pastoral que estimule, em cada Igreja local, nos diversos contextos concretos, a busca de novos caminhos possíveis para essa transmissão da fé.
O fato de que, nas terras de antiga evangelização, o anúncio cristão estivesse perdendo força não é uma questão tão recente.
Justamente a necessidade de falar novas linguagens para apresentar a fé está na base do Concílio Ecumênico Vaticano II, nascido da intuição de João XXIII e levado a bom termo por Paulo VI, o Papa que, na Ecclesiam suam, explicou que a Igreja se aproxima do mundo contemporâneo tornando-se “palavra, mensagem, colóquio”, na convicção de que o Evangelho deve ser oferecido por meio de uma relação de escuta e de encontro.
Já nas décadas anteriores ao Concílio – como haviam percebido os espíritos mais atentos – o processo de secularização estava em andamento: bastaria citar a experiência de Giovanni Battista Montini, que, em meados da década de 1950, deixou a Roma das reuniões em torno de Pio XII para se estabelecer na Milão em franca expansão, onde setores significativos da sociedade começavam a demonstrar um desinteresse distante pela fé e pela prática religiosa.
Todo o episcopado milanês e, posteriormente, todo o pontificado de Montini foram marcados pela inquietação dessa pergunta: como anunciar o Evangelho às mulheres e aos homens de hoje, que parecem cada vez mais distantes? [ In Evidence ] Essa questão se torna ainda mais premente no momento histórico que estamos vivendo, caracterizado, como observa o documento do Dicastério, pela “soberania do eu”, pelo desmoronamento progressivo das relações interpessoais e pela mediação do mundo digital, que acaba por alterar quase “geneticamente” nosso DNA de seres humanos em relação uns aos outros.
Tanto os países mais ricos e secularizados quanto os em desenvolvimento — que viram crescer o número de cristãos, mas que certamente não estão imunes à mudança de época — se perguntam como transmitir a fé hoje.
Por isso, chama a atenção que, no texto do Dicastério, sejam citadas as contribuições e reflexões de tantas Conferências Episcopais.
A resposta, claramente identificável também no Magistério dos últimos Sucessores de Pedro, é, sobretudo, voltar ao kerygma, ou seja, ao anúncio do essencial da fé, na consciência — infelizmente ainda não suficientemente difundida — de que as referências aos valores morais e os apelos aos princípios cristãos nunca podem dar como certo o que vem antes, ou seja, o encontro com Cristo.
Para transmitir a fé hoje, não basta, em primeiro lugar, ensinar um conjunto de conteúdos doutrinários ou de informações religiosas, como ainda podia acontecer há muitas décadas, quando o Evangelho era “vivenciado” diariamente na família e na sociedade.
Mas, em uma época como a nossa, é igualmente míope pensar que essa transmissão possa ser confiada ao marketing e a estratégias pastorais elaboradas em teoria.
Vivemos submersos em um oceano de palavras gritadas e de informações muitas vezes falsas, em um mundo em que todos falam e quase ninguém escuta.
Precisamos de testemunhas que revelem a beleza da vida cristã, permitindo que sejamos atraídos pela graça de encontros que tocam o coração, nos ferem e nos aproximam do abraço misericordioso de um Deus que é amor.
Precisamos de comunidades vivas.
E as comunidades vivas atraem.
A vida se reconhece, se valoriza e se acompanha, não se planeja nem se administra em teoria.
Precisamos de comunidades que introduzam não apenas as crianças, mas também os adultos à beleza da experiência de fé.
Para poder anunciar a qualquer pessoa e com novas formas de expressão, valorizando mais a liturgia, a piedade popular, a arte e a música, uma mensagem evangélica feita de proximidade e acolhimento.
Uma mensagem encarnada, que nos atrai e nos alcança graças ao testemunho daqueles que nos precederam ao longo de uma história de dois mil anos, e que lembra a todas as mulheres e homens do nosso tempo: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”.