Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.
Marcus Tullius - Comunicação da Cáritas América Latina e Caribe A decisão inédita de um júri de Los Angeles, no dia 25 de março, colocou Google e Meta no centro de um debate que extrapola o campo do Direito. Ao considerá-las responsáveis por contribuir para uma crise de saúde mental entre adolescentes e jovens, a partir do funcionamento de plataformas como YouTube e Instagram, o caso deve entrar, definitivamente, no debate público. O problema deixa de ser lido como fragilidade do usuário e passa a ser reconhecido como efeito de um sistema desenhado para capturar. Portanto, não é uma condenação do conteúdo que está circulando, mas da arquitetura da plataforma e a responsabilização de seus donos. O caso em questão envolve uma jovem de 20 anos que afirmou ter se viciado nos aplicativos devido ao seu design atraente. Isso é resultado de uma lógica simples e profundamente eficaz. As plataformas existem para reter a atenção. E, uma vez retida, essa atenção precisa ser convertida em valor econômico. O tempo que se passa na tela não é apenas um indicador de uso — é a própria matéria-prima de um modelo de negócios. Isso ajuda a compreender por que não se trata apenas de conteúdo produzido — que não é menos relevante —, mas de arquitetura. Rolagem infinita, notificações constantes, vídeos encadeados, recompensas intermitentes: tudo converge para prolongar a permanência nos aplicativos e dispositivos. Não porque o usuário decidiu livremente ficar, mas porque o ambiente foi desenhado para tornar a saída cada vez menos provável. Byung-Chul Han descreve em Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida (2022) que “o constante digitar e deslizar no smartphone é um gesto quase litúrgico que influencia massivamente a relação com o mundo” (p. 43) e que “o dedo que digita torna tudo consumível” (p. 45). A captura permanente da atenção não se dá contra a vontade, mas é previamente orientada para gerar esse comportamento automatizado em vista do lucro. Esta talvez seja apenas a ponta mais emergente de um iceberg daquilo que Shoshana Zuboff define em A era do capitalismo de vigilância (2021), como “uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas”. Este capitalismo de vigilância, extremamente predatório, nos deixa inertes diante desta arquitetura global de modificação de comportamento. A autora, professora emérita de Harvard, nem menciona à época a inteligência artificial, o que hoje acentua ainda mais a dimensão do problema de mudanças comportamentais e vícios. A atenção é capturada, convertida em dado e processada como valor. E o vício não é apenas um acidente do percurso, mas peça chave para o seu funcionamento. Você já parou para perceber a enxurrada de notificações que recebe ao longo do dia? Até aqui, na leitura deste texto, você foi roubado quantas vezes por alguma notificação ou para checar alguma rede social? Não por acaso estamos muito mais dispersos e com a capacidade de atenção reduzida. O tempo de exposição às telas e os seus mecanismos de retenção da atenção afetam a todos, mas têm um efeito ainda mais danoso quando seus usuários são crianças e adolescentes. Especialistas de diversas áreas têm alertado sobre este impacto das centenas, ou até milhares de notificações, sobre um cérebro ainda em formação e que é constantemente interrompido. A decisão do tribunal nos Estados Unidos acontece poucos dias depois da entrada em vigor do chamado ECA Digital, no Brasil. Ao colocar crianças e adolescentes no centro desse debate, reconhece-se que ambientes digitais exploram vulnerabilidades cognitivas e emocionais. E isso não pode mais ser tratado como efeito colateral ou como responsabilidade do usuário. Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores. A condenação de Google e Meta quebra uma lógica que parecia intocável e acelera um debate poliédrico que já não pode ser adiado. Poliédrico, porque não se trata apenas de regular as plataformas considerando o que circula nelas, mas sobretudo o modo como são desenhadas, seus mecanismos de retenção, seus algoritmos e a própria economia da atenção que as sustenta; de investir seriamente em educação midiática, capaz de formar sujeitos críticos que compreendam como funcionam esses ambientes e não apenas aprendam a usá-los; e de fortalecer o acompanhamento de crianças e adolescentes, como presença atenta, diálogo constante e construção de critérios no interior das famílias e comunidades. Tais apelos encontram ressonância na mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026. Ainda que situados no campo da inteligência artificial, os três pilares propostos — responsabilidade, cooperação e educação — oferecem uma proposta muito clara para e que precisam ser assumidas de forma mais ampla no conjunto do ambiente digital em que estamos inseridos. Esta decisão importa tanto não porque resolva o problema, mas porque introduz um ponto de inflexão: aquilo que antes operava sem responsabilização começa, enfim, a ser nomeado — e cobrado. E, quando isso acontece, o debate já não pode mais ser evitado. Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025).