"A Inteligência artificial é um resultado da “genialidade humana” (no sentido do ser humano ser gênio). Toda a descoberta da inteligência humana é um reflexo da criação de Deus, Deus que deu a inteligência humana ao ser humano. Não podemos negar os avanços, mas não fazer que a IA – esteja a serviço da guerra, da destruição do valor do ser humano, da deturpação da Verdade".
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano Em 25 de maio foi publicada a Carta Encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV. Mas, que relação poderia ser com a Rerum Novarum (1891), de Papa Leão XIII, publicada em 1891? Na verdade, ambas procuram responder aos grandes desafios sociais de suas épocas à luz da dignidade humana e da Doutrina Social da Igreja: enquanto a Rerum Novarum enfrentou os problemas gerados pela Revolução Industrial, defendendo os direitos dos trabalhadores e a justiça social, a Magnifica humanitas aborda os impactos da inteligência artificial e das novas tecnologias, insistindo que o progresso tecnológico deve estar a serviço da pessoa humana, do trabalho digno e do bem comum. Assim, Leão XIV retoma e atualiza a preocupação de Leão XIII com as “novas questões” (res novae), aplicando os mesmos princípios éticos cristãos aos desafios do mundo digital contemporâneo. E precisamente "Carta Encíclica Magnifica humanitas" é o tema da reflexão do Pe. Gerson Schmidt*: "Na oração sacerdotal de Jesus, descrita no capítulo 17 de São João, vemos a inserção do ser humano no mundo, mergulhado em sua história concreta, sem contudo ser desse mundo. Escutamos em João 17,14-18 assim: “Eu lhes dei a tua palavra, mas o mundo os odiou, porque não são do mundo, como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo”. Noutro texto, antes dessa oração sacerdotal de Jesus, São João escreve assim: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro, Se fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas porque não sois do mundo e minha escolha vos separou do mundo, o mundo por isso vos odeia” (Jo 15,18-19). São palavras textuais da Sagrada Escritura. Inserido no mundo, o cristão não é um alienado ou alienígena, um ET, um lunático, um espiritualista fora da realidade onde vive, ou rato de sacristia e um estranho fora do ninho. O Papa Leão XIV lança sua primeira CARTA ENCÍCLICA intitulada MAGNIFICA HUMANITAS - SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. E no número 20 desse encíclica afirma assim: “O chamamento e o compromisso de caminhar com a humanidade no concreto da história levam a Igreja a reconhecer que as realidades terrenas possuem consistência e ordem próprias. O Concílio Vaticano II expressou, com particular precisão, este princípio na Constituição pastoral Gaudium et spes, cujo 60º aniversário celebrámos com grata memória no passado dia 7 de dezembro de 2025: «Se por autonomia das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores próprios é perfeitamente legítimo exigir tal autonomia». Esta afirmação mostra como a criação traz impressa uma bondade originária que o olhar humano deve guardar, cultivar e fazer amadurecer. Neste horizonte, a Igreja oferece-se como uma presença que ajuda a ler em profundidade a realidade, apoiando com humilde firmeza as escolhas que promovem a dignidade de cada pessoa, a coesão das comunidades e o bem de todos. Assim, ela coloca-se ao lado do mundo sem se lhe sobrepor, para que em cada circunstância humana possa germinar a promessa de justiça e paz, que o Espírito Santo continua a suscitar no coração da humanidade” (MH, 20). Leão XIII estava aberto à realidade que o cercava, dois séculos atrás. A Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, foi promulgada em 15 de maio de 1891. O Papa Leão XIII foi o primeiro Papa a comunicar com imagens, deixando-se filmar. Nesse contexto de avanço tecnológico, a Encíclica uma resposta da Igreja Católica ao fortalecimento do liberalismo e do capitalismo monopolista na Europa. Foi promulgada posteriormente à Revolução Industrial e ao Manifesto Comunista de 1848. Da mesma forma como Leão XIII foi sensível em sua época da Revolução Industrial, proclamando a Encíclica Rerum Novarum – sobre a dignidade do trabalhador e suas condições dignas. Papa Leão XIV, por sua vez, agora é sensível em uma nova Revolução: a revolução digital, a revolução das imagens, das tecnologias e da Inteligência Artificial. Não há no mundo apenas uma inteligência humana, mas uma inteligência artificial, uma inteligência que não é necessariamente humana. A Inteligência artificial é um resultado da “genialidade humana” (no sentido do ser humano ser gênio). Toda a descoberta da inteligência humana é um reflexo da criação de Deus, Deus que deu a inteligência humana ao ser humano. Não podemos negar os avanços, mas não fazer que a IA – esteja a serviço da guerra, da destruição do valor do ser humano, da deturpação da Verdade. A humanidade pode se “vislumbrar” por essas novas descobertas, enganando-se na ilusão de uma verdade deturpada pelos logaritmos e pela máquina que não busca valores, é amoral, ou seja, não tem a consciência mortal e ética. Deus não está separado da sabedoria humana, pelo contrário, é Ele que tornou o homem sábio, inteligente e apto para as descobertas. Temos que usar a tecnologia, mas de forma sábia, prudente, honesta, moral e verdadeira, sem destruir a humanidade e o ser humano". *Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.