Neste 27 de março, o Brasil celebra a arte milenar do picadeiro. O Vatican News conversou com o Palhaço Pessebe, membro da Pastoral dos Nômades, que relata os desafios da itinerância e a importância do amparo eclesial na luta por direitos e contra o preconceito.
Padre Rodrigo Rios - Vatican News "A humanidade necessita de pontes para que sejamos um só povo sempre em paz". A frase, proferida pelo Papa Leão XIV logo no início de seu pontificado, ressoa com força especial nos picadeiros brasileiros neste 27 de março. Para as famílias que fazem da estrada a sua casa, o circo é mais que entretenimento: é uma ponte de alegria estendida entre cidades, gerações e realidades sociais. Neste Dia Nacional do Circo, a Igreja Católica destaca o trabalho da Pastoral dos Nômades, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que atua também como ponte entre a lona e a sociedade. Um dos rostos dessa missão é Edson Oliveira da Conceição, conhecido nacionalmente como o Palhaço Pessebe. Proprietário do Circo Fênix, Edson é herdeiro de uma tradição profunda: filho dos artistas circenses Francisco Natanael da Conceição e Maria Josefina de Oliveira, a famosa dupla sertaneja Mineiro e Mineirinha. Para ele, o circo não é apenas uma profissão, mas uma vocação que nasce com o indivíduo. "Ser de circo é uma coisa fantástica. Eu nasci e me criei debaixo de uma lona. Ser de circo é acordar cada dia feliz e buscando a felicidade de outras pessoas, mesmo passando pelas dificuldades que a vida nos oferece. Mas, mesmo assim, não abaixamos a cabeça e seguimos sempre em frente buscando novos horizontes", afirma Edson. O "Pó de Serra" nas veias e o desafio do saber A vida itinerante, contudo, impõe barreiras que muitas vezes passam despercebidas pelo público que aplaude o espetáculo. A educação das crianças circenses é um dos pontos de maior vulnerabilidade. Edson relata que o "direito de estudar" muitas vezes precisa ser conquistado a cada nova cidade. Ele aponta que a maior vilã não é a estrada, mas a resistência institucional: "A maior dificuldade que as crianças de circo enfrentam é a burocracia. Principalmente porque é difícil chegar em uma escola e encontrar uma pessoa disposta a nos atender com mais carinho, com um pouco mais de compreensão por não termos endereço fixo". Além das barreiras administrativas, o artista denuncia o estigma: "Existe um bullying em cima das crianças de circo por ser itinerante, por ser palhaço... elas sofrem preconceito nas escolas. Mas superam porque estão acostumadas com a dificuldade". Curiosamente, Edson observa um fenômeno de resiliência cultural: mesmo quando conquistam diplomas de ensino superior, muitos jovens não abandonam a lona. "O estudo é uma maneira de conhecer as leis que nos protegem, porque a itinerância está no sangue, o pó de serra corre pelas veias. Conheço muitos jovens formados em psicologia, advocacia, medicina e até padres, mas a paixão pelo circo fala mais forte. A felicidade do circense é andarmos sempre juntos: pais, filhos, avós e amigos". A Pastoral dos Nômades como porto seguro A Igreja Católica, através da Pastoral dos Nômades, desempenha um papel vital na mediação desses conflitos e na acolhida espiritual. Edson é enfático ao dizer que a Pastoral mudou a forma como o povo do circo se relaciona com as cidades. "A Pastoral dos Nômades veio fortalecer a nossa luta diária. Ela abre portas. Depois dela, aprendemos a chegar na cidade e ter comunicação nas igrejas e apoio das prefeituras através do padre local. Ela vem se adaptando cada vez mais, estudando nossas dificuldades e buscando soluções para quando chegamos a um local e temos dificuldade de nos localizar". Essa rede de apoio da Pastoral não se limita aos circenses, estendendo-se também aos "parquistas" (trabalhadores de parques de diversão) e aos povos ciganos, formando uma rede de proteção aos povos tradicionais itinerantes. Esperança para 2026 e o legado para a juventude O olhar da comunidade circense e da Igreja agora se volta para a Assembleia Nacional, que acontecerá em de 28 a 30 de julho de 2026, em Jerônimo Monteiro (ES). A expectativa é que o encontro consolide avanços em políticas públicas essenciais. Edson projeta o futuro com clareza: "Minha maior esperança com a Pastoral dos Nômades é buscar uma vida melhor para o povo circense, para que juntos possamos lutar por direitos melhores, com acesso a terrenos e garantias que deem segurança para a nossa comunidade". Ao concluir, o Palhaço Pessebe deixa uma mensagem que ressoa como um apelo à fraternidade cristã e à preservação da cultura: "O circo é a mais antiga diversão do homem. É uma criança que nunca envelhece. É onde ainda se pode sonhar com os olhos abertos. Por isso, quando o circo chegar na sua cidade, abrace-o. Ali tem famílias precisando de apoio, atenção e cuidados. O circo familiar hoje é Patrimônio Cultural do Brasil. Não deixem essa arte milenar parar".