Após o alerta de uma possível falência financeira da ONU feito pelo secretário-geral António Guterres, o observador permanente da Santa Sé junto ao Escritório das Nações Unidas e outras organizações internacionais em Genebra, explicou à mídia vaticana que a situação está se tornando cada vez mais alarmante: "É uma crise estrutural. É doloroso pensar nos cortes significativos que já foram feitos na ajuda humanitária."
Federico Piana – Vatican News Visto de Genebra, onde o arcebispo Ettore Balestrero é o observador permanente da Santa Sé junto ao Escritório das Nações Unidas e outras organizações internacionais, o alerta feito pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, sobre o possível colapso financeiro da instituição intergovernamental caso os Estados-membros não paguem prontamente suas contribuições em atraso soa como um sinal de alarme preocupante: "Esta não é a primeira vez que Guterres chama a atenção para este problema. No final do ano passado, ele enviou um relatório à Assembleia Geral justamente sobre a precária situação financeira. Mas a crise se agravou com o tempo. A incerteza está aumentando e a implementação dos programas está sendo comprometida." O senhor realmente acha que uma falência da ONU é possível? Não quero pensar que isso possa acontecer. Mas é um sinal de alerta cada vez mais forte, uma crise estrutural. Os maiores desafios já são, e serão ainda mais se essa crise não for enfrentada em breve, atrasos nas operações, no apoio à implementação de programas e na manutenção das operações de paz, no pagamento dos salários dos funcionários e na contratação de novos funcionários. Por exemplo, já parece que um corte de 15% no orçamento das operações de paz está previsto. É doloroso pensar nos cortes na ajuda humanitária, que já foram feitos significativamente e se tornariam ainda mais drásticos. Mas a dependência excessiva de um pequeno grupo de atores torna o problema de liquidez ainda mais grave. O senhor não acha que a crise financeira que a ONU enfrenta reflete, na verdade, a crise do multilateralismo? Certamente. Ela representa o sintoma de um grande mal-estar e de uma crise profunda, que é um prisma com muitas faces diferentes. Por exemplo, a paralisia das instituições multilaterais diante das guerras, uma nova corrida armamentista, o desmantelamento do sistema de desarmamento criado pela ONU imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. Em 5 de fevereiro, o Novo START, o tratado internacional sobre a redução de armas nucleares assinado pelos EUA e pela Rússia, expirou. E há outras faces, como a erosão do Estado de Direito em favor da lei do mais forte e as políticas econômicas protecionistas. Em suma, ao final da Segunda Guerra Mundial, surgiu um consenso claro que sancionava a ilegitimidade dos conflitos e uma mudança de paradigma que funcionou até agora. Mas, após 80 anos, o equilíbrio de poder mudou: as nações estão inquietas, seja para manter sua posição ou para obter maior poder, em todas as suas dimensões. Atualmente, as Nações Unidas representam um mundo que não existe mais. E não consegue lidar eficazmente com os novos desafios globais. A crise do multilateralismo parece cada vez mais evidente e acentuada. Pode explicar o motivo? O principal motivo é a mudança no equilíbrio de poder e no equilíbrio internacional. E há outras causas. Em primeiro lugar, a perda progressiva e a erosão da confiança na própria ideia de bem comum mútuo: as relações internacionais estão se tornando cada vez mais um jogo de soma zero. Assim, a crença de que as regras compartilhadas das instituições multilaterais podem realmente servir a todos está se dissipando, e a ilusão de que a segurança e o desenvolvimento podem ser alcançados individualmente está prevalecendo.