O Observador permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas e outras organizações internacionais em Genebra, interveio, nesta sexta-feira, 5, na 114ª Sessão da Conferência Internacional do Trabalho, durante a qual delineou alguns aspectos-chave do uso da inteligência artificial (IA) no ambiente de trabalho. Em seu discurso, o Arcebispo pediu para que haja uma distribuição equitativa dos benefícios e sua plena exploração, a proteção dos direitos dos trabalhadores e a atenção aos mais vulneráveis.
Vatican News “Diante de novas formas de escravidão desumanizante, no mundo do trabalho, é essencial tutelar a dignidade humana e adotar uma abordagem centrada na pessoa", foi o que destacou o Arcebispo Ettore Balestrero, Observador permanente da Santa Sé, junto às Nações Unidas e outras organizações internacionais em Genebra, que participou nesta sexta-feira, 5, da 114ª Sessão da Conferência Internacional do Trabalho. Em seu discurso, o Arcebispo chamou a atenção dos presentes para as mudanças que a IA está introduzindo em diversos setores, inclusive no ambiente de trabalho, onde “deve ser sempre usada como uma ferramenta para o bem dos seres humanos, não para diminuí-los e tampouco para substituí-los". Logo, o aspecto ético deve ser levado em consideração, desde as fases iniciais de cada processo de desenvolvimento dos modelos da IA até ser verificado, antes que sejam acessíveis ao público. Distribuir os benefícios da IA de forma equitativa Para o Observador permanente da Santa Sé, em relação à IA, no ambiente de trabalho, "uma abordagem centrada no ser humano" deve-se concentrar em cinco aspectos principais: primeiro, os benefícios da IA devem ser "distribuídos de forma equitativa", porque a exclusão digital persiste e se amplia, não apenas em termos de infraestrutura, mas também em termos de habilidades"; por isso, devem ser verificados "por meio de esforços cooperativos com base na solidariedade". Identificar os valores nos quais basear a IA Em segundo lugar, para Dom Ettore Balestrero, é essencial identificar e considerar, cuidadosamente, os "valores que são incorporados nos modelos da IA, desde os estágios iniciais". Se "a IA for avaliada, com base em critérios de produtividade e redução de custos", gera "uma ideia distorcida e mercantilizada do trabalho". Caso contrário, os quadros éticos devem ser alinhados "com padrões compartilhados de justiça social". Por outro lado, como Leão XIV escreve na Encíclica Magnifica Humanitas, "os que controlam a IA imporão sua própria visão moral, que poderá se tornar uma infraestrutura invisível dos sistemas". Isso comportaria uma "concentração de poder sobre as principais aplicações da IA nas mãos de poucos, que poderia suscitar sérias preocupações éticas". Tutelar os trabalhadores Em terceiro lugar, “é necessária uma tutela sólida dos direitos dos trabalhadores" para acompanhar o progresso tecnológico. Por isso, o Papa, na Magnifica Humanitas, nos exorta a partir sempre da "dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração adequada e de uma oportunidade efetiva de participação na vida social", se considerarmos "as diversas formas de precariedade, a fragmentação das carreiras profissionais e a automação". Além disso, o diplomata do Vaticano cita outra questão urgente, levantada pelo Pontífice: "Devemos recordar que os trabalhadores são frequentemente forçados a se adaptar à velocidade das máquinas, ao invés das máquinas serem projetadas para ajudar os trabalhadores". Atenção aos trabalhadores mais vulneráveis Em quarto lugar, "deve-se dar maior atenção aos trabalhadores mais vulneráveis e às suas condições", visto que existem mais de 150 milhões de "trabalhadores de dados" em todo o mundo, segundo o Banco Mundial. Por este motivo, deve-se incentivar o Comitê para a definição dos padrões. Aproveitar os benefícios da IA Por fim, em quinto lugar, é preciso "aproveitar os benefícios reais da IA", a fim de reduzir a exposição dos trabalhadores a "tarefas perigosas, degradantes ou monótonas, mas reforçar a segurança e tutelar melhor a saúde ocupacional". A seguir, o Arcebispo Balestrero destaca: "Os sistemas da IA não são completamente neutros, mas podem incentivar a participação e promover a justiça, como também aumentar a desigualdade, o controle e a exclusão". Portanto, devem haver "sistemas adequados de proteção social, incluindo níveis mínimos abrangentes de proteção social, e programas de aperfeiçoamento e requalificação profissionais". Diálogo social para as decisões sobre a IA Por fim, o Observador permanente conclui: “Hoje, a responsabilidade é garantir que o futuro do trabalho esteja ao serviço da pessoa humana e não o contrário". E reitera a esperança do Papa Leão XIV de "uma gestão coordenada, a nível local e global da IA, baseada no reconhecimento partilhado da dignidade inerente e das liberdades fundamentais da pessoa humana", que seja desenvolvida com "um autêntico diálogo social", levando em conta o impacto sobre todos os povos, que sejam envolvidos nas decisões relativas à IA. Neste sentido, para o diplomata do Vaticano, a “Conferência Internacional do Trabalho poderia dar uma contribuição significativa”.