Carnaval de rua em Lisboa - um evento inclusivo e de paz - Vatican News via Acervo Católico

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Carnaval de rua em Lisboa - um evento inclusivo e de paz - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

Entramos já na Quaresma. Para trás fica o carnaval, fenómeno antropológico e cultural que está a ganhar terreno entre os emigrados. Em Lisboa os grupos afiliados na União dos Blocos de Carnaval de Rua aumentaram. São sobretudo do Brasil, mas abertos a outras nacionalidades. Ângela Coutinho, historiadora e ativista cabo-verdiana/guineense, participou e salienta os aspetos importantes. Já Filinto Elísio lança um olhar histórico-antropológico ao carnaval.

Dulce Araújo - Vatican News Embora estejamos já na Quaresma, o programa semanal "África em Clave Cultural: personagens e eventos", não deixou de pôr em realce, esta semana, o Carnaval como fenómeno sociocultural que tanto ontem como hoje envolve, de forma relevante, a África e os afrodescendentes pelo mundo fora. Basta pensar no maior carnaval de rua da sua história vivido este ano por Lisboa, com o envolvimento de comunidades imigradas, em particular brasileiras, como sublinha em entrevista a historiadora Ângela Coutinho. Africana de origem, ela exprime o desejo de que as comunidades africanas (em particular, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau) se envolvam mais nessa manifestação cultural de carater inclusivo e de paz.  Já o poeta, ensaísta e editor, Filinto Elísio (Rosa de Porcelana Editora) percorre na sua habitual as diversas feições que o carnaval, enquanto fenómeno antropológico tem vindo a tomar ao longo da história.  Crónica  Alguns subsídios sobre o Carnaval e suas perspetivas Hoje, quando se vê para o Carnaval, pensa-se numa forma de expressão cultural em que o corpo, o ritmo e a memória coletiva ocupam o espaço público. Tornado um fenómeno universal, o Carnaval vem saindo dos seus lugares de origem e tornando prática cultural em novos lugares de destino. Tornou-se uma pluralidade e uma diversidade, muito para além da dimensão festiva e que reforça o ideário híbrido ao materializar a ideia humanizadora e ecológica de aldeia global. Não são muito nítidas as origens do Carnaval, entretanto. O que se sabe é que se celebra entre fevereiro e início de março, altura em que, no hemisfério Norte ocorre o fim o Inverno e o começo da Primavera. Associa-se este fenómeno antropológico e cultural aos rituais da fertilidade e da abundância. Tem provavelmente parentesco às celebrações do Antigo Egito integrando festejos, disfarces, consumo extraordinário de carnes e de vinho. E com as festividades da Roma Antiga, em tributo a Saturno. Da perspetiva religiosa, o Carnaval é um instante de disfuncionalidade, mas que pode ser percecionado como um rito de passagem das comunidades que marca o tempo entre o consumo de carne e a abstinência. Com o advento da Era Cristã e a supremacia da Igreja Católica, passou a fazer parte do calendário religioso, indo do Sábado Gordo à Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma. Nas sociedades mercantis e esclavagistas, antigas colónias europeias da África e da América Latina, o Carnaval é um fenómeno sincrético que mistura a memória da imposição cultural, a repressão colonial e a resistência cultural dos africanos escravizados e seus descendentes. Atrás da festa de lazer e da folia, há um mecanismo cultural e sociológico de alívio de tensões, expressão identitária e negociação. No Brasil, por exemplo, durante muito tempo a elite, por herança do Entrudo português e das mascaradas italianas, festejava o Carnaval em bailes privados, enquanto a maioria da população negra, mestiça e pobre, de reminiscência africana, ocupava as ruas, criando cordões e ranchos, que posteriormente evoluíram para as escolas de samba. Neste que é o maior Carnaval de massa do mundo, subjaz a memória das Congadas e Reis do Congo, com os tais "Cortejos de Reis do Congo", onde escravizados e os seus descendentes exaltavam rainhas e reis negros, simulando a nobreza africana e desafiando a hierarquia colonial. Fenómeno igual com as Tabancas, na ilha de Santiago, em torno de comunidades de resistência cultural. Tanto que eram proibidas em Cabo Verde, durante o período colonial. Este fenómeno de Carnaval crioulo pode ser identificado nalguns países da América Latina e da África, assim como das Caraíbas e no seio da Diáspora Africana. Da perspetiva antropológica, esse Carnaval sincrético é encarado como um estado "liminar" e um período de "entre lugar", que implica um ritual complexo da inversão social, da abolição de identidades fixas e da renovação cultural. Hoje, em termos de uma perceção mais recortada, pensa-se no “Atlântico Negro”, de Paul Gilroy, um vasto transterritório simbólico onde a diáspora africana, a Norte e a Sul, e através das diásporas africanas, reinventa práticas, espiritualidades e linguagens de resistência. O Carnaval deixou de ser apenas herança europeia e africanas, passando algo mais híbrido, onde a celebração converte-se em identidade, política e liberdade.

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