Conectados, mas sozinhos: o impacto da Inteligência Artificial na vida dos jovens - Vatican News via Acervo Católico

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Conectados, mas sozinhos: o impacto da Inteligência Artificial na vida dos jovens - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

Especialistas alertam para riscos como dependência emocional, solidão e perda do discernimento, enquanto a Encíclica Magnífica Humanidade propõe uma reflexão sobre o uso ético da tecnologia.

Matheus Macedo “Confesso que demorei um pouco pra ceder. Fui resistente e no começo não tinha interesse. Principalmente por ser jornalista, existe em mim esse sentimento de que preciso provar que ainda somos úteis para a sociedade, e que a IA não pode nos substituir. Mas percebi que se usarmos com cautela, ela pode nos ajudar sem nos “emburrecer”. Hoje ela faz parte da minha rotina para ajudar nos estudos.” Esse é o relato de Maria Regina Mouta, de 25 anos, a respeito de sua relação com a Inteligência Artificial. A experiência dela reflete uma realidade cada vez mais comum entre os jovens, que convivem diariamente com tecnologias capazes de oferecer respostas instantâneas para quase tudo.  De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, divulgados em agosto de 2024, cerca de 88% da população com 10 anos ou mais de idade no Brasil utilizaram a internet em 2023, ante 87,2% em 2022.  A pesquisa revelou que o grupo de 10 a 13 anos registrou 84,2% de usuários. Esse percentual cresce sucessivamente até alcançar o pico de mais de 96,3% de usuários no grupo de 25 a 29 anos.   Um estudo de 2013, realizado pela União Internacional das Telecomunicações, órgão da ONU, já indicava o Brasil como a quarta maior população do mundo de “nativos digitais”, ou seja, jovens que nasceram em um mundo onde a internet já existia. Para o jornalista Ronnaldh Oliveira, especialista em juventude e comunicação digital, essa hiperconectividade tem impactos reais na forma como os jovens se relacionam, aprendem e compreendem a própria realidade. Segundo ele, a inteligência artificial representa um avanço significativo para a sociedade, mas também exige mudanças profundas nos hábitos e na forma de lidar com o conhecimento. "A inteligência artificial muda uma forma de existir, ela muda uma forma de se relacionar com o outro, na forma de nos entendermos pessoa", afirma.  Em meio a essas transformações, o especialista alerta para um fenômeno cada vez mais presente: a busca por respostas imediatas e a dependência crescente das ferramentas digitais para tarefas que antes exigiam pesquisa, reflexão e diálogo. A percepção é compartilhada por Maria Regina. Embora utilize a inteligência artificial para auxiliar nos estudos, organizar viagens e esclarecer dúvidas do dia a dia, ela acredita que a sociedade tem se acostumado à lógica da instantaneidade. "Ninguém tem mais paciência para esperar uma resposta demorada ou pesquisar em vários sites, muito menos em livros físicos. A IA entrega tudo mastigado, mas nem sempre é confiável. Como jornalista, aprendi a checar tudo sempre", afirma. Para Ronnaldh Oliveira, o desafio vai além da praticidade oferecida pela tecnologia. Ele observa que muitos jovens têm recorrido à inteligência artificial não apenas para buscar informações, mas também para encontrar aconselhamento, apoio emocional e validação pessoal. “Muitos jovens utilizam a inteligência artificial como terapeutas, psicólogos e como melhores amigos”, alerta. Quando a tecnologia se torna companhia  Uma pesquisa do Pew Research Center com adolescentes norte-americanos de 13 a 17 anos revelou que a maioria dos entrevistados utiliza chatbots de inteligência artificial. Os dados revelam que mais da metade dizem usar chatbots para buscar informações (57%), ou obter ajuda com tarefas escolares (54%). Porém os números que chamam atenção são a respeito do número de adolescentes que usam essas ferramentas para conversas informais (16%) ou dizem ter usado para obter apoio emocional ou conselhos (12%). Na avaliação de Ronnaldh Oliveira, a adolescência e a juventude são períodos em que as pessoas buscam compreender quem são, qual o sentido da própria vida e quais caminhos desejam seguir. É também uma fase de questionamentos sobre valores e referências recebidos ao longo da infância.  Para ele, a ausência de pessoas que acompanhem esse processo pode levar muitos jovens a buscar na inteligência artificial respostas para questões que exigem diálogo, convivência e discernimento. O especialista alerta que essa realidade pode gerar dependência emocional e intelectual, uma vez que respostas cada vez mais rápidas e acessíveis tendem a substituir processos de reflexão que demandam tempo e amadurecimento.  A solidão em um mundo hiperconectado  Além da dependência emocional e intelectual, Ronnaldh Oliveira chama atenção para um paradoxo da era digital: embora as pessoas estejam cada vez mais conectadas, muitas experimentam sentimentos de isolamento e solidão. “Há um aumento da solidão, ideação suicida entre os jovens, seja por uma dimensão constante de idealização nas redes sociais. E para além de cada post, para além de cada de cada imagem, existem pessoas com sofrimentos, com sonhos, com projetos, com idealizações”.  A falta de clareza de que as redes sociais são um recorte de realidades faz com que milhares de jovens corram o risco do sofrimento, do isolamento e de não se reconhecerem como bons e dignos, ressalta Ronnaldh. “A partir disso, as pessoas perdem aquilo de mais humano que elas possuem, porque elas vão se enquadrando também como máquinas. Vão vivendo como máquinas e vão vegetando a partir de dados”. A perda do discernimento e a cultura da rapidez  Em uma fase da vida marcada pela busca de identidade, propósito e vocação, o discernimento torna-se um elemento fundamental. Para Ronnaldh Oliveira, no entanto, a cultura da rapidez impulsionada pelas tecnologias digitais pode comprometer esse processo. Segundo ele, decisões importantes exigem tempo, reflexão e amadurecimento, enquanto a lógica das respostas instantâneas tende a estimular escolhas cada vez mais superficiais. O especialista destaca que o desafio não está apenas no acesso facilitado à informação, mas na dificuldade crescente de parar, refletir e compreender o próprio caminho. "O discernimento só é possível com tempo. A rapidez pode se tornar uma grande inimiga da compreensão de quem somos e do sentido da nossa vida", afirma. Nesse contexto, Ronnaldh recorda uma reflexão frequentemente apresentada pelo Papa Francisco sobre a necessidade de "samaritanar", ou seja, desenvolver a capacidade de perceber o outro em suas necessidades. Inspirado na parábola do Bom Samaritano, ele ressalta que relações autênticas exigem presença, atenção e disponibilidade. "Todos estavam com pressa, mas o samaritano foi aquele que parou, percebeu e chegou ao coração", explica. Para Ronnaldh, o desafio das novas gerações é aprender a olhar para além das telas e dos algoritmos, reconhecendo que por trás de cada perfil, publicação ou mensagem existe uma pessoa real. "Relações autênticas se dão com tempo e quando reconhecemos que o outro também precisa de nós para ser plenamente humano", conclui. Preservar aquilo que nos torna humanos  Os desafios apontados por especialistas em juventude também têm mobilizado reflexões dentro da Igreja Católica. Diante das transformações provocadas pela inteligência artificial, o Papa Leão XIV dedicou sua encíclica Magnífica Humanidade à defesa da dignidade humana em um contexto marcado pelo avanço acelerado das novas tecnologias.  De acordo com Pe. Jerfferson Amorim de Souza, SJ, assessor da Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental da Província do Brasil dos Jesuítas, o Papa  Leão XIV apresenta na encíclica a necessidade de que os avanços e aprimoramentos que temos conseguido como humanidade nesta área sejam colocados a serviço do bem da humanidade. Ele ressalta que para isso faz-se necessário o uso adequado e respeitoso, orientado ao bem e balizado por decisões éticas que tornem a inteligência artificial a serviço da vida humana e do planeta e não apenas fonte inesgotável de recursos que vão para as mãos de uns poucos.  “Daí a importância do tema quando pensamos nos jovens: não se trata apenas de plataformas e aplicativos, estamos construindo uma nova cultura (MH, 135) que vai moldando a vida de todos. Quem está mais inserido neste “novo mundo”, os jovens especialmente, está mais exposto e vulnerável aos desafios que ele apresenta” ressalta.  “Os jovens que estão inseridos no mundo digital podem nos ajudar como humanidade a encontrar os valores e riquezas que esse mundo tem a nos oferecer. Se bem acompanhados e educados (MH 140), podemos construir alianças nas quais aprendemos a decidir bem (MH 140) e a identificar aquilo que pode conduzir à manipulações, violência, desrespeito à dignidade das pessoas (MH 142)”. Para o sacerdote, a reflexão proposta pelo Papa Leão XIV não parte de uma rejeição à tecnologia, mas da necessidade de preservar aquilo que caracteriza a própria condição humana. Em um cenário cada vez mais marcado pela automatização e pela inteligência artificial, a encíclica recorda que existem dimensões da vida que não podem ser reproduzidas por máquinas, como a capacidade de amar, de cuidar, de criar vínculos e de discernir o bem. “A encíclica está justamente centrada naquilo que nos torna humanos. O Papa Leão XIV afirma que nenhum sistema de cálculo gera um coração que se entrega ou uma consciência capaz de discernir o bem”, explica Pe. Jerfferson. Segundo o sacerdote, a preocupação da Igreja está relacionada ao risco de que o aumento das conexões virtuais seja acompanhado pela diminuição dos encontros reais. Por isso, o documento convida os cristãos a valorizarem experiências concretas de convivência, como a vida em comunidade, a mesa compartilhada, a visita aos que estão sozinhos e o serviço aos mais pobres. “A aventura da vida centrada no Evangelho pressupõe a descoberta de que somos amados e a tarefa apaixonada de nos descobrirmos amados junto com outros irmãos e irmãs. Sem encontros verdadeiros, essa tarefa pode ficar comprometida”, ressalta. Inteligência artificial e vida espiritual Os impactos da inteligência artificial também alcançam a dimensão espiritual. Embora reconheça que a tecnologia possa ser utilizada como ferramenta de apoio para estudos, pesquisas e até preparação de conteúdos religiosos, Pe. Jerfferson alerta que a experiência da fé não pode ser reduzida a respostas automatizadas. “Muitos jovens utilizam a inteligência artificial para preparar orações, encontros e reflexões. No entanto, a experiência de Deus é algo que nasce do encontro pessoal, da oração, da escuta e da vivência comunitária”, afirma. Segundo ele, a encíclica reforça que a fé cristã não é fruto apenas da aquisição de informações, mas de uma relação viva com Deus e com os irmãos. Por isso, a tecnologia pode auxiliar processos de evangelização, mas jamais substituir a experiência humana do encontro que transforma a vida. Tecnologia a serviço da humanidade Apesar dos alertas, a Igreja não vê a inteligência artificial como uma ameaça inevitável. Pelo contrário, o Papa Leão XIV reconhece que os avanços tecnológicos podem trazer benefícios importantes para a humanidade quando utilizados de forma ética e responsável. Para Pe. Jerfferson, o desafio está em garantir que essas ferramentas sejam colocadas a serviço da pessoa humana, promovendo o desenvolvimento integral, a justiça social e o cuidado com a Casa Comum. “A inteligência artificial pode ampliar o alcance da evangelização e favorecer novas formas de comunicação da mensagem cristã. Contudo, ela só estará verdadeiramente a serviço da humanidade se contribuir para o encontro, para a dignidade humana e para a construção do bem comum”, afirma. Em uma sociedade cada vez mais conectada, a reflexão proposta pela encíclica convida especialmente os jovens a desenvolverem uma relação equilibrada com a tecnologia. Mais do que aprender a utilizar ferramentas cada vez mais sofisticadas, o desafio é preservar aquilo que nenhuma inteligência artificial é capaz de reproduzir: a capacidade humana de amar, discernir, criar vínculos e encontrar sentido para a própria vida.

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