Dom Anuar: Obediência cristã, um caminho de liberdade interior - Vatican News via Acervo Católico

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Dom Anuar: Obediência cristã, um caminho de liberdade interior - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

“Prometes obediência a mim e aos meus sucessores?”: do poder que domina ao serviço que escuta.

Dom Anuar Battisti - arcebispo emérito de Maringá (PR) Como compreender, no rito de ordenação sacerdotal, a promessa: “Prometes obediência a mim e aos meus sucessores?” Ao que o ordinando responde: “Sim, prometo”. Esta resposta não é a assinatura de um contrato de servidão, mas a entrega livre da própria vontade a Deus através da Igreja. Contudo, vivemos um momento de dor e sofrimento descabido nas relações entre bispos e padres. É urgente uma reflexão e uma inflexão profunda: a hierarquia não existe para o desmando, mas para a comunhão e o serviço. A obediência cristã sempre foi compreendida como um caminho de liberdade interior, nunca como submissão cega. O clérigo procura viver uma obediência que o deixa “livre para servir”. Desde os primeiros séculos, obedecer (do latim ob-audire) significava escutar ativamente a vontade divina. A história, porém, também conheceu a patologia da subserviência. Esta nasce quando a liberdade é sufocada, quando o medo substitui o discernimento e a autoridade assume formas de controlo. A subserviência fere a dignidade humana; a obediência autêntica, alicerçada no amor e no diálogo, enobrece-a. A Sagrada Escritura ensina-nos que a unção do cargo não confere infalibilidade técnica ou moral ao líder. A grande virtude de quem lidera é a capacidade e a humildade para perceber os seus erros e aprender com os seus liderados. * Moisés e Jetro (Êxodo 18): Moisés, o grande libertador, estava a centralizar todo o julgamento do povo, esgotando-se a si mesmo e aos outros. Foi o seu sogro, Jetro — alguém fora da liderança direta —, quem o advertiu: "Não é bom o que fazes". Moisés teve a humildade de escutar e delegar, aprendendo que a estrutura deve servir o povo, e não oprimi-lo. * David e Natã (2 Samuel 12): Quando o Rei David abusou do seu poder absoluto para possuir Betsabéia e eliminar Urias, foi o profeta Natã, um súdito, quem o confrontou. A grandeza de David não esteve na ausência de erro, mas em ter um coração capaz de se arrepender profundamente ao ser corrigido por um liderado. * A Truculência de Roboão (1 Reis 12): O exemplo trágico de como a hierarquia pode ser desobedecida devido à truculência do líder. Ao ignorar o conselho dos anciãos e optar pela tirania contra o povo ("o meu pai castigou-vos com açoites, eu castigar-vos-ei com escorpiões"), Roboão causou o cisma do reino. A tirania do líder que não escuta é a semente da ruína e da divisão do rebanho. O Papa Francisco, que nos deixou em abril de 2025, transformou a compreensão contemporânea da autoridade ao denunciar o clericalismo como uma perversão na Igreja. Em 2015, ele cunhou a poderosa imagem da "Pirâmide Invertida", afirmando que, na Igreja de Cristo, “o topo encontra-se abaixo da base”. A autoridade, na perspetiva sinodal por ele iniciada, não emana de um comando solitário, mas da capacidade de escutar o Povo de Deus. Hoje, sob o pontificado do Papa Leão XIV, somos chamados a consolidar esta herança. O atual pontífice tem sido incisivo sobre o papel do episcopado, combatendo o autoritarismo. Como o próprio Papa Leão XIV já advertiu, "o bispo não deve ser um pequeno príncipe sentado no seu reino". Pelo contrário, a sua vocação autêntica exige que seja humilde, que esteja próximo das pessoas a quem serve e que caminhe com os seus padres. Um bispo que não é capaz de aprender com o seu presbitério parou de pastorear e limitou-se a gerir poder. Neste tempo de revisão de vida, o chamamento ao Evangelho é claro: "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1, 15). A promessa sacerdotal ganha o seu sentido pleno quando o bispo compreende que a sua função é garantir a unidade, promover a participação e valorizar os dons, e não exigir submissão acrítica. Uma comunidade marcada pela subserviência enfraquece, perde a criatividade e distancia-se da alegria do Espírito. Uma Igreja que vive a obediência como um caminho de amor, de escuta mútua e de corresponsabilidade torna-se mais forte, profética e verdadeiramente livre.

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