À propagação do vírus somam-se a desinformação e a insegurança que assolam o leste do país africano há anos. De acordo com uma pesquisa da ActionAid, apenas 34% dos entrevistados nas áreas afetadas conseguem identificar corretamente como o Ebola é transmitido. Uma parcela significativa da população continua encarando a doença como um fenômeno espiritual ou um esquema inventado para obter dinheiro.
Guglielmo Gallone – Vatican News Esta é a terceira vez numa semana que grupos de jovens invadiram estruturas de saúde que combatem o Ebola no leste da República Democrática do Congo. Eles querem saber o que aconteceu com seus parentes falecidos, pedem a devolução dos corpos e desafiam os rígidos procedimentos impostos pelas autoridades para conter a disseminação da doença. O episódio mais recente ocorreu na noite de domingo no Hospital Geral de Mongbwalu, na província de Ituri, onde médicos e enfermeiros foram obrigados a evacuar pacientes e funcionários enquanto tiros eram disparados do lado de fora. A cena ilustra não apenas a gravidade da nova epidemia que atinge o país africano, mas também o clima de medo, desconfiança e tensão que acompanha a resposta do sistema de saúde. Últimos dados da RDC A epidemia continua se expandindo. De acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Saúde congolês, os casos suspeitos ultrapassaram 900, dos quais 101 foram confirmados em laboratório, e pelo menos 119 mortes suspeitas ocorreram. O surto da variante Bundibugyo afeta atualmente as províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul. Mais de 1.800 contatos que precisam de monitoramento foram identificados, mas a taxa de vigilância permanece baixa. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que o epicentro da epidemia coincide com uma das áreas mais vulneráveis do país: em Ituri, quase cinco milhões de pessoas vivem num contexto de conflitos, uma a cada quatro pessoas precisa de assistência humanitária e uma a cada cinco está deslocada. A violência e os constantes deslocamentos populacionais dificultam o rastreamento de contatos e a identificação imediata de novos casos. O drama da desinformação À propagação do vírus somam-se a desinformação e a insegurança que assolam o leste do país africano há anos. De acordo com uma pesquisa da ActionAid, apenas 34% dos entrevistados nas áreas afetadas conseguem identificar corretamente como o Ebola é transmitido. Uma parcela significativa da população continua considerando a doença um fenômeno espiritual ou um esquema construído para obter dinheiro. Ngone Ngobba Jean Claude, morador de Lita, disse à ActionAid que "as pessoas não conseguem acreditar nessa doença. Alguns a chamam de satânica, outros pensam que foi inventada para ganhar dinheiro. Outros ainda afirmam que os médicos estão mentindo, enquanto alguns acreditam que beber bebida alcoólica muito forte torna a pessoa imune à infecção". Isaac, professor da Escola Primária Nyama, disse que "aqui, psicologicamente, estamos muito afetados, muito ansiosos, porque assim que alguém tem dor de cabeça, imediatamente pensamos que pode ser o vírus Ebola. Sentimos-nos inquietos em todos os lugares, tanto em nossas famílias quanto na comunidade. O medo reina em todos os lugares". Contágio nas zonas de guerra Entretanto, a infecção também chegou ao Kivu do Sul, onde novos casos foram confirmados numa área já instável devido à presença de grupos armados, incluindo os rebeldes da AFC/M23. Para as organizações humanitárias, o desafio não é apenas conter o vírus, mas também garantir o acesso às comunidades, combater as notícias falsas e agir num território onde a guerra continua dificultando todas as intervenções de saúde. Perante a propagação da infecção, o governo congolês anunciou novas iniciativas diplomáticas para garantir o acesso seguro às áreas afetadas.