A história da superiora geral das Irmãs Antoninas Maronitas, que sentiu na própria pela as feridas infligidas à sua terra por décadas de conflito, é contada na edição de junho de "Donne Chiesa Mondo", a revista mensal do L'Osservatore Romano.
Por Lidia Ginestra Giuffrida No subsolo do Colégio Notre Dame em Hazmieh, Beirute, enquanto as bombas caem tão perto que fazem as paredes tremerem, a Irmã Nazha El Khoury não pede às crianças que fiquem quietas. Ela pede que falem. "Repitam comigo", diz ela, guiando-as pelo corredor. Algumas choram, outras se agarram ao seu hábito. As palavras são simples, rítmicas: uma oração, uma frase reconfortante, algo para prender a respiração. Naquele momento, a guerra não desaparece, mas muda de som. Não é mais apenas uma explosão: é uma voz compartilhada. É nesta imagem de 1983, guardada pela Irmã Nazha entre suas memórias mais preciosas, que entendemos quando e como, no Líbano, uma mulher pode começar a reparar um conflito: quando as palavras não apagam o medo, mas o penetram e o transformam em relação. Hoje, enquanto o país vivencia mais uma Sexta-Feira Santa em sua história, a irmã Nazha, superiora geral das Irmãs Antoninas Maronitas, continua sendo um ponto de referência em uma Beirute ferida, coordenando com coragem e clareza as missões no Sul, em Rmeich, Debel e Nabatieh. A sua é uma história de "adaptação e resistência", enraizada no que ela mesma chama de "Éden disputado": "um jardim de oliveiras e vinhedos" onde a paz permanece um bem frágil, a ser defendido com obstinação contra qualquer lógica de opressão. Sua capacidade de manter as coisas unidas nasceu longe das linhas do front. Nazha nasceu em um vilarejo no norte do Líbano, Kfarchekhna, cujo nome em siríaco significa "morada da calma". Ela cresceu em uma família maronita onde a palavra nunca era vã, mas uma missão quotidiana. Seu pai era o sacerdote do vilarejo, um homem piedoso que considerava seus paroquianos como seus próprios filhos; sua mãe era uma mulher sábia, silenciosa, mas dotada de uma determinação inabalável. "A Missa diária era parte integrante da nossa vida familiar. Eu admirava a dedicação do meu pai e a fé da minha mãe. Para ambos, a paróquia vinha antes da família", diz a religiosa. Esse legado espiritual a preparou para uma vida difícil, na qual a palavra era frequentemente abafada pelo barulho das armas. Em 1967, os primeiros bombardeios israelenses no sul; em 1973, confrontos entre milícias palestinas e o exército libanês, que a impediram de concluir o ensino médio; em 1976, a primeira fase da guerra civil, que coincidiu com sua primeira missão em Nabatieh, onde ficou presa. "Entre 1977 e 1989, quando eu era estudante em Beirute, caminhávamos sob bombas. Uma colega minha foi morta por um franco-atirador bem na entrada da universidade. Tínhamos que atravessar a lama dos jardins para evitar os franco-atiradores", conta ela. É nessa lama, metafórica e real, que a Irmã Nazha aprendeu a neutralizar a violência por meio de sua dedicação à Palavra de Deus. "Eu sempre dizia para mim mesma: 'Se o Senhor ainda me quiser, ele me protegerá'." Nunca falhei em nada por medo. Sempre tive certeza de que o que me era pedido era para a glória de Deus e a salvação da humanidade. Em 1983, como diretora de estudos no Notre Dame College em Hazmieh, essa prática tornou-se diária: sua voz tornou-se o instrumento para reconstruir diariamente o tecido social que a guerra tentava desfazer. Naquelas salas fechadas, suas palavras não apenas organizavam: elas recompunham. Mantinham alunos e professores unidos, restaurando a continuidade de uma comunidade que a guerra civil tentava fragmentar. "Eu tinha que criar o horário das aulas todos os dias com base na presença ou ausência de alunos e professores. Quando havia bombardeios, eu levava as crianças para o abrigo no subsolo." Elas se sentiam seguras perto de mim, e tínhamos aulas lá." Suas palavras nunca foram um instrumento de poder, mas sim um gerador de significado. Hoje, como superiora, seu papel se estendeu a todo o Líbano: Nazha coordena, ouve, apoia e usa suas palavras para proteger suas companheiras freiras que escolheram não abandonar a linha de frente. "As irmãs em Nabatieh foram forçadas a deixar a escola. Elas abriram as janelas para escapar da pressão das bombas e fecharam as portas em lágrimas", conta Nazha com voz firme. "Quanto às irmãs em Debel e Rmeich (no extremo sul do país), eu ligo para elas todas as manhãs e todas as noites. Assim que leio sobre um bombardeio, disco o número. Eu as confio ao Senhor e agradeço por sua segurança." Sempre recordo a elas para serem prudentes e sábias." Esta rede invisível de telefonemas, sussurros e orações é um ato de pura resistência: uma voz feminina que, apesar do isolamento, confirma à outra que a vida continua a nascer. A irmã Rita Eid, a irmã Gerard Merhej, a irmã Josephine Khachan e a irmã Joumana Samara permaneceram no sul sob os bombardeios mais intensos e em completo isolamento do resto do mundo após a destruição das pontes que permitiam a passagem sobre o rio Litani. O seu dia não reproduz o ruído da guerra; em vez disso, gera silêncio e reflexão através da leitura espiritual, do Rosário e da adoração do Santíssimo Sacramento. A presença das Irmãs Antoninas Maronitas no sul é muito importante para os seus habitantes, porque os faz sentir mais seguros. "Partilhamos as suas alegrias e tristezas e participamos na Missa paroquial com eles. Continuamos a acompanhar de perto o progresso acadêmico dos nossos alunos pelas aulas on-line ministradas pelos nossos professores, garantindo a continuidade da sua aprendizagem apesar das circunstâncias difíceis”, afirmam as irmãs, “nos sentimos isoladas porque os povoados vizinhos se esvaziaram e tememos que a estrada para Beirute fique completamente bloqueada. Achamos a situação insuportável, mas optamos por ficar aqui, em parte por obediência e em parte porque os habitantes estão aqui e estamos numa missão por eles e com eles. Vamos ficar juntos e partilhar o seu destino." Depois da última escalada entre Israel e o Hezbollah, de fato, os vilarejos fronteiriços cristãos permaneceram completamente isolados. Estas mulheres constituem hoje um mosaico de resistência que a Irmã Nazha cuida a partir de Beirute. Quando a irmã Nazha desliga o telefone à noite, aquele fio não se interrompe. Ela continua numa oração mais pessoal, quase uma conversa: “Recorro a Deus com base nos meus sentimentos, principalmente quando estou preocupada com os meus entes queridos”. Mais uma vez, é com as palavras que atravessa o conflito. O Líbano, para estas religiosas, é “como um cedro”: não morre e, se morre, ressurge como a fênix das próprias cinzas. Nesta imagem há uma promessa, mas também uma prática diária: consertar sem complicações, manter unido o que está rasgado. A sua palavra, capaz de desarmar o ódio e gerar resiliência, é a força que impede que esta terra se torne deserta. "Se eu morrer fora do país, quero que as minhas cinzas sejam espalhadas no Líbano. Levo o Líbano dentro de mim”, sussurra novamente Irmã Nazha. Nesta lealdade obstinada não há apenas resistência. Há um trabalho de recomposição contínuo, quase invisível. Estas mulheres não podem parar a guerra. Mas, palavra após palavra, impedem que ela se torne a única linguagem possível.