Na Terra Santa, a guerra não acabou, apesar da trégua anunciada. O grito de dor da população martirizada que pede salvação.
Ibrahim Faltas - Responsável pelas escolas da Custódia da Terra Santa Uma menina chora desesperadamente, seu rosto toca o chão molhado também por suas lágrimas, parece abraçar o túmulo de seu pai para receber o calor daquele que lhe foi roubado e que ela não pode mais abraçar. O pai dessa menina esperava poder continuar sendo um apoio para sua família e morreu, morto durante a trégua que poderia levar ao fim de uma tragédia. Essa ainda é a imagem de Gaza, isso ainda acontece em Gaza. A esperança não abandonou aqueles que sobrevivem há dois anos e meio à loucura da violência: todos nós acreditamos em um projeto de paz verdadeiro e possível. A guerra, porque insistimos em chamá-la de guerra, não acabou na Terra Santa. Os bombardeios não acabaram, os alimentos não chegaram, os medicamentos vitais não foram distribuídos, as tendas não foram montadas, não foi possível salvar vidas devido à falta de hospitais e profissionais de saúde. A trégua anunciada não trouxe os resultados desejados no caminho da paz: desde outubro, diminuíram os mortos e aumentaram os feridos nos corpos e nas almas daqueles que sofrem em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém. O compromisso assumido pela comunidade internacional há mais de quatro meses não produziu ações decisivas para a paz. Quem deseja a paz, quem respeita a vida, age para chegar mais rapidamente àqueles que não têm mais nada e trabalha para dar alívio, ajuda e salvação àqueles que perderam a esperança da paz. Enquanto se organizam conselhos de administração e se recolhem adesões a instrumentos comerciais, as pessoas continuam a morrer em Gaza. Enquanto se estuda como eliminar a enorme quantidade de escombros que soterraram corpos, histórias e memórias, são atingidos os familiares que escavam com as mãos nuas o que resta das suas casas para procurar os corpos dos seus entes queridos. Na Cisjordânia e em Jerusalém, tenta-se sobreviver a tantas limitações e dificuldades, tenta-se proteger e salvaguardar os locais de origem que pertencem a gerações desde tempos imemoriais, enquanto novos e desconhecidos proprietários se apropriam dessas casas e desses terrenos graças a documentos recém-impressos e leis recém-promulgadas que não respeitam a vida e a história de um povo. Quem deseja a paz não pode aceitar que uma criança, a quem já foi negada a serenidade da infância e que precisa de ajuda e proteção, tenha que enterrar quem lhe deu a vida. A verdade da paz não pode ser enterrada com aquele pai amado e com os muitos mortos inocentes de Gaza. A esperança da paz não pode ser enterrada por quem provoca injustiças e discriminações na Terra Santa. A cumplicidade da indiferença e do silêncio não deve enterrar a verdade e a justiça. “Pedi paz para Jerusalém” não é apenas um convite do salmo para rezar pela paz na Terra Santa, é o pedido de paz para uma terra martirizada que continua a sofrer e não tem mais voz para pedir paz. Pedir paz para a Terra Santa é respeitar a dignidade da vida e diz respeito a todos os seres humanos em todos os cantos do mundo. Haverá paz no mundo quando as lágrimas de uma criança não molharem a terra que esconde o corpo de um pai, haverá paz no mundo quando cada criança, como aquela menina que chora desesperadamente, tiver o calor de um lar, comida, cuidados e tiver um sorriso para lembrar o amor e o abraço de seu pai, morto durante a trégua que ainda não trouxe paz a Gaza.