Leão XIV continua sua visita na Espanha. Depois de mais de três dias em Madri, iniciou seu encontro com a Igreja de Barcelona, onde Antônio Gaudí, que neste 10 de junho completa 100 anos da sua morte. Uma data em que será abençoada a Torre de Jesus Cristo, a mais alta do templo da Sagrada Família e do mundo.
Padre Miguel Modino - Madri Antes de pegar a ponte aérea, nome como é conhecido na Espanha o voo entre Madri e Barcelona, o Papa encontrou os voluntários que se doaram em Madri “por amor ao Senhor, à Igreja e ao Papa”, segundo ele mesmo afirmou. É por isso que não duvidou em dizer: “Muito obrigado de coração!” O Santo Padre lembrou aos voluntários e voluntárias: “vocês pegaram folga no trabalho, alguns de vocês tem se dedicado a tempo completo durante messes, mas cada um de vocês tem dado o que tem podido, entregando coração, mãos, ideias, talentos, sorrisos”. Sabemos que hoje a gratuidade está em risco, mas os católicos somos desafiados a mostrar que somos felizes colocando a gratuidade como princípio vital. Leão XIV desafiou os presentes na Feira de Madri (IFEMA) a “levar ao mundo o fermento da gratuidade”, a dar testemunho que podemos fazer as coisas sem esperar nada em troca. Dar o melhor de cada um de nós é um modo de evangelizar. Isso “faz crescer a qualidade humana, ética e espiritual de uma sociedade, porque poderíamos dizer que esse é rasgo típico da ‘cidade de Deus’”, destacava o Papa agostiniano, inspirado na reflexão do santo de Hipona. Ele denunciou a “lógica do interesse e do lucro”. Frente a isso, assumir a lógica do Evangelho ajuda a construir “o Reino do amor, da justiça, da paz”. Uma atitude que o Papa salientou entre os voluntários e voluntárias. Um sentimento de gratidão que tem sido recíproco, segundo mostrou o arcebispo de Madri, cardeal José Cobo em nome da Igreja que ele pastoreia. Ele agradeceu ter vivido “uma experiência de Igreja missionária e em comunhão”, ver que “a Igreja vive quando serve, quando se entrega e quando o faz unida, olhando juntos o mesmo horizonte missionário”. Por fazer possível “o milagre do encontro, da acolhida e da comunhão”. Por contemplar nos voluntários e voluntárias «a fase mais linda da Igreja: umas mãos que servem com alegria”. Caminhar juntos O primeiro ato do Papa em Barcelona aconteceu na Catedral, onde ele fez, falando em castelhano e catalão, um chamado a “caminhar juntos, todos, fiéis e Pastores”, à unidade, uma constante nesta visita e no pontificado. Ele pediu “difundir em nossos ambientes, nas famílias, nas paróquias, nos espaços de trabalho e de formação, nos ambientes da Cúria e em qualquer outro âmbito da vida: em clima de família, vivendo juntos, cientes da filiação e do chamado comum, solidários, abertos, capazes de misericórdia, de sacrifício, de atenção recíproca, de perdão”. O Papa insistiu na necessidade de “construir harmonia e comunhão, além da polarização”. Junto com isso destacou o trabalho de formação e caridade. Fazer isso como corpo, sabendo que tem membros mais fortes e mais fracos, salientando que “somos mais fortes porque estamos unidos” no mesmo Espírito. Daí o reconhecimento dos barceloneses como construtores de unidade, de acolhida, de concórdia e de paz. Vigília no Estádio Olímpico De tardinha iniciou uma vigília com quarenta mil pessoas no Estádio Olímpico. Ele abordou a importância do fenómeno dos numerosos jovens e adultos que tem redescoberto a fé, “outra água para nos saciar mais profundamente”. Também sobre a necessidade de dar valor às coisas importantes, de colocar a pessoa no centro, de uma vida mais humana, aberta ao encontro com Deus, que deve ser buscado na realidade onde nos encontramos. Diante do sofrimento, destacou a importância de se levantar e retomar o caminho. O Papa criticou as pressões, expectativas e tensões que comprometem o equilíbrio. Leão XIV fez um chamado a não espiritualizar a dor. Junto com isso, refletiu sobre a violência nas relações familiares, especialmente o feminicídio. Um sinal do triunfo do egoísmo e do ódio, da necessidade do perdão como um processo, como medicina para superar o mal e sarar as feridas interiores, para nos reconciliar “com nós mesmos e com essa parte da nossa história marcada pelo sofrimento”. Ele sublinhou que “no perdão se avança com pequenos passos”, para chegar a nos relacionarmos com Deus e com os outros. Finalmente, o Santo Padre abordou a questão da busca continua “em vista de um significado pleno que nos sustente, nos anime e nos ajude a compreender o mistério da nossa vida”. Ele animou a “dialogar com a penumbra de nossa condição humana”, em vista de uma luz que ilumine o caminho diante da noite da fé, a fadiga de crer e o cansaço do espírito, a amargura dos fracassos e o medo a não ser capazes. Voltar ao essencial Leão XIV vê a noite como oportunidade para renascer, para nos despojar e nos devolver ao essencial; “nos tirarmos as máscaras humanas e religiosas que usamos durante o dia, para não sermos reconhecidos o dar uma imagem de nós diferente daquilo que nós somos”. Ele chamou a não julgar as noites da nossa vida, da Igreja e da sociedade, e nos colocarmos em caminho para descobrir a noite como caminho de vida nova. Daí a necessidade de se questionar pelas noites presentes em volta de nós, de “caminhar juntos na fé que harmoniza a diversidade de nossas ideias e sensibilidades, para buscar a sensibilidade que nos guia ao bem comum, para que este país seja um espaço acolhedor para todos, onde cada um é respeitado em sua dignidade de pessoa e amado por aquilo que ele é”.