A preocupação com a violência contra a mulher também tem sido destacada pela Igreja Católica.
Camila Morais - Vatican News A violência contra a mulher tem ocupado cada vez mais espaço no debate público brasileiro. O aumento das denúncias, a ampliação das redes de proteção e a mobilização de instituições da sociedade civil, do poder público e da Igreja revelam uma crescente preocupação com uma das mais graves violações de direitos humanos da atualidade. Nesse contexto, o lançamento do livro "A Violência Contra a Mulher em Mato Grosso", da pesquisadora e doutora Mireni de Oliveira Costa Silva, surge como uma importante contribuição para a reflexão e o enfrentamento dessa realidade. A obra é resultado da pesquisa de doutorado desenvolvida pela autora na Universidade de Marília (UNIMAR), em São Paulo, e reúne anos de estudo sobre as políticas públicas de combate à violência contra a mulher no estado de Mato Grosso. O livro analisa o papel do Estado na proteção das vítimas, os mecanismos institucionais de prevenção e enfrentamento e os desafios que ainda persistem para garantir segurança, dignidade e acesso à justiça. Mais do que um trabalho acadêmico, o estudo nasce de uma motivação pessoal. A autora relata que sua mãe foi vítima de violência na década de 1970, período em que praticamente inexistiam políticas públicas estruturadas, serviços especializados ou espaços de acolhimento para mulheres em situação de violência. A experiência familiar inspirou uma trajetória de pesquisa marcada pelo compromisso social e pela busca de respostas capazes de contribuir para a transformação dessa realidade. Ao longo da obra, Mireni destaca que a violência contra a mulher não pode ser compreendida como um fenômeno isolado. Trata-se de um problema estrutural, sustentado por desigualdades históricas, relações de poder e padrões culturais que ainda persistem na sociedade brasileira. O livro defende que o enfrentamento dessa violência exige ações articuladas, permanentes e integradas entre os diversos órgãos públicos e instituições responsáveis pela proteção dos direitos das mulheres. A pesquisa abrangeu 75 municípios mato-grossenses e analisou dados referentes ao período de 2017 a 2024. Mato Grosso figura entre os estados brasileiros com os maiores índices de violência contra a mulher e de feminicídio. Um dos aspectos destacados pela autora é que o aumento dos registros de ocorrência não significa necessariamente um crescimento da violência, mas pode indicar um avanço na conscientização social e no fortalecimento das redes de apoio. Segundo a pesquisa, à medida que mais mulheres reconhecem as diferentes formas de violência — física, psicológica, patrimonial, moral e sexual — e encontram canais seguros para buscar ajuda, cresce também o número de denúncias. Esse movimento torna visível uma realidade que durante décadas permaneceu escondida dentro dos lares e silenciada pelo medo, pela dependência econômica ou pela ausência de apoio institucional. A preocupação com a violência contra a mulher também tem sido destacada pela Igreja Católica. Recentemente, em junho de 2025, durante a missa de Pentecostes, o Papa Leão XIV manifestou sua dor diante dos numerosos casos de feminicídio registrados em diversas partes do mundo e alertou para relações humanas marcadas pelo abuso de poder e pela dominação. O pontífice defendeu uma ampla mobilização da sociedade, envolvendo famílias, escolas, comunidades religiosas e instituições públicas, para promover a educação para o respeito, a dignidade da pessoa humana e a prevenção da violência. Sua mensagem reforça que o combate a esse crime exige não apenas medidas de repressão, mas também uma profunda mudança cultural. Nesse cenário, a Igreja Católica tem ampliado iniciativas pastorais voltadas à promoção da dignidade da mulher, ao acolhimento de vítimas e à construção de uma cultura de paz. Em diversas dioceses e comunidades, campanhas educativas, grupos de escuta, projetos sociais e ações formativas buscam orientar famílias, fortalecer redes de proteção e contribuir para a superação da violência de gênero. A conscientização é uma das ferramentas mais eficazes no enfrentamento desse problema. Livros, pesquisas acadêmicas, campanhas educativas e espaços de diálogo ajudam a romper o silêncio, identificar sinais de abuso e incentivar a denúncia. Ao transformar dados e análises em conhecimento acessível, obras como "A Violência Contra a Mulher em Mato Grosso" contribuem para ampliar o debate público e fortalecer políticas voltadas à proteção das mulheres. No Brasil, os números mostram a dimensão do problema. De acordo com o Ministério das Mulheres, o país registrou 1.450 casos de feminicídio em 2024, o equivalente a quase quatro mulheres assassinadas por dia em razão de sua condição de gênero. Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que o número chegou a 1.492 feminicídios no mesmo período, o maior registro desde que o crime foi tipificado na legislação brasileira, em 2015. Os dados revelam que a maioria das vítimas tinha entre 18 e 44 anos, era assassinada dentro de casa e, em grande parte dos casos, o autor era o companheiro ou ex-companheiro da vítima. Ao evidenciar avanços, limitações e desafios das ações governamentais, o livro "A Violência Contra a Mulher em Mato Grosso" reafirma a necessidade de um compromisso coletivo no enfrentamento da violência. Mais do que apresentar números, a publicação convida à reflexão sobre a responsabilidade de toda a sociedade na construção de ambientes mais seguros, justos e humanos para as mulheres..