Ao lado das diversas ciências e dimensões que interpretam a vida em sua integralidade, o Evangelho surge como lume indispensável para o discernimento social. Assim, a atuação católica “brota da caridade evangélica que a impele a aproximar-se das feridas da humanidade quando se manifestam com maior gravidade” (MH 21).
Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. - Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ Ao buscar refletir e propor ações para o mundo contemporâneo, a Igreja reafirma o seu compromisso com a humanidade e demonstra que não é uma instituição aquém da história, porém caminhante lado a lado da família humana. Esse é o cerne do dinamismo do Papa Leão XIV com a nova Carta Encíclica Magnifica humanitas, que se preocupa com a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Isso nos recorda que a Doutrina Social não se trata de uma moral autoritária e anacrônica, mas sim de um corpus vivo construído em sinodalidade com a comunidade de pessoas, uma vez que busca constantemente o bem comum. Ao lado das diversas ciências e dimensões que interpretam a vida em sua integralidade, o Evangelho surge como lume indispensável para o discernimento social. Assim, a atuação católica “brota da caridade evangélica que a impele a aproximar-se das feridas da humanidade quando se manifestam com maior gravidade” (MH 21). O interesse do Sumo Pontífice ao publicar um documento de tal envergadura é interpelar os bispos, as lideranças eclesiais, o povo fiel e, enfim, todas as pessoas de boa vontade a perscrutar com consciência a história. Somos coparticipantes e construtores da realidade — missão confiada ao homem pelo próprio Criador em Gn 2,15 que o coloca no jardim para cultivá-lo — e, para tanto, devemos exercer essa responsabilidade de maneira ética, respeitando o bem comum. Esse discernimento comunitário é fruto da escuta atenta à Palavra e da análise acurada dos saberes humanos que nos aproximam da Verdade. Na certeza de que quem se aproxima da verdade caminha ao encontro do próprio Deus, somos convidados a interrogar os “sinais dos tempos” com a razão expressa na multidisciplinaridade das ciências. Para iluminar essa análise, a Doutrina Social da Igreja evoca seus princípios norteadores essenciais. A pessoa humana guarda dentro de si a marca de uma bondade originária que, embora ofuscada pelo pecado, clama por se fazer viva. “Cada pessoa, constitutivamente feita para a relação, é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação” (MH 50). Tendo isso em vista, a Igreja atua para instruir todos os filhos de Deus a percorrer o caminho da salvação, fazendo amadurecer em cada um o amor e a bondade. Essas virtudes são o reflexo da dignidade ontológica do ser humano, a qual subsiste independente de condições sociais, econômicas ou culturais. O valor intrínseco de cada indivíduo não depende de seus méritos, conquistas quantificáveis ou riquezas, pois é um dom gratuito dado pelo Pai ao chamá-lo à existência. Contemplando essa realidade irredutível da pessoa, identificamos elementos no mundo atual que colocam em risco a incomensurabilidade da criação. A técnica, enraizada na história desde as origens, faz parte da constituição do homem livre e autônomo, dotado de capacidades para cultivar o mundo. Em nível teórico, o desenvolvimento tecnológico não é um mal em si; porém, em nível prático, possui grandes chances de se tornar um mecanismo de exclusão do próprio humano quando desvinculado da dimensão ética. Nesse sentido, a Encíclica constata que sob o pano de fundo ideológico do transumanismo e do pós-humanismo, a quimera de um "homem aperfeiçoado" surge como uma sutil negação da pessoa (cf. MH 116). Ao interpretar a finitude e a vulnerabilidade como meros defeitos a serem reparados pela hibridização com a máquina, essas correntes transformam a fragilidade em erro técnico, gerando o risco iminente de descartar os menos eficientes. A complexidade desse cenário aumenta à medida que as novas tecnologias se concentram em mãos privadas que visam predominantemente ao lucro e ao poder. Como bem denuncia o Romano Pontífice, "em muitos casos, no contexto digital, o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computação não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes sujeitos econômicos e tecnológicos " (MH 95). Há diante disso uma alarmante opacidade algorítmica: as sociedades muitas vezes ignoram sob quais interesses e regras essas arquiteturas invisíveis são programadas. Nesse panorama, as pessoas correm o risco de se tornarem massa de manobra e controle social, uma vez que a inteligência artificial molda silenciosamente as escolhas do cotidiano e do imaginário coletivo. Diante dessa mudança de época, a proposta do Papa Leão XIV demonstra o zelo contínuo da Igreja pelo bem comum. O Papa sinaliza a imperiosa necessidade de "desarmar a IA". Desarmá-la significa superar a lógica predatória da competição geopolítica e comercial, devolvendo as infraestruturas tecnológicas ao estatuto do bem coletivo acessível a todos. Trata-se de colocar a técnica no lugar que lhe é devido: um instrumento precioso de auxílio e cuidado mútuo, e não uma força antagônica que subjuga a liberdade e a consciência humana. O papel da Igreja, portanto, mesmo que incompreendido ou indesejado por setores da modernidade que idolatram a eficiência cega, é o de ser a comunidade que, de forma descentralizada e corresponsável, reconstrói tijolo por tijolo a dignidade do humano. É a atualização histórica do projeto de reconstrução das muralhas de Jerusalém conduzido por Neemias, em clara oposição ao interesse orgulhoso e homogeneizador da Torre de Babel. Assim, a Encíclica nos convoca a contemplar e exaltar a magnífica humanidade recriada em Cristo. Podemos responder a esse chamado abrindo nosso coração à escuta do Espírito de Deus e integrando os conhecimentos com sabedoria. Somente o ser humano, em sua constituição única e relacional, pode congregar em si fé e razão. Que elas sejam, de fato, as duas asas que elevam a nossa consciência ao encontro com a eterna Verdade, impedindo que a beleza do mistério da pessoa humana seja reduzida a meros dados ou objetos do tecnológico.