Magnifica humanitas: texto e contexto entre Leão XIII e Leão XIV - Vatican News via Acervo Católico

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Magnifica humanitas: texto e contexto entre Leão XIII e Leão XIV - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

Salvaguardar a pessoa humana na era da IA não significa, para o pontífice americano, negar as novas tecnologias ou ter uma visão catastrófica sobre o que elas causarão a curto, médio e longo prazo (MH, n. 210). Antes de tudo, é uma questão ética que requer um discernimento prudente e responsável.

Prof. Dr. Anísio Tavares, CSSR - Pontifício Instituto Accademia Alfonsiana - Roma O Papa Leão XIV assinou sua primeira encíclica Magnifica humanitas (MH) no dia 15 de maio de 2026, justamente no dia em que se completaram 135 anos da publicação de Rerum novarum por Leão XIII.  Esse documento de 1891 inaugurou a moderna Doutrina Social da Igreja (DSI) em meio às condições desumanas de trabalho no auge da Revolução Industrial. O Pontífice denunciou profeticamente as injustiças que atentavam contra a dignidade de homens, mulheres e crianças dentro das fábricas, criticou a estrutura laboral orientada exclusivamente ao lucro, defendeu o direito à propriedade privada no horizonte do bem comum e propôs a reconciliação entre as classes sociais. Leão XIII ainda defendeu o direito de associações dos operários e a responsabilidade do Estado na promoção da justiça social. A partir de então, a reflexão se desenvolveu nos sucessivos pontificados, levando a luz do evangelho e sua força profética como critério fundamental de análise dos rumos da humanidade. Destinatários e tema central das duas encíclicas Na encíclica recém publicada, Papa Leão XIV considera e reinterpreta o percurso de mais de um século da DSI em profunda sintonia com o Concílio Vaticano II, dentro da revolução digital em curso. Essa orientação de base mostra nitidamente uma nova postura dialógica em relação ao contexto eclesial de Leão XIII. A lista dos destinatários entre uma e outra encíclica se difere substancialmente. Enquanto a encíclica do sec. XIX era destinada “aos Veneráveis Irmãos, os Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos do orbe católico, em graça e comunhão com a Sé Apostólica”, Papa Leão XIV dirige seu “sentido apelo a todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade” (Magnifica Humanitas, n. 16). O tema das duas encíclica também revela mudanças. Leão XIII assume a condição dos operários como tema central de sua análise. Leão XIV, a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. No final do séc. XIX, a técnica em si não tinha relevância ética no discurso eclesiástico, não aparecendo nem no tema, nem na reflexão ao longo da encíclica de Leão XIII. Leão XIV, ao contrário, ao retomar os princípios essenciais da DSI, evidencia a relevância ética das tecnologias digitais e suas implicações para todos os setores da sociedade. Trabalho, economia e política A sintonia temática entre as duas encíclicas também chama a atenção. O tema mais evidente se refere ao mundo do trabalho. Papa Leão XIV reconhece com muita lucidez os benefícios atuais e as potencialidades da IA para os trabalhadores, sem deixar de denunciar as novas formas de escravidão, inclusive de crianças, presente nas múltiplas fases de construção e treinamento dos sistemas de IA. A negação contundente da escravidão e o pedido de perdão pela demora da Igreja em condenar esse flagelo da humanidade é um dos pontos de grande repercussão da encíclica. Outro tema presente nas duas encíclicas é o da política. Papa Leão o retoma identificando como problema central não mais uma luta de classes, mas a guerra de dimensões alarmantes em uma conjuntura global na qual o multilateralismo se esfacela em multipolarismos (MH, n. 201-209). No regime da polarização política global, impulsionado pelas fake news e deepfakes, prevalece a imposição das poucas superpotências mundiais que avançam desrespeitando soberanias nacionais pela imposição da força. Na crise sem precedentes da diplomacia, a tecnologia serve aos interesses dos mais fortes para se impor bélica e ideologicamente sobre o mundo. Por isso, Papa Leão XIV afirmou que é necessário desarmar a IA (MH, n. 110).   As crescentes injustiças no campo da economia também são retomadas. A orientação exclusiva ao lucro está na base do poder tecnocrático. Papa Leão XIV constata criticamente como a economia de mercado está atrelada ao poder dos poucos detentores de Big Techs, cujo raio de ação extrapola limites territoriais, governamentais, políticos e jurídicos. Por isso afirma categoricamente que a tecnologia “não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam” (MH, n. 9). A relação entre a economia de mercado e o poder tecnocrático é pontuada ao longo da encíclica como questão ética fundamental em vista do desenvolvimento humano integral. Era da Inteligência Artificial Salvaguardar a pessoa humana na era da IA não significa, para o pontífice americano, negar as novas tecnologias ou ter uma visão catastrófica sobre o que elas causarão a curto, médio e longo prazo (MH, n. 210). Antes de tudo, é uma questão ética que requer um discernimento prudente e responsável que permeie todos os níveis da sociedade sobre a presença, as potencialidades e os desafios reais que a tecnologia digital coloca à humanidade do terceiro milênio. Não se trata apenas de avaliar os sistemas de IA a partir do que podem fazer, mas sobre o que significam e ressignificam nesta mudança de época ao ponto de marcar aceleradamente o início de uma nova era. Assim, uma das relevantes contribuições de Magnifica Humanitas não é ter retomado as origens históricas da DSI, mas ter assumido o necessário e urgente desafio de considerar o que significam hoje bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade e justiça social na era da inteligência artificial. Mas a contribuição de fato essencial, é ter recordado o quanto à humanidade é magnifica. Tal magnificência não é mensurável com categorias de eficiência, mas de consciência de si enquanto portadora de uma dignidade inalienável, o que implica responsabilidade mútua sobre o que estamos fazendo de nós mesmos e da Casa Comum que nos abriga diante de um sério risco de autodestruição. Salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial implica, portanto, um pensamento dinâmico fiel ao evangelho, fundamentado nos princípios da doutrina social da Igreja que ressignifiquem a relação entre técnica e domínio para que verdade, trabalho e liberdade se integrem e direcionem a humanidade para a civilização do amor.

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