Representantes da agência católica alemã de desenvolvimento Misereor visitaram a Khanya House, sede da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC), no âmbito de uma visita ao país realizada de 17 de maio a 6 de junho, para avaliar projetos apoiados através da sua parceria de longa data com a Comissão de Justiça e Paz da SACBC e outros departamentos da Igreja.
Por Sheila Pires, em Joanesburgo Durante um encontro com a Comissão de Justiça e Paz, delegadas do Movimento Jovens Mulheres pela Vida (Young Women For Life Movement) partilharam testemunhos inspiradores sobre a forma como as jovens estão a responder a alguns dos desafios sociais mais urgentes da África do Sul, incluindo a violência baseada no género, a violência doméstica, o HIV/SIDA, a gravidez na adolescência, o abuso de substâncias, o desemprego e a insegurança alimentar. O movimento, criado e apoiado pela Comissão de Justiça e Paz da SACBC, reúne jovens mulheres de diferentes denominações cristãs, capacitando-as para se tornarem líderes e agentes de transformação nas suas comunidades. Representantes de KwaZulu-Natal, Pietermaritzburg, Mpumalanga e Mamelodi apresentaram relatórios que destacaram o impacto do seu trabalho ao nível das comunidades locais. Falando em nome do ramo de KwaZulu-Natal, Mvelo Kubheka descreveu como as jovens mulheres utilizam a permacultura e a agricultura biológica para promover a segurança alimentar, ao mesmo tempo que criam oportunidades de capacitação económica. Através de hortas comunitárias, que vão desde pequenos terrenos familiares até projetos agrícolas de maior dimensão, as participantes fornecem alimentos nutritivos a famílias vulneráveis e geram rendimentos para sustentar as suas iniciativas. Os projetos agrícolas tornaram-se uma importante fonte de sustento para muitas participantes. Durante os dias de mercado comunitário, algumas jovens agricultoras conseguem obter rendimentos entre 5.000 e 8.000 rands, permitindo-lhes apoiar as suas famílias e construir um futuro sustentável. “Estamos a capacitar jovens mulheres para se tornarem futuras agricultoras e empreendedoras”, explicou. “A nossa prioridade é garantir que as famílias tenham acesso a alimentos saudáveis, ao mesmo tempo que criamos oportunidades de desenvolvimento económico.” Nobuhle Kubheka, coordenadora provincial, recordou o percurso do movimento desde 2018. Trabalhando em estreita colaboração com a Comissão de Justiça e Paz da SACBC, os membros ajudaram a localizar e acompanhar milhares de pessoas que vivem com VIH/SIDA, incentivando-as a regressar aos programas de tratamento. Durante a pandemia da COVID-19, apoiaram as comunidades através de campanhas de sensibilização, distribuição de equipamentos de proteção e mobilização para a vacinação. Ela descreveu ainda programas inovadores destinados a combater a violência baseada no género, incluindo sessões de diálogo com homens em tavernas locais. A iniciativa revelou as profundas pressões sociais e económicas enfrentadas por muitos homens, criando espaços para cura, aconselhamento e encaminhamento para serviços de apoio profissional. As embaixadoras de Mamelodi destacaram o papel do movimento no acompanhamento de sobreviventes de violência baseada no género e na procura de justiça para as vítimas. Num caso particularmente marcante, o movimento apoiou uma jovem estudante que foi agredida enquanto se dirigia à escola. Através de ações de advocacia e mobilização comunitária, os agressores foram identificados, detidos, julgados e condenados. Hoje, a jovem concluiu o ensino secundário com distinções e frequenta o segundo ano universitário na área das ciências. Algumas das embaixadoras partilharam também que elas próprias são sobreviventes de violência baseada no género. A partir das suas experiências pessoais, tornaram-se mentoras e acompanham outras jovens que enfrentam desafios semelhantes. O seu trabalho vai além da advocacia, concentrando-se na capacitação económica, no desenvolvimento de competências e na formação de lideranças. Só em Mamelodi, mais de 8.000 jovens mulheres já foram capacitadas através dos programas do movimento, muitas das quais adquiriram competências práticas, criaram pequenos negócios e se tornaram o principal sustento das suas famílias. Os testemunhos causaram uma forte impressão na delegação da Misereor. Jenny Mushagira, responsável da Misereor para a África do Sul, afirmou que ouvir diretamente as histórias das beneficiárias deu vida aos relatórios que normalmente recebe na Alemanha. “Eu vejo apenas as propostas escritas”, disse. “Ouvir as histórias por detrás desses documentos e testemunhar o impacto que está a ser gerado nas comunidades foi algo verdadeiramente comovente.” Por sua vez, o representante regional da Misereor para a África Austral elogiou a coragem e a liderança demonstradas pelas jovens mulheres. “Elas recusam-se a ver-se como vítimas”, afirmou. “Pelo contrário, tornaram-se protagonistas do seu próprio destino, mudando o rumo de problemas como a violência baseada no género e levando esperança às suas comunidades.” Ao encorajar as jovens a continuarem a sua missão, Mushagira recordou-lhes que possuem dentro de si a força necessária para moldar o seu futuro. “Permaneçam fortes e comprometidas”, disse. “Estamos orgulhosos da parceria que partilhamos com a Comissão de Justiça e Paz e continuamos empenhados em apoiar este importante trabalho.” A delegação da Misereor expressou também a sua gratidão à SACBC por ter facilitado este encontro, descrevendo-o como um poderoso testemunho do compromisso da Igreja com a dignidade humana, a solidariedade e a capacitação dos jovens.