Durante visita a um centro penitenciário de Barcelona, mulheres compartilharam testemunhos marcados pela dor, pela perda e pela redescoberta de Deus
Camila Morais - Vatican News A visita do Papa Leão XIV ao centro penitenciário Brians 1, em Barcelona, nesta quarta-feira, 10 de junho, foi marcada por histórias de sofrimento, superação e reencontro com a fé. No quinto dia de sua viagem apostólica à Espanha e segundo a Barcelona -, o Pontífice ouviu os testemunhos de detentas que encontraram, dentro da prisão, uma liberdade que vai além das grades. Entre elas estava Montse, que emocionou os presentes ao agradecer a Deus por um presente aparentemente simples, mas profundamente significativo para sua história. “Olá, Santo Padre, quero agradecer ao Senhor porque, entre tudo o que Deus fez por mim, também me deu o dom de poder dormir”, disse. Suas palavras revelam uma trajetória marcada pela dor e pela luta interior. Durante anos, a detenta enfrentou uma grave insônia causada pelo sofrimento acumulado e pelas perguntas que não encontravam resposta. A perda do filho fez crescer dentro dela sentimentos de revolta, culpa e incompreensão diante de Deus. Para Montse, a prisão tornou-se o lugar onde finalmente encontrou Deus. Ela contou que durante muito tempo tentou acreditar, mas as dificuldades da vida e as perdas sofridas haviam criado uma barreira entre ela e a fé. “Levei uma vida inteira para compreender que Deus não tinha culpa”, afirmou. A partir desse reencontro espiritual, ela conseguiu libertar-se do peso do ressentimento que carregava há anos. O espaço antes ocupado pela dor passou a ser preenchido por novas descobertas sobre si mesma e sobre sua relação com Deus. Ela também recordou o momento que considera decisivo em sua caminhada. Depois de anos sofrendo com uma insônia severa, que não melhorava nem com medicamentos nem com internações, viveu uma experiência simples, mas transformadora. “Uma noite, segurando uma cruz nas mãos, consegui dormir. Sei que foi Jesus quem me ajudou.” Hoje, Montse aguarda dois reencontros. O primeiro, segundo ela, será com o filho falecido, na vida eterna. O segundo é a liberdade fora do cárcere. Assim como Montse, outra detenta que participou do encontro, Josefina passou muitas noites confrontando aquilo que definiu como o “silêncio de Deus”, sem compreender por que havia perdido pessoas tão importantes em sua vida. A raiva e o sentimento de abandono tornaram-se prisões interiores ainda mais sufocantes do que as próprias celas. Foi justamente nesse contexto que a pastoral penitenciária desempenhou um papel fundamental. Por meio do acompanhamento espiritual, da escuta e da vida comunitária, o desejo de recomeçar foi renascendo pouco a pouco. A história de Josefina guarda muitas semelhanças. Educada na fé cristã, ela viu suas convicções abaladas após um grave acidente envolvendo seu filho. Impulsiva por natureza, passou a questionar Deus e a pedir explicações para tudo o que acontecia. No entanto, com o passar do tempo, compreendeu que nem sempre as respostas chegam da forma esperada. Ver o sofrimento do filho abalou profundamente sua fé, mas também a levou a uma nova compreensão da confiança em Deus. “Meu filho sobreviveu e hoje é um milagre. E eu sempre acreditarei que foi Deus. É sempre Deus; caso contrário, não sei como teria conseguido resistir”, testemunhou. Para Josefina, o período de sofrimento e resistência um dia passará. O que permanecerá, afirma, é sua união com Deus. A visita do Papa reuniu também representantes dos centros penitenciários Brians 2 e Wad Ras, além de capelães, voluntários e integrantes da pastoral penitenciária da Catalunha. O diretor do presídio destacou a importância da presença do sucessor de Pedro em um ambiente onde vivem cerca de mil homens e 150 mulheres que aguardam julgamento. “Não imagina a honra que significa para todos nós que tenha encontrado tempo para nos visitar. Nunca esqueceremos isso”, afirmou. O capelão da unidade, padre Jesús Bel Gaudó, da Ordem dos Mercedários, explicou ao Papa o trabalho realizado junto aos detentos. A pastoral promove celebrações semanais da Eucaristia, preparação para os sacramentos, encontros de formação bíblica e momentos de diálogo sobre as preocupações e esperanças daqueles que vivem privados de liberdade. “Obrigado por nos olhar com olhos de misericórdia e por dizer ao mundo que existimos, que sofremos, que queremos nos levantar e seguir em frente”, declarou o sacerdote. A visita do Papa Leão XIV levou uma mensagem de proximidade a homens e mulheres que frequentemente se sentem esquecidos. Os testemunhos ouvidos no presídio mostraram que, mesmo em ambientes marcados pela privação da liberdade, é possível encontrar caminhos de reconciliação, esperança e transformação interior.