O Pão que nos faz um: Jesus Eucarístico, alimento de esperança e sinal de unidade - Vatican News via Acervo Católico

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O Pão que nos faz um: Jesus Eucarístico, alimento de esperança e sinal de unidade - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo não é apenas uma data religiosa. É uma proclamação pública de que Jesus Cristo está vivo, presente, real, atuante no meio do seu povo.

Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. - Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ Que alegria imensa nos invade neste dia! Corpus Christi chegou! A Igreja inteira para, contempla e adora. As ruas se enchem de flores, os tapetes ganham cores e formas, as procissões percorrem bairros e comunidades, e o povo de Deus caminha com fé, com devoção, com aquela piedade simples e genuína que é um dos traços mais belos da nossa Igreja no Brasil. Este é um dia de festa grande, de adoração profunda, de missão renovada. A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo não é apenas uma data religiosa. É uma proclamação pública de que Jesus Cristo está vivo, presente, real, atuante no meio do seu povo. É a resposta da Igreja a um mundo que muitas vezes busca saciar sua fome com tantas coisas que não nutrem de verdade. Hoje dizemos ao mundo: há um pão que sacia de verdade. Há um alimento que não acaba. Há uma presença que não abandona. "Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu." A primeira leitura, tirada do Livro do Deuteronômio, nos coloca diante de Moisés que fala ao povo antes de entrar na Terra Prometida. E ele começa com um verbo fundamental: lembra-te. A memória não é apenas uma faculdade psicológica. Na Bíblia, a memória é um ato de fé. Lembrar do que Deus fez é reconhecer que Ele age, que Ele cuida, que Ele não abandona. O povo passou quarenta anos no deserto. Quarenta anos de prova, de humilhação, de caminhada incerta. Mas não foram quarenta anos de abandono. Foram quarenta anos de pedagogia divina. Deus os humilhou, fez-los passar fome, e então os alimentou com o maná. Por quê? "Para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor." Que profundidade há nessas palavras! O Senhor não apenas alimenta o corpo. Ele alimenta a alma. Ele não apenas resolve problemas imediatos. Ele forma, educa, purifica. O deserto não foi um erro no roteiro da salvação. Foi uma escola. E o maná foi a lição mais eloquente: você não se sustenta sozinho. Você precisa de Mim. Quantas vezes nós também nos encontramos em nossos próprios desertos? Desertos de solidão, de doença, de luto, de incerteza, de crise? E quantas vezes, nesses momentos, descobrimos que as fontes nas quais costumávamos beber secaram, e que somente a Palavra de Deus, somente o Pão da Eucaristia, somente a presença viva do Senhor é capaz de sustentar? Corpus Christi nos convida a fazer essa memória. A lembrar das vezes em que o Senhor nos alimentou quando estávamos com fome. Das vezes em que fez jorrar água da pedra mais dura. Das vezes em que nos guiou pelo deserto quando não sabíamos o caminho. Essa memória não é nostalgia. É combustível para seguir em frente com confiança. O salmo de hoje, retirado do Salmo 147, nos convida a glorificar o Senhor que alimenta o seu povo com a flor do trigo. "A paz em teus limites garantiu, e te dá como alimento a flor do trigo." A flor do trigo é o melhor do trigo, o mais puro, o mais nutritivo. E é exatamente isso que Deus nos oferece na Eucaristia: não as sobras, não o suficiente para sobreviver, mas o melhor. O próprio Filho. O próprio Corpo e Sangue de Cristo. "Nenhum povo recebeu tanto carinho, a nenhum outro revelou os seus preceitos." Que privilégio imenso ser povo de Deus! Não por mérito nosso, mas por pura gratuidade divina. E esse privilégio não é para ser guardado com ciúme. É para ser compartilhado com alegria. Somos eucarísticos quando nos tornamos, nós mesmos, pão partido para os irmãos. "Uma vez que há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo." São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, nos oferece uma das reflexões mais densas e belas sobre o significado da Eucaristia. Ele parte de uma pergunta que é, na verdade, uma afirmação: "O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?" Comunhão. Essa palavra merece toda a nossa atenção. Comunhão não é simplesmente receber algo. É entrar em relação. É participar de uma vida que não é a nossa, mas que se torna nossa pelo dom de Deus. Quando partimos o pão eucarístico, não estamos apenas realizando um rito. Estamos entrando em comunhão com o próprio Cristo, com o seu corpo entregue, com o seu sangue derramado, com o seu amor sem reservas. E daí Paulo tira uma consequência que não podemos ignorar: "Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão." A Eucaristia cria unidade. Não apenas entre nós e Cristo, mas entre nós e os irmãos. Quem come do mesmo pão pertence ao mesmo corpo. Quem bebe do mesmo cálice participa da mesma vida. Isso tem consequências enormes para a nossa vida concreta. Não posso comungar do corpo de Cristo e ao mesmo tempo desprezar o irmão que está ao meu lado. Não posso receber o pão da vida e fechar minha porta ao faminto que bate nela. Não posso adorar a Eucaristia no altar e ignorar a eucaristia que sofre nas ruas, nos hospitais, nas periferias. O mesmo Cristo que está no sacrário está também no rosto de cada pessoa que precisa de mim. Esta é a dimensão missionária de Corpus Christi que precisamos redescobrir sempre. A procissão pelas ruas não é apenas uma demonstração de fé. É uma proclamação de que Cristo quer habitar cada canto desta cidade, cada família, cada coração ferido, cada vida que busca sentido. Quando carregamos a Eucaristia pelas ruas, estamos dizendo ao mundo: Ele vem ao teu encontro. Ele não fica preso dentro dos muros da igreja. Ele caminha contigo. "Eu sou o pão vivo descido do céu; quem deste pão come, sempre há de viver." O Evangelho de João no capítulo sexto é um dos textos mais sublimes de toda a Escritura. Jesus não fala em metáforas ou alegorias quando diz: "Eu sou o pão vivo descido do céu." Ele fala de uma realidade concreta, de uma presença real, de um alimento verdadeiro. "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia." Muitos dos que ouviam Jesus naquele dia acharam esse ensinamento duro demais e foram embora. E Jesus não os chamou de volta para explicar que era apenas uma metáfora. Ele deixou-os ir e perguntou aos doze: "Quereis ir também vós?" Pedro respondeu com aquela fé simples e firme que nos inspira até hoje: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna." Essa é a nossa resposta hoje também. Diante de um mundo que oferece mil substitutos para a fome do coração, diante de tantas promessas vazias de felicidade fácil e instantânea, nós dizemos com Pedro: Senhor, a quem iremos? Tu és o pão que sacia. Tu és a fonte que não seca. Tu és a vida que não acaba. Jesus afirma com clareza: "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim e eu nele." Permanecer em Jesus. Essa é a vocação do cristão. Não apenas visitá-lo de vez em quando, não apenas lembrá-lo nos momentos de crise, mas permanecer nele, habitar nele, deixar que ele habite em nós. A Eucaristia é o sacramento desse permanecimento. É o alimento que sustenta essa relação de intimidade com o Senhor. A Sequência que a Igreja canta neste dia, o belíssimo Lauda Sion, expressa com uma riqueza poética extraordinária o que a teologia procura dizer em linguagem precisa. "Eis o pão que os anjos comem, transformado em pão do homem; só os filhos o consomem." O pão eucarístico é ao mesmo tempo alimento divino e alimento humano. É o ponto de encontro entre o céu e a terra, entre o eterno e o temporal, entre o infinito de Deus e a pequenez do homem. "Um ou mil comungam dele, tanto este quanto aquele: multiplica-se o Senhor." Que mistério admirável! Cristo não se divide ao ser distribuído. Ele se multiplica sem se diminuir. Cada hóstia consagrada contém o Cristo inteiro: seu corpo, seu sangue, sua alma, sua divindade. Não uma parte de Cristo, mas Cristo todo. E isso se repete em cada missa, em cada altar, em cada comunidade ao redor do mundo, ao mesmo tempo, sem que Cristo se esgote ou se fragmente. Irmãos e irmãs, deixem que esta solenidade renove em nós o amor pela Eucaristia. Não um amor sentimental e superficial, mas um amor que transforma, que compromete, que envia. O amor que nos faz querer estar mais perto do Senhor na adoração, mais atentos à sua presença na missa, mais disponíveis para servi-lo no rosto dos irmãos. Que a procissão de Corpus Christi que percorre nossas ruas seja um sinal profético para esta cidade. Um sinal de que Cristo não está ausente da vida pública, da vida social, da vida das famílias e das comunidades. Um sinal de que onde Ele é carregado, a esperança floresce, a paz se instala, a vida vence a morte. Que cada um de nós, ao receber a comunhão neste dia, renove o compromisso de ser eucaristia para o mundo: pão partido, vida oferecida, amor sem reservas. Porque somos o que comemos. E se comemos o Corpo de Cristo, somos chamados a ser corpo de Cristo no mundo. Rezemos para que a devoção ao Santíssimo Sacramento, tão viva no coração do nosso povo, continue a ser fonte de renovação espiritual, de unidade eclesial e de missão evangelizadora. Que Nossa Senhora, a primeira que acolheu o Verbo feito carne em seu seio, nos ensine a acolher Cristo com a mesma disponibilidade e a levá-lo, como ela levou a Isabel, com pressa e com alegria, a todos que ainda não o conhecem. Abençoado, santo e feliz Corpus Christi! Que o Senhor, presente na Eucaristia, seja sempre o centro da nossa vida, a força da nossa missão e a alegria do nosso coração!

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