Após os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, Leão XIV recebeu, nesta quinta-feira, no Vaticano, atletas, dirigentes e representantes do esporte. O Pontífice destacou que o verdadeiro sucesso não se mede pelas medalhas, mas pela qualidade das relações, e advertiu contra as tentações do doping, do lucro e da espetacularização.
Thulio Fonseca – Vatican News Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 reuniram cerca de 2.900 atletas de 90 países, em 116 provas de 16 modalidades, entre 6 e 22 de fevereiro. Já os Jogos Paralímpicos contaram com mais de 660 atletas de 56 nações, de 6 a 15 de março, em uma edição marcada pelo 50º aniversário das Paralimpíadas de Inverno. Foi a terceira vez que a Itália sediou os Jogos Olímpicos de Inverno, depois de Cortina d'Ampezzo, em 1956, e Turim, em 2006. Foi a alguns desses protagonistas que o Papa Leão XIV dirigiu sua saudação na manhã desta quinta-feira, 9 de abril, no Vaticano, ao receber os atletas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Milão-Cortina 2026. O Santo Padre agradeceu pelo testemunho oferecido durante as competições e afirmou que o esporte, quando vivido de forma autêntica, “não permanece apenas uma prestação: é uma forma de linguagem, uma narração feita de gestos, de esforço, de espera, de quedas e de recomeços”. Ninguém vence sozinho No início do discurso, Leão XIV recordou que, durante os Jogos, o mundo não viu apenas corpos em movimento, mas histórias de sacrifício, disciplina e perseverança. Referindo-se de modo particular às competições paralímpicas, o Papa ressaltou que “o limite pode tornar-se lugar de revelação: não algo que impede a pessoa, mas algo que pode ser transformado, até transfigurado, em qualidades reencontradas”. E acrescentou: “Vocês, atletas, tornaram-se biografias que inspiram muitíssimas pessoas”. O Pontífice destacou ainda que toda vitória é fruto de um caminho compartilhado: “O entrosamento entre vocês nos recorda que ninguém vence sozinho”, afirmou, recordando o papel das famílias, das equipes e dos longos dias de treinamento, pressão e solidão que acompanham a preparação esportiva. Segundo Leão XIV, é precisamente nessas experiências que se forma o caráter. O esporte, disse o Papa, ensina “a conhecer o próprio corpo sem idolatrá-lo, a governar as emoções, a competir sem perder o sentido da fraternidade, a acolher a derrota sem desespero e a vitória sem arrogância”. Um espaço de paz diante das guerras Para o Santo Padre, o esporte permanece autêntico quando conserva sua vocação de “escola de vida e de talento”. Nessa escola, explicou, aprende-se que “o verdadeiro sucesso se mede pela qualidade das relações: não pela quantidade dos prêmios, mas pela estima recíproca, pela alegria compartilhada no jogo”. Leão XIV relacionou essa visão com a expressão evangélica “vida em abundância”, escolhida como título da carta publicada pelo Papa por ocasião do início dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Num mundo “marcado por polarizações, rivalidades e conflitos que desembocam em guerras devastadoras”, o Papa afirmou que o compromisso dos atletas adquire um valor ainda maior. “O esporte pode e deve tornar-se verdadeiramente um espaço de encontro! Não uma exibição de força, mas um exercício de relação”, declarou o Pontífice, recordando também o valor da trégua olímpica. Segundo Leão XIV, os atletas tornaram visível “esta possibilidade de paz como uma profecia nada retórica: romper a lógica da violência para promover a do encontro”. Contra o doping e a lógica do mercado Na parte final do discurso, o Papa advertiu sobre as tentações que ameaçam o mundo esportivo. Entre elas, mencionou “a prestação a qualquer custo”, que pode levar ao doping; “o lucro”, que transforma o jogo em mercado; e “a espetacularização”, que reduz o atleta a uma imagem ou a um número. “Contra estas derivações, o testemunho de vocês é essencial”, insistiu Leão XIV, convidando os atletas a continuarem mostrando que “é possível competir sem odiar-se. Que se pode vencer sem humilhar. Que se pode perder sem perder a si mesmos”. Ao concluir, o Santo Padre confiou aos presentes uma missão: “Continuar a fazer com que a pessoa permaneça no centro do esporte em todas as suas expressões”.