Quando, como Igreja, mostramos o «Deus próximo que caminha com seu povo», e é «consolo dos fracos, luz para as famílias, esperança para os doentes, paz para quem sofre», aí ajudamos a tornar realidade o encanto de Deus.
Padre Miguel Modino - Madri Deus encanta, e a missão da Igreja é que esse encanto cative muitas pessoas. As palavras com que Antônio Banderas encerrou sua comovente intervenção no Encontro “Tecer redes com o mundo da cultura, da educação, das empresas e do esporte”, realizado na Movistar Arena: “estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus”, são uma prova de que esse feitiço habita o coração das pessoas. Ajudar a se encantar O desafio é fazer, como Igreja, o necessário para que cada vez mais pessoas se encantem por Deus. Isso se faz no dia a dia, mas também ajuda o que vivemos neste segundo dia da visita do Papa Leão XIV a Madri. A Igreja ajuda a se encantar por Deus quando “se torna uma casa aberta”, como dizia o arcebispo de Madri, cardeal José Cobo, no início da celebração de Corpus Christi. Quando, recordava o cardeal, que a Igreja sente o chamado a “servir aos mais pequenos”, quando aprende que “não é chamada a erguer muros, mas a abrir portas e a avivar o fogo do Espírito no meio da cidade”, quando é enviada a “construir uma sociedade mais fraterna, onde ninguém fique invisível e onde o pão chegue a todos”. Trata-se, como dizia o Santo Padre à multidão reunida nos arredores da Praça de Cibeles, de ir além «de uma manifestação exterior, de uma tradição folclórica ou de um simples adorno estético», para mostrar o Senhor Ressuscitado «no meio de nós, que se faz pão para a nossa fome de vida». Um encanto que surge quando fazemos ver que «Jesus caminha pelas ruas, atravessa as praças, visita nossos bairros, habita os lugares de nossa vida cotidiana». Um Deus próximo Quando, como Igreja, mostramos o «Deus próximo que caminha com seu povo», e é «consolo dos fracos, luz para as famílias, esperança para os doentes, paz para quem sofre». Aí ajudamos a tornar realidade o encanto de Deus. Encarnado em Cristo, Deus encanta porque «se identifica com os pobres, os abatidos, os que estão sozinhos e desamparados», ou seja, quando se ajoelha «diante de Deus e do próximo, porque ninguém pode ajoelhar-se diante do Senhor e desprezar o irmão». Ajudamos, como Igreja, a que o encanto de Deus cresça quando nos «comprometemos pessoalmente na construção do bem comum». Quando, a partir da Eucaristia, nos tornamos «protagonistas da transformação da história e sinal de esperança para aqueles que encontramos», lembrava o pontífice. Sair de nós mesmos Um feitiço de Deus para o qual é necessário, dizia Cobo, já na Movistar Arena, «sair de nós mesmos e tentar construir um mundo melhor, mais justo e belo», quando sabemos «buscar respostas juntos», unir fragmentos dispersos da realidade para devolver a luz à humanidade. Um exercício necessário é olhar «sempre para a dignidade de cada pessoa, a justiça que não exclui, a fraternidade que persevera». Afinal, ao longo da história, como reconhecia Antônio Banderas, a Igreja tem promovido uma relação determinante com a arte, de muitas maneiras, inclusive por meio de encontros «de escuta, de proximidade e de diálogo com a sociedade civil». Quando se destaca a necessidade de não passar indiferente diante do próximo ferido, de denunciar credos vazios que se esqueceram do amor, quando se alerta que não podemos nos acostumar com a injustiça, quando se apresenta uma alternativa contra a violência e o sofrimento, isso deve ter ajudado o ator de Málaga a se encantar por Deus. Cuidar da alma Trata-se, dizia Leão XIV no encontro vespertino, de nos questionarmos sobre a herança e o tipo de comunidade que estamos construindo, de descobrir que “precisamos aprender a custodiar a alma daquilo que ela gera”. Assim faremos com que as pessoas se encantem por Deus, especialmente quando a Igreja «anseia por permanecer em diálogo com o mundo contemporâneo» e «propõe caminhos para uma vida digna e o bem comum». Quando «a Igreja não se desentende de nada verdadeiramente humano», o que exige diálogo. É necessário, dizia o pontífice, cuidar da linguagem e trabalhar em rede, respeitar “a inalienável dignidade humana”, criar juntos, em todos os âmbitos da vida. Mas também «servir de forma desinteressada», e assim ajudar para que a eternidade «possa se reconciliar novamente com o cotidiano». Da mesma forma, ajudamos a se encantar por Deus quando nos deixamos interpelar pelo clamor dos pobres e colocamos o bem comum como aquilo que «apazigua a ganância de uns e alimenta a esperança de outros, enquanto anseia por salvar a todos». Para ajudar a encantar-se com Deus, promovamos como Igreja, seguindo o que se vive no esporte, «o respeito pelo adversário», aprender «a perder sem odiar, a ganhar sem humilhar ou a levantar-se depois de cair». Tudo isso sem medo de «tecer novas redes que harmonizem todas as esferas da vida». Façamos o necessário para que o encantamento se torne realidade e não deixemos que ele morra jamais.