No segundo dia da visita a Barcelona nesta quarta-feira (10/06), Leão XIV se dirige à Abadia de Nossa Senhora de Montserrat para rezar o terço diante da Virgem. O Pe. Manel Gasch Hurios, abade de Montserrat, fala sobre as expectativas em relação à visita: “o Papa rezará aos pés de Maria para pedir que ela interceda por nós, pela paz, pelo mundo”. Um momento que ele define como “histórico” e que a comunidade aguarda com “muita alegria”.
María Cecilia Mutual – enviada a Barcelona No quinto dia da viagem apostólica à Espanha, o Papa Leão XIV irá de Barcelona por cerca de 50 km a oeste até o imponente rochoso que abriga o Mosteiro Beneditino e o Santuário de Montserrat, fulcro da identidade catalã, para rezar diante da belíssima imagem de “La Morenita”, nome pelo qual a Virgem de Montserrat é popularmente conhecida, devido à cor escura. Lá, Leão XIV “levantará o olhar”, como diz o lema da sua viagem, para a imagem da Virgem guardada entre as paredes do Santuário acolhido naquela montanha, para rezar pela humanidade inteira. “Será uma visita histórica, precedida apenas pela de São João Paulo II em 1982”. É assim que o abade de Montserrat, Pe. Manel Gasch Hurios, recorda o fato. Desde setembro de 2021, ele assume o desafio de custodiar o santuário e liderar uma comunidade de 45 monges, dos quais 35 vivem em Montserrat e outros na Itália. Com a visita do Pontífice à “sua casa”, como ele mesmo diz, o abade Gasch reflete sobre a missão que leva adiante em Montserrat, que sempre se caracterizou por uma dupla dimensão: santuário mariano e mosteiro beneditino - esse último tendo comemorado no ano passado o milésimo aniversário de fundação. “Nossa missão sempre foi cuidar do santuário e acolher os peregrinos. Acolhimento é, propriamente, a palavra que define Montserrat; é a essência de um santuário”, afirma o religioso, em entrevista ao Vatican News. A esse lugar de oração, de vida evangélica, de escuta e de paz, o Papa Leão XIV virá para se unir em oração aos peregrinos pelo dom da paz. Padre, quais são as expectativas em relação à visita do Pontífice ao Santuário de Nossa Senhora de Montserrat? Nós o esperamos com muita ansiedade, bem conscientes do que significa que o Santo Padre visite um lugar, qualquer lugar, e quando é a sua vez, em sua casa, em um lugar que você ama tanto porque é sua casa e porque tem essa tradição milenar de mosteiro, de santuário, tão presente na Catalunha e também fora da Catalunha neste momento. A visita de um Papa é um momento histórico; na verdade, será a segunda: João Paulo II veio em novembro de 1982 e essa visita do Papa João Paulo II sempre foi uma referência. Portanto, esperamos por ele com muita alegria. Certamente haverá bastante gente, toda a que couber em Montserrat, também para vê-lo aqui e, sobretudo, para rezar com ele e continuar afirmando essa fé mariana, que é o que representa Montserrat acima de tudo. Padre, como é composta a comunidade do mosteiro que o senhor lidera, que acaba de celebrar um milênio de existência? Qual é a sua missão? Somos monges beneditinos desde a fundação. Fomos fundados a partir do mosteiro beneditino de Ripoll pelo abade Oliva que, naquela época, em 1025, já era abade de Ripoll de Cuixá e bispo de Vic. E sempre continuamos como beneditinos, sem nenhuma reforma, a não ser as próprias da ordem beneditina. Nossa missão sempre foi custodiar o santuário e acolher peregrinos. O acolhimento é, propriamente, a palavra que, creio eu, define Montserrat. Ela define porque é a essência de um santuário. Um santuário é acolhimento, é acolhimento de peregrinos. E também é um grande carisma beneditino. Ao longo de toda a vida, acolher tem sido um carisma beneditino. São Bento nos diz que se deve acolher o hóspede como a Cristo. Creio que isso em Montserrat se torna uma realidade tão palpável, que até mesmo durante o milênio eu o repeti muitas vezes. Quando falamos sobre qual é a essência de Montserrat, dizemos que o mosteiro é a casa de Deus, e não a casa dos monges. É a casa de Deus, que reside de forma permanente nos monges, e de Deus que passa, como o Cristo pascal, que é Deus em movimento. E me parece uma imagem muito bonita, criada por um abade francês para definir o que pode ser Montserrat. Somos uma comunidade de cerca de 45 monges, dos quais cerca de 35 vivem em Montserrat, e depois temos monges na Itália. Manuel Nin de Grottaferrata é um monge que vem de Montserrat. O Pe. Ignacio Fossas, presidente da Congregação Sublacense Cassinesa da Ordem de São Bento, vem de Montserrat. O prior de Montecasino também vem de Montserrat. Temos um monge que está em São Anselmo, em Roma, como oficial. E depois temos alguns outros monges pelo mundo, temos um monge na África, um monge que serve em uma diocese catalã. E ainda temos uma pequena casa de pendente perto de Montserrat, que fica em um santuário numa zona muito rural, mas que também cumpre uma missão de oração e de presença. Justamente no que diz respeito aos peregrinos e ao acolhimento, qual é a importância deste santuário para os peregrinos do mundo e para os fiéis da Catalunha e da Espanha que aqui vêm para rezar à Virgem, e que no dia 10 de junho chegarão ao santuário para rezar o terço junto ao Santo Padre? Montserrat é uma devoção de grande importância na história. Na verdade, acredito que tenha sido a primeira devoção mariana a chegar à América Latina, já com os primeiros missionários. De fato, o capelão que participou da segunda expedição de Colombo, o Pe. Bernardo Boyl, era um eremita de Montserrat. Existe a ilha de Montserrat no Caribe, cujo nome vem do nosso santuário, e há uma grande presença de muitos santuários dedicados à Virgem de Montserrat. Para começar, a história já nos coloca diante de uma invocação muito universal. Além disso, Montserrat, também é verdade que esses mil anos de estabilidade em um lugar — o que, como sempre digo, significa estabilidade em uma geografia, mas também estabilidade na cultura e na língua histórica desse lugar — também conferiram uma grande identificação à Catalunha. De fato, a Virgem de Montserrat é a padroeira da Catalunha e de todas as dioceses com sede na Catalunha. Foi proclamada precisamente por Leão XIII em 1881. E como santuário em torno dessa estabilidade e dessa presença também de Maria, que em Montserrat se concretiza na belíssima imagem da Virgem, uma imagem para a qual podemos olhar, um ícone verdadeiramente da graça e da encarnação, que é o que é a nossa imagem. Guardando isso e com todo esse valor de enraizamento que a imagem da devoção a Maria possui, criou-se também toda essa identidade cultural e linguística em torno de Montserrat, que é tão importante para os catalães. Nos últimos anos, também devido à grande projeção internacional que Barcelona tem tido no mundo, é verdade que há muitos peregrinos que vêm de todas as partes para celebrar. Há dias em que podemos receber mais de dez grupos acompanhados por seus padres, vindos dos Estados Unidos, da Coreia, da Polônia, da Indonésia, das Filipinas, para citar alguns, mas, na verdade, de todo o mundo. Nesse sentido, acredito que agora também está havendo uma recuperação, ou que muitas, muitas pessoas que não são catalãs estão voltando. O santuário tem essas duas dimensões muito importantes. Uma, sobretudo, por ser a padroeira da Catalunha e, portanto, um lugar de identidade, onde todos também reencontram um pouco a tradição familiar, a tradição das gerações, essa devoção que lembra os pais, os avós. Por outro lado, é também um lugar para onde muitos grupos internacionais vêm talvez uma ou duas vezes na vida, mas que também o têm como referência de oração e devoção à Virgem. Padre Gasch, olhando para a sociedade atual, marcada pela imediatismo, pela virtualidade e pela autorreferencialidade, que exemplo e que mensagem a vida monástica pode dar aos jovens como exemplo de vida cristã? Bem, eu acredito que a vida monástica, como exemplo de vida cristã e de levar a sério o batismo, é uma vida que, acima de tudo, só tem valor se for uma confissão de fé. A vida monástica sustenta-se apenas na confissão de fé em Deus. Quando fiz minha profissão, há quase 25 anos, a profissão solene, com um pouco de entusiasmo juvenil, eu disse: “nós somos aqueles que olhamos para Deus face a face, todos os dias”. Bem, então, eu acredito que, de certa forma, a mensagem é que nós somos uma opção que tem Deus sempre muito presente e que se torna consciente desse ato de fé. Acredito que, neste mundo, tudo o que toque em algo muito autêntico — e o ato de fé é algo muito autêntico, as verdades da fé cristã, da fé católica — pode atrair no meio desta sociedade tão frágil, para usar uma palavra contemporânea. Acredito que é uma sociedade frágil e uma proposta que não seja frágil tem ali seu nicho, tem ali seu lugar, tem sua oportunidade. E acredito que a vida monástica lembra um pouco isso, por meio da oração, do silêncio, da vida em comunidade. É isso que, de certa forma, quisemos expressar em nosso lema do milênio, que é um lema monástico, mas proposto a todos, que, no fundo, complementa o lema beneditino, “reza e trabalha”, e o complementa com “reza, lê, trabalha, disciplina-te e faze-o em comunidade”. Essas cinco expressões foram, de certa forma, a proposta que nós, os monges de Montserrat, fizemos à sociedade como lema do milênio. Acredito que sintetiza muito bem uma proposta de vida para os jovens de hoje, que também não é exclusiva da vida monástica; tudo o que digo, evidentemente, poderia se estender à vida cristã. Se há vida cristã, pode haver vida monástica; sem vida cristã, é difícil que haja vida monástica. Voltando à viagem do Papa, Leão XIV visitará a Sagrada Família em Barcelona e o Santuário de Montserrat. O que caracteriza a espiritualidade de cada um desses lugares sagrados e por que, na sua opinião, o Santo Padre escolheu visitá-los? A Sagrada Família me parece que, neste momento, representa a possibilidade que a fé cristã ainda tem, sobretudo por meio de uma espécie de apóstolo que foi Antoni Gaudí, de criar beleza, de criar cultura na arquitetura, de criar algo que transmita uma mensagem de Deus através do espaço. Lembro-me de um jovem que, certo dia, ao visitar a Sagrada Família, me disse: “Não sou crente, mas hoje, vendo isto, fico impressionado; não me faço perguntas sobre Deus, penso no que está por trás disso”. Acredito que o Santo Padre quis estar num lugar que significa isso, que simboliza a presença da cultura e da criatividade da Igreja no mundo contemporâneo. A Igreja não se limita a conservar o patrimônio, que é belíssimo e histórico, mas também possui ali uma capacidade de estar presente na cultura. A Sagrada Família é um local muito visitado, muito mais do que Montserrat, e é um emblema de Barcelona, do mundo, e acredito que também da Igreja. E o Papa vem abençoar o que é o emblema da Sagrada Família, que é a Torre de Jesus Cristo, o símbolo da fé cristã, aquilo que o próprio Gaudí quis que fosse. E, neste momento, a torre mais alta de Barcelona é a Torre de Jesus Cristo, é a Cruz de Jesus Cristo, que não se eleva mais alto do que as montanhas, porque as montanhas são obra de Deus. É isso que eu acredito que, sobretudo pela espiritualidade, a Sagrada Família representa e que também carrega profundamente em seu íntimo a espiritualidade da devoção a São José e à própria Sagrada Família. Acredito que a criatividade tenha grande importância nesse contexto, inclusive a de Gaudí, uma espécie de gênio e homem profundamente crente que inspirou o templo nessa vontade de evangelizar. Naturalmente, em Montserrat, encontrará a espiritualidade mariana. Acredito que se visita Montserrat porque somos um lugar indiscutível na Catalunha, que pode receber a visita de um Papa, pois é o lugar da padroeira da Catalunha, a Virgem de Montserrat. Um lugar que pertence a todos os catalães, a todos os espanhóis e a todo o mundo, porque ali está Maria e ali está a espiritualidade da peregrinação daquele que vem simplesmente para se ajoelhar aos pés de Maria e apresentar-lhe sua oração e suas alegrias, suas tristezas, suas preocupações, e pedir-lhe que interceda por nós, pela paz, pelo mundo. Acredito que o Santo Padre vem com esse espírito a Montserrat e é com esse espírito que nós também o acolhemos, sabendo que nós, monges, não somos o importante, que ele não vem nos visitar, mas vem, naturalmente, visitar Santa Maria de Montserrat, a Virgem Maria, e rezar com todos nós que o acompanharemos nesse dia. Padre Gasch, o Papa Leão XIV manifesta uma marcante inclinação pela dimensão contemplativa. Quais são os seus sentimentos a esse respeito? Bem, naturalmente, pela proximidade. É um Papa que é religioso, que é agostiniano; naturalmente, o legado de Agostinho, o legado monástico de Santo Agostinho, sua regra para os monges, além de toda a sua teologia e espiritualidade que ele cita com tanta frequência. A regra monástica de Santo Agostinho serviu de inspiração para a regra de São Bento, que surgiu alguns anos mais tarde. Evidentemente, segui as palavras que ele já dirigiu em alguma ocasião aos monges, a homilia que proferiu em 11 de novembro em São Anselmo, em Roma, no aniversário da consagração da igreja diante da comunidade beneditina de São Anselmo e de alguns abades, bem como algumas palavras muito bonitas que dirigiu às comunidades de Subiaco e de Cesena em uma recepção privada. E aqui, esperamos, se tudo correr bem, que haja também uma palavra sua, não apenas sobre a Virgem Maria, mas sobre a comunidade monástica. Essa dimensão contemplativa, evidentemente, se vê e se percebe em seus escritos; podemos citar esta última encíclica (Magnifica humanitas): o que ele diz é sempre fruto dessa oração profunda, e isso se transmite em seus escritos e em suas palavras. Abade, para concluir, qual o senhor considera que será a mensagem do Papa Leão para a Igreja da Espanha e para o mundo inteiro nesta viagem? Acredito que ele dirá o que vem dizendo desde que se tornou Papa: colocar a humanidade e a paz no centro. O que significa, naturalmente, saber ouvir. É um Papa que gosta muito de ouvir, como ele mesmo já disse. O Santo Padre, como homem que escuta o mundo, escuta a necessidade de paz. Na recente encíclica, ele fala do perigo que paira sobre a humanidade. Acredito que, no fundo, a preocupação central da encíclica é que a humanidade não perca sua essência humana, que a tecnologia não nos invada, que a tecnologia não nos transforme, que sejamos nós mesmos. Este Rege te ipsum do nosso lema, que sejamos capazes de nos governar a nós mesmos, de sermos mestres de nós mesmos. Que, no fundo, se me permite, é a mensagem da encarnação, de um Deus que colocou a humanidade no centro de tudo, que Ele mesmo se fez homem. Acredito que esta seja a mensagem, a mensagem da humanidade, e evidentemente a mensagem de um mundo no qual a humanidade possa se desenvolver, premissa para a qual, evidentemente, são a paz e a justiça. E acredito que ele alertará, nesta viagem à Espanha, sobre tudo o que possa ir contra essa paz, essa justiça e essa humanidade.