Leão XIV une as forças morais do mundo que repudia a guerra para invocar a paz com a oração do terço, para romper "a cadeia demoníaca do mal" que até usa o Santo Nome de Deus em "discursos de morte": "quem não reza não mata nem ameaça com a morte" porque "virou as costas ao Deus vivo", sacrificando valores e esperando que "o mundo inteiro se ajoelhe". "Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro!" e com "a loucura da guerra", e se cultive o cuidado da vida com a oração em "casas de paz".
Andressa Collet - Vatican News O Papa Leão XIV reuniu o mundo em oração neste sábado, 11 de abril, a partir da Basílica Vaticana com 7 mil pessoas e outras 3 mil que acompanharam pelos telões da Praça São Pedro, para invocar a paz com a força que vem da oração - e através do terço, uma das formas mais antigas que une todos através de um ritmo regular, marcado pela repetição: "assim a paz vai ganhando espaço, palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura", explicou o Pontífice. A reflexão sobre o poder da oração, que não é "esconderijo" e nem "anestésico" para tanta dor e injustiça, veio ao final da Vigília de Oração pela Paz, expressão "daquela fé que, segundo a palavra de Jesus, move as montanhas", que é resposta "gratuita, universal e revolucionária à morte". Leia na íntegra a reflexão do Papa Leão XIV A oração de todos rompe a cadeia demoníaca do mal Assim como fez Cristo, cada ser humano é convidado a "elevar o olhar" para acolher a paz, mesmo diante de um mundo em que "se continua, sem direito e sem piedade, a crucificar e a aniquilar a vida". Leão XIV, então, trouxe junto com a oração, a força das palavras de João Paulo II, "testemunha incansável da paz", que afirmou com emoção, no contexto da crise iraquiana de 2003: «Eu pertenço à geração que viveu a segunda guerra mundial e lhe sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos que são mais jovens do que eu, que não tiveram esta experiência: “Nunca mais a guerra”, como disse Paulo VI na sua primeira visita às Nações Unidas» (Angelus, 16 de março de 2003). Prevost se uniu ao apelo do Papa polonês, "que é tão atual", e disse: "A oração ensina-nos a agir. Na oração, as limitadas possibilidades humanas unem-se às infinitas possibilidades de Deus. Pensamentos, palavras e obras rompem, assim, a cadeia demoníaca do mal e colocam-se ao serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espadas, nem drones, nem vinganças, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão. Temos aqui uma barreira contra esse delírio de onipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo à nossa volta. Os equilíbrios na família humana estão gravemente desestabilizados. Até mesmo o Santo Nome de Deus, o Deus da vida, é arrastado para os discursos de morte." E o Papa Leão XIV voltou a enfatizar que "quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe": Leão XIV também usou da "simplicidade evangélica" de São João XXIII para enaltecer as "vantagens da paz" que beneficiam toda a comunidade humana e das "palavras lapidares" de Pio XII que afirmava: «Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra». Prevost, assim, pediu a união das "forças morais e espirituais de milhões, de milhares de milhões de homens e mulheres, de idosos e de jovens que hoje acreditam na paz, que hoje optam pela paz, que cuidam das feridas e reparam os danos deixados pela loucura da guerra". Como acontece com as crianças inocentes que sofrem nas zonas de conflito com "todo o horror e a desumanidade das ações que alguns adultos exaltam com orgulho. Ouçamos a voz das crianças!", apelou o Pontífice. Uma responsabilidade "inalienável que incumbe aos governantes das nações", disse o Papa, a quem "clamamos: parem! É tempo de paz! Sentem-se às mesas do diálogo e da mediação, não às mesas onde se planeia o rearmamento e se deliberam ações de morte!". Responsabilidade "não menos importante" também nossa, de "homens e mulheres de tantos países diferentes: uma imensa multidão que repudia a guerra, com obras, e não apenas com palavras". Daí o pedido de Leão XIV para nos comprometermos com a oração para invocar a paz "nas casas, nas escolas, nos bairros, nas comunidades civis e religiosas, tirando espaço à polêmica e à resignação com a amizade e a cultura do encontro. Voltemos a acreditar no amor, na moderação, na boa política". Na "paciência de Deus", acrescentou o Pontífice, rezar e curar as feridas como os "artesãos de paz" citatos pelo Papa Francisco na Fratelli tutti. Nunca mais a guerra, mas casas de paz Antes de Leão XIV suplicar ao Senhor "que a loucura da guerra tenha fim e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda sabem gerar, guardar, amar a vida", ele pediu que todos voltem "para casa com este compromisso de rezar sempre, sem desanimar, e de uma profunda conversão do coração. A Igreja é um grande povo ao serviço da reconciliação e da paz, que vai em frente sem titubear, mesmo quando a rejeição da lógica bélica lhe pode custar incompreensão e desprezo". Diante das "contínuas violações do direito internacional" que colocam em risco a dignidade das pessoas, «é desejável que cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia»: