"Fugimos da guerra à procura de paz. Mas a violência da qual escapámos parece ter-nos seguido até aqui" – o testemunho de Feliciano Kifoto, refugiado da República Democrática do Congo (RDC), traduz a angústia vivida por dezenas de famílias que encontraram abrigo nos arredores de Pretória, mas que continuam a viver na incerteza. Sem acesso regular a água potável, eletricidade, escolas ou cuidados de saúde, enfrentam agora um clima crescente de hostilidade em torno da imigração na África do Sul.
Por Sheila Pires, em Joanesburgo O Vatican News encontrou esta comunidade durante uma visita promovida pelo Gabinete para os Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC), por ocasião do Dia Mundial do Refugiado, celebrado a 20 de junho. Dias depois, os receios manifestados pelos refugiados ganharam novos contornos com as mobilizações contra a imigração irregular realizadas em diferentes províncias do país. Um medo que não começou agora Embora muitas das manifestações tenham decorrido pacificamente, verificaram-se episódios de tensão em várias localidades. Em algumas zonas, grupos de manifestantes dirigiram-se a empresas para exigir a verificação da situação documental de trabalhadores estrangeiros e realizaram ações porta a porta para identificar migrantes sem documentos. Em Hillbrow, em Joanesburgo, duas pessoas ficaram feridas por disparos durante um protesto, situação que levou ao reforço da presença das forças armadas da Africa do Sul. Após o prazo simbólico de 30 de junho, estabelecido pelo movimento March and March para a saída voluntária de imigrantes em situação irregular, a líder do movimento, Jacinta Ngobese-Zuma, anunciou que os protestos continuarão todas as quintas-feiras até que o Governo adote medidas concretas relativamente à imigração irregular. Segundo relatos da imprensa sul-africana, milhares de pessoas participaram na marcha realizada em Durban no dia 1 de julho. Perante os manifestantes, Ngobese-Zuma afirmou que as mobilizações prosseguirão "enquanto os imigrantes sem documentos não deixarem o país", defendendo igualmente uma resposta governamental ao desemprego e à criminalidade. As autoridades sul-africanas voltaram a recordar que compete exclusivamente ao Departamento dos Assuntos Internos verificar o estatuto migratório dos estrangeiros, apelando para que ninguém faça justiça pelas próprias mãos. Para Feliciano Kifoto, contudo, o medo não começou com os protestos. "Eles vieram aqui dizer-nos que tínhamos de abandonar o país antes do dia 30", conta. "Este lugar não é seguro. Não temos para onde fugir." O refugiado explica que o assentamento onde vivem está completamente isolado. "Se alguma coisa acontecer aqui, quem nos vai ajudar? Não há uma esquadra da polícia por perto. Não há ninguém para nos proteger." "As nossas crianças são o futuro" Kifoto deixou a República Democrática do Congo há quase vinte anos, procurando salvar a própria vida e garantir um futuro melhor para a família. No entanto, desde 2019, a sua história tem sido marcada por sucessivas deslocações, detenções e condições de extrema precariedade. Hoje, a maior preocupação já não é apenas a sobrevivência diária, mas o futuro das três filhas, de seis, nove e catorze anos. "As nossas crianças são o futuro. Se não estudarem, que futuro terão?" Muitas das crianças desta comunidade nunca frequentaram a escola. A falta de documentação, de recursos e de acesso aos serviços básicos continua a impedir que tenham uma infância semelhante à de tantas outras. Aos cinquenta anos, Feliciano confessa que já não sabe quanto tempo conseguirá resistir às dificuldades. O pensamento regressa sempre às filhas. "Se eu morrer hoje, quem cuidará delas? Pedimos apenas proteção. Pelas nossas crianças. Pelas nossas mães." Enquanto alguns países africanos, entre eles Uganda, Malawi, Gana, Nigéria, Moçambique e Zimbabwe, iniciaram programas de repatriamento voluntário dos seus cidadãos residentes na África do Sul, para refugiados provenientes de zonas de guerra regressar continua a ser impossível. "Não fugimos por vontade própria", afirma. "Fugimos para salvar as nossas vidas." A Igreja junto dos mais vulneráveis Foi precisamente para testemunhar esta proximidade que o Gabinete para os Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC, com o apoio da Fundação dos Bispos da SACBC, levou alimentos, cobertores, roupa e material escolar à comunidade. Para a irmã Neide Lamperti, missionária escalabriniana e coordenadora do Gabinete, a visita procurou recordar que estas pessoas não podem ser esquecidas. "Escolhemos celebrar o Dia Mundial do Refugiado com esta comunidade porque é uma comunidade que já sofreu demasiado", explica ao Vatican News. "São homens, mulheres e crianças que passaram por detenções, deslocações forçadas e que hoje vivem num lugar extremamente isolado, a mais de 80 quilómetros da cidade, enfrentando todo o tipo de privações." A religiosa refere que cerca de sessenta pessoas vivem num espaço exíguo, sem acesso adequado à água potável, aos cuidados de saúde e à educação. "Celebrar este dia não é propriamente motivo de alegria. Ninguém deseja tornar-se refugiado. Mas, perante o aumento dos ataques xenófobos e das políticas anti-imigração, sentimos que era importante estar ao lado destas pessoas." O encontro deixou marcas profundas. "Depois de muitos anos, foi a primeira vez que receberam uma visita e donativos. Nenhum deles é católico; pertencem a outras confissões religiosas. Mesmo assim, agradeceram emocionados à Igreja Católica porque, segundo disseram, foi a única instituição que esteve presente ao lado deles." Um apelo à solidariedade Apesar da ajuda recebida, a incerteza permanece. A irmã Neide explica que as famílias não sabem se poderão continuar naquele lugar. "Se forem obrigadas a sair, não têm para onde ir. Não têm condições para regressar aos seus países e também não têm meios para recomeçar a vida noutro local da África do Sul." Perante esta realidade, deixa um apelo que ultrapassa fronteiras. "Os refugiados fogem não porque querem, mas porque precisam. Uma coisa é falar sobre refugiados; outra é estar com eles, ver onde vivem e compreender a realidade que enfrentam todos os dias. A realidade é muito mais dura do que aquela que imaginamos. Peço que rezemos por estas famílias e que, na medida das possibilidades de cada um, lhes estendamos a mão. Toda a ajuda é bem-vinda." Num momento em que o debate sobre a imigração continua a marcar a vida pública sul-africana, a história de Feliciano Kifoto lembra que por detrás das estatísticas existem rostos, famílias e crianças. Pessoas que não abandonaram a sua terra por escolha, mas porque a guerra lhes roubou a possibilidade de permanecer. O seu maior desejo continua a ser o mesmo que motivou a fuga: encontrar um lugar onde possam viver com segurança, dignidade e paz.