Tiago Freitas: “saudável e necessário que haja mulheres na formação dos seminários” - Vatican News via Acervo Católico

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Tiago Freitas: “saudável e necessário que haja mulheres na formação dos seminários” - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

O sacerdote da Arquidiocese de Braga e docente da Universidade Católica Portuguesa considera que é necessário superar uma certa mentalidade de veneração de uma imagem sacralizada do padre. A Rede Sinodal em Portugal apresenta aqui o episódio 15 do podcast “No coração da esperança”.

Rui Saraiva – Portugal “No coração da esperança” é o nome da iniciativa em podcast da Rede Sinodal em Portugal. Apresentamos aqui o episódio número 15 de uma parceria inovadora de comunicação que faz caminhar em conjunto Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo. Neste episódio o entrevistado é Tiago Freitas, sacerdote da Arquidiocese de Braga e docente da Universidade Católica Portuguesa. Publicamos aqui as suas respostas às questões da Rede Sinodal em Portugal: P: Acha que na implementação das conclusões do Sínodo pode vir a ser mais importante conservar a unidade do que ativar a mudança na Igreja? R: Esse é um velho dilema. Na altura, Bento XVI refletia sobre a questão usando a palavra reforma, não é? Reforma ou na rutura, ou reforma na continuidade. Ele dizia sempre reforma na continuidade. Portanto, evitava… Não gostava da rutura. Mas não podemos esquecer o que ele diz: Reforma. Portanto, a reforma é uma mudança, e esse é que é o ponto. Porque se para haver diálogo nós bloqueamos os processos de reforma, então diria Francisco, alguma coisa não está bem. O processo de discernimento não está bem. Ou não escutamos o Espírito. E então, nesse sentido é que eu acho que a ideia da unidade ou do diálogo deve ser com franqueza exposta ao Espírito, porque pode também haver dentro da comunidade gente que aparentemente, ou que na realidade, esteja a bloquear as reformas, e nós, não querendo a rutura, somos infiéis ao espírito. Dou o caso de Paulo nas suas comunidades a Corinto, onde, por exemplo, quando começam no debate sobre quem é o verdadeiro líder. “Eu sou de Apolo, eu sou de Cefas, eu sou de Pedro, eu sou de Paulo.” Então Paulo poderia dizer: “Ok, pronto.” “Então vamos tentar encontrar aqui um meio termo.” “Somos todos de tudo e tal.” Não, ele seguiu um caminho completamente diferente. Nós somos de Cristo. E se queremos estar unidos a Cristo, este é que é o caminho, e o resto tem que ser purificado. Se alguém diz “eu não concordo que Cristo é a cabeça da Igreja”, então alguma coisa se passa e não é com a Igreja, é com essa pessoa que está a bloquear. Portanto, eu acho que a unidade... Eu entendo. Por exemplo, para Bento XVI, foi muito duro pensar na altura na Fraternidade de São Pio X. Temos visto atualmente as dificuldades que não são meramente litúrgicas, mas que são teológicas, são eclesiais. E que, não obstante se permitir, por exemplo, a celebração do rito extraordinário, ainda assim subsistem graves problemas à unidade, entre os quais a autorização do Sumo Pontífice, um ponto inegociável, para a ordenação de novos bispos. E nada, atualmente, nada indica de que cumprirão aquilo que é a vontade da Santa Sé. E qual é o ministério de Pedro? É o ministério da unidade. Ora, para manter a unidade é preciso respeitar este princípio. Se não é respeitado, automaticamente, não podemos estar na unidade. P: O relatório do grupo de estudo n.º 4 do Sínodo faz uma revisão da "Ratio Fundamentalis Sacerdotalis" em perspetiva sinodal e propõe uma maior participação de mulheres na formação nos seminários. Num ambiente desde sempre masculino, trata-se de uma mudança radical? R: É radical na nossa conceção. Eu também confesso que tenho pena de quem está nas equipas formadoras dos seminários, porque num curto espaço de tempo já tiveram o seu plano formativo… já foi posto em causa várias vezes. Ainda tinha uma Ratio, uma nova Ratio... Surge o Sínodo. Já é preciso uma nova Ratio, portanto nem dá tempo para estabilizar. Mas algumas coisas, de facto, quando nós olhamos com um certo distanciamento crítico, parecem-nos até talvez anacrónicas, não é? Porque, por exemplo, dizer hoje a um jovem que está no seminário, que tem 18 anos ou 19… Mas pensando outro modo: hoje em dia temos jovens que estão numa universidade civil e têm que ser autónomos. Têm que estar numa residência universitária, têm que cozinhar, têm que limpar, têm que ter liberdade para sair e têm que assumir as consequências das suas responsabilidades e interagem com todo o tipo de pessoas. Criar um ambiente hermético, quase um bloco operatório, que nada possa contaminar este grupo, uma espécie de casta eleita, isso é gerar um ambiente artificial que terá consequências reais no dia de amanhã. Incapacidades de relação com as outras pessoas, sejam elas homens ou mulheres, mas também com as mulheres, de poder dialogar, também de reconhecer o seu valor enquanto mulheres e enquanto pessoas exercendo funções na Igreja. Pensemos que só até há pouco tempo, por exemplo, no Conselho Económico, pudessem ter mulheres. Que até há pouco tempo atrás era só homens. Por alguma razão? Não, era o que era. Sempre se fez assim. E, nesse aspeto, acho que me parece muito saudável e necessário que haja mulheres na formação dos seminários. Como também parece saudável, mas isso não está na mão dos seminários, que nas turmas de teologia, pudéssemos ter leigas ou religiosas mulheres, também a fazer parte destas turmas de teologia, ou eventualmente de outras áreas do saber, de filosofia, que possam ter também algumas aulas de teologia, para criar um ambiente também normal. Normalizar aquilo que é a vida. Portanto, esta dimensão humana é, num bom sentido, normalizar a vida. Muita gente brinca dizendo que olha para alguns de nós, padres, e diz logo: “Este tem ar de padre, não é?” Eu não sei se isso é assim um elogio ou se já nós todos encarnamos inconscientemente uma persona que faz de nós pessoas, sei lá, sui generis, não é? Agora, a questão das mulheres, é evidente que é um ponto, mas creio que há vários outros. Desde logo, também o registo e o estilo de vida. Nós há pouco tempo, com dois amigos, o padre Pablo e o padre Paulo, conversávamos sobre o problema da saúde mental dos presbíteros com a Dra. Margarida Cordo, mas ouvindo, também lendo, outros psicólogos, eles diziam que este registo também normal de vida, de uma casa que cheire a casa, que tem o conforto de uma casa, é importante para o bem-estar da pessoa. Agora, quando nós olhamos para alguns seminários, onde até a estrutura das casas, casarões grandes, com quartos… Alas segmentadas, com pouco contacto entre as pessoas… Que inconscientemente pode estar a promover a individualidade de cada um, onde de vez em quando saem do quarto para participar em atividades comunitárias e depois regressam ao seu quarto. Estou a falar meramente na questão humana e é nisso que me parece que é importante incidir. Mas louvo e não invejo quem está nos seminários, porque sei que é de facto muito difícil encontrar e desenhar um modelo diferente de ser sacerdote para os tempos que se avizinham. P: Uma Igreja sinodal está menos centrada no presbítero e mais na comunidade? R: Uma Igreja sinodal, disse o Papa, tem como ponto de referência a teologia do Vaticano II, que é a categoria do povo de Deus. Portanto, uma Igreja sinodal é todo o povo de Deus. Creio que pode ser perigoso também dizer, inferiorizar ou colocar de lado os presbíteros para sobrevalorizar os leigos, numa espécie de tentativa de contrabalançar as coisas. Agora, mesmo já passados tantos anos, com 50 anos do Concílio Vaticano II, a verdade é que ainda não conseguimos passar mentalmente de uma Igreja hierárquica clerical para uma Igreja povo de Deus. E, nesse aspeto, creio que o Sínodo é uma consequência direta de um certo modelo de ser Igreja centrado no presbítero. Portanto, seria importante, já que Francisco diz que o Sínodo não é um evento, mas é parte da identidade da Igreja, que fosse mais um caminho real para nos ajudar a todos a nos convertermos a esse modelo de uma Igreja que é povo de Deus. Presbíteros? Talvez o lado onde é maior o esforço. Porque é toda a construção social, pessoal, eclesial, daquilo que é o presbítero. No outro dia, o padre Pablo fez-me pensar que quando se está na paróquia, muitas vezes está-se sempre numa atitude oblativa. É sempre aquele que... Temos que estar sempre a dar, temos que estar sempre a orientar, temos que estar sempre disponíveis. Mas nós encarnamos muito esta pessoa, e às vezes em excesso noutras coisas, que é que somos nós que temos que decidir, temos que controlar, e isso as pessoas queixam-se. Mas também, por outro lado, pode haver leigos que também se sintam confortáveis nesse registo. Muitas vezes brinco, quando alguns até para saber se... Zeladores, não é? Se a flor vai ser branca ou amarela, é preciso perguntar ao padre: “Sr. padre, pomos a flor branca ou amarela?” Se me perguntassem a mim... Nem o jarro sei, quanto mais as flores? Quer dizer, cada um faça... Naquelas que são as suas sensibilidades, suas capacidades, força. Adiante, não é? E, por isso, também nos leigos, eu creio que é preciso sair desta mentalidade que foi construída, que foram absorvendo inconscientemente de uma certa veneração de uma imagem sacralizada do padre, na qual o padre também eventualmente não se revê, mas que tantas vezes se sente refém dessa mesma imagem. Nalguns casos, quem quer ser normal sente-se refém, noutros dá jeito. O padre Tiago Freitas, sacerdote da Arquidiocese de Braga, participou numa formação sinodal dedicada ao clero da diocese do Porto desenvolvendo o tema “Território, Missão e Comunidade: Itinerários para uma nova reconfiguração pastoral”. Foi nesse âmbito que deu uma entrevista ao podcast “No coração da Esperança” da Rede Sinodal em Portugal numa parceria com Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, Folha do Domingo, Rede Mundial de Oração do Papa e 7Margens. Laudetur Iesus Christus

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