Ver um coro de mil vozes cantando em uníssono, como o que ouvimos no Santiago Bernabéu no Encontro do Papa Leão XIV com as igrejas de Madri, Alcalá e Getafe, é uma prova evidente de que fazer as coisas juntos é possível, na Igreja e na sociedade.
Padre Miguel Modino - Madri Não nos esqueçamos de que «a Igreja caminha com a humanidade», como disse o Papa em seu discurso histórico aos membros do Parlamento Espanhol. Tão histórico quanto os aplausos ao final de suas palavras. Em um hemiciclo onde abundam os insultos, o fato de todos aplaudirem por vários minutos, independentemente de sua orientação política, a ponto de deixar o Santo Padre constrangido, ninguém duvida que esse momento entrará para a história. Espaços de encontro Uma Igreja que compartilha, com respeito, esperanças e feridas, ouve questionamentos e se deixa interpelar, ou seja, se preocupa com quem está ao seu lado, que busca espaços de encontro, uma exigência proferida pela presidente do Congresso dos Deputados, Francina Armengol. A Espanha, reconheceu o Papa, vive de «uma herança que moldou uma maneira de viver a liberdade, praticar a justiça e ordenar a vida em comum», e «soube olhar para o ser humano como algo mais do que uma peça da ordem social, econômica ou política». O caminho junto se torna mais fácil quando se concretiza “uma comunidade humana mais ampla do que qualquer poder particular”, quando todo ser humano é reconhecido como “sujeito de direitos e deveres”. Também quando assumimos que «toda sociedade autenticamente justa se constrói sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana» e não se impõe «a cultura do descarte», quando não se deixa de «servir e proteger cada pessoa» e se compartilha o bem comum, lembrava Leão XIV. Aprende-se a caminhar juntos na família, «primeira escola de humanidade», dizia o Papa. Também quando se acolhe, já que essa é uma questão moral, aqueles que sofrem “o trágico drama migratório”, quando diante desse drama se dá “uma resposta que olhe para as pessoas”, e a partir de uma resposta institucional, “as fronteiras deixam de ser lugares de abandono e podem se tornar espaços de proteção responsável da dignidade humana”. Sem paz não é possível caminhar juntos, daí o apelo do Papa. Uma paz «que respeite quem pensa diferente», torne possível «a amizade cívica e o respeito mútuo em meio à discrepância» e promova a justiça e o diálogo paciente. Para caminharmos juntos, é preciso compreender que «a firmeza não exige desprezo; a discrepância não implica humilhação», que «o direito deve servir ao bem, que a justiça impõe limites à força, que o poder precisa de legitimidade, que os pobres pertencem plenamente à comunidade, que o estrangeiro deve ser acolhido de acordo com a sua dignidade e que a vida humana nunca pode ser tratada como mercadoria». Tudo é uma questão de “visão ampla”. Bispos que apostam na sinodalidade Também entre o episcopado, caminhar juntos representa um desafio. Em suas palavras na sede da Conferência Episcopal Espanhola, o Santo Padre destacou a importância da escuta profunda e da comunicação com o outro, superando a desconfiança em relação ao desconhecido, as desavenças e as incompreensões, como bússola para viver a sinodalidade. Para viver essa sinodalidade, ele falou da «necessidade de ativar a corresponsabilidade dos membros da comunidade em nossas ações pastorais». Também «do diálogo respeitoso e do uso de novas linguagens». A partir daí, o pontífice exortou a «aprender a linguagem do outro, iniciar processos e tecer laços onde se possa semear a semente do Reino». Para isso, “escuta, compreensão, respeito, generosidade e franqueza” e “uma comunhão capaz de acolher a riqueza dos dons, dos carismas, das sensibilidades que o Espírito Santo suscita no Povo de Deus”. Nesse contexto, desafiava os bispos a «serem princípio visível de comunhão», a «guardar a unidade, favorecer o diálogo, sanar as fraturas e acompanhar o caminho do povo», como forma de ser Igreja missionária. Uma caminhada conjunta na qual é imprescindível «unir forças, aprender a trabalhar juntos». Fazer isso também em momentos de escuridão, ser samaritanos, cuidar dos feridos pelos abusos a partir da «escuta, da verdade, da justiça, da reparação e de um compromisso cada vez mais decidido com a prevenção e a cultura do cuidado». Superar os muros Para podermos avançar no caminho sinodal, é preciso superar os «muros invisíveis: distâncias, medos, solidões, indiferenças», como afirmou o arcebispo de Madri, cardeal José Cobo, na Catedral da Almudena. Ele também pedia que «sejamos buscadores e construtores de encontro» e «construamos comunidades capazes de derrubar muros e abrir caminhos de fraternidade». Uma muralha, dizia o Santo Padre diante da padroeira de Madri, que ao cair «abre espaços, restaura possibilidades e impulsiona o restabelecimento» e supera as muralhas «que dividem, afastam e isolam». Essa Igreja sinodal, dizia Cobo no Bernabéu, sustenta-se no fato de que “todos, pelo batismo, participamos da mesma dignidade e de uma responsabilidade compartilhada”, de uma Igreja Povo de Deus. Uma Igreja que «caminha unida, que escuta, discerne e se deixa guiar pelo Espírito, para ser sinal e instrumento de comunhão e de esperança no meio do mundo», sublinhava o arcebispo. Uma Igreja de Madri em saída, corresponsável, com uma autoridade que emana do serviço e na qual a missão se tece caminhando juntos. Para isso, o cardeal convidava a cantar juntos, em harmonia e comunhão, para que a sinodalidade seja real e visível. E é que, advertiu ele, “o verdadeiro risco não é o silêncio, mas a dissonância”. E é que “a Igreja evangeliza de verdade quando soa como um conjunto e não como uma soma de solos, quando a comunhão se torna audível e deixa entrever que é Cristo quem a sustenta”. Uma comunhão que «não é estratégia, é fruto do amor». Abrir um caminho de esperança Uma polifonia à qual também chamava Leão XIV as Igrejas de Madri, Alcalá e Getafe, para «interpretar os acontecimentos e as situações, celebrando com os outros o sentido que eles irradiam», para mostrar «que o Evangelho pode abrir um caminho para a esperança». O Papa exortava à comunhão na diversidade, e assim «edificar juntos, transformando a diversidade em um recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual fazer crescer a justiça e a fraternidade». O Santo Padre apelou à prática da sinodalidade, que vê como «espaço no qual a humanidade recupere seus alicerces sólidos e seu fim último». Da mesma forma, apelou a buscar juntos a verdade, a ser uma sinfonia, a ser cordiais, a investir nos conselhos paroquiais e diocesanos como «espaços de escuta recíproca para o exercício do discernimento». Para isso, convidou os presbíteros a «reconhecer a prática do discernimento comunitário como uma das maiores oportunidades que a sinodalidade oferece ao seu ministério». Não nos esqueçamos de que caminharemos juntos quando cantarmos «a música do Evangelho, com seu ritmo contagiante».