Via-Sacra: Cristo anula o mal com o amor. Quem abusa do poder terá que responder perante Deus - Vatican News via Acervo Católico

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Via-Sacra: Cristo anula o mal com o amor. Quem abusa do poder terá que responder perante Deus - Vatican News via Acervo Católico
Fonte: VATICANO

A Via-Sacra do frei Francesco Patton retrata o mundo contemporâneo, refletindo em suas meditações para a Sexta-Feira Santa no Coliseu sobre o poder exercido pelos homens. Assim como na época de Jesus, hoje " há quem acredite ter recebido uma autoridade sem limites e pense poder usá-la e abusar dela à vontade", decidindo, por exemplo, iniciar uma guerra. Hoje, "os cadáveres não são restituídos" e "mães" e "parentes" são obrigados a se humilhar para enterrá-los.

Tiziana Campisi – Vatican News Em Jerusalém, a Via Dolorosa, o caminho percorrido por Jesus após ser condenado à morte, passa por ruelas da Cidade Velha até o Gólgota, local de sua crucificação. Era assim há dois mil anos, e permanece assim hoje: um ambiente "ruidoso", "no meio de pessoas que partilham a fé" em Cristo, "mas também de outras que zombam e insultam. Assim é a vida de cada dia". É uma Via-Sacra no mundo atual — onde se abusa excessivamente do próprio poder e muitas vezes falta o respeito pela dignidade humana — que emerge nas meditações escritas pelo padre Francesco Patton para a celebração da Sexta-Feira Santa no Coliseu com Leão XIV, que carregará a cruz nas 14 estações, do Anfiteatro Flávio até o Monte Palatino. LEIA AQUI O TEXTO COMPLETO DA VIA-SACRA NO COLISEU O poder dos homens e o poder de Jesus O frade menor, ex-Custódio da Terra Santa, aproxima os Evangelhos da Paixão dos textos de São Francisco de Assis, em memória do oitavo centenário de sua morte, que se comemora este ano, e desenvolve suas reflexões relendo na realidade atual o que Cristo viveu, trazendo seus ensinamentos para o presente e comparando o poder exercido pelos homens com o poder do amor de Jesus. Em primeiro lugar, na I estação, onde Jesus, em diálogo com Pilatos, desmascara “toda presunção humana de poder”. “Ainda hoje há quem acredite ter recebido uma autoridade sem limites e pense poder usá-la e abusar dela à vontade”, destaca o padre Patton, mas “toda autoridade terá de responder perante Deus pela forma como exerce o poder recebido”: o de “julgar”, “iniciar uma guerra ou de a terminar”, “o poder de educar para a violência ou para a paz”, “alimentar o desejo de vingança” ou “de reconciliação”, e ainda “o poder de usar a economia para oprimir os povos ou para libertá-los da miséria”, “o poder espezinhar a dignidade humana ou protegê-la”, “o poder de promover e defender a vida ou de rejeitá-la e sufocá-la”. Falta de respeito pela dignidade humana O abuso de poder é um tema recorrente na Décima Estação, "Jesus é despojado de suas vestes". Para o franciscano, essa tentativa dos soldados de humilhar e despojar Cristo de sua dignidade humana "se repete continuamente, mesmo em nossos dias": quando "regimes autoritários" obrigam "prisioneiros a permanecerem seminus", quando há tortura, ou quando há quem autorize e utilize "formas de perquisição e controle que não respeitam "o ser humano". É uma ação "praticada pelos estupradores e abusadores, que tratam as vítimas como objetos", pela "indústria do espetáculo, quando ostenta a nudez para ganhar mais alguns espectadores", e até mesmo pelo "mundo da informação, quando expõe as pessoas perante a opinião pública". Mas qualquer um também pode violar a dignidade de uma pessoa quando, com sua "curiosidade", "não respeita nem a modéstia, nem a intimidade, nem a privacidade". E assim devemos nos deixar revestir por Jesus de "humildade", "compaixão" e "um renovado senso de modéstia". José de Arimateia e Nicodemos — a 13ª Estação — são um exemplo, pedindo o corpo de Jesus para um sepultamento digno. Hoje, porém, existem "cadáveres não restituídos e insepultos" e "mães", "parentes" e "amigos dos condenados" que são "obrigados a se humilhar perante as autoridades para que os restos mortais torturados de seus parentes sejam restituídos". Contudo, "mesmo o corpo de uma pessoa morta conserva a dignidade da pessoa e não pode ser vilipendiado, escondido, destruído, não devolvido ou privado de um sepultamento adequado", reflete o autor das meditações, e não apenas o da "pessoa boa", mas também o de "um criminoso merece respeito". Portanto, deve haver espaço para o sentimento de "piedade", para "sentir o sofrimento dos prisioneiros", para "mostrar solidariedade aos presos políticos", para "compreender as famílias dos reféns", para "chorar os mortos sob os escombros" e para "ter respeito por todos os falecidos". Poder autêntico O poder autêntico, no entanto, nos é mostrado por Jesus pregado na Cruz, XI Estação. É o poder "de quem pode vencer a morte dando vida" e anula o mal com o "amor" através do perdão, "não de quem acredita poder dispor da vida do outro infligindo a morte" ou "usa força e violência para se impor". Cristo é Rei e reina da cruz, enfatiza Patton, mas Ele não usa "o poder aparente dos exércitos", mas sim "a aparente impotência do amor, que se deixa ser pregado". "Não é o amor pela força que vence, mas a força do amor." O caminho da humildade No percurso para o Gólgota, Jesus, que "abraçando a cruz e carregando-a sobre os ombros" (II Estação), assume "nossa humanidade", assumindo "nossa escravidão" e "nossos crimes", ensina-nos a não ter medo da cruz. "Dai-nos a graça de vos seguir pelo vosso caminho", reza o padre Patton, dirigindo-se a Deus, para que Ele nos liberte "do desejo de glória humana", "da tentação de ignorar quem sofre" e do egoísmo. Assim, as outras quedas de Cristo tornam-se um convite "para aprender o caminho da humildade", mesmo a partir da experiência de tropeços e "humilhações" (Terceira Estação), para começar de baixo. Portanto, humilhar-se, curvar-se (Sétima Estação), como Jesus fez quando lavou "os pés de seus discípulos na Última Ceia" e deu "o exemplo de serviço, o ensinamento do amor fraterno e a profecia de dar a própria vida". Esse desejo de nos conduzir "à própria vida de Deus" leva Cristo a estender a mão ao ser humano, e assim, quando o homem cai, ele o faz "para levantar quem foi esmagado pela injustiça, pelas mentiras, por toda forma de exploração e por todo tipo de violência", e também "pela miséria produzida por uma economia voltada para o lucro individual em vez do bem comum". Sua terceira queda, então, — a IX Estação — é sua abordagem às fragilidades humanas, um encorajamento para continuar o "caminho" em seus "passos", porque "não importa quantas vezes caiamos", seu "amor", seu "perdão", sua "misericórdia" são dons infinitamente maiores. Os cireneus de hoje Ainda vislumbrando o presente ao longo do caminho para o Calvário, o padre Patton identifica em Simão de Cirene, V Estação, os muitos que "escolhem fazer algo de bom para os outros em todas as partes do mundo", os "milhares de voluntários" que ajudam "quem precisa de comida, educação, cuidados médicos, justiça", arriscando a própria vida. Muitos deles não creem e, sem saber, ajudam Cristo a "continuar carregando a cruz" ao cuidar dos outros, observa o franciscano, que pede a Deus para que todos aprendam a ser empáticos e compassivos "com obras e em verdade", atentos "aos que sofrem e aos descartados" e "a quem está sozinho e sem cuidado". As mulheres no caminho da cruz As mulheres presentes nas horas da Paixão também falam ao homem contemporâneo. Verônica, que "sabe reconhecer" Jesus em sua "beleza desfigurada" (VI Estação), nos exorta a ver Cristo "em cada pessoa condenada pelo preconceito", "nos pobres privados de sua dignidade", "nas mulheres vítimas do tráfico humano e da escravidão", "nas crianças cuja infância foi roubada". As mulheres de Jerusalém (VIII Estação) recordam todas essas presenças femininas "onde quer que haja sofrimento ou necessidade": "Nos hospitais e lares de idosos, nas comunidades terapêuticas e acolhedoras, nas casas-família para as crianças frágeis, nos lugares de missão mais remotos abrindo escolas e dispensários, nas zonas de guerra e conflito socorrendo os feridos e consolando os sobreviventes". Mas neles também podemos identificar aqueles que choram por seus filhos, "levados e presos durante uma manifestação, deportados por políticas desprovidas de compaixão, naufragados em viagens desesperadas de esperança, dizimados em zonas de guerra, aniquilados em campos de extermínio". As lágrimas deles é preciso ter hoje "para chorar pelos desastres da guerra", "pelos massacres e genocídios", "pelo cinismo dos prepotentes". Depois, há a mãe, Maria — IV Estação — aquela a quem, aos pés da cruz, Jesus pede "que continue a gerar e a continuar a ser mãe" de todos. O frade menor pede que ela volte seu olhar para "as muitas, muitas mães" que "veem seus filhos presos, torturados, condenados, mortos", aquelas "acordadas no meio da noite por notícias devastadoras" e aquelas "que velam no hospital por um filho que está morrendo". Ele implora consolo para “órfãos, especialmente aqueles que ficaram órfãos por causa da guerra”, “migrantes, deslocados internos e refugiados”, aqueles que sofrem tortura e punições injustas, aqueles que “perderam o sentido da vida” e aqueles que morrem sozinhos. Percorrer o caminho de Jesus no mundo real Com suas meditações, o padre Patton nos convida a "percorrer o caminho das pegadas de Jesus", não "meramente ritualístico ou intelectual", mas de uma forma que "envolve toda a nossa pessoa e toda a nossa vida", como indica São Francisco de Assis em seu Ofício da Paixão do Senhor: "Levem seus corpos como oferta, tomem a sua santa cruz e sigam os seus santíssimos mandamentos até o fim". Porque "a Via-Sacra não é o caminho de quem vive num mundo de devoção estéril e recolhimento abstrato", explica o franciscano, mas sim "o exercício de quem sabe que a fé, a esperança e a caridade devem ser encarnadas no mundo real". É aqui que o fiel, continuamente desafiado, "deve fazer do caminho de Jesus o seu próprio".

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