À medida que a África do Sul se aproxima do dia 30 de junho, data estabelecida por grupos anti-imigração ilegal como prazo para que cidadãos estrangeiros sem documentos deixem o país, a Igreja Católica apela à calma, ao respeito pela dignidade humana e ao cumprimento do Estado de Direito.
Por Sheila Pires, em Joanesburgo Numa declaração intitulada “Em Defesa da Dignidade Humana, da Justiça e da Fraternidade”, o Bispo responsável do gabinete da Comissão de Justiça e Paz da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC), Dom Thulani Victor Mbuyisa, CMM, advertiu que, embora as preocupações relacionadas com o desemprego, a criminalidade e as dificuldades económicas sejam reais e não devam ser ignoradas, nunca podem ser utilizadas para justificar a violência ou a hostilidade contra cidadãos estrangeiros. “As soluções duradouras nunca serão encontradas na violência, na procura de bodes expiatórios ou nas ameaças contra cidadãos estrangeiros”, enfatizou o prelado. A declaração, emitida na quarta-feira, 24 de junho de 2026, surge num contexto de crescente tensão em várias regiões da África do Sul, onde manifestações anti-imigrantes e ações de grupos de vigilantes levaram ao deslocamento de milhares de pessoas, particularmente nas províncias de KwaZulu-Natal, Gauteng, Cabo Oriental e Cabo Ocidental. Um apelo à defesa da dignidade humana O Bispo Mbuyisa apelou a todos os sul-africanos para que rejeitem a violência e permaneçam fiéis tanto ao Evangelho como aos valores consagrados na Constituição do país. O Bispo da Diocese de Kokstad condenou qualquer forma de intimidação, ameaça ou ataque dirigido a migrantes e refugiados, alertando igualmente para o perigo da disseminação de desinformação, discursos inflamatórios e vídeos não verificados que podem alimentar ainda mais o medo e a divisão social. “Como cristãos, não podemos ignorar o claro mandamento da Sagrada Escritura de amar o estrangeiro e defender a dignidade de cada pessoa humana”, lê-se na declaração, citando Levítico 19,34: “O estrangeiro que reside entre vós será tratado como um dos vossos compatriotas.” Reconhecer as preocupações legítimas Ao mesmo tempo, Dom Mbuyisa reconheceu que as frustrações que motivam muitos dos protestos atuais têm origem em desafios socioeconómicos reais. Questões como o desemprego, a criminalidade e as pressões relacionadas com o comércio informal continuam a afetar milhões de sul-africanos e exigem uma atenção séria tanto por parte do governo como da sociedade. “Estas preocupações são reais e não devem ser ignoradas”, observou o Bispo Mbuyisa, insistindo, contudo, que a violência e a procura de bodes expiatórios nunca poderão oferecer soluções significativas ou duradouras. A posição da Igreja reflete igualmente as preocupações recentemente expressas pelo Arcebispo Sithembele Sipuka, Presidente do Conselho Sul-Africano de Igrejas (SACC), durante um encontro com o Presidente Cyril Ramaphosa nos Union Buildings. Dirigindo-se ao Presidente, o Arcebispo Sipuka alertou contra a tendência de atribuir aos cidadãos estrangeiros a responsabilidade pelos desafios sociais e económicos da África do Sul. Estado de Direito e protesto pacífico Na declaração de 24 de junho, Dom Thulani Mbuyisa apelou a todos os sul-africanos para que respeitem o Estado de Direito e rejeitem as políticas de divisão e de procura de bodes expiatórios. Esta mensagem surge numa altura em que as autoridades sul-africanas intensificam os preparativos para o dia 30 de junho. Segundo notícias divulgadas pelos meios de comunicação social, o Ministro interino da Polícia, Firoz Cachalia, anunciou esta semana que o Serviço de Polícia da África do Sul (SAPS) mobilizará recursos significativos para garantir a ordem pública, prevendo-se que as operações de segurança custem mais de 600 milhões de rands. Falando durante uma conferência de imprensa, Cachalia afirmou que as forças de segurança estão preparadas para proteger as comunidades e as infraestruturas essenciais. Construir uma sociedade de fraternidade Nas suas palavras finais, o Bispo Mbuyisa apelou aos sul-africanos para que trabalhem juntos na construção de uma sociedade alicerçada na justiça, na compaixão, na fraternidade e na paz. “Defendamos o Estado de Direito, rejeitemos as políticas de procura de bodes expiatórios e trabalhemos juntos para construir uma sociedade fundada na justiça, na compaixão, na fraternidade e na paz”, concluiu Dom Mbuyisa.