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CAPÍTULO 8
Sexo e Amor a Deus
O sexo tornou-se um dos assuntos mais discutidos nos tempos modernos. Os vitorianos fingiam que não existia; os modernos pretendem crer que nada existe além dele. Alguns críticos lançam toda a culpa disto sobre Freud. Emil Ludwig, no seu livro, Dr. Freud, afirma que toda a popularidade de Freud se deve ao facto de ele ter tornado possível que as pessoas falem de sexo sob o disfarce da ciência.
“... O rótulo científico de Freud permite que a mais recatada menina discuta os mais íntimos pormenores sexuais com qualquer homem, estimulando-se ambos eroticamente durante a conversa, embora conservando as faces imuperturbáves; isto prova que se é, simultaneamente, culto e despido de preconceitos. Que coisa tão conveniente na puritana América! ” [46]
Não é esta, sem dúvida a explicação total. O freudismo jamais se teria tornado popular numa civilização mais normal. Marx e Freud não teriam escrito no século XIII e não teriam tido um público frívolo na era elizabethiana. A actual atração por eles deve-se ao facto de ser mais favorável a tal filosofia o clima do mundo. Teria de haver uma preparação materialista para o Sexualismo. Lewis Munford afirma acertadamenteo: “A despeito do alcance que Freud deu teoricamente aos mais profundos impulsos subjetivos do homem, cria que a ciência era a única que podia realizar a melhoria do homem. Inconscientemente, aceitou, como revelação final da verdade, a ideologia formulada no século XVIII, a de Locke, Hume, Diderot, Voltaire”. [47] O Dr. Reinhold Niebuhr relaciona Freud, com uma reação contra o falso otimismo: “O pessimismo romântico, que culminou em Freud, pode ser considerado como símbolo do desespero que invade o homem quando se dissipam as suas ilusões otimístas; pois sob o perpétuo sorriso do modernismo há um esgar de desilusão e de cinismo.” [48] Thomas Mann encontra a fonte em Schopenhauer: “Schopenhauer, como psicólogo da vontade, é o pai de toda a psicologia moderna. Dele parte diretamente a linha, por intermédio do radicalismo psicológico de Nietzsche, até Freud e aos homens que construíram a psicologia do inconsciente e a aplicaram à ciência mental”. [49]
Não é histórico e psicologicamente correto culpar Freud do excessivo ênfase actual sobre o tema. Em vez de ser o criador da popularidade do sexo, foi antes a sua expressão e o seu afecto. Longe de ser fundador de uma época, foi o seu pós-escrito. Há ainda alguns fiéis discípulos escrevendo que consideram o método de Freud e a sua filosofia como a verdade absoluta. Ressentem-se amarga e instantaneamente de qualquer crítica, chamando-a “reacionária” ou “obscurantista”. Mas muitos outros já mudaram ou abandonaram as ideias fundamentais de Freud. Entre estes contam-se Karen Horney e Teodoro Reik. [50]
As razões desse exagerado interesse pelo sexo encontram-se profundamente enraizados na nossa civilização:
“Com Marte se entender; com almas conversar;
Relatar o que faz o monstro lá no mar;
O horóscopo dizer; a bola de cristal
Consultar; a doença, em letras descobrir;
Biografias fazer, pelas rugas da mão;
Nos dedos encontrar tragédias; e presságios
Proferir, por bruxedo ou por folhas de chá adivinhar o inevitável
Com cartas de jogar, brincar com pentagramas
Ou ácidos barbitúricos; ou dissecar
A imagem recorrente dos terrores preconscientes…
Dissecar e sondar o ventre, a tumba, os sonhos,
São estes usuais passatempos e drogas
De que faz propaganda a imprensa em nossos dias.
E sempre assim será, sempre que hesitação
E desgraças houver, atormentando o mundo.” [51]
A principal razão dessa deificação do sexo está na perda da fé em Deus. Uma vez perdido Deus, perdem os homens a finalidade da vida e quando se esquece a finalidade da vida, torna-se o universo sem significado. Tenta então o homem esquecer o seu vazio pela intensidade de uma experiência de momento. Este esforço por vezes vai tão além que o homem converte em deus a carne de outra pessoa: há idolatria e adoração, as quais, em consequência, terminam em desilusão, quando o chamado “anjo” se revela apenas um anjo decaído e sem grande atração. Por vezes a própria carne é transformada em deus. Então tende-se à tirania sobre as outras pessoas e, finalmente, à crueldade.
Não há fórmula mais segura de descontentamento que tentar satisfazer os nossos anseios pelo oceano do Amor Infinito bebendo da chávena de chá das satisfações finitas. Nada material, físico ou carnal poderá jamais satisfazer completamente o homem. Este tem uma alma imortal que necessita de um Amor Eterno. “Não só de pão vive o homem.” A necessidade que tem o homem do Amor Divino, uma vez pervertida, impele-o a ir em busca do Amor Infinito em seres finitos, nunca o encontrando e, contudo, nunca podendo dar fim às buscas, a despeito das suas desilusões. Então surge o cinismo, o aborrecimento, o fastio, e por fim o desespero. Tendo perdido o oxigénio espiritual, o homem asfixia-se. A vida deixa de significar algo de preciso para ele e pensa em suicidar-se, como acto final e definitivo de rebelião contra o Senhor da Vida. Como observa E. I. Watkin a respeito de tais homens modernos:
“... O racionalismo roubou-lhes a fé em Deus e a vida de amor espiritual em união com Ele. Sendo homens e não máquinas de calcular ou vegetais, necessitam ter vida, concreta, intensa, apaixonada. Voltam-se, então, para o sexo, a imagem biológica da vida espiritual, a sua paixão e união… não pelo que o sexo possa realmente dar-lhes, e tem dado em todos os tempos, mas pelo conteúdo daquela outra e suprema vida de amor que ele reflete. Ficam sem dúvida desapontados, e continuarão a sentir-se desapontados. Mas a sua procura é um juízo, um testemunho e um chamamento. É, em primeiro lugar, um julgamento...
O raciocínio humano não pode alcançar o claro e completo sistema de verdades sobre o qual só poderia ser construída uma estável ordem mundial de natureza puramente racional. Ele (o homem) é devorado pelo monstro submarino da vida biológica, emboscado nos seus instintos irracionais, a baleia do sexo. Pois, como a baleia, o sexo deveria alimentar as necessidades do homem e não o engolir. Mas o monstro marinho pode tornar-se o instrumento da sua libertação. No seu ventre, escuro e fechado, o homem aprende a conhecer, como o profeta, a impotência de seus poderes naturais para satisfazer as exigências de seu espirito, a sua necessidade de iluminação divina e de graça. Assim o julgamento do sexo na sua moderna idolatria torna-se um testemunho da necessidade para o homem da vida e do amor que só Deus pode conferir, um testemunho da realidade que prefigura e reflete.” [52]
Uma segunda razão para o culto do sexo é o desejo de escapar à responsabilidade de viver e à voz intolerável de uma consciência inquieta. Pela concentração sobre áreas inconscientes animais, primitivas, os indivíduos dominados pela culpa sentem que não mais precisam de afligir-se a respeito do significado da vida. Uma vez negado Deus, então tudo se torna permitido para eles. Negando o ético da vida, substituíram a liberdade pela licença.
“Aqueles que estão conscientes das provas apresentadas pela moderna psicologia referentes ao importante papel representado pela força consciente ou inconsciente da sexualidade nas opiniões e na conduta do homem, podem muito bem inclinar-se a adoptar o ponto de vista de que a vontade de subverter a ordem social não é devida inteiramente ao amor absoluto da justiça, ou à necessidade de alimento e bens entre os famintos e os que nada possuem. O desejo mais ou menos franco de libertar-se das restrições sociais em matéria de atividade sexual é um factor frequente e importante.” [53]
É por isso que uma época de licença carnal é sempre uma época de anarquia política. Os fundamentos da vida social são abalados no mesmo instante em que os fundamentos da vida familiar são destruídos. A rebelião das massas contra a ordem social que Marx advogou, é acompanhada pela rebelião da líbido e dos instintos animais, que os sexualistas advogam no íntimo do indivíduo. Ambos os sistemas negam a responsabilidade, quer porque se acredita que a história é determinada pela economia, quer porque se afirma que o homem é determinado pela biologia. Contudo, os próprios indivíduos que negam toda a responsabilidade humana e a liberdade em teoria, censuram livremente os seus cozinheiros porque queimaram o toucinho de manhã e dizem “muito obrigado” de noite ao amigo que louva o seu derradeiro livro: Não há liberdade.
Uma terceira razão para a super-ênfase do sexo é a negação moderna da imortalidade. Uma vez negado o Eterno, o "agora" torna-se importantíssimo. Quando os homens acreditam na imortalidade, não somente buscam a continuidade do seu espírito na eternidade, mas também a continuidade da sua carne, por meio da criação de famílias que lhes sobreviverão e aceitam por outra parte o desafio que a morte lhes apresenta. A negação da imortalidade dá assim à morte duplo domínio: primeiro sobre a pessoa, que nega a sobrevivência, embora tenha que morrer; depois leva-o a repudiar a vida familiar, que é agora olhada como simples obstáculo aos prazeres da breve hora da vida. É facto histórico que, em tempos de desastre, epidemia, bombardeamentos, etc., alguns indivíduos que não possuem valores eternos a sustentá-los, vendo extinguir-se em torno de si a duração da vida, mergulham em orgias de deboche. A concentração em torno das coisas perecíveis da terra tende a secar o entusiasmo moral e a estimular ânsias de satisfação bestial, quando tais homens vêm o seu fim aproximar-se. Mas tais catástrofes não são necessárias. Sempre que o tempo na terra é visto como totalmente importante, os mais velhos falam a respeito “do futuro que está nas mãos dos jovens”. Cada qual tem receio de falar da sua idade e o assunto velhice é tratado de uma maneira entre insultuosa e escarnecedora. Como animais acuados, não em jaulas, mas no tempo, tais homens encolerizam-se contra a passagem do tempo. Os anos apressados diminuem o prazer e lançam uma sombra que se tenta não ver. Mas desde que se não tem esperança de escapar a ela para sempre, o medo da morte cresce a toda a pressa. Não é por acaso que a atual civilizacão que deu ênfase ao sexo como nenhuma outra época na história da Cristandade o faz viver no temor constante da morte. Beaudelaire pintou muito bem o amor moderno dizendo-o sentado sobre um crânio. Quando se dá à carne um valor moral, ela produz vida; quando o sexo frustra a moralidade, termina em morte.
Uma criança a quem se deu uma bola e se disse que será a única bola que jamais terá na vida, não pode gozar muito dela porque é dominada pelo medo de perdê -la. Outra criança, a quem se disse que se for boa ganhará outra bola, não precisa de ter medo de perder a primeira. O mesmo se dá com o homem que tem somente um mundo, em contraste com o cristão. Mesmo em pleno gozo da vida, o primeiro homem caminha com medo do seu fim. Os seus prazeres são todos ensombrados pela morte. Mas o homem que acredita numa vida futura, condicionada pela moralidade, tem a grande vantagem de ser feliz neste mundo, bem como no outro.
A predileção pelo sexo é característica de uma época profundamente naturalística. Mesmo antes de conceber-se a psicanálise, podiam-se observar sinais notáveis de tal desenvolvimento. A escola literária naturalística da França, que veio a ter tremenda influência, começando com Flaubert, Guy de Maupassant e Zola, deu ênfase ao sexo. Nenhum daqueles escritores era um “imoralista”, mas partilhavam a ideia de que a “natureza” devia ser discutida francamente e sem restrições. Há pouca licenciosidade nos seus escritos, mas acontecia que aquelas obras, na intenção de descrever as coisas humanas como são, foram acolhidas por leitores que buscavam bem outro efeito nelas. A escola naturalista tornou-se assim, involuntariamente, uma preparação para uma libertinagem crescente. O êxito da psicanálise na América - não entre os psiquiatras, mas entre o público - tem a mesma origem que o êxito de certos romancistas do sexo, como D. H. Lawrence.
Uma quarta razão da super-ênfase do sexo é a negação da alma racional e a equiparação do homem ao animal. Isto implica o abandono completo da ética nas relações humanas. Agora não é a a vontade que reina, mas o instinto, à medida que os padrões de moralidade deram lugar às práticas de curral. A tragédia moderna não está em que os seres humanos dão muitas vezes mais expansão às suas paixões agora do que em épocas passadas, mas em negarem, abandonando o caminho recto, negam a existência desse mesmo caminho. Os homens revoltaram-se contra Deus em outras épocas, mas reconheciam-se rebeldes. Pecavam, mas sabiam que pecavam. Viam claramente que estavam na estrada errada. Hoje os homens atiram fora o mapa.
A identificação do homem com o animal é uma grande falácia. O sexo no homem não é a mesma coisa que o sexo nos animais. [54] Um animal sente, mas nenhum animal ama. No animal, não há conflito entre corpo e espírito. No homem, há. No animal, o sexo é mecânico, uma questão de estímulo e de reação. No homem, está ligado ao mistério e à liberdade. No animal, é apenas um relaxamento de tensão. No homem, a sua ocorrência não é determinada por nenhum ritmo natural, mas pela vontade. O sexo pode causar solidão e tristeza no homem, o que não causa num animal. O animal pode satisfazer todos os seus baixos desejos. O homem não pode fazer isto e a sua tensão vem do facto de tentar substituir o pão da vida pela palha do sexo. Como disse Prinzhorn, ao falar de certo tipo de freudismo: “Dá às pessoas excessivamente intelectualizadas, fora de contato com a terra viva , nas garras de uma sexualidade degradante, uma falsa religião, admiravelmente adequada à sua condição.”
Um aspecto totalmente esquecido do problema sexual no homem é o papel que o pecado original tem desempenhado na sua origem, embora deve ser dito em abono da psicologia moderna que esta ratificou implicitamente o facto, sob o nome de “tensão”. A natureza do homem não é intrinsecamente corrupta, mas fraca. Como resultado, as emoções muitas vezes conseguem supremacia sobre a razão. Com profunda penetração, escreve Berdiaeff:
“Há dois tipos diferentes de gozo: um que nos lembra o pecado original e sempre contém veneno; o outro que nos lembra o paraíso. Quando um homem está gozando o prazer da paixão sensual ou o prazer de comer, deveria sentir a presença do veneno e lembrar-se do pecado original. Esta é a natureza de todos os prazeres relacionados com a luxúria. É perpétuo testemunha da pobreza, não da riqueza, da nossa natureza. Mas quando experimentamos o deleite de respirar a brisa marítima ou o ar da montanha, ou a fragrância das matas e prados, lembramo-nos do paraíso. Não há luxúria nisto.
Estamos comparando aqui prazeres que têm caráter fisiológico. Mas a mesma comparação pode ser feita no reino do espírito. Quando um homem está gozando o prazer da sua avareza ou vaidade, deveria sentir o veneno e lembrar-se do pecado original. Mas quando está gozando um ato que revela a verdade, ou a beleza ou irradia amor sobre o seu semelhante, lembra-se do paraíso. Todo o deleite ligado à luxúria está envenenado e relembra o pecado original. Todo o deleite livre de luxúria e ligado a um amor de valores objetivos é uma lembrança ou pré-gozo do paraíso e liberta-nos dos liames do pecado. A sublimação ou transfiguração das paixões significa que uma paixão fica purificada da lascívia e que um livre elemento criador nela penetra. Este é um ponto de importância fundamental para a ética. O homem deve esforçar-se, primeiro e antes de tudo, por libertar-se da escravidão. Todos os estados compatíveis com a liberdade espiritual e a ela hostis são malignos. A luxúria é ao mesmo tempo insaciável e perecível. Não pode ser satisfeita, porque é o mal infinito dos apetites. Existe outra espécie diferente de desejo, que também se estende para o infinito, por ex., a fome de justiça absoluta. Os que têm fome e sede de justiça são bem-aventurados porque se interessam pela eternidade e não pelo mal infinito. A divina realidade que enche a nossa vida é o contrário do tédio e do vazio que enchem a perversa luxúria da vida. A luxúria, pela sua própria natureza, opõe-se à criação, é a negação da criação. O impulso criador é generoso e disposto a sacrifícios, representa a entrega das próprias energias, ao passo que a concupiscência quer tudo para si mesma, é gananciosa, insaciável e vampiresca. O verdadeiro amor dá força à pessoa amada, ao passo que o amor luxurioso, como um vampiro, absorve a força da outra pessoa. Daí haver oposição tanto entre luxúria e liberdade, como entre luxúria e criatividade. A luxúria é uma paixão pervertida e interiormente debilitada. O poder é uma força criadora, mas também existe a volúpia do poder. O amor é uma força com espírito de sacrifício, mas há também a volúpia do amor.” [55]
Quaisquer que sejam as razões primitivas do atual excesso de ênfase que se põe no sexo, não devem ser atribuídas ao próprio Freud. Uma distinção justa deve ser feita entre Freud e freudismo, espécie de pansexualismo que reduz tudo ao sexo de um modo que o próprio Freud nunca entendeu. Os que levaram as suas teorias de análise ao extremo de tudo interpretar em termos de sexo tem sido submetido a sátiras tremendas. O exemplo mais interessante apareceu no G. K. ‘S Weekly, que traduziu a vida em termos de cerveja, em vez de sexo. Lê-se nele:
“É já um facto estabelecido que todos os motivos e ações humanos são devidos à Cerveja, não simplesmente entre adultos, mas também entre crianças…
A vida inteira de uma criança (de qualquer sexo) é movida pela Cerveja. A primeira ação de que é capaz uma criança é um grito de desejo. Estabelecemos que este não é outro senão um grito que pede Cerveja ou, pelo menos, alguma espécie de bebida. O ato seguinte da criança é beber. Se não bebe cerveja é porque o seu organismo ainda não é capaz de bebê-la. Mas por detrás do prazer que sente bebendo leite, está o desejo de beber cerveja. Chamamos a isto instintos primários. Os instintos secundários hão de ser encontrados no gosto pelas rolhas que saltam, pelas cores amarelo-castanhas, pelas substâncias espumosas (como o sabão) e assim por diante. A criança chama instintivamente Papá ao pai (o que representa o pipocar da rolha a saltar da garrafa) e Mamã à mãe (o que lembra o ruído do líquido que está sendo derramado num copo). Todos os ruídos gorgolejantes da infância demonstram a potência do instinto…
A maior parte dos nossos conhecimentos baseia-se em sonhos o que aceitamos como a demonstração cientifíca mais digna de confiança. Sabemos (graças a meios demasiado complicados e extensos para serem detalhados aqui) que mesmo criancinhas muito novas sonham com cerveja; não só, porém mais ainda, não sonham com outra coisa mais. Quando uma criança sonha com um bote sobre um lago, que é isso senão um símbolo da cerveja? Com uma chuva, um rio, um mar? Tudo quanto é amarelo ou castanho é cerveja. Tudo quanto é espumoso ou cintilante é cerveja. Tudo em alguma coisa mais é cerveja (uma noz na sua casca, por exemplo, representa evidentemente a cerveja na garrafa). Tudo que se move é cerveja, particularmente os movimentos rápidos e saltitantes, que lembram o lúpulo. De facto, podemos dizer que a criança não pode sonhar com outra coisa senão cerveja. Não há sonho possível senão cerveja...
Eis um exemplo. A paciente era a senhora X. Veio ter connosco, extremamente perturbada. “Os meus nervos estão destroçados”, disse ela. “Desejo que o senhor me ajude.” O professor Bosh interrogou-a e conservou-a sob observação. Descobriu que antes de ir deitar-se tinha ela o costume de escovar o cabelo. “A escova era cor de âmbar e transparente. A paciente levantava-a lentamente até os lábios, parava, e depois continuava a escovar o cabelo. Isto era uma coisa completamente inconsciente. Em resposta às minhas perguntas deixou transparecer que muitos anos antes o médico da família a havia proibido de beber qualquer coisa alcoólica. Ela estivera acostumada a tomar um copo de cerveja todas as noites à hora da ceia.” O professor Bosh explicou isto e imediatamente ficou convencida da verdade disto. Submeteu-se a tratamento e dentro em breve estava perfeitamente bem e forte. ” [56]
Diferentemente do freudismo extremo , o cristianismo não tem a mentalidade tão estreita a ponto de fazer do sexo o instinto mais importante da vida ou de atribuir exclusivamente à sua repressão as desordens mentais. Se o recalque dos seus impulsos errantes e desgovernados é a causa das anomalias mentais, por que é que aqueles que se abandonam mais à licença carnal são os mais anormais, ao passo que aqueles que acreditam na religião e na moralidade são os mais normais dos homens? Usando uma vigilância mais compreensiva e mais sadia sobre a vida, o cristianismo investiga não uma, mas várias raízes de desordens mentais no mundo não físico e moral. Há sexo, é certo; mas há também seis outras causas possíveis: orgulho, cobiça, cólera, inveja, gula e preguiça.
A fim de compreender o papel próprio do instinto sexual, consideremos a verdadeira natureza do homem. Todo o homem procura a perfeição. Está constantemente tentando transcender-se a si mesmo, sair fora de si mesmo, de certo modo expandir-se, escapar às suas limitações. Há uma espécie de sagrada impaciência em todos nós. O “eu”, o “mim” em cada um de nós sente-se limitado. Anseia por expansão, acha a terra demasiado pequena e até as estrelas demasiado perto. A posse, quanto mais prospera mais nos deixa famintos. Queremos ser perfeitos, mas estamos apenas num processo de realização. Não sendo capazes de encontrar a paz dentro de nós mesmos, procuramos compensar as nossas limitações, estendendo-nos em uma de três direções: através da mente, através do corpo ou através das coisas.
A auto- preservação é uma das primeiras leis da natureza e implica um legítimo amor de si mesmo, pois se nós não nos amarmos a nós mesmos não poderemos continuar a viver. O nosso Divino Senhor lembra-nos que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. O amor de si mesmo, sabendo que não pode existir por si, da mesma maneira que não pode o estômago resistir sem o alimento, estende-se em uma direção pela aquisição do saber e quanto mais conhecemos a verdade, tanto mais se desenvolve a nossa personalidade. A busca da perfeição do eu atinge até o infinito. Ninguém jamais disse: “conheço bastante.” É por isso que odiamos que haja segredos ocultos de nós (os homens odeiam tanto isso quanto as mulheres). Somos incuravelmente curiosos. Fomos feitos para conhecer.
Escapamos às limitações do corpo, em outra direção, pela expansão da nossa carne na procriação de outras pessoas. O amor tende sempre a uma encarnação. A fim de que a vida humana pudesse ser preservada e continuada, implantou Deus no homem dois grandes apetites e prazeres. Um é o prazer do alimento, para preservar a vida corporal do indivíduo; o outro é o prazer do casamento, para preservar a vida da raça.
O terceiro meio de aperfeiçoar-nos é pela posse das coisas. Justamente como somos livres no íntimo, porque podemos chamar nossa à nossa alma, assim também queremos ter liberdade exterior de chamar nossas as coisas que possuímos. A propriedade pessoal ou privada é natural ao homem. É a garantia económica da liberdade, como a alma é a garantia espiritual.
A Igreja ensina que a pessoa humana está constantemente lutando pela perfeição e se sente inquieta enquanto não aperfeiçoa o seu espírito no saber, ou gera a sua espécie no casamento, ou assegura a sua garantia económica com a posse de bens. Cada uma dessas ânsias, desejos e instintos é correta e conferida por Deus. Em cada um desses casos, o “eu” está tentando encontrar outro “eu”. Porque o “eu” ama-se a si próprio, ama também a sabedoria, ama a carne, e ama a propriedade.
Donde pois surge a anormalia, se essas buscas são naturais? Como poderiam elas causar uma psicose, ansiedade ou um complexo, como tampouco não o causam o olho vendo e o ouvido ouvindo? Se fossemos animais, estas procuras da perfeição nunca haveriam de causar, de facto, perturbações, pois o desejo de um animal pode ser plenamente satisfeito, mas o do homem não pode. Nenhum animal tem curiosidade a respeito de clorofila, quando vê uma planta, não tem um esquilo um complexo de ansiedade a respeito da possibilidade de haver uma carestia de nozes daí a dez anos. Mas os impulsos e paixões do homem estão submetidos à sua vontade. Não sendo mecanicamente ordenadas como meios para salvação da sua alma, ele pode fazer mau uso das suas paixões, torná-las fins em si mesmas, tentar descobrir o absoluto na relatividade delas.
O amor próprio que é bom, pode ser pervertido em auto-adoração, na qual se diz: “Sou a minha própria lei, a minha própria verdade, o meu próprio modelo. Ninguém pode dizer-me coisa alguma. Tudo quanto considero bom, é bom; o que acho mau, é mau. Portanto, sou Deus”. Esse é o pecado do orgulho, a perversão do amor próprio em egoísmo. Tal indevida inflação de si mesmo é uma das principais causas de infelicidade. Quanto mais um balão se enche, mais facilmente pode ser furado. O egoísta move-se com cautela, no constante perigo de ver destruídos os seus falsos valores.
O instinto sexual, que é bom, também pode ser pervertido. Nos tempos da Roma pagã alguns indivíduos corruptos compareciam a banquetes, empanturravam-se de comida, faziam "cócegas" na garganta para vomitar os alimentos e depois voltavam a comer mais. Isto era mau, porque, como lhes dizia a razão, come-se para viver e o prazer não deve ser separado da sua função. Da mesma maneira, quando os fogos da vida são deliberadamente despertados, não para acender novas tochas de luz, mas para queimar a carne, há o pecado da luxúria. Esta é uma perversão que os animais não podem cometer porque não podem articular e centralizar artificialmente os seus instintos.
Em terceiro lugar, o legitimo desejo do homem de expansão própria por meio da propriedade pode ser pervertido numa paixão desordenada de riqueza, sem consideração quer ao seu uso social, quer às necessidades do próximo. Este é o pecado da avareza, no qual um homem não possui uma fortuna, mas é uma fortuna que o possui.
Como a vontade do homem pode perverter as suas boas paixões, instintos, anseios e aspirações, e transformá-las em orgulho, luxúria e avareza, a Igreja impõe mortificação, por meio da prece que torna humilde a alma orgulhosa, por meio do jejum, que doma os impulsos errantes do corpo, e por meio de esmolas, que nos desprendem do amor desordenado das coisas. Em plano mais elevado, a Igreja permite que algumas almas escolhidas prestem: voto de obediência, para expiar pelo orgulhoso; voto de castidade, para redimir os licenciosos; e voto de pobreza, para compensar os codiciosos. Estes votos são prestados não porque o gozo do espírito, da carne ou da propriedade seja erróneo, mas porque alguns membros da sociedade abusam deles e os pervertem. Essas almas sagradas, curvando-se, humildes, compensam, por assim dizer, os excessos de outras, em proveito destas. Assim é a reta ordem dos bens preservada no universo de Deus.
À luz do que fica dito acima, não há tolice mais excelsa do que dizer que a Igreja se opõe ao sexo. Não é mais oposta do se vá à escola ou se possua uma casa. A natureza não é corrupta. Como disse Aristóteles, “A natureza não mente”. É o falso uso da natureza pelo homem que obscurece a face do mundo. Nem acredita a Igreja como um monomaníaco que o sexo é o único instinto que o homem tem, ou que todos os outros instintos hão de ser interpretados em termos de sexo. Pelo contrário, com uma compreensão mais profunda da natureza humana, diz ela que o anseio de perfeição é básico e que o sexo é apenas um dos três meios pelos quais se realiza nesta vida uma relativa perfeição.
Donde pois tiraram os fanáticos do sexo a ideia de que a Igreja é a inimiga do sexo? Tiraram-na da sua inabilidade em fazer uma distinção: uma distinção entre uso e abuso. Pelo facto de condenar a Igreja o abuso da natureza, os fanáticos do sexo pensam que a Igreja condena a própria natureza. Isto não é verdade. Longe de desprezar o valor do corpo humano, a Igreja dignifica-o. É seguramente mais nobre dizer, como um cristão, que o corpo é um Templo de Deus, do que dizer, com algumas mentalidades modernas, que o homem é simplesmente uma besta. Como disse Clemente de Alexandria: “Não devíamos ter vergonha de mencionar aquilo que Deus não teve vergonha de criar”. Não há pecado no reto uso da carne; mesmo sem a Queda do Homem, a imagem do homem deveria ter sido continuada por meio da procriação. E S. Tomás diz-nos que havia mais prazer no casamento antes da Queda do que agora, por causa da maior harmonia e paz na alma do homem. Santo Agostinho disse: “Faríamos, portanto, injúria ao nosso Criador imputando os nossos votos à nossa carne; a carne é boa, mas abandonar o Criador e viver de acordo com este bem criado é que é erróneo. ” [57]
A Igreja fala, sem dúvida, do pecado no domínio do sexo, como fala do pecado no domínio da propriedade, ou do pecado na área do amor-próprio. Mas o pecado não jaz no instinto ou na própria paixão. Os nossos instintos e as nossas paixões são dons de Deus; o pecado jaz na perversão deles. O pecado não está na fome, mas na gula. O pecado não está em procurar a segurança económica, mas na avareza. O pecado não está na bebida, mas na embriaguez. O pecado não está no recreio, mas na ociosidade. O pecado não está no amor ou no uso da carne, mas na luxúria, que é a sua perversão. Justamente como o sujo é a matéria no lugar errado, da mesma maneira o sexo pode ser carne fora do lugar devido.
Uma concentração indevida em torno de uma única das atividades da vida tende a tornar um homem anormal, devido à unilateralidade dos seus interesses. Isso é especialmente verdade quando se trata duma preocupação excessiva com o carnal. Tende a tornar psíquico o que é físico, fazendo retroceder tudo a um único instinto. O sexo em outras idades era físico; produzia nova vida. Hoje, porque muitas vezes impede a vida, é também psíquico. Pensa-se no sexo como um meio de prazer, a tal ponto que ele se tornou uma obsessão. Justamente como um cantor ficaria louco se se concentrasse em seu tórax, em vez de concentrar-se na sua canção, e um regente de orquestra tornar-se ia um neurótico concentrando-se na sua batuta, em vez de se concentrar na sua partitura, da mesma maneira o homem moderno pode enlouquecer em pensar no sexo, em vez de pensar na vida.
Pois é o isolamento do factor sexual da totalidade da vida humana, o hábito de olhá-lo como idêntico à paixão que um elefante pudesse sentir, a ignorância da tensão corpo-alma no homem, que causa tantas anomalias e desordens mentais. O falso isolamento de uma parte, que pertence ao todo, é uma característica comum no pensamento contemporâneo. A vida do homem hoje em dia está dividida em muitos compartimentos que permanecem desunidos e desintegrados. O negócio de um homem de negócios não tem conexão com a sua vida em família - a tal ponto que a sua mulher (sua “mulherzinha”) é mantida na ignorância dos rendimentos do seu marido. Como não há conexão entre a profissão de um homem e o resto da sua existência diária, não há tampouco uma conexão entre a sua vida diária e a sua religião. Esta separação da vida em compartimentos estanques torna-se mais desastrosa quando a ocupação e o trabalho estão cada vez menos ligados a um ideal estritamente humano; a mecanização desempenha um papel catastrófico.
Sérios efeitos resultam dessa mecanização e da tendência total à superespecialização na vida moderna. Estes dois fenómenos dos nossos tempos estão ambos relacionados com o hábito analítico da mente, imposto pela moda de uma aproximação predominantemente científica no mundo intelectual. Tudo é encarado isoladamente pelo homem moderno, porque este método é o processo legítimo da ciência. Mas há campos em que o estudo da unidade arrancada do seu contexto deixa de ser adequado. O estudo da própria vida começou a sofrer por causa de um uso excessivo da análise; daí a reação do “totalismo” em psicologia e biologia.
O impulso sexual no homem não é em momento algum um instinto isolado. O desejo desde o seu começo, é informado pelo espírito e nunca um é experimentado separado sem o outro. O psíquico e o físico se inter-actuam. Justamente como os idealistas, que negam a existência da matéria, pecam contra a carne, da mesma forma os sensualistas e carnalistas pecam contra o espírito. Mas trair qualquer dos aspectos é atrair a vingança. “O nosso corpo é parte da ordem universal criada e preservada por Deus. Retamente encarado, é ele próprio um universo suficiente em si mesmo, que nos foi confiado como uma propriedade limitada, mas sagrada. O pecado mais substancial é aquele que cometemos contra nós mesmos e especialmente contra o nosso próprio corpo. A ofensa contra o nosso próprio corpo inclui o pecado contra o Criador. [58]
O instinto sexual num porco e o amor numa pessoa não são a mesma coisa, precisamente porque o amor se funda na vontade e não nas glândulas, e a vontade não existe num porco. O desejo sexual numa pessoa é diferente do sexo numa cobra porque, no ser humano, promete alguma coisa que não pode completamente suprir, pois o espírito no homem antecipa, o que uma cobra não faz. O homem sempre deseja alguma coisa mais do que tem. O próprio facto de que nenhuma das paixões do homem pelo saber, pelo amor e pela segurança pode ser aqui na Terra completamente satisfeita, sugere que ele podia ter sido feito para alguma coisa mais.
A existência da vergonha (que não existe noutra criatura senão no homem), de novo mostra como este instinto, acima de todos os outros, implica a alma. A vergonha corre um véu sobre o mais profundo mistério da vida e preserva-o do uso impaciente, contendo-o até que possa servir a vida como um todo, e assim satisfazer tanto o corpo como a alma. Não haveria tal desgosto no homem, se cada um de nós não sentisse que o corpo tem uma santidade peculiar, não só pela sua potência em continuar o ato criador de Deus, mas também pela sua possibilidade de tornar-se um verdadeiro Templo de Deus.
A pessoa está em busca do absoluto, isto é, da perfeita felicidade. Usar o sexo como um substituto do absoluto é uma tentativa vã de transformar a cópia no original, de fazer a sombra tornar-se substância e o condicional absoluto. Os anseios infinitos de uma alma não podem ser satisfeitos apenas pela carne. O amor, não nos esqueçamos, não está no instinto; está na vontade. Se o amor fosse puramente orgânico, não mais significativo do que qualquer outro ato físico, tal como respirar e digerir, não estaria cercado tantas vezes de sentimentos de desgosto. Mas o amor adulto é muito mais do que isto, não é um eco da fantasia proibida de uma criança, como alguns nos dizem. Todas as almas sentem uma inquietação, um anseio, um vazio, um desejo que é uma lembrança de algo que foi perdido – o nosso paraíso. Todos somos reis exilados. Este vazio só pode ser preenchido pelo Amor Divino e nada mais! Tendo perdido Deus (ou tendo sido d'Ele despojada por falsos mestres e charlatães sexualistas) a pessoa tenta encher o vácuo pelos promíscuos “casos de amor”. Mas o amor, tanto humano como divino, fugirá daquele que pensa que ele é meramente fisiológico: somente pode amar nobremente quem vive uma nobre vida.
É errado dizer que o profundo amor espiritual dos santos por Deus é uma sublimação do instinto sexual, como alguns espíritos perversos têm realmente sugerido. Isso é o mesmo que dizer que o amor da pátria deriva do amor do elefante pela horda. A ideia de que a religião teve a sua origem no instinto sexual é por demais estúpida para ser refutada, pois as maiores influências religiosas da história têm sido as mais destacadas no sexualismo. Quanto mais uma pessoa vive na presença de Deus, tanto mais desenvolve um reflexo contra o mau uso do sexo, tão automático como a maneira pela qual um olho pisca, quando a poeira o fere. Por outro lado, os fanáticos do sexo não são apenas pessoas sem religião, mas, em geral, pessoas anti-religiosas. É curioso ouvir tais homens insistirem em que devemos repudiar a moralidade cristã e desenvolver uma nova ética que se adeque às vidas imorais de uns poucos milhares de indivíduos que eles registaram. Porque os estatísticos puderam descobrir cinco mil pessoas vivendo vidas carnais, sugere-se que o ideal delas deverá tornar-se o ideal universal. Igual número de casos de contração dos músculos do queixo pode ser encontrado nos Estados Unidos. Imaginaria alguém que o endurecimento do queixo fosse tido em consequência como um modelo de saúde física? Os pecados não se tornam virtudes por serem largamente praticados. O direito é ainda direito se ninguém é direito, e o errado é errado, se toda gente é errada. Muitos têm argumentado que as aberrações sexuais são tão comuns como o resfriado comum, mas ninguém tem até agora pedido que consideremos o resfriado normal e desejável.
Do lado positivo, a posição do cristão é que o instinto sexual é o reflexo do amor na ordem espiritual. O sol aparece primeiro, depois os seus reflexos no tanque. A voz não é uma sublimação do eco e nem a crença em Deus uma sublimação dum instinto carnal. Todo o amor, toda a perfeição e toda a felicidade estão primeiro em Deus, depois nas coisas. Quanto mais perto de Deus estão as criaturas, como os anjos e os santos, tanto mais felizes são; quanto mais longe se acham, menos podem revelar as obras da divindade.
“Há cinco aspectos do amor pelos quais a natureza do homem é elevada e completada: O amor do homem e da mulher um pelo outro; o amor dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais; o amor dos homens e das mulheres pela pátria ou pela comunidade; e o amor dos homens e das mulheres pela excelência em alguma atividade criadora, na arte, na literatura ou na filosofia. Não são estas cinco maneiras ou espécies de amor dadas para enobrecer os homens, mas cinco aspectos do amor que é um, mesmo quando pensamos nele como fluindo entre Deus e o homem. Em cada criancinha que jaz no regaço materno, há algo da Encarnação; o mistério da humanidade torna-se a revelação do Céu; e em tal encarnação do Divino Amor podemos distinguir,carregado em cada aspecto do amor humano, o Verbo Encarnado de Aquele em cuja vontade está a nossa paz. ” [59]
Uma vez que a importância do sexo é devida a um esquecimento da verdadeira natureza do homem como corpo e espírito, segue-se que a cura de ansiedades, tensões e infelicidades (criadas pela identificação do homem com uma besta) depende de uma restauração do significado do amor. O amor inclui a carne, mas o sexo, compreendido como instinto animal, não inclui o amor. O amor humano sempre implica o Perfeito Amor.
Há um duplo amor em cada um de nós: um amor que é a realização de si mesmo e tem em vista o nosso próprio bem, e um amor que é a anulação de si mesmo e tem em vista o bem de outrem. [60]
Ambos os amores estão incluídos no Mandamento Divino: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Mat. 22:39). Um deles afirma-se a si mesmo e é possesivo, faz-nos comer, beber e trabalhar para sustentar a nossa vida. O outro é sacrificial ou possuído e busca não possuir, mas ser possuído, não ter mas ser tido. O primeiro bebe água para que possa viver. O outro partilha dessa água ou mesmo abre mão dela, para que o próximo possa viver.
Os dois amores são correctos e bons e estão destinados a actuar, um como travão do outro.
Se o “eu” fosse inteiramente negligenciado, não somente perderíamos todo o respeito por nós mesmos, mas seríamos consumidos, como uma mariposa na chama. Nenhum de nós deseja isto. Não desejamos ver as nossas pessoas extintas ou dissolvidas em algum grande Nirvana do inconsciente. Mas o amor sem egoísmo também é essencial. Se for negligenciado teremos egoísmo, soberba, presunção, vaidade e carnalidade.
Para exprimir esta tensão entre os dois amores, por outras palavras, há em cada coração um impulso entre o romance e o casamento, entre o namoro e a união, a caça e a captura. Amor terreno que seja somente a busca é incompleto; amor que seja apenas obtenção é inerte. Se o amor se limita à posse, o amado é absorvido e destruído; se o amor se limita apenas ao desejo, é uma força inútil que se queima a si mesma, como uma estrela que se extingue. Este fracasso tanto da busca como da satisfação em proporcionar prazer causa o mistério e por vezes o sofrimento de amor.
Como prossecução apenas, o amor é a morte pela fome; como satisfação apenas, o amor é a morte pela saciedade e pelo seu próprio enfartamento. Se o amor não pudesse atingir nível mais alto do que a terra, seria como o pêndulo de um relógio alternando e tiquetaqueando entre caça e captura, captura e caça, infindavelmente. Mas os nossos corações anseiam por algo mais. Ansiamos por uma fuga dessa fatigante interação de caça e captura; não queremos emular no amor com o caçador que parte para uma presa porque já matou a antiga.
E há uma escapatória. Reside no momento eterno em que se unem busca e achado. No Céu capturaremos o Amor Eterno, mas uma infinidade de caça não será bastante para sondar as suas profundezas. Este é o amor no qual vós afinal podeis ter a vós mesmos e perder a vós mesmos num e mesmo agora eterno. Aqui a tensão entre romance e casamento reconcilia-se num instante eterno agora é erguer-se a mais alta bem-aventurança do Amor. Este é o amor de que “carecemos em todo o amor, a Beleza que deixa toda outra beleza padecer, o não possuído que torna a posse vã”. O mais perto que podemos chegar de tal experiência na nossa imaginação terrena é pensar no momento mais extasiantemente feliz das nossas vidas e depois viver esse momento eternamente. Esta espécie de amor seria mudo e inefável; não poderia haver expressão adequada para os seus êxtases. É por isso que o Amor de Deus se chama o Espirito Santo, o Hálito Sagrado, algo demasiado profundo para se exprimir em palavras.
Não bastam dois, mas três para se tornar perfeito o Amor quer seja na carne (marido, mulher e filho), no espírito (amante, amado e amor) ou na Natureza Divina (Pai, Filho e Espirito Santo). O sexo é dualidade; o amor é sempre trindade.
É esta plenitude do Amor que todo o coração no universo deseja. Alguns não o suspeitam, porque nunca tiraram a venda dos seus negros corações para deixar entrar a luz de Deus. Outros foram despojados da esperança por aqueles que não podem pensar no amor em outros termos se não o da união de dois macacos. Outros dele se afastaram no louco temor de que tendo as Chamas do Amor Divino, possam perder as brasas moribundas dos seus atuais desejos pervertidos. Mas outros vêm que, assim como os raios dourados que cruzam as águas do lago são reflexos da lua lá no alto, da mesma maneira o amor humano é apenas o reflexo apagado do Divino Coração. Somente em Deus se encontra satisfação de todos os desejos.
À mulher junto ao poço que tivera cinco maridos e estava vivendo com um homem que não era seu marido, disse Nosso Senhor: “Todo aquele que bebe desta água tornará a ter sede” (João 4, 13). Não há poços humanos bastante profundos para estancar a sede insaciável da alma humana, mas este desejo pode ser satisfeito: “Mas o que beber da água que eu lhe der, jamais terá sede; mas a água que eu lhe der, virá a ser nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. ” (João 4, 13, 14). A religião enobrece o amor e aqueles que despojam o homem de Deus despojam a sua natureza. Somente uma religião divina pode proteger o espiritual contra o físico, ou impedir que o animal em nós existente conquiste o espírito, tornando o homem mais brutal do que o bruto.
Como muda o sentido da vida quando vemos o amor da carne como o reflexo da Eterna Luz lançada através do prisma do tempo! Os que desejariam separar o som terreno da harpa celestial poderão não ter música; os que acreditam que o amor é apenas o hálito do corpo logo descobrirão que o amor lança o seu derradeiro hálito e que fizeram um pacto com a morte. Mas os que vêm em toda a beleza humana a débil cópia do amor divino, os que vêm a fidelidade em cada voto, mesmo quando o outro é infiel; os que vêem nisso a prova de que Deus nos ama, a nós que somos tão pouco amáveis; os que em face de suas provações vêm que o amor de Deus terminou numa cruz; os que permitem que o rio do seu êxtase alargue os canais unidos da oração e do culto, estes, mesmo na terra, saberão que o Amor foi feito carne e habitou entre nós. Assim, o Amor torna-se uma ascensão para aquele abençoado dia em que as profundezas limitadas das nossas almas serão preenchidas com o dom sem limites, em um eterno agora, em que o amor é a eternidade da vida e Deus é o Amor.