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CAPÍTULO 9
Recalque e Expressão Pessoal
Há cerca de setecentos anos, um dos homens mais instruídos que já existiram, Tomás de Aquino, escreveu um tratado sobre as paixões, que até hoje jamais foi ultrapassado. Tratando de ansiedades, disse ele: “Qualquer ideia que seja nociva ao espírito causa prejuízo na justa proporção em que é recalcada. A razão é esta: o espírito está mais atento a uma ideia recalcada do que se a tivesse trazido à superfície e permitido a sua libertação. ”
Não era esta uma ideia completamente nova, mesmo quando ele a escreveu, pois já estava implícita no Sacramento da Confissão, que descobre ansiedades ocultas, servindo assim a dois propósitos no plano psicológico: evita que elas se infiltrem no inconsciente e causem um complexo e também as desperta porque, quando são trazidas ao nível da vontade, podem ser controladas ou mesmo dominadas.
O século XIX (que já estava quatro séculos distante da prática cristã da confissão e do arrependimento) começou a ver os terríveis efeitos da repressão geral das ansiedades, da culpa, do pecado e das preocupações. Mas os novos escritores deram um jeito levemente diferente à velha ideia de que as repressões são perigosas. Como se fossem Deus, a moralidade e a possibilidade da culpa pessoal eram negados, a nova filosofia afirmava que a repressão das paixões e instintos estava errada. (Era a ideia recalcada, contra a qual lançara Tomás de Aquino a sua advertência.) A nova opinião dizia que o id de um homem e os seus instintos animais deviam ter livre-expansão contra os totens e tabus das velhas superstições de moralidade, Deus e religião. Esta psicologia afirmava: “Exprime-te a ti mesmo. A religião e a moralidade estão destruindo a tua personalidade.” Toda a restrição, autoridade e disciplina foram encaradas como danosas ao caráter. Tal filosofia não podia manter-se contra a razão certa.
Se realmente um homem se torna melhor e mais sadio porque dá liberdade aos seus instintos sexuais e não sofre inibições provenientes da lei cristã do matrimônio vitalício, por que não se tornaria melhor em virtude de dar liberdade a outros instintos, tais como o instinto de caçada? Porque não organizar uma caça “ao inimigo para matá-lo”, sem a inibição do tabu moral do quinto mandamento? Se fossemos lógicos em permitir a mesma livre-expansão ao instinto do medo como ao instinto sexual, então deveríamos louvar um soldado que, no meio da batalha, deserta do seu posto, justamente como alguns escritores agora louvam um marido quando abandona a sua mulher. Se o instinto sexual não deve estar preso por tabus morais, por que manter ligado o instinto da pugnacidade? Por que não permitir que uma agressão se afirme, punindo a pessoa que toma a nossa dianteira num balcão de comércio – especialmente se essa pessoa é menor do que nós? Se a prisão se seguir a esta demonstração, porque não alegar em defesa que a lei civil é apenas um tabu moral, originário de tribos africanas de caçadores de cabeças e, portanto, destrutivo da personalidade humana, sem força obrigatória neste iluminado século XX.
Na psicologia o recalque é uma defesa automática e inconsciente com que são repelidas do consciente as ideias que são penosas ou perigosas.
Esta teoria da licença funda-se na falsa asserção que um complexo psicológico pode ser sempre curado dando-se lhe uma saída fisiológica. Isto é tão estúpido como dizer que o meio de curar uma preocupação a respeito das nossas dívidas é drenar o sangue para fora do coração. O mental e o físico, o espiritual e o carnal, não estão no mesmo nível. Podia-se então muito bem dizer que o impulso psicológico que algumas pessoas têm para matar outras poderia ser curado dando-se lhes uma metralhadora, ou que o impulso mental para se suicidar poderia ser cuidado com um mergulho do alto da ponte de Brooklyn. No que tange ao instinto sexual, a livre-expansão dificilmente pode ser o remédio que se diz ser, pois aqueles que mais se abandonam à satisfação desses instintos são não somente os mais anormais, mas também as criaturas mais infelizes, constituindo a maior ameaça à sociedade.
A teoria da licença afirma que os “totens” e “tabus” ditos religiosos têm sido responsáveis pelo recalque e, portanto, são as causas das desordens mentais. Mas por que, podemos indagar, têm estes totens e tabus religiosos tamanha atração, senão porque já coincidiram com a reta razão e as mais altas aspirações da raça humana? Por que momentos de degeneração social e de caos mundial, tais como a queda de Roma e como nos dos nossos próprios tempos, teriam sido também os períodos da maior licença e irreligião?
Mas há uma objeção mais profunda a este programa para o homem. Se, pois, a livre-expansão de seu instinto carnal contra o seu instinto moral está certa, então por certo a repressão do instinto moral deve criar um problema de recalque ainda maior. Haverá sempre alguma coisa que é recalcada. Dar aos instintos animais livre jogo, causa um recalque de ideias morais. Os comunistas dizem que a democracia está errada porque reprime os instintos revolucionários dos comunistas; mas se fosse permitida aos comunistas a livre-expansão de seus instintos revolucionários, haveria uma repressão dos direitos democráticos. Tudo quanto faz esta falsa teoria da licença é substituir uma forma de recalque por outra. Os factos da história e a experiência individual provam que nada tem contribuído mais para os desenvolvimentos das desordens mentais, especialmente das neuroses, do que o recalque do senso moral por aqueles que não queriam uma ética mais elevada do que a da cavalariça.
Finalmente, a teoria funda-se numa falsa ideia do significado da expansão pessoal. Todas as coisas deveriam expandir-se livremente de acordo com a sua natureza. Mas a natureza do homem não é igual à natureza de um bode. Dotado duma alma imortal, bem como de um corpo, expande-se mais livremente, não quando acompanha os seus instintos animais, mas quando é comandado pela natureza racional que Deus lhe deu. Quando o homem se exprime contrariamente à sua natureza, gera o pecado na sua alma, tendências más nos seus ossos, jeitos estranhos e anomalias no seu inconsciente, para não falar do remorso na sua consciência. Todo o seu ser se revolta contra a má direção que lhe deu a vontade depravada. Um combóio é a coisa da mais livre-expansão, quando segue pelos trilhos assentados pelo engenheiro; se a sua livre-expansão consistisse em repudiar os trilhos (porque foram assentado por um engenheiro com psicose religiosa), descobriria que não teria mais liberdade de ser um combóio. Se um triângulo buscasse o poder de expandir-se em quatro lados, descobriria que não teria mais liberdade de ser um triângulo. Uma caldeira que se revolta contra a limitação dogmática de suportar apenas certo número de libras de pressão por polegada quadrada e por isso explode, descobre que a sua expansão não passa de autodestruição.
O Dr. C. E. M. Joad disse que a teoria da livre-expansão é tão ridícula que ninguém realmente acredita nela.
“O que acreditamos é que algumas formas de livre expansão são boas, outras não; que a expansão de si mesmo em simpatia é boa; em inveja, má; em bondade, boa; em crueldade, má; em generosidade e auxílio, boa; em malícia e engrandecimento próperio, má. Contudo – e isto também sabemos – quanto mais a expansão se dá àquilo que é mau, tanto pior se torna. Por exemplo: se quando sóbrio sou de bom génio e bondoso, mas sou também um dipsomaníaco congénito, com tendência a bater na mulher quando embriagado, é claro quequanto mais me expandir nos termos dos meus característicos de sobriedade, bondade e bom génio, e menos me expandir nos termos das minhas característicos congénitas de raiva e de violência, melhor.” [61]
Efeitos bastante sérios acompanham o abandono aos instintos biológicos e animais. Aumentam o desespero e morbidez. O indivíduo é apanhado na ratoeira da licença a que se submete. A liberdade é destruída quando a vítima se torna um escravo de alguma coisa externa. A Escritura diz-nos que aquele que peca se torna um escravo do pecado. Esta espécie de livre-expansão, em vez de permitir que uma pessoa se torne senhora de si, acaba por fazê-la perder o domínio sobre si e ser dominada por outrem, que é a nova forma da escravidão moderna. Finalmente, porque repudia o senso moral, tal livre-expansão diminui a responsabilidade e leva assim à destruição do caráter do homem. À medida que o tempo passa, sobrevêm pesar e desespero, pois se o abandono às paixões e à luxúria animal é caminho para a livre-expansão, então que consolação buscará um indivíduo na velhice? Tal filosofia pode satisfazer animais jovens, mas não animais velhos.
Realmente, para o desenvolvimento do homem são precisas duas espécies de atividades ou expressões: a imanente e a transcendente. Uma permanece dentro da pessoa; a outra atua fora. A falsa filosofia da livre-expansão só admite a segunda espécie, e disso resulta um homem completamente exteriorizado.
Uma verdadeira livre-expansão aperfeiçoa primeiro o espírito e depois o concretiza, produzindo cultura. A cultura sempre perece quando se perde a interioridade do espírito no “ativismo” das exterioridades. Disso resulta a escravidão – uma nova servidão completamente diversa da escuridão das antigas eras, pois na antiga variedade o homem estava sujeito a uma força externa contra a sua vontade; na nova escravidão, um homem está sujeito à exterioridade por meio da sua própria vontade egoística e vaidosa.
Marx e Freud estavam certos ao tratar a escravidão como um dos problemas periódicos do homem, mas nenhum deles lhe compreendeu a natureza. Ambos aceitaram como provada a escravidão interior; ambos com razão afirmaram que o egoísmo é normal, um deles estudando-o no campo coletivo, o outro no individual. Tal egoísmo é a falha do homem caído, reconhecida por todos quantos admitem uma Fonte Transcendente, donde provém o homem e para a qual ele tende. Algum dia, algum historiador de profunda visão interior nos mostrará como a escravidão externa é sempre a produção maciça da escravidão interior, e como o homem, na escravidão à sua própria natureza inferior, tentou tornar normal a sua condição, escravizando os outros.
A devassidão é outro efeito do pecado pessoal que busca expressão externa pela corrupção, neste caso, dos outros, pois o que é intimamente vazio não pode suportar a sua carga sozinho: tende a esvaziar a sociedade de quaisquer valores que ela possua. A solidão da alma cria a sua própria atmosfera e forma um mundo solitário. A livre-expansão, compreendida como a expressão do eu animal, cujas satisfações são externas, gera assim não somente a sua própria destruição, mas também a dissolução da sociedade pacífica. As restrições tradicionais e as sanções morais da sociedade vêm a ser olhadas mais e mais como tabus e sem valor, ou como cruéis embaraços opostos ao egoísmo individual, que agora anda com o nome de liberdade. Um estágio acaba sendo eventualmente alcançado em que não há limite conhecido para a livre-expansão. As ações mais traidoras são defendidas como direitos civis; a defesa mesmo da lei natural é ridicularizada como “medieval”. Essa ilegalidade, se difundida, cria tal confusão na sociedade que um tirano logo surge para organizar o caos por meio da força. Assim se cumpre o que disse Dostoievski, que “a liberdade sem limites conduz à tirania sem limites.”
Isto nos traz à contrastante filosofia cristã da livre-expansão. O cristianismo, como o paganismo moderno, acredita que a repressão é danosa, mas faz uma distinção necessária. O cristianismo diz que a repressão de maus pensamentos, de maus desejos e atos, tais como o impulso de matar, de despojar, de caluniar, de roubar, de injuriar, de cobiçar, de odiar, é boa para a alma. Deplora a repressão da culpa ou do pecado pela negação da necessidade da confissão. E afirma que o recalque de graças reais, de inspirações para uma boa vida e da necessidade de sacrificar-se pelo próximo é má para a alma.
O cristianismo não acredita que o recalque do instintos sexual seja bom. Mas acredita na pressão do abuso destes instintos, de modo a impedir a luxúria num caso, e a glutonaria no outro. A Igreja nunca ensinou que o homem é composto principalmente de dois planos, o consciente e o insconciente: afirma que há três planos: corpo, alma e o desejo de Deus. O homem não é precisamente um animal, sujeito às exigências dos seus instintos animais; tem também “eus” éticos e espirituais que exigem expressão de acordo com as suas próprias naturezas. Mas isto não é sempre fácil.
A Igreja afirma que não há uma subordinação automática do corpo humano à alma e da personalidade inteira a Deus – ideal de vida ordenada que constitui para o cristão a essência da livre-expansão. Tanto o homem como a natureza parecem ter-se afastado de algum modo de seu modelo original ou essência. Algo aconteceu para danificar a natureza humana e todas as provas apontam para o facto de que isto se realizou, porque o próprio homem de algum modo abusou da sua liberdade. Tanto o mundo como o homem parecem ter decaído. Estão num nível mais baixo do que aquele a que estavam destinados, e a responsabilidade desta queda não pode ser atribuída a Deus. Deve ser atribuída ao homem. Por causa desta queda, há no homem um desvio para o mal. Em resultado, o corpo não se submete sempre à alma, nem a alma, pelos seus mandamentos, olha sempre para Deus. Às vezes o corpo faz exigências muito imperativas, embora contra os melhores interesses da alma. Às vezes a alma, por sua vez, se compraz em conceder primazia a essas líbidos, na suposição de que a compensação será muito mais imediata do que as compensações do espírito.
Pelo facto de haver três e não dois elemento envoltos na personalidade humana, segue-se que a doutrina cristã do abandono de si mesmo é radicalmente diferente da filosofia do abandono aos instintos animais. Aqueles que acreditam na realização carnal de si mesmos “não parecem capazes de aprender o facto de que aceitar toda e qualquer experiência é a coisa mais fácil do mundo, ao passo que recusar algumas experiências para possuir outras é o método infinitamente mais difícil, porém mais verdadeiro, de atingir a realização de si mesmo. Além disso, é fatal falar ligeiramente da necessidade da auto-realização sem a mais leve ideia da espécie de eu que deve ser realizada”. [62]
A psicologia materialista acredita num abandono passivo da alma, no qual a parte mais elevada da personalidade dá rédia solta à parte inferior e aos seus apetites espontâneos. Acredita falsamente que, vivendo de acordo com a sua herança animal, a personalidade receberá de volta, das misteriosas forças animais, aqueles dons de criatividade que a alma doente perdeu. O cristão, pelo contrário, acredita, não num abandono passivo, mas num abandono ativo que consiste num esforço de domínio de si mesmo. A alma toma a si mesma pela mão, disciplina as mais baixas e errantes paixões para fazê-las tender a objetivos mais altos. Da mesma maneira que o fazendeiro não pode viver, a menos que domestique os animais e os torne sujeitos a si, assim também não pode o homem viver consigo mesmo, a menos que adestre os animais selvagens que traz dentro de si, os sujeite ao seu domínio e depois, por sua vez, submeta toda a sua personalidade a Deus.
A felicidade consiste em superar a tendência para o mal, realizando a nossa divina vocação, em dominar o impulso da natureza, e isto não se leva a cabo por meio da liberação orgíaca das forças primitivas, mas antes através de uma ascesis que representa quase violência. Era isto o que o Nosso Bendito Senhor tinha em mente, quando disse que o Reino dos Céus sofria violência e somente os violentos o levariam avante. Para o cristão, o meio da perfeição é o meio da disciplina, porque compreende a perfeição como a satisfação da personalidade nos seus mais altos alcances, isto é, a obtenção da vida, da verdade e do amor, que é Deus. Se o homem se abandona passivamente, está destinado a morrer na sua condição atual. Para recobrar a saúde, deve tomar um remédio amargo e submeter-se a uma espécie de operação. Quando o Nosso Bendito Senhor falou da Sua doutrina como sendo um jugo, pediu a Seus acompanhantes que fossem puros num mundo cheio de freudianos; que fossem pobres de espírito num mundo de capitalismo competitivo; que fossem mansos entre os fabricantes de armamentos; que andassem de luto entre os buscadores de prazer; que fossem famintos e sedentos de justiça entre os pragmatistas; que fossem misericordiosos entre os que buscam vingar-se. Quem quer que fizer estas coisas será odiado por um mundo que não quer Deus.
Esta lei cristã de disciplina é bastante diferente dos meios de perfeição tanto hindu como grego, baseados numa espécie de indiferença auto-induzida. Em geral o hindu era indiferente à personalidade e o antigo grego indiferente ao mundo. O cristão rejeita a ideia de que um homem deve trabalhar, quer pela extinção da sua alma ou por um completo afastamento da ordem universal. A Sua Igreja diz-Lhe que a livre-expansão é inseperável da salvação do mundo e da alma individual. É por isso que a essência do sistema cristão se vê nos sacramentos que utilizam os elementos desordenados do universo santificando-os, de modo que são preparados para servir ao objetivo da alma e ao progresso da personalidade humana. Aceitando a suprema importância, tanto do mundo como do homem, diz a Igreja que a finalidade do homem ao salvar-se é, ao mesmo tempo a de salvar o mundo.
Um ponto adicional esquecido a respeito do ascetismo cristão é que a auto-disciplina, condição da livre-expansão, é vista não como um fim, mas como um meio. O fim de toda a auto-disciplina é o amor. Portanto, quem quer que faça da domesticação dos impulsos animais o fim e primordial propósito da sua vida, - como fazem alguns dos místicos orientais, - realiza a negação da carne, mas não a afirmação do espírito. São Paulo disse aos coríntios que, se um homem entregasse o seu corpo para ser queimado, de nada lhe aproveitaria, a menos que possuisse o Divino Amor. O cristão usa a mortificação para liberta-se da escravidão da sua natureza decaída, libertando-se para viver no amor de Deus. O nosso Bendito Senhor nunca disse que os desejos carnais em si mesmos fossem maus. Disse apenas que não devemos permitir que eles sobrecarreguem a alma de tal ansiedade pela sua satisfação que cheguemos a perder os tesouros maiores. O fim da vida cristã é a conquista do amor e há um mandamento duplo a respeito deste amor: um, amar a Deus; o outro, amar o próximo. Para realizar qualquer dos dois aspectos, requer-se algum ascetismo. O único meio de poder auxiliar-nos para amar a Deus é dominar o nosso egoísmo e o único meio de poder dominar o mal que provém do nosso próximo é fazer-lhe sentir o benéfico poder do nosso amor.
Este amor pode ser sufocado e quase destruído por outros joios além das luxúrias. A mundanidade é um deles. Verdade quase esquecida, mesmo entre alguns cristãos praticantes, é que nunca é o mundo físico mas somente o espírito do mundo que é o mal; por conseguinte, a alma deve destacar-se do mundo. “Não ameis o mundo, nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não há nEle o amor do Pai.” (1 João 2, 15) Este mundo que São João castiga não é o mundo da nossa existência quotidiana, mas antes aquele espírito secular que encara o tempo e o espaço como um sistema fechado de que Deus está excluído. Política e economia divorciadas da lei moral, educação sem religião, são algumas das manifestações do espírito do mundo e todas elas prejudiciais.
Mas o desprendimento do mundo, como um idela digno de ser procurado por si mesmo, não é a resposta. Não podemos dizer, com Aldous Huxley “O homem ideal é o homem desprendido. Desprendido das suas sensações e concupiscências corporais. Desprendido das suas ânsias de poder e de posse. Desprendido mesmo da ciência, da especulação e da filantropia.” [63] O desprendimento do budismo ou do taoísmo não é o ideal cristão, embora soe muito nobremente dizer que os que possuem são possuídos, são escravos das ilusões da vida. O desprendimento e a falta de espírito mundano são vãos, a menos que sejam olhados como secundários, como simples meios para atingir o alvo primário, que é o amor a Deus e ao próximo.
Mas não é esta uma época em que o ascetismo, como um fim, ofereça tão grande tentação à maior parte dos homens, para que eles necessitem desta advertência. A indulgência consigo próprio é, hoje, um erro muito mais comum. E mais fatal, também. Nada há tão perigoso para uma civilização como a brandura, e nada tão destrutivo da personalidade como a falta de disciplina. O historiador Arnold Toynbee diz-nos que, de vinte e uma civilizações que desaparecem, dezasseis extinguiram-se em virtude da decadência interior. As nações não são frequentamente assassinadas; suicidam-se. É este o sinistro significado da nossa actual atracção pelo egoísmo e pelo prazer, a nossa difundida recusa de disciplinar o eu. Embora duas guerras mundiais nos tenham imposto muitos sacrifícios que aceitámos voluntariamente, mesmo estes não foram suficientes para fazer-nos cumprir o maior sacrifício de todos: o de abandonar a ilusão de que o homem realiza mais livremente a sua personalidade, quando permite que o animal ganhe ascendente sobre o espírito.
Ficamos escandalizados ao ver quanto a submissão do homem atingiu por parte dos fascistas, dos nazistas e dos comunistas. Contudo não aprendemos que os mesmos efeitos deletérios podem estar presentes no individuo que, partindo da filosofia de que é apenas um animal, imediatamente passa a agir como tal. A partir do momento em que o homem não se mortifica nas suas paixões egoistas, torna-se necessário que alguma autoridade externa domine e subjugue essas paixões. É por isso que a morte da moralidade, da religião e do ascetismo na vida política é inevitavelmente seguida por um estado policial, que tenta organizar o caos produzido por aquele egoísmo. A lei dá lugar à força; a ética é substituída pela polícia secreta. “Não há correlação entre o grau de conforto usufruído e a perfeita realização da civilização. Pelo contrário, a absorção pelo lazer é um dos mais seguros sinais de decadência presente ou iminente.” [64]
Os regimes totalitários são sintomáticos de uma doença que também atacou os homens e as mulheres em países livres. É a doença da desordem interior do homem. Poucos percebem as terríveis dimensões da catástrofe atual; ficam cegos pelo facto de que o homem realizou grandes progressos materiais. A verdade é, porém, que perdeu o domínio sobre si próprio no momento mesmo em que ganhou o domínio sobre a natureza. Pelo facto de ter o homem perdido o autodomínio e negado a finalidade espiritual na vida, utiliza para fins destrutivos as forças da natureza que dominou. A bomba atómica é o perfeito símbolo da desintegração da personalidade moderna. Cada conquista no domínio das forças da natureza converte-se num perigo potencial, a não ser que seja contrabalançado por uma igual conquista do domínio do homem sobre os seus impulsos animais.
Na medida em que um psicólogo materialista interpreta a livre expansão pessoal como a libertação dos instintos animais, nessa mesma medida contribui para o presente sofrimento e desordem no mundo. Homens guiados pela animalidade não podem conduzir uma civilização. Sentem-se mais à vontade na guerra do que na paz. Nós os homens de agora, conseguimos estar unidos contra um inimigo comum pelo ódio; é necessário espírito e um propósito comum para unir-nos quando chega a paz. A paz vinha naturalmente com a vitória, quando as guerras costumavam ser difíceis de vencer. Hoje a situação inverteu-se; no mundo moderno os poderes de destruição são maiores do que os poderes de construção.
A paz é fruto do amor e o amor desenvolve-se no homem orientado para Deus. O maior privilégio que possa sobrevir ao homem é ter a sua vida dirigida por Deus. Isto acontece quando ele desde cedo pavimentou o seu caminho com a direção pessoal disciplinada. Deus ama-nos o suficiente para ordenar as nossas vidas – e isso é a prova mais forte de amor que ele poderia dar-nos. É um facto da experiência humana, que não temos especial interesse pelos pormenores das vidas de outras pessoas, a não ser que as amemos.
Não estamos particularmente interessados em ouvir notícias sobre as pessoas com quem nos cruzamos no metro, na rua ou na estrada. Mas assim que começamos a conhecer e amar qualquer uma delas, então tornamo-nos cada vez mais interessados na sua vida, temos muito mais carinho por elas. Ao atraí-las para a área do nosso amor, aumentam tanto o nosso interesse como a felicidade delas. É o mesmo que acontece, quando nos colocamos no domínio do amor de Deus: há um aumento da direção de Deus sobre os pormenores da nossa vida, e vamos ficando cada vez mais certos da profundidade e da realidade do Seu Amor. Quanto mais nos abandonar-mos a Ele, mais Ele influenciará a nossa vontade e agirá em nós, por quase imperceptíveis moções que brotam do nosso íntimo. Sentimo-nos como se tivéssemos querido durante todo o tempo fazer aquelas coisas que Ele nos sugere; jamais temos a sensação de estarmos a obedecer a ordens. Assim, o nosso serviço a Deus converte-se na forma mais elevada de liberdade, pois é sempre fácil fazer algo por quem amamos.
E Deus, sem dúvida, deseja que busquemos a felicidade que Ele pode dar, se consentirmos que o faça. Uma mãe que tem uma filha indócil nada mais deseja que penetrar-lhe a mente, para inspirar-lhe a sua vontade; a sua maior tristeza é a sua incapacidade para o fazer. A felicidade de ambas está condicionada pela permissão da filha para que o amor da mãe opere, pois nenhum pai poderá jamais guiar uma criança que combate contra a vontade paterna. Nem poderá Deus guiar-nos se permitirmos que o animal que existe em nós dirija a nossa vontade, dando satisfação a cada uma das nossas exigências revoltadas. Assim como toda a ordem do universo repousa na subordinação das substâncias químicas às plantas, das plantas aos animais, dos animais ao homem, da mesma maneira a paz do homem só sobrevém na entrega de si próprio a Deus. Os psicólogos que ensinam que as necessidades do id são mais importantes do que os ideais do super-ego, que uma disciplina do sexo termina em tensão e neurose, somente curáveis pelo relaxamento carnal, aumentam a soberba, o egoísmo e a crueldade do mundo.
A causa principal de toda a infelicidade é o desejo desregrado, querendo mais do que é necessário, ou querendo aquilo que é prejudicial ao espírito. O mundo moderno está aparelhado para aumentar os nossos desejos e as nossas ânsias por meio da publicidade, mas nunca poderá satisfazê-los. Os nossos desejos são infinitos; a satisfação de qualquer bem na terra é finita. Daí a nossa infelicidade e as nossas ansiedades, os nossos desapontamentos e a nossa tristeza. A única saída desse estado é o domínio dos sentidos pela mortificação. Era isto que Nosso Senhor tinha em vista, quando disse: “Se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o e lança-o fora de ti. E se teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti.” (Mat. 18, 8-9). Porquer na nossa moderna civilização o biológico está divorciado do espiritual; porque a liberdade está isolada da dependência de Deus, como um pêndulo arrancada dum relógio; porque a liberdade é interpretada unicamente como libertação de algo e não como liberdade para algo, é especialmente necessário restaurar a prática cristã da auto-disciplina.
Como Rom Landau justamente observa:
“Nada a não ser a religião poderá inspirar o desprendimento de si mesmo. Um homem recusar-se-á, por causa de si mesmo, como finito animal humano, a suportar a disciplina a que de boa vontade se submeteria, se estivesse numa relação consciente com Deus. É este o ponto crucial de todo o problema. Separai um homem da sua natureza espiritual, deixai que fale de si mesmo como se fosse apenas um organismo físico, e o respeito por si mesmo não será bastante para o induzir a sacrificar qualquer coisa que ele considere essencial ao seu bem-estar ou ao seu prazer material. Uma vez que se ponha perante Deus e se torne consciente da natureza divina da sua personalidade, reconhecerá que há no mundo coisas muito mais importantes do que o que constitui o seu ser físico. Fará por si mesmo, enquanto relacionado com Deus, o que não sonharia fazer em outro caso.” [65]
A auto-disciplina cristã é, na realidade, expansão pessoal - expansão de tudo quanto é mais elevado e melhor em si. O lavrador cava por baixo da cizânia, procurando facilitar o crescimento do trigo. O auto-domínio, por meio da mortificação ou ascetismo, não é a rejeição dos nossos instintos, paixões e emoções, nem o envio para o inconsciente dos impulsos dados por Deus, como os materialistas acusam os cristãos de fazer. As nossas paixões, os nossos instintos e emoções são bons e não maus. O auto-domínio significa apenas travar os excessos desordenados. Tomar um pouco de vinho para o bem do estômago, como S. Paulo, recomendou a Timóteo, é obedecer a um instinto; mas beber tanto vinho que se venha a esquecer que se tem uma cabeça ou um estômago é abusar do vinho como uma criatura de Deus.
Enquanto submetidos à vontade,e os instintos e paixões podem ser controlados e guiados. A Igreja não reprime as paixões quando modera a sua expansão ilegítima. Não nega as emoções, da mesma maneira que não nega a fome; a Igreja só pede que quando um homem se sente à mesa, não coma como um porco. Nosso Senhor não reprimiu o intenso zelo emocional de Paulo; simplesmente deu-lhe outra direção, do ódio para o amor. Nosso Senhor não reprimiu a vitalidade biológica de uma Madalena; simplesmente desviou a sua paixão do amor do vício para o amor da virtude. Tal conversão de energias explica por que os maiores pecadores, como Agostinho, se tornam muitas vezes os maiores santos. Não é porque amem a Deus com especial intensidade porque foram pecadores, mas porque têm fortes premências,, paixões violentas, emoções plenas que, dirigidas para finalidades santas, fazem agora tanto bem como tinham feito antes mal.
Este princípio pode aplicar-se também às nações. Poderá haver maior potencialidade para o apostolado cristão na Rússia revolucionária, do que é aparente na indiferença e na falsa tolerância dos liberais, nem quentes, nem frios, da Civilização Ocidental. Deus pode fazer mais com o fogo do que com a água morna. E queira Deus, que estes fogos russos, que estão agora cobertos com as cinzas sufocantes do comunismo, possam um dia, com o auxílio da graça, erguer-se em labaredas que iluminem e aqueçam o mundo pelo seu amor, apaixonado, violento e todo abrangente a Deus e ao Seu Divino Filho.
As paixões fortes são o precioso material novo da santidade. Os indivíduos que levaram o seu pecado aos extremos não deveriam desesperar, ou dizer: “Sou por demais pecador para mudar”, ou “Deus não me quereria. ” Deus receberá quem quer que tenha vontade de amar, não com um gesto ocasional, mas com uma “paixão desapaixonada”, uma “violenta tranquilidade”. Um pecador que não se arrepende não pode amar a Deus, da mesma maneira que não pode um homem nadar em terra seca; mas logo que dirija as suas energias errantes para Deus e solicite uma redireção, tornar-se-á feliz, como nunca foi antes. Não são as coisas erradas que alguém já praticou que o conservam afastado de Deus, mas a sua atual persistência nesses erros.
Alguém que se volte para Deus, como Madalena e Paulo, acolhe de boa vontade a disciplina que o tornará capaz de modificar as suas tendências anteriores. A mortificação é boa, mas somente quando é feita pelo amor a Deus. Um “santo” que passasse a vida chamuscando-se em cima de brasas, ou reclinado em cravos de ferro, nunca seria canonizado pela Igreja. O ascetismo pelo ascetismo é realmente uma forma de egoísmo, pois a auto-disciplina é apenas um meio, cujo fim é maior amor a Deus. Qualquer forma de ascetismo que destruísse a caridade seria errada. Foi este o erro do monge que decidiu viver somente de crostas de pão e perturbou todo o mosteiro, convertendo-o numa vasta caçada de crostas para satisfazer a sua idiosincrasia. O ascetismo que prejudica o nosso próximo, não agrada a Deus.
As verdadeiras mortificações aperfeiçoam a nossa natureza humana. O jardineiro corta os brotos verdes da raiz da planta, não para matar a rosa, mas para fazê-la florescer mais belamente. Assim como a perfeição da rosa e não a destruição do roseiral é a finalidade da poda, assim, a finalidade da auto-disciplina é a união com Deus. As boas ações praticadas com fins humanos, tais como a perpetuação do seu nome, só recebem uma recompensa humana. Somente as ações de mortificação, feitas por amor a Deus, aperfeiçoam a alma. Mas devem ser praticadas pelo motivo certo e devem sacrificar as próprias coisas a que mais desejaríamos prender-nos. São Paulo lembra-nos vigorosamente que a mais intensa mortificação feita sem amor de Deus é inútil: “E, ainda que distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, nada me aproveita.” (1 Cor. 13, 3) O Arcebispo Francisco Fénelon mostra-nos como as reservas na nossa voluntariedade em aceitar a auto-disciplina impedem o progresso espiritual.
“As pessoas muitas vezes rondam em torno de tais reservas, fazendo crer que não as vêem, com receito da auto-censura, tendo por elas cuidados como às meninas de seus olhos. Se tivésseis de derrubar uma dessas reservas, seríeis ferido ao vivo... Verdadeira prova da presença do mal. Quanto mais temerdes abrir mão de tal ponto reservado, tanto mais certo é que ele necessita de ser abandonado. Se não estivésseis tão fortemente ligados por ele, nunca faríeis tantos esforços para vos convencerdes de que estais livres. Por que é que o navio não anda? Falta de vento? De modo algum. O espírito da Graça sopra nele, mas o navio está preso por âncoras invisíveis nas profundezas do mar. A falta não é de Deus. É inteiramente nossa. Se quisermos procurar completamente, logo veremos os liames ocultos que nos detêm. Este ponto em que menos desconfiamos de nós mesmos é precisamente aquele em que mais necessitamos de desconfiar.” [66]
A mortificação está baseada, não no ódio, mas na preferência. A mãe sacrifica o rosado das suas faces para que ele apareça nas faces da filha criança. O erudito cede toda a esperança que tenha no desenvolvimento dos seus músculos. A vida moral exige que digamos “Não.” a falsos ideais que glorificam o poder e o egoísmo. É uma coisa completamente errada, portanto, dizer que “renunciastes” a alguma coisa durante a Quaresma. Nosso Senhor nunca nos pediu que renunciássemos a alguma coisa; pediu-nos que trocássemos: “Que dará um homem em troca da sua alma?” Quando alguém se acha no amor de Deus, descobre que há algumas coisas sem as quais pode viver (os seus próprios prazeres) e algumas outras sem as quais não pode viver, por exemplo, a paz da alma que vem da obediência à vontade de Deus. De modo que troca umas por outras, cede as menos boas para ganhar um Reino. Faz uma série de trocas tão proveitosas cada dia da sua vida.
O amor de Deus torna-se assim a paixão dominante da vida. Como cada outro amor que valha a pena, exige e inspira sacrifício. Mas o amor entre Deus e o homem, como um ideal, tem sido ultimamente substituído pelo novo ideal da tolerância que não inspira sacrifícios. Por que deveria qualquer criatura humana no mundo ser simplesmente tolerada? Que homem jamais fez algum sacrifício em nome da tolerância? Leva os homens, em vez, a exprimir o seu próprio egoísmo num livro ou numa conferência que advoga a proteção ao grupo espezinhado.. Uma das coisas mais cruéis que pode acontecer a um ser humano é ser tolerado. Nem uma vez sequer disse Nosso Senhor: “Tolerai os vossos inimigos.” Mas disse: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam.” (Mat. 5, 44) Tal amor só se pode realizar se deliberadamente reprimirmos as animosidades da nossa natureza decaída.
A auto-disciplina, porém, faz mais do que isso por nós. Proporciona à nossa vida um objectivo constante. A forma mais valiosa de auto-disciplina para auxiliar-nos a saber para onde vamos é a meditação, que nos dará finalmente o auto-domínio por meio da auto-realização. A mais trágica de todas as almas modernas é a que se aprisionou a si mesma na sua própria mente. Só a meditação pode quebrar esse enlouquecedor círculo centrado em si, por meio de uma "invasão" da Divindade.
Há actualmente muitos homens e mulheres que nunca meditam ou se disciplinam de qualquer outro modo. Descobrem que ficam enfastiados com aquilo que pensavam que os satisfaria. Tentam compensar cada nova desilusão com nova relação.
Tentam exorcisar os velhos desgostos e vergonhas com novos e febris excitamentos. Mudam de parceiros no amor, mas o aborrecimento e o tédio persistem. As suas desordens tornam-se hábito e aparente necessidade. Permitem que haja feridas abertas nas suas almas, porque negam que existam as feridas ou mesmo as almas. Forjam-se as cadeias da sua escravidão ao desespero. Os seus sofrimentos passados ainda persistem nos seus arrependimentos, o futuro fica escuro de temores; os seus prazeres são menos intensos que antes, as suas ansiedades mais permanentes; as suas excitações sucedem-se mais rapidamente e a sua consciência tem menos repouso; os seus minutos no pecado convertem-se em noites de terror. São um fardo para si mesmos, um aborrecimento para os seus amigos, desgostosos mas nunca saciados, sempre mais famintos, mas nunca satisfeitos. Eventualmente pagam a charlatães bons honorários para que lhes digam que o pecado não existe e que a sua sensação de culpa é devido a um complexo paterno. Mas o cancro moral permanece, mesmo assim, e sentem-no roer-lhes o coração.
Que deverão fazer estes milhões de pobres pessoas neuróticas, frustradas, psicopáticas que entre nós existem, para escapar à crescente insanidade e à loucura crescente? A única solução para eles é entrar em si mesmas, elevar os seus olhos para o Médico Divino e gritar: “Tem compaixão de mim, ó Deus!” Se o soubessem… uma simples confissão os salvaria, auxiliando-os a que os seus pecados lhes fossem perdoados. Poupar-lhes-ia também a pequena fortuna gasta para eliminar os seus pecados através de explicações teóricas.
Deus prometeu aos homens o perdão se eles se arrependessem, mas não se eles o adiassem. O pecado deteriora a mente, o coração e a alma, mas não se esgota a si mesmo. Terá de ser purgado. O segredo da paz da alma está em combinar o desprendimento do mal com o apego a Deus, em abandonar o egoísmo como o elemento ordenador e determinante da vida para substituí-lo pelo Nosso Divino Senhor, como mestre das nossas ações. O que é contra Deus deve ser reprimido, o que é Divino deve ser expresso. Então não mais se despertará com um gosto amargo na boa ou com a sensação de miséria. Em vez de acolher cada dia com a queixa: “Que dia, meu Deus!”, dir-se-á, com a felicidade de uma alma que ama: “Bom dia, meu Deus!”