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CAPÍTULO 3
A Origem dos Conflitos e a sua Redenção
O mundo intelectual descobriu subitamente que o homem é uma sede de conflitos. Marx descobriu o conflito na sociedade, Kierkegaard na alma, Heidegger no ser do homem e os psicólogos no pensamento. Para crédito de todos eles, deve ser dito que se aproximaram muito mais de uma compreensão do homem do que fizeram os liberais dos últimos séculos, que ensinavam que o homem era naturalmente bom e progressista e já ia a caminho de tornar-se um deus sem Deus. Quem quer que dissesse hoje que o homem moderno (que travou duas guerras mundiais em duas décadas) necessita apenas de evolução e educação para tornar-se uma divindade, seria menos observador do que um avestruz com a cabeça metida na areia. É evidente a todos que o homem sem-Deus do século XX conseguiu, de certo modo, pôr-se a si mesmo e à sociedade numa situação de desordem e de caos. Os psiquiatras, que têm investigado estes conflitos e tensões, descreveram-nos de várias maneiras. Para alguns deles, o conflito está entre a mente consciente e o inconsciente; para outros, é uma tensão entre o ego e o ambiente; para outros ainda, um duelo entre instintos e ideias, enquanto para alguns mais, uma guerra entre o id e o super-ego.
A causa da tensão é a maior parte das vezes atribuída à experiência pessoal. Censura-se, por exemplo, a maneira pela qual uma criança foi tratada pelos pais, ou o facto de terem sido negadas à criança certas oportunidades de satisfazer os seus desejos naturais e legítimos, ou a insuficiência de campos de recreio e de leite de boa qualidade na alimentação. Os defeitos físicos são também acusados de causar tensão e desordens de conduta. Em virtude das relações estabelecidas entre o temperamento e as glândulas de secreção interna, estas também foram tornadas responsáveis pelo nosso estado de tensão. Outros estudiosos lançam a culpa sobre certos conflitos que surgem inevitavelmente dentro de uma família. A psicanalise freudiana fala assim da situação de Édipo. Como o herói da lenda grega matou o seu pai e casou com a sua mãe, da mesma maneira se supõe que todos os meninos desejam a sua mãe e tem ciúmes do seu pai, a ponto de desejar-lhe a morte. Diz-se que uma filha desempenha o papel correspondente para com a sua mãe. Odeia a mãe e quereria, à maneira de Electra, matá-la, a fim de se casar com o pai. Esta situação foi chamada a situação de Electra, ou o complexo da mãe. [8]
Outras escolas lançam a culpa do conflito e da tensão sobre algo parecido com uma memória racial, sobre a influência persistente de alguns eventos acontecidos no passado da raça. Podem ir mesmo mais adiante no passado e falam de um “inconsciente coletivo”, que a evolução humana transmitiu a cada indivíduo como parte da sua equipagem psíquica inconsciente. Este inconsciente coletivo remontaria até “aos antepassados animais do homem.” [9]
Comum a todas estas teorias é a ideia de que as influências exteriores ao individuo, comum à própria raça, condicionam-no presentemente e são a causa dos seus conflitos. Os psiquiatras têm insistido no conflito do homem, descrevendo-o no nível inconsciente, mas a raça humana sempre teve conhecimento dele. Platão, por exemplo, descreveu a personalidade como um carroceiro dirigindo dois cavalos indomáveis. Um dos corcéis é o apetite ou instinto; o outro é o espírito. O condutor é a razão, que tem a maior dificuldade em conservar ambos os cavalos conduzidos na mesma direção. Sófocles, o antigo dramaturgo grego, falou de algumas grandes desarmonias primitivas, mais cinzentas com a idade, que infectam todos os homens. Ovidio, o poeta latino, escreveu: “Vejo e aprovo as melhores coisas da vida e sigo as piores coisas da vida.” São Paulo descreveu o conflito humano como travado entre a lei da mente e a lei dos membros.
Todos os seres humanos podem dar testemunho da experiência de que as vitórias não estão todas de um lado, quer do corpo, quer do espírito. As pessoas boas agem muitas vezes como gente ruim e a gente ruim às vezes pratica atos melhores que os das pessoas boas. Goethe lamentava que Deus tivesse feito dele apenas um homem, quando nele havia bastante material tanto para um velhaco como para um cavalheiro. O “Doutor Jekill e o Sr. Hyde”, de Stevenson, é uma história bem conhecida do conflito interior de um homem e da sua possível dualidade, para que precisemos de recontá-la. O Pequeno Catecismo, sumariando a melhor sabedoria dos antigos e da cristandade, faz a pergunta: “De que deveremos cuidar mais: do corpo ou da alma?” – pergunta que admite que é possível para qualquer das partes ganhar a primazia ou o domínio da vida.
O facto do conflito na pessoa humana não é novo. Nova é somente a sua pormenorizada descrição no plano psicológico. A psiquiatria afirma que há alguma tendência primordial para o mal no inconsciente coletivo, que influência todos os membros da raça humana. Lançando nova luz sobre esta tensão acrescentou novo conhecimento ao que a humanidade já conhecia a respeito de si mesma, isto é, que não é tudo o que devia ser.
Pode muito bem ser que a nova apologética da alma humana comece com as contribuições da psicologia moderna sobre o tema do conflito, que será uma espécie de prefácio ao tratado, De peccato originali, relativamente o mais importante tratado de teologia para a mente moderna.
Estamos interessados aqui, não no conflito no plano inconsciente, mas na causa subjacente de todos os conflitos do corpo ou da alma, na vontade ou no coração, da sociedade ou do indivíduo, da qual a psicológica não é mais que uma manifestação superficial. Podemos eliminar imediatamente a ideia antiquada de que a pobreza é a causa da desarmonia interior, pois se assim fosse, todos os ricos seriam normais. Contudo, há mais anormalidade entre os ricos do que entre os pobres. Nem poderá ser encontrada a causa do conflito no fundo animal do homem, pois o homem marca uma completa ruptura com o animal, como se evidência pelo facto de que o homem pode rir e os animais não podem, que o homem pode criar arte, o que os animais não podem. A risada e a arte são impossíveis sem ideias, por uma parte, e ideais por outra. A causa do conflito não é o meio ambiente, porque o freio de ouro não torna melhor o cavalo. Judas, que teve o melhor ambiente da história, morreu na ignomínia e na vergonha. O conflito não é devido à ignorância, do contrário cada doutor em teologia seria um santo. O conflito não é devido à pessoa. Os pecados pessoais fazem intensificar os complexos de uma pessoa, mas o facto inelutável é que toda pessoa humana no mundo tem um conflito latente dentro de si. Desde que não sois vós, nem eu, ou ele, ou ela sozinha que tem uma tensão, deve deduzir-se que o conflito não tem uma origem pessoal, mas é devido à própria natureza humana. A fonte da desordem há de ser encontrada tanto no indivíduo como na própria humanidade. Uma psicologia que admitisse que todos os conflitos se devem a aberrações da própria pessoa falharia na explicação da universalidade do conflito. Desde que cada um é assim, nenhuma explicação individual ou pessoal pode ser a causa total. A causa pessoal é um efeito da causa natural, já que o individuo peca porque pecou a natureza humana.
Se a verdadeira origem do conflito há de ser encontrada, não no indivíduo exclusivamente, mas na natureza humana, é bom examinar a natureza humana comum a todos nós. Dois factos ressaltam.
Primeiro, o homem não é um anjo, nem um demónio. Não é intrinsecamente corrupto (como os teólogos começaram a clamar há quatrocentos anos), nem intrinsecamente divino (como os filósofos começaram a dizer há cinquenta anos). O homem tem, antes, aspirações para o bem, que ele acha impossível realizar completamente por si mesmo. Ao mesmo tempo tem uma inclinação para o mal, que o atrai, afastando-o desses ideais. É como um homem que caíu dentro de um poço pela sua própria estupidez. Sabe que não deveria estar ali, mas não pode sair por si só. Ou, para mudar a imagem, é como um relógio de mola partida. Precisa de ser concertado por dentro, mas os materiais devem ser supridos de fora. Confuso, não sabe se é um otimista, que acredita que a evolução lhe dará uma mola, ou um pessimista, que acredita que ninguém pode consertá-lo. É uma criatura que pode continuar a trabalhar bem de novo, mas somente se algum relojoeiro tiver a bondade de repará-lo.
Segundo, este conflito tem todas as aparências de ser devido a um abuso da liberdade humana. Como o bêbedo é o que é, por causa de um ato de escolha, da mesma forma a natureza humana parece ter perdido a bondade original de que a dotou um Deus de Bondade, graças a um ato de escolha. Como disse Santo Agostinho: “O que quer que sejamos, não somos aquilo que devíamos ser.” A origem deste conflito tem sido explicada pelos teólogos medievais e modernos por uma analogia com a música. Imaginai uma orquestra num palco, com um famoso dirigente regendo a bela sinfonia por ele mesmo composta. Cada membro da orquestra tem liberdade de acompanhar o dirigente e produzir assim a harmonia. Mas cada membro tem também liberdade de desobedecer ao dirigente. Suponde que um dos músicos, deliberadamente, toca uma nota falsa e depois induz um violinista a seu lado a fazer o mesmo. Tendo ouvido o desacorde, poderia o maestro fazer uma de duas coisas. Poderia, ou bater com a batuta e ordenar que o compasso fosse tocado de novo, ou ignorar o desacorde. Não faria diferença o que ele fizesse, pois esse desacorde já teria desaparecido no espaço, numa certa temperatura, com a velocidade de cerca de 1100 pés por segundo. Continuaria a correr, afetando até mesmo as radiações infinitesimalmente pequenas do universo. Como uma pedra lançada num tanque produz uma ondulação que afeta a praia mais distante, da mesma maneira este desacorde afeta até mesmo as estrelas. Enquanto durar o tempo, em alguma parte do universo de Deus há uma desarmonia, introduzida pela livre vontade do homem.
Poderia esse desacorde ser detido? Não pelo próprio homem, pois o homem jamais poderia alcançá-lo. O tempo é irreversível e o homem está localizado no espaço. Poderia contudo ser detido pelo Eterno, saindo da Sua intemporalidade para o tempo, agarrado essa falsa nota, detendo-a no seu vôo. Mas seria ela ainda um desacorde mesmo nas Mãos de Deus? Não! Não, se Deus escrevesse nova sinfonia e fizesse dessa falsa nota a sua primeira nota! Então tudo seria harmonia de novo.
Há muito tempo passado, bem antes de Édipo e Electra, Deus escreveu uma bela sinfonia da criação. Produtos químicos, flores e animais estavam sujeitos ao homem, as paixões do homem achavam-se sob a direção da razão e a personalidade do homem em amor com o Amor, que é Deus. Deus dera esta sinfonia ao homem e à mulher para que a tocassem, com uma coleção completa de indicações sobre o que evitar, até o derradeiro pormenor. Sendo livres, o homem e a mulher podiam obedecer ao Regente Divino e produzir harmonia ou podiam desobedecer-Lhe. O demónio sugeriu que, havendo o Divino Regente marcado a partitura dizendo-lhes o que tocar e o que não tocar, estava destruindo a liberdade deles. A mulher foi a primeira a sucumbiu à ideia de que a liberdade é licença ou ausência de lei. Tocou um desacorde para provar a sua chamada “independência”. Foi uma coisa nada gentil da parte duma dama. Depois induziu o homem a fazer o mesmo – o que era uma coisa nada gentil da parte dum cavalheiro. Foi esse desacorde original passando sem cessar por toda a raça humana. Quando se dava a conjunção do homem e da mulher, afetava cada ser humano, exceto um, que jamais foi nascido, pois cada qual herdava os efeitos daquela desarmonia. O desacorde teve mesmo repercussões no universo material, uma vez que os cardos cresceram e os animais se tornaram selvagens. Assim como um rio poluído na sua fonte passa adiante a poluição em todo o seu curso, da mesma maneira o pecado original foi transmitido à humanidade.
Esse desacorde original não podia ser detido pelo próprio homem, porque não lhe era dado reparar uma ofensa contra o infinito com o seu eu finito. Tinha contraído uma dívida maior do que podia pagar. A dívida só podia ser paga pelo Divino Maestro, saindo da Sua Eternidade para o tempo. Mas há um mundo de diferença entre parar uma nota discordante e um homem rebelado. Uma não tem liberdade, o outro tem. E Deus recusa ser um ditador totalitário, destruindo a liberdade humana, a fim de abolir o mal. Deus podia prender uma nota, mas não prender um homem. Em vez de recrutar o homem, Deus quis consultar a humanidade de novo para saber se queria ela ou não fazer mais uma vez parte da Divina orquestra.
Do grande e branco trono de luz, veio um anjo de luz, passando pelas planícies de Esdralon até a aldeiazinha de Nazaré, para ir ter com uma moça aldeã, chamada Maria. Uma vez que fora uma mulher que dera a primeira nota discordante, a uma mulher deveria ser dada a oportunidade de consertá-la. Esta mesma mulher estava livre da culpa original, graças aos méritos antecipados do Filho que iria mais tarde conceder. Era conveniente que Ele, Que é a própria Inocência, baixasse à terra pelos portais da carne não poluída pelo seu pecado comum. Este privilégio de Maria tem sido chamado a Imaculada Conceição. Desde que um anjo caído tentou a primeira mulher para que se rebelasse, Deus agora consulta, por meio de um anjo que não pecou, Gabriel, a nova Eva, Maria, e pergunta: “Queres dar-me um homem? Queres dar-me livremente uma nova nota dentre a humanidade, com a qual possa eu escrever uma nova sinfonia?” Este novo homem devia ser um homem. Do contrário Deus não estaria agindo em nome da humanidade. Mas também devia estar fora da corrente de infecção a que todos os homens estão sujeitos. Sendo nascido de uma mulher, seria Ele um homem; sendo nascido de uma Virgem, seria ele um homem sem pecado. A Virgem foi consultada se consentiria em ser Mãe. Uma vez que não pode haver nascimento sem amor, no caso da Bendita Virgem Maria, o Poder do Altíssimo, o Espírito de Amor, envolveu-a e O Que nasceu dela é o Filho de Deus, o Filho do homem e o seu nome é Jesus, porque salvou o mundo dos seus pecados.
A Imaculada Conceição e o Parto Virginal eram para o começo de uma nova humanidade, algo como o que é uma comporta para um canal, especialmente a Imaculada. Se um navio está navegando num canal poluído e deseja transferir-se para águas claras de mais alto nível, deve passar através de uma divisão que retenha as águas poluídas e erga o navio a uma posição mais elevada. Depois o outro portão da comporta é levantado e o navio continua a sua marcha nas águas novas e claras, nada levando consigo das águas poluídas. A Imaculada Conceição de Maria foi como essa comporta, considerando que, por meio dela, a humanidade passou do nível mais baixo de filhos de Adão para o mais alto de filhos de Deus.
Quando este plano foi apresentado a Maria, no maior contrato de liberdade que o mundo jamais conheceu, respondeu ela: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra.” E Deus começou a tomar a forma de homem dentro do casto corpo dela. Nove meses mais tarde o Eterno estabeleceu o seu ponto de desembarque em Belém, uma vez que Ele Que é Eterno apareceu no tempo; o pássaro que construiu o ninho é chocado dentro dele; Aquele Que fez o mundo nasceu no mundo que não O recebeu. Porque é homem, pode Jesus Cristo agir em nome do homem e ser responsável como homem; porque é Deus, tudo quanto faça com essa natureza humana tem valor infinito. Por meio dessa Sua natureza Humana sem pecado, torna-se Ele mesmo responsável por todos os pecados do mundo e a tal ponto que, na forte linguagem de S. Paulo: “Fez-se pecado.” Como um irmão rico toma a si a dívida do seu irmão arruinado, da mesma maneira Nosso Senhor toma sobre Si todas as discórdias e desarmonias, todos os pecados, culpas e blasfémias do homem, como se Ele próprio fosse culpado. Assim como o ouro é lançado na fornalha para que seja queimada a escória, da mesma maneira assume Ele a sua natureza humana e mergulha-a nas Labaredas do Calvário, para que os nossos pecados sejam consumidos pelo fogo. Mudando ainda uma vez de imagem: uma vez que o pecado está no sangue, derrama Ele o seu sangue em redenção, pois sem derramamento de sangue não há remissão de pecados.
Depois, no Domingo de Páscoa, pelo poder de Deus, Ele se ergue de entre os mortos com a Sua natureza humana sem pecado glorificada, tornando-se a primeira nota da nova criação, o começo da nova sinfonia que será tocada de novo pelo Divino Regente, por intermédio de todos os que livremente produzirão harmonias na nova harmonia de um mundo cristão. E como são acrescentadas novas notas a esta primeira nota? Pelo Sacramento do Batismo, por meio do qual cada homem morre para o velho Adão e de novo se levanta com Cristo. Esta unidade de notas em compassos e movimentos constitui a nova sinfonia. Para usar a linguagem de São Paulo, cada pessoa que livremente, como fez Maria, se dá ao Cristo, torna-se como que uma célula no seu novo corpo, que é a Igreja.
Ser um cristão significa, pois, ser elevado da velha humanidade de Adão à nova humanidade de Cristo. Como não se pode levar uma vida física, a menos que se seja nascido para ela, assim também não se pode levar uma vida espiritual a menos que se seja nascido para ela. Nenhum homem é forçado a aceitar esta vida cristã, como não o foi tampouco Maria. É livre e consultável. Desde que a Divina Vida nas nossas almas é uma simples dádiva de Deus, desde que não é causada por qualquer esforço humano ou merecida, em estrito sentido, por alguma coisa que tenhamos feito, pode-se dizer também que ela teve um Parto Virginal. Como nos conta São João: “Ele estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, mas o mundo não o conheceu. Ele veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus àqueles que acreditam no seu nome: os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. ” (São João 1, 10-13.)
Voltando ao caso dos conflitos, há duas causas, não relacionadas. Uma delas é pessoal e nasceu de alguma revolta pessoal contra a lei moral, com o seu consequente distúrbio do equilíbrio da mente, do corpo ou dos nervos. A outra pertence à natureza humana. Nós não a causamos pessoalmente, mas a nossa natureza humana está envolvida nela, da mesma maneira que nos vemos envolvidos numa guerra declarada pelo chefe do nosso governo, embora os cidadãos individualmente não hajam feito uma declaração individual de guerra. O que o chefe do governo humano fez, nós fizemos. Não fostes vós ou eu quem pecou em Adão, mas aquilo que nós somos. Cada pessoa é profundamente o que é, não por causa dos seus pais, ou avós ou bisavós, mas por causa dos seus primeiros pais. Cada pessoa é uma sede possível de psicoses ou neuroses, que obscurecem o intelecto e enfraquecem a vontade com paixões revoltadas contra a razão, com bons instintos, tais como o sexo, transformando-se em luxúria, a fome transformando-se em intemperança e com o seu corpo misturando-se todo com a sua alma. Pois a natureza humana, perdendo a sua união com Deus, não caiu simplesmente em um nível natural, antes tornou-se um rei destronado, nunca satisfeito no exílio, sempre desejando a intimidade mais outra vez com Aquele que sozinho pode restaurar a harmonia e a paz, contanto que a vontade coopere com a sua graça salvadora.
O conflito está profundamente situado no homem. A psicologia toca apenas a parte mais superficial. Ele brota não só de uma revolta contra a lei moral, mas mais fundamentalmente, da má vontade do homem em aceitar a sua posição e papel na ordem do ser. O homem está certo, mesmo que não reflita sobre o facto, de que se acha colocado acima de todas as outras criaturas. Está também certo das suas quase infinitas potencialidades, de ter um intelecto bastante poderoso para resolver os enigmas da natureza e escravizar as suas forças, e de uma capacidade de conceber os mais espantosos planos e levá-los a cabo. O homem sabe-se capaz de criar coisas maravilhosas, cuja beleza jamais poderá perecer. Mas também verifica que a sua existência é limitada e que há barreiras ao seu poder. Pode empurrá-las o mais longe possível, mas por mais longe que o faça, nunca verá um fim. Não pode ter nunca esperança de tornar-se o senhor absoluto do seu ser e do seu destino.
As lendas de muitos povos falam-nos da sorte sucedida a homens que tentaram “ser como deuses”. No mito grego, Prometeu cai vítima da cólera do supremo Zeus. Nas “Mil e uma Noites”, há a história da Cidade de Bronze. A expedição que parte a descobrir essa misteriosa cidade chega a um castelo abandonado, belo, mas vazio. Uma inscrição fala do poder e da força do rei que outrora ali governara, dos seus tesouros e da imensidão do seu reino. Mas depois veio a morte e o ouro não valeu de nada.
Por maior que se torne um homem, há alguma coisa maior do que ele. Mas ele é bastante grande para sentir isto e revoltar-se contra o seu fado, que para sempre o condena a ser menos do que quer ser. Contudo revoltar-se contra a sua própria natureza e o seu próprio ser é uma empresa obviamente destinada ao fracasso e a terminar em catástrofe. E a própria razão humana vê que isto é destituído de sentido. Mas tão profundamente enraizado está este orgulho e volúpia do poder e da grandeza que o homem sucumbe uma e mais vezes.
A revolta do homem contra a lei moral pode ser apenas uma manifestação dessa revolta mais profunda contra a sua finidade. A lei moral (e secundariamente qualquer lei) impõe restrições e isto convence o homem do facto de que não possui poder sem limites. Torna-o cliente, da maneira mais pungente, da sua finidade e da sua contingência. Para sempre soa nos lugares mais escuros e mais ocultos da alma de um homem a sedutora promessa da serpente: “Sereis como deuses.”
Há alguma verdade no dito paradoxal de que o orgulho vem depois da queda, porque, caído e privado da sua condição original, o homem tornou-se mais orgulhoso do que nunca. Mas por obscurecida que esteja a sua razão, vê com suficiente claridade que a revolta contra o Infinito equivale a revoltar-se contra a própria natureza. Este é o mais fundamental de todos os conflitos. A raiz de todos os pecados é o orgulho, diz Santo Agostinho. O orgulho está presente no começo, domina a presença do homem e cria para ele um futuro ilusório. Dilacerado entre o orgulho e a fraqueza, procurando alcançar o Infinito com a consciência da finidade, é o homem lançado no torvelinho de um conflito que jamais findará a menos que, de todo o coração e plenamente, aceite ele a sua verdadeira situação. Somente quando tiver assegurado a si mesmo, com tal aceitação e submissão, uma base firme onde permanecer, poderá ele progredir na direção do seu glorioso fim. Enquanto se conservar na atitude de revolta, é a vítima de conflitos insolúveis, cujas formas numerosas são apenas disfarces da única revolta básica.
Plutarco conta a história de um homem que tentou fazer um cadáver ficar de pé. Experimentou vários planos de equilíbrio, em diferentes posições. Finalmente desistiu, dizendo: “Está faltando alguma coisa dentro.” Esta é a história de todo o Homem. Um psiquiatra, um médico e um professor podem ser capazes de aliviar certos complexos e conflitos superficiais, mas ninguém é capaz de remover a causa básica de todos os complexos, exceto o próprio Deus. Faz Ele isto trazendo ao homem algo que o homem não pode produzir de si e por si mesmo. Está faltando alguma coisa no interior do homem e essa coisa é a graça de Deus. S. Paulo descreve esta tensão e o seu relaxamento final pela graça, quando escreve:
"Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço. Ora, se o que eu não quero é que faço, estou de acordo com a lei, reconheço que ela é boa. Mas então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico. Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte? Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso! Concluindo: eu sou o mesmo que, com o espírito, sirvo a lei de Deus e, com a carne, a lei do pecado.".” (Rom. 7, 15-25.)
As doenças físicas podem ser curadas por médicos e as doenças mentais por psiquiatras; mas nenhum bom psiquiatra partirá da afirmativa de que todas as desordens mentais e todos os conflitos estão enraizados naqueles instintos que o homem compartilha com os animais. Verificará que os problemas devem ser tomados seriamente se são problemas sérios. Mesmo uma pessoa neurótica precipita-se dentro de problemas que exigem ser tratados por meio de análise racional e não por meio de uma análise que busca apenas causas instintivas. [10] O Dr. Karen Horney adverte: “A rejeição dos valores morais por Freud tem contribuído para tornar o analista justamente tão cego como o paciente. ” [11]
E o Dr. Fritz Kundel escreve: “As doenças físicas e mentais pertencem realmente ao domínio da medicina e, por conseguinte, a avaliação ética desses casos deve ser evitada. Mas se os vícios são doenças, cessam de ser vícios e a teologia, enviando o bêbado ou o jogador ao médico, abandona a sua derradeira conexão com a realidade: a tarefa ética.” [12]
Se uma pessoa tem uma doença moral que é o pecado, então a cura só pode vir pelos meios que Deus divinamente instituiu para restaurar o homem na paz espiritual. É por vezes verdade que o corpo e o espírito são afetados porque a consciência é afetada. Neste caso a paz de consciência trará a paz tanto ao espírito como ao corpo. A resolução final de todos os conflitos não será levada a cabo senão depois da Ressurreição do Corpo, quando os corpos dos justos que morreram em estado de graça refletirão e gozarão as belezas da alma.
Quando uma pessoa está tentada a praticar o mal, não deve pensar que há algo de anormal a seu respeito. Um homem é tentado, não porque é intrinsecamente mau, mas porque é um homem decaído. Nenhum indivíduo tem um monopólio de tentação. Todos são tentados. Os santos não acharam fácil ser santos, e os diabos não são felizes por serem diabos. Nem todos são tentados da mesma maneira. Alguns são tentados a perverter o bom instinto da preservação de si mesmo em egoísmo e soberba; outros a perverter o bom instinto da perpetuação de si mesmo pelo sexo em luxúria; outros são tentados a perverter o bom instinto da extensão de si mesmo pela propriedade privada em avareza. E se alguém é tentado em qualquer um destes três modos ou por meio da intemperança, da cólera, da inveja, do ciúme, da gula, não é porque é um doente. É porque, desde a queda, a bondade “não vem naturalmente”, mas com dificuldade e só é inteiramente conquistada graças ao sobrenatural.
As pessoas estariam numa situação menos infeliz se verificassem que entre os filhos de Adão não se pode escapar ao conflito, à luta, ao esforço. A tentação não é o mal, mas apenas o consentimento na tentação e desde que somos da maneira que somos, porque rejeitamos o auxílio de Deus, só poderemos ser felizes de novo aceitando-O. Ninguém pode compreender a natureza humana e ninguém pode tratá-la adequadamente, se pensar que um conflito é exclusivamente individual, ou se pensar que o conflito básico pode ser curado pela própria natureza humana. Os conflitos superficiais por vezes cedem às curas naturais, mas mesmo alguns deles só podem ser remediados pelo Médico Divino. Toda a teoria que desacredita a verdadeira natureza do homem, ou nega a necessidade de um Remédio Divino está apenas intensificando a doença que tenta curar. As desordens psicopáticas em que muitos caem são devidas a uma falta de conhecimento da natureza humana ou a uma falta de genuína religião.
O Dr. J. A. Hadfield, um dos maiores psiquiatras da Inglaterra, escreve: “Falando como um estudante de psicoterapia que, como tal, não tem relações com a teologia, estou convencido de que a religião cristã é uma das influências mais valiosas e mais poderosas para produzir aquela harmonia, aquela paz de espírito e aquela confiança da alma necessárias para produzir saúde e vigor a vasta proporção de doentes nervosos.” O Dr. William Brown Wilde, professor de filosofia mental da Universidade de Oxford e psicoterapista do King’s College Hospital, diz: “Tornei-me mais convencido do que nunca de que a religião é a coisa mais importante na vida e que é essencial para a saúde mental.”
O Dr. C. G. Jung, que rompeu com Freud por causa da exagerada importância dada por este ao sexo, escreveu: “Durante os últimos trinta anos, pessoas de todos os países civilizados tem vindo consultar-me. Tenho tratado de muitas centenas de pacientes, sendo o maior número de protestantes, pequeno número de judeus e não mais de cinco ou seis católicos práticos. Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, com mais de trinta e cinco anos, nem um só tem havido cujo problema como último recurso não fosse o de encontrar uma perspectiva religiosa da vida. Pode-se afirmar com segurança que cada um deles caiu doente, porque havia perdido aquilo que as religiões vivas de todos os tempos têm dado aos seus seguidores, e nenhum deles ficou realmente curado senão quando recuperou a sua fé religiosa.” [13]
Se há um temor nascido do mal-fazer, ainda mesmo que a culpa seja negada; se falta a alguém uma intima serenidade de alma e se despreza aqueles que moralmente o censuram; se há uma furna de rancores e alguém tem três escárnios para todos e três vivas para ninguém; se alguém “fica louco” todas as vezes que ouve o nome de Deus; se alguém, que não as compreende, chama de “mitos” as grandes verdades cristãs; e se alguém acusa o seu próximo de hipocrisia para acobertar a sua presunção, o seu orgulho e a sua “afetação”; se alguém pensa que deve obter divórcio porque descobriu pastos mais verdes e que, portanto, a sua esposa atual é “incompatível”; se alguém é dado a excessos, sob o disfarce de auto-expressão; se alguém gosta de lançar a responsabilidade da sua desdita sobre as condições económicas, então é certo que nenhuma extensão de horas, semanas ou anos gastos em cima de sofás, a ouvir que aquele seu temor da justiça de Deus provém do complexo de um pai, não servirá de nada, como tampouco o conselho místico de um padre servirá de alívio a um maníaco, porque a cura, em nenhum dos casos, não é apropriada à causa da doença.
Não é isto crítica àqueles que estudam as manifestações psíquicas do conflito do homem, mas é crítica aqueles que negam que um conflito humano ou uma ansiedade pode provir de qualquer outra causa que não seja um instinto comum a todos os animais. Não são fáceis para o homem a recuperação da paz da sua alma e o apaziguamento do seu conflito.
Só conseguimos ter o nosso eu verdadeiramente integrado em virtude de duros esforços e em cooperação com os recursos que nos são proporcionados de fora. William James disse certa vez que a maioria de nós vive habitualmente bem abaixo do máximo das suas energias e isto é particularmente verdade no que se refere àquelas forças postas à nossa disposição pela Encarnação. Curam-se as mais sérias doenças da natureza humana na presença de Deus. Se o homem não pode confiar na sua própria “bondade” para descobrir Deus, então talvez o seu cansaço o lance no Seu Seio.