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CAPÍTULO 7
Psicanálise e Confissão
Há algumas décadas passadas ninguém acreditava na confissão dos pecados, a não ser a Igreja. Hoje toda a gente acredita na confissão, com esta diferença: alguns acreditam na confissão dos seus próprios pecados; outros acreditam na confissão dos pecados alheios. A popularidade da psicanálise já quase convenceu todos da necessidade de alguma espécie de confissão para a paz de espírito. Este é um outro exemplo de como o mundo, que lançou as verdades cristãs ao cesta dos papéis, no século XIX, está tirando-as para fora, de forma isolada e secular no século XX, enquanto se ilude acreditando que fez uma grande descoberta. O mundo descobriu que não poderia continuar mais sem algum alívio para a sua infelicidade interior. Uma vez que havia rejeitado a confissão e negado tanto Deus como a culpa, tinha de descobrir um substituto.
O nosso objetivo particular aqui, como de costume, não é nem a psiquiatria, nem o método psicanalítico, ambos os quais são válidos nas suas esferas. Limitamos a discussão somente àquele simples grupo psicanalítico que afirma coisas como estas: o homem é um animal; não há responsabilidade pessoal e, portanto, não há culpa; o método psicanalítico é um substituto da confissão.
Comecemos de maneira positiva: o Sacramento da Penitência, ou confissão, foi instituído pelo Nosso Divino Senhor e satisfaz as mais profundas aspirações da alma humana. A experiência revela estas três aspirações: quando um homem age mal, não o dirá a qualquer um que encontre, mas somente a algum representante da ordem moral, pois o que busca é perdão. E, para regressar á trilha direita, o homem deseja algum ideal mais alto do que ele próprio, ou mesmo do que o seu companheiro, algum modelo infalível e absoluto, com um interlocutor desejoso de ajudá-lo a atingir aquele ideal.
1. CONFISSÃO. Nenhum ser humano se sente satisfeito com a intranquilidade no coração, a inflamá-lo e ulcerá-lo. A natureza inteira fala a favor do alívio e a consciência alega as suas reclamações. Uma substância estranha, que o estômago não pode assimilar, nele penetra. O estômago revolta-se e vomita fora a causa do distúrbio. Um argueiro cai no olho, e, entre dores e lágrimas, o olho exige que o cisco seja removido. A consciência não é diferente: todo o pecado busca alívio.
A consciência de algo errado - de um pecado clamando para ser expulso - pode ser recalcada e muitos homens e mulheres usam de tal ocultação para escapar à auto-censura. Quer do ponto de vista psicológico, quer do ponto de vista espiritual, esta repressão é bastante perigosa, afetando a saúde tanto do corpo como do espírito. Alguns tentam escapar às suas consciências inquietas pela negação da culpa, enquanto outros acreditam que, se abandonarem a alma e esquecerem todos os totens e tabus morais, alcançarão satisfação. Mas estão grosseiramente enganados: nada em todo o domínio da psicologia é mais destrutivo da personalidade do que a noção de que as proibições morais causam recalques doentios, por impedirem a libertação de instintos animais e necessidades primitivas. Os impulsos destrutivos é que devem ser recalcados e não o conhecimento das nossas faltas. Os indivíduos que inverteram esta regra saudável têm invariavelmente agravado muitas vezes mais o seu anterior estado nervoso. De facto, a supressão do eu ético para permitir a tolerância sem freios do eu animal é uma das principais causas das desordens mentais no homem moderno. A repressão difundida da culpa (em vez da justa repressão da cólera, do ódio e da luxúria) tem tido tão sérias consequências que o mundo moderno chegou finalmente a perceber a necessidade de declarar ou confessar algumas das causas ocultas dos casos de distúrbios mentais.
A igreja opõe-se à repressão em todos os níveis. “Sempre tem dito: “Confessai os vossos pecados; dizei-os, libertai-os deles, contai-os francamente.” A psicologia moderna verificou afinal a sabedoria da doutrina cristã e agora diz:” Não reprimais os vossos complexos. A repressão de uma desordem física é perigosa para o corpo, como a repressão de uma desordem moral é perigosa para a alma. Se um pedaço de vidro entra na mão, a mão primeiro tentará expeli-lo, sangrando; quando não se pode livrar do vidro, então passas a cercar o vidro de tecido fibroso para evitar que ele prejudique o resto do corpo. [37] Quando o médico mais tarde opera e retira o pedaço de vidro para evitar a infecção, está fazendo o que a natureza primeiro tentou, isto é, evitando a repressão e sua consequente irritação. Na ordem moral, o Nosso Divino Senhor disse que a repressão dos pecados era perigosa; se os acobertarmos, causarão uma irritação com consequências eternas. Assim foi que ordenou aos Seus apóstolos que se espalhassem pelo mundo, evitando a repressão ouvindo confissões e perdoando os pecados. Agora a psiquiatria viu a sabedoria de fazer em favor do espírito doente o que os médicos sempre fizeram em favor do corpo e o que a religião tem feito pela alma desde tempos imemoriais - obter alívio numa confissão.
Mas conservar o pecado para si mesmo é pior do que conservar uma doença para si mesmo. Um paciente confia a sua doença física ou mental ao médico. Por que não confia também o pecado ao seu confidente? A memória do pecado, guardada para si próprio, fará uma de duas coisas: ou tornar-se-á uma tentação para repetir o pecado, ou o seu remorso paralisará os nossos esforços morais de melhoria, com palavras tão desesperadoras como “Oh! Para que serve?” O que é a mão para o olho, providenciando alívio do argueiro, deveria ser a língua para o coração, providenciando alívio do pecado.
“Minha boca dirá a cólera do peito
Ou ele estourará se contê-la quiser;
Neste caso prefiro a extrema liberdade,
De dizer, como gosto, o que bem me aprouver.” [38]
É neste ponto de declaração que aparece a primeira diferença entre psicanálise e confissão. A psicanálise é uma declaração de atitudes da mente no estado inconsciente. A confissão é uma afirmação sincera de culpa no estado consciente. A psicanálise é a sondagem de pensamento por pensamento; a confissão é a comunhão entre a consciência e Deus. A revelação de atitudes mentais nada exige do nosso orgulho e nunca aspira pelo perdão: na realidade, pode-se ter orgulho de um estado de espírito doentio. Alguns homens deleitam-se em vangloriar-se do seu ateísmo, do seu agnosticismo, das suas perversões, mas nenhuma consciência jamais se vangloriou da sua culpa. Mesmo isolado, o pecador envergonha-se. [39]
Se a ordem moral é negada, o reconhecimento torna-se somente na admissão de um erro ou de uma desgraça. A culpa é moral, não fisiológica ou animal; portanto, não pode ser conhecida objetivamente e cientificamente, da mesma maneira que um poema não pode ser conhecido somente por um estudo da sua metrificação. Assim contra o escapismo de algumas análises que tornam o eu sem culpa, a confissão a um padre supõe que o ego possa estar em falta, que a lava fervente da intranquilidade sob a superfície é devida à repressão de uma desordem voluntária e que somente reconhecendo-a como sua própria pode-se ser restaurado numa comunhão consigo mesmo, com a natureza, com o próximo e com Deus. Não é preciso coragem para se admitir que se é isento de culpa; mas é preciso um heroísmo de que poucos são capazes para levar o fardo das próprias culpas ao Calvário e dizer ao Cristo na Cruz: “Esta Coroa de Espinhos foi o meu orgulho que a pôs aí; esses cravos foram pregados pelo martelo da minha avareza; os açoites que caíram sobre a tua carne foram vibrados pela minha lascívia e pela minha cupidez.” A culpa só é culpa quando é subjetivamente sentida como própria. Se um homem não se reconhece no seu íntimo, duro, desdenhoso ou soberbo, é que não se conhece a si mesmo. A Agonia do Horto foi o supremo conhecimento subjetivo que Nosso Senhor Se permitiu para sentir a culpa devida aos pecados do homem. E a Agonia produziu o Suor de Sangue.
Uma outra diferença é esta: ninguém gosta de ter a mente revolvida, de acordo com uma teoria fantástica e não científica, que afirma que o sexo deve estar no fundo de todos os seus problemas. Foi esta uma das queixas mais gerais dos soldados, durante a Segunda Guerra Mundial, contra os exames mentais. Alguns médicos do Exército asseveraram que a contingência era coisa anormal. Mesmo no caso eventual em que os conflitos sexuais merecem realmente censura, ninguém se torna melhor pelo facto de ter alguém a dizer-lhe quão excêntrico ele é ou quão apodrecido está. Todos querem fazer a sua própria narração, pois sabem que só poderão tornar-se melhores confessando eles próprios a sua culpa. “Deixem-me dizê-lo” exprime um direito primário do coração humano. Só o indivíduo tem o direito de repudiar uma parte de si mesmo, como condição de melhoria. Ressente-se da sondagem e da análise feitas por espíritos alheios. Deseja escancarar os portais da sua própria consciência; não quer que ninguém os derrube de fora. A verdadeira unicidade da personalidade dá-lhe o direito de expor o seu próprio caso com as suas próprias palavras. Nenhuma alma gosta de ser estudada como um besouro. Nenhum julgamento é completo, a menos que o defensor tenha a sorte de tomar o lugar da testemunha para testemunhar no seu próprio caso. O pior no eu, por meio da autoconfissão, contribui para a sua melhoria e paz. Mas cada pessoa quer ser a sua própria testemunha - conduzir o seu caso contra si mesmo, não para que possa ser condenado, mas para não o ser.
No confessionário, é o seu próprio acusador e o seu próprio advogado de defesa. Aquele que se acusa é perdoado. Os homens sempre têm reconhecido que uma confissão espontânea é uma forma de expiação, merecedora de perdão. Vemos isto em muitos planos: a mãe, que deseja que o seu filho admita francamente a sua falta diz: “Diz-me e eu não te castigarei”; nos sistemas de honra nos nossos colégios, os jovens são convidados a “erguer-se” e reconhecer a sua culpa; até mesmo o juiz que interroga o criminoso lá no seu banco partilha o sentimento que diz que a punição deverá ser temperada, quando um homem se confessa culpado. O penitente analisa as suas próprias faltas admitindo-as. Não depende de um psicanalista para fazer que o significado das mesmas seja entendido.
E há outras diferenças. Na confissão a narração dos pecados é breve e abstrata; na psicanálise, é geralmente longa, complicada e bastante precisa. A diferença de tempo é largamente devida ao facto de que a pessoa normal, indo confessar-se, já tem um padrão fixo de conduta e julga-se em relação a esse padrão; o paciente anormal, não tendo um propósito bem definido na vida, requer mais tempo para juntar as peças. E porque não há humilhação em confessar estranhezas mentais- como há em lapsos morais- o paciente pode gostar de prolongar a história dos seus “sintomas” e dizer empavonado, ao fim de uma prolongada introdução: “Doutor, jamais ouviu o senhor coisa semelhante a isto?” Há também pacientes que gostam de conversar a respeito de si mesmos acima de tudo o mais. Isto permite a analistas inescrupulosos -particularmente os que dão ênfase ao sexualismo- insistirem com os seus pacientes para que voltem repetidas vezes, a fim de que toda a sua vida seja analisada (se têm dinheiro). Ser analisado não é um processo inteiramente desagradável. Um homem a quem se disse que tudo é um sintoma, nunca necessita acusar-se, ou julgar-se ou pedir para ser julgado. Pode vir a olhar-se como um fenómeno curioso que precisa de ser investigado, não para melhorar ou tirar proveito do conhecimento que o analista lhe proporciona, mas apenas para satisfazer a sua curiosidade.
O espírito da confissão não é o de encontrar factos, mas misericórdia. Se o próprio homem concede perdão a outros que humildemente confessam as suas culpas, por que não faria Deus o mesmo? Foi precisamente isso que o Nosso Bendito Senhor fez. Tomou a confissão natural das faltas- o que já tem uma força expiatória- e elevou-a à dignidade de um Sacramento. A confissão é apenas humana, mas Ele divinizou-a. O que é natural foi por Ele feito sobrenatural. A condição indispensável para receber o perdão humano -o sincero reconhecimento da culpa- é a condição mediante a qual Deus Todopoderoso concede o Seu perdão no Sacramento da Misericórdia. Com infinita ternura, contou Ele a história do filho pródigo que voltou a seu pai, reconheceu a sua culpa e foi recompensado com o abraço e o beijo do seu pai. Tal é a alegria de Deus pelo regresso dum pecador, pois “do mesmo modo haverá maior júbilo no céu por um pecador que fizer penitência, que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência.” (Lucas 15:7)
Não deixeis ninguém dizer que o homem instituiu o Sacramento da Penitência. Nenhum homem jamais lhe teria dado tal forma. Um homem não é por natureza tão reverente ou tão cordial para com outro que, voluntariamente, escancare toda a sua alma mesmo a um estranho, como milhões de cristãos fazem todas as semanas. Não deixeis ninguém dizer que membros da Igreja inventaram este Sacramento de Misericórdia, pois, se tal aconteceu humanos como são, ter-se-iam por certo excluído a si mesmos das suas humilhações. Contudo, nenhum padre, nenhum bispo, nenhum cardeal, nem mesmo o próprio Santo Padre estão imunes da necessidade da confissão. Deixai que aqueles que dizem que o confessionário foi instituído por um padre se sentem no abafado compartimento dum confessionário das nossas igrejas durante cinco ou seis horas, nos sábados e nas vésperas dos dias de festa e das Primeiras Sexta-Feiras, ouvindo os rotineiros temores e fraquezas da natureza humana, pois assim ficariam conhecendo qual é o mais penoso de todos os labores do padre- muito embora belo porque sabe e sente que está sendo o veículo das abençoadas mercês de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
2. O OUVINTE IDÓNEO. Outra diferença entre psicanálise e confissão diz respeito à pessoa a quem as confissões são feitas. Através dos séculos, a confissão do pecado tem sido sempre feita a um representante da ordem moral, de modo que a alma doente possa ser restaurada na saúde moral e na união com Deus. Na análise há uma narração de sintomas ao analista; no Sacramento, há confissão de pecados a um padre. É essa uma diferença notável.
Demais, o analista não representa a ordem moral, mas a emocional. É o recipiente do amor e do ódio do cliente de cada vez. Alguns analistas chamaram este processo de “transferência”; por meio dele, as emoções (líbido) do cliente são desligadas dos seus antigos objetos e transferidas para novos. (É evidente que este mecanismo está polarmente oposto à confissão, onde por meio da penitência, da fé, da graça e da emenda há uma transferência do centro de gravidade da alma da criatura para o Criador, do eu para Cristo). A fim de compreender o papel do analista, deve ser a psicanálise entendida nos seus próprios termos. Assim encarada, é um processo por meio do qual a energia mental- brotando de fontes instintivas e libidinosas e impedida de verdadeira eficácia pelo facto de serem dirigidos para fins irrealizados e irrealizáveis- é libertada para atingir alvos realizáveis. Quando este resultado foi atingido, o homem, diz o analista, está curado e a piedade por si mesmo cede lugar ao altruísmo, e a apatia à realização. A pessoa do analista desempenha o papel de um intermediário na realização desta mudança. Bem cedo, numa análise, os anseios reprimidos do cliente que o superego lhe proíbe conhecer (os seus anseios incestuosos) são libertados e passam a ficar ligados à pessoa do analista. Substitui temporariamente o parente que era o alvo primordial desses desejos.
A transferência para o analista não depende da fé. É considerada antes como o primeiro passo necessário para uma reorganização amadurecida da energia mental. Antes que esta energia seja ainda capaz de estar dirigida para fins aceitáveis, descobre no analista um objeto apropriado e temporário. A fé no analista resulta da transferência. E porque o analista se tornou um “objeto” de profundos anseios libidinosos, é muitas vezes creditado com todas as qualidades que o cliente admira e ama. Freud sabia que era perigoso tornar o analista, mesmo temporariamente, objeto da descarga emocional. “A transferência, disse ele, especialmente nas mãos de um médico inescrupuloso, é um instrumento perigoso.” Há uma tendência para que o cliente “desencantado” das primeiras sessões se torne “encantado”; e se o analista é do sexo oposto e não de todo sem atrativos, poderá haver o perigo de tornar a transferência permanente em vez de temporária, da física em vez de mental. Ninguém familiarizado com os analistas sexuais desconhece este perigo. Mas mesmo quando não há verdadeira transferência para o analista, pode haver uma dependência do analista que pode chegar a ser quase escravidão, com o paciente recusando-se a fazer qualquer coisa sem que antes consulte esse conselheiro.
Não precisamos afirmar um universal desejo reprimido de incesto, para explicar porque muitos clientes desenvolvem em si mesmo uma profunda dependência do seu analista. Quase todo o neurótico quer atenção; sente-se sozinho, isolado da realidade e de outras pessoas por causa da sua intranquilidade interior. Está preocupado consigo mesmo e receoso de fracasso.
Exatamente, tem-se tornado muitas vezes um autêntico suplício- as suas queixas aborrecem os outros, a sua conduta irrita-os. Perde ele desse modo contato com os seus iguais. Não é de admirar que, quando encontre um analista ou psicoterapeuta propenso a ouvir, cuja tarefa é ouvir, comece essa pessoa a desempenhar um grande papel na vida do paciente. O terapeuta torna-se a primeira pessoa com quem o neurótico retoma uma relação humana. É de valor inestimável para o neurótico, valor extremamente fora de proporção com o seu mérito real. Nesta circunstância, não deve ser esquecido que a mentalidade neurótica retém muitos traços da adolescência. Os sentimentos amorosos do cliente assemelham-se, em mais de um aspecto às “paixões” da mocinha de colégio.
Na confissão, porém, as relações entre o confessor e o penitente são inteiramente impessoais. A própria estrutura do confessionário protege o penitente da revelação da sua identidade. Há um anteparo e um véu através dos quais o padre não pode ver. Tão impessoal é a relação que o penitente pode ir ter indiferentemente, até o ponto que está relacionado à validez da confissão, com qualquer padre; nada há de pessoal no Sacramento. A psiquiatria pode aprender muito do Sacramento da Penitência. Descobrirá também que quanto mais impessoais as relações entre paciente e psicoterapeuta, tanto maiores as probabilidades de cura.
Pode parecer paradoxal que uma relação impessoal seja mais favorável do que uma pessoal, na efetuação duma transferência. Isto não é difícil de compreender. Permanecendo impessoal, e por assim dizer fora de toda a relação verdadeiramente humana, o psiquiatra tornar-se-ia uma figura misteriosa e, portanto um objeto adequado a uma transformação imaginária. Um homem que se conhece bem é menos facilmente idealizado, do que aquele que se conhece um pouco ou é de todo desconhecido. A transferência é precisamente tal idealização, afastada de toda a realidade. Pois gostar de uma pessoa pelas suas qualidades humanas e transferência são duas experiências diferentes. Da primeira, pode um homem dar uma explicação racional; da segunda, não. Se a transferência é de qualquer modo desejável, será mais efetivamente adquirida pelo padre desconhecido, do que pelo psicanalista com quem se está familiarizado.
3. O PADRÃO OBJETIVO. Mais importante que as outras diferenças é o facto de que, na confissão, a narração e libertação do pecado são feitas no plano moral; na análise, pela sua mesma natureza, não pode sê-lo. Se um pecado fosse simplesmente um engano que um homem cometeu, poderia ele de facto, confiá-lo ao seu analista ou a qualquer outra pessoa que desejasse ouvi-lo. Vivemos desejosos de descarregar as nossas dificuldades mentais nos ouvidos de quem queira ouvir-nos. Mas quem é que se interessa em conversar indiscriminadamente a respeito da sua culpa? E desde que é a consciência quem se acha a maior parte das vezes perturbada, o alívio deve ser feito naquele nível. Uma vez que é a bondade de Deus que o pecado renega, uma alma recusa-se a fazer a confissão do seu pecado a um ouvinte não moral. Quer que a sua confissão seja ouvida por um representante da ordem moral que ele violou. Esse representante deve estar em lugar de Deus, a quem somente a consciência concede autoridade. A confissão da culpa deve estar sujeita não a caprichos individuais, a teorias, idiossincrasias e esquisitices daquele que a ouve, mas somente à Lei universal, à Ordem e à Bondade.
Não estamos falando aqui das vantagens da confissão sobre a psiquiatria. O que estamos é discordando daqueles que oferecem a psiquiatria como substituta do Sacramento da Penitência. E nisto a diferença entre o padre e o analista é fundamental. Como o expôs o Dr. William Ernest Hocking:
“A análise exige que o psiquiatra seja o recipiente da autoconfissão sem reserva. O psiquiatra supõe que os seus conhecimentos científicos justifiquem este pedido da sua participação. Não suscita a questão da sua adequação pessoal à recepção desta confidência. Mas se deixa de reconhecer a pertinência desta questão, demonstra em consequência a sua inadequação a essa função. Pois aqui o fim moral não pode ser absorvido pelo problema científico. Não é nem desejável nem possível confessar todas as coisas a todos os homens; é ainda menos desejável de tudo expor os seus sentimentos diante dum olhar fixo que não é senão científico, de cuja exposição eles só podem emergir desnaturados, porque a pura ciência é indiferente ao sentimento... ”
A confissão é um ato em que a gente escancara a sua vida aos olhos de um verdadeiro juizo da vida. Se a ciência é o verdadeiro juiz da vida, então é possível a confissão a alguém que representa a ciência. Se a ciência é um juiz parcial da vida, se a ciência, ao omitir o ingrediente moral omite uma parte essencial do verdadeiro julgamento, então a confissão ao cientista deve der, pela sua própria lógica, incompleta. A confissão existe porque no fundo os homens querem conhecer-se como são diante de julgamento de completa compreensão e de completa justiça. Confessam-se àqueles que mais de perto atingem aquele ideal, ou que podem mais de perto representá-lo. O confessor válido deve estar in loco Dei, onde Deus significa toda a moralidade, assim como toda a ciência. O centro inflamado da doença moral consiste em procurarmos encobrir de nós mesmos aquilo que não podemos ocultar ao universo. É esse tumor que deve ser lancetado, antes que se forme de todo e requer um olho e uma mão mais generosos para fazer isso do que os de uma casualidade complacente.
...Não podemos dizer que Deus é a lei da vida mental normal? Significaríamos com isto que uma vida vivida no plano de processar-se sem Deus, sem um sentido da exigência cósmica, já está, quer o saiba ou não, doente, fora do normal, com os seus valores infetados pelo caruncho da mortalidade, intrinsecamente infeliz porque irreal arrastada subconscientemente por uma necessidade que algum dia estará obrigada a reconhecer e definir. Essa atração, que psicologicamente pode ser chamada a auto-afirmação da natureza humana normal, é, na sua verdadeira natureza, o trabalho de uma lei que é Deus. “Se for este o caso, podemos dizer de Deus que ele é uma atividade incessante, que de modo algum interfere na observação científica, mas que é não obstante indispensável a qualquer relatório psicológico completo do que é a vida de um homem.” [40]
Quando, por outro lado, aquele a quem é feita a confissão é um analista sexual, as probabilidades são de uma degradação das derradeiras condições do cliente em comparação com as primeiras. (Quando ataco a análise sexual, não me refiro à teoria de Freud, [41] mas antes aos seus partidários fanáticos que tomaram Freud demasiado a sério e que explicam todas as neuroses como sexualidade recalcada.)
Se aquele a quem a confidência é feita tem como equipamento uma simples teoria a respeito da origem das condições mentais infelizes (por ex. que são devidas a instintos libidinosos recalcados), não há certeza de que a interpretação que ele der seja a certa. A consciência culpada quer confessar a sua culpa, não a um teórico de um determinado sistema, mas a um mediador da Divindade. É por isso que a Igreja exige que um padre que absolve um penitente esteja em estado de graça, participante ele próprio da Vida Divina. (Isto não quer dizer, porém, que um padre em estado de pecado mortal não possua o poder de perdoar pecados, ou quando o exercendo, não seja eficaz para o penitente; o padre estaria moralmente responsável por semelhante falha.) Todo o padre que se senta no confessionário deve receber autoridade do seu Bispo ou Superior. A menos que seja sábio e prudente, a permissão não será dada. Por trás dele, ao tempo das primeiras confissões que vai ouvir, estão seis anos de preparação em moral, em ascética e em teologia dogmática. Anualmente, e durante seis a dez anos após a sua ordenação, é reexaminado. Além disso, deve assistir a conferências sobre teologia moral para conservar sempre vivos os seus conhecimentos. O próprio padre é aconselhado a confessar-se uma vez por semana.
A psicanálise nunca levanta a questão da adequação moral do analista, mas a Igreja levanta a questão todas as vezes que um dos seus ministros entra para um confessionário. O penitente, ao confessar-lhe os seus pecados, sabe que o padre é outro ser humano, mas que foi dotado do Divino Poder de perdoar. É lógico que um homem possa administrar este sacramento. O Filho de Deus perdoava pecados através da Sua natureza humana. Transmitiu também o poder de perdoar à Sua Igreja: “Os pecados que perdoardes, serão perdoados; os pecados que retiverdes, serão retidos.” (Estas palavras implicam a audição da confissão, pois como poderia alguém saber que pecados perdoar e que pecados não perdoar a menos que eles sejam ouvidos?)
Há outra razão pelo qual um confessor humano é uma necessidade razoável: todo o pecado é uma ofensa, não contra Deus apenas, mas também contra o nosso próximo. Isso é mais evidente em pecados de injustiça; também existe nos mais secretos e ocultos dos nossos pecados, porque cada um deles diminui a quantidade de caridade e de amor que deveria existir entre os vários membros do Corpo Místico de Cristo. Justamente como uma dor de cabeça diminui o bem-estar geral de todo o corpo, da mesma forma o pecado de um indivíduo afeta a irmandade de todos os crentes em Cristo. E desde que cada pecado é uma ofensa contra o amor de Deus e a irmandade de Cristo, segue-se que um representante dessa camaradagem espiritual deveria, em nome de Deus e pelo poder de Deus, receber o regresso individual à fraternidade.
Finalmente, desde que cada pecado é uma ofensa de orgulho e rebelião, Nosso Senhor ordenou que houvesse uma humilhação correspondente no pedido de absolvição. Seria bastante bom enfiar a cabeça num lenço e dizer a Deus que estamos tristes, mas sabemos muito bem que se cometermos um crime contra o Estado, este não aceitaria tal forma de reparação. Nem mesmo nos tribunais divinos pode o criminoso ser ao mesmo tempo juiz e jurado. Isto seria por demais confortável. E sabemos, no íntimo dos nossos corações, que os pecados de que somos culpados deveriam ser repudiados perante outra pessoa que, em nome de Deus, possa libertar-nos da tirania do nosso ego. Como observou o Dr. John Rathbone Oliver:
“... o pastor entra quase em contato com o desenvolvimento de hábitos mentais defeituosos; ele muito mais do que o psiquiatra, possui a chave da confiança do paciente; ele, num sentido muito mais profundo do que pode jamais ser aplicado ao médico, é um médico da alma. Permanece, por assim dizer, como um vigia no portão, no portão que leva ao hospital para doentes mentais. Pode, se quiser, fazer que voltem centenas de enfermos que, se não fosse ele, teriam de passar por aquele mesmo portão, muitos homens e mulheres infelizes que não seriam capazes de sair de novo por ele, até que tivessem “pago até ao derradeiro vintém” de tormento mental e de desespero. Pode mostrar, ao homem ou à mulher que se chega a ele, na doença mental ou em dificuldade, fontes de socorro que os mais hábeis psiquiatras não podem dar. O padre pode não ser capaz de oferecer ao seu paroquiano um curso de tratamento psicanalítico, mas pode oferecer-lhe o Sacramento da Penitência e o Sacramento do Altar. Pode estabelecer a famosa “transferência” do psicanalista, não para si mesmo, mas para Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Pode mostrar ao seu paroquiano, por meio do Sacramento da Penitência, uma “Catharsis” infinitamente mais poderosa do que qualquer purificação emocional do mais aperfeiçoado sanatório de doenças mentais. Pode não ser capaz de ensinar o seu doente mental a fazer cestos e a encadernar livros, mas pode ensiná-lo a rezar. Que sabemos nós a respeito do real valor da prece — do relaxamento mental na presença de Deus — quando aplicado a casos mentais? Muito pouco. Mas aqui de novo temos um tipo de terapia ocupacional digno de ser experimentado. Porque, acima de tudo o mais, o doente mental necessita primeiro de uma mão humana que se lhe estenda; em segundo lugar, de uma paciente compreensão e de uma apreciação das suas dificuldades; e em terceiro, uma fonte de energia e de socorro a que aquela mão humana e aquela simpática compreensão possam levá-lo. Ensinai-o a descobrir Deus depois de o ter encontrado a si. Pois ele está muito só. É este o tormento da maior parte das doenças mentais. Parecem separar o paciente do contato com o mundo amigo, familiar e normal. Ele fica muitas vezes horrivelmente só.” [42]
A grande vantagem do confessionário está em que a confissão é absolutamente mantida em segredo. Cada padre está ligado pelo sigillum, ou selo, que lhe proíbe sob pena de morte, revelar a confissão de uma pessoa até mesmo da maneira mais geral. O saber disto é grande consolação para um penitente, que reconhece que a sua personalidade tem o direito ao segredo e não deseja ver as suas confidências reveladas num livro de “casos clínicos ”.
Nada prejudica mais a confiança de alguém do que a descoberta de haver divulgado os seus segredos a quem não devia. Dessa traição e prostituição nova vergonha nasce, que torna as futuras confidências impossíveis para ele. E desde que as ofensas que cometemos são contra Deus, não pertence a qualquer homem as pôr por escrito numa coluna de mexericos ou num livro. A culpa humana pode chegar ao conhecimento do homem, mas não para ser utilizada pelo homem. Pertence a Deus e por isso os nossos pecados nunca devem ser revelados ao julgamento dos homens. De algum modo, em alguma parte, nestes dias de boatos, manchetes e articulistas, há de haver ouvidos escutantes para agir como os ouvidos de Deus, como há mãos que agem como as mãos de Deus, derramando as águas batismais. Porque os ouvidos do confessor são os ouvidos de Deus, a sua língua nunca pode falar aquilo que Deus ouviu por meio dele. O padre está à mercê do penitente no confessionário; não pode recusar-se a aceitar a confissão, ainda mesmo que esta o coloque em perigo ou em grave embaraço. Não lhe é nem mesmo permitido dizer que determinada pessoa tenha estado a confessar-se com ele, se assim o fazendo pode sugerir que o penitente tivesse necessidade de confessar-se, como resultado dum pecado grave.
Mas no confessionário o penitente procura mais do que aliviar-se em segredo. Uma alma que confessou a sua culpa quer um ideal pelo qual se empenhe — e um ideal mais inspirador do que “aquele que todos aprovam” na nossa sociedade. Isto o confessionário oferece no Supremo Exemplo da Pessoa de Nosso Senhor, que nos dá a sua graça para que emendemos as nossas vidas, por meio da tristeza e do arrependimento. Uma autoridade, reconhecendo a necessidade de um ideal mais alto do que qualquer outro que o analista sozinho pode dar escreveu:
“O psiquiatra murmura alguma coisa a respeito da necessidade de “integração”.
A alma replica: “Verifico esta necessidade, mas não posso integrar-me. Estou tentando ser moderna e a modernidade parece-me interiormente contraditória e lançada à deriva. Como pode um pote quebrado remendar-se a si mesmo?”
O psiquiatra responde: “Refugia-te na sociedade. Estás introvertida, preocupada contigo e reservada. Por isso és uma pessoa dividida. Confessa o que ocultas; confessa-te a mim que represento a Sociedade. Esse ato devolverá a tua objetividade para contigo mesmo. Portanto socializa os teus impulsos.
A alma: “Não estou certa de que a Sociedade seja tão digna de respeito. Parece-me ser ela a fonte de dificuldade e não a sua cura. Não sabe para onde vai.”
O psiquiatra: “Se tens essa dúvida, deves refugiar-te não em ti mesma, nem na Sociedade, mas nos teus objetivos ideais. Todos possuem tais objetivos. Utiliza a tua imaginação para fundi-los numa unidade. Entrega-te ao serviço dessa unidade e serás reintegrada. Serás de novo uma alma.”
A alma: “Ensinaram-me que os objetivos ideais não passam de mitos.”
O psiquiatra: “Não posso garantir-te que não sejam. Mas até mesmo as ficções têm poder curativo. Todos são ajudados por alguma espécie de mito em que acreditam. Entrega-te à ficção curativa.”
A alma: “Entendo a tua dificuldade. Não acreditas em nada e não podes curar-me sem uma crença. A ficção podia curar-me, se eu não soubesse que era uma ficção. Sabendo isto, não me posso entregar a ela. Mas vejo que fizestes o que pudestes. Adeus.”
A alma doente e o psiquiatra são aspectos gémeos, aspectos peculiares deste fim da era moderna. O psiquiatra é a encarnação da ciência aplicada, tentando curar com os estragos produzidos pelos erros da ciência. E descobre que mais ciência não é o bastante.” [43]
Em contraste com esse estéril esforço para ajudar, temos o Cristianismo, cuja Personalidade ideal não é simplesmente um Exemplo a ser seguido, mas também uma vida a ser vivida. Quando a Vida Divina que Nosso Senhor comprou para nós no Calvário se verte na nossa alma, não somente suprime o pecado, mas também perdoa algumas ou todas as penas temporais devidas ao pecado. Graças aos seus conselhos morais, essa graça tem um tremendo valor educacional. Dá-nos um aumento de autoconhecimento, aperfeiçoa-nos na humildade, dá mais compreensão pelas deficiências e debilidades alheias e dirige-se a Deus como consolo e Salvador, e não como um ideal distante; expulsa da alma a presunção, o egoísmo, a vaidade; revigora a vontade e, portanto, aumenta o autodomínio. As pessoas cantam muitas vezes no banho por causa da alegria da purificação; um pecador arrependido sente o mesmo desejo de cantar, depois da alegria de uma boa confissão. A graça lá de cima tornou-o alegre e confortado.
Mas se negarmos que existe um Poder Divino fora do homem, só resta um pecador humano e um especialista humano, tal como o psicanalista, como fonte de cura. (O ateísmo, coisa bastante natural, é muitas vezes a crença daqueles analistas que tratam os pecados como doenças mentais.) [44]
Mas qualquer das duas posições é ilógica; esperar que o paciente eleve a sua consciência puxando pelos cordões dos sapatos da sua própria inconsciência é querer o impossível. Um analista ateu como este diz ao cliente, em determinado momento, que ele foi determinado a agir da maneira porque agiu por impulsos infantis ou pelo instinto do rebanho, de modo que não é responsável pelos seus delitos. No momento seguinte, diz-lhe que ele agora é responsável pela sua situação futura. Isto chama-se ludibriar um homem, dizendo-lhe ao mesmo tempo que é livre e que não é livre. Pedir ao cliente que se ajuste ao seu ambiente não é curá-lo, mesmo que ele pudesse obedecer, pois o ambiente do mundo de hoje acha-se ele próprio num estado de considerável inadaptação. É concebível que alguns pacientes estejam demasiados bem ajustados ao seu ambiente; necessitam, como sugeriu Nosso Senhor, “de ir para o deserto e descansar um pouco”.
Como pode ser o próprio psicanalista a fonte do novo e necessário poder de curar, particularmente se ele mesmo tem tido necessidade de ser psicanalisado? Como disse Nosso Senhor, se o cego conduz o cego, então ambos cairão dentro do poço. E quem foi que estabeleceu o psicanalista como protótipo de normalidade para qualquer homem? A psicanálise baseada numa filosofia materialista não pode oferecer norma, ideal, motivação, dinamismo, objetivo na vida. Não tem nada disto para dar. Contudo deve haver um ideal. Cada pessoa não pode ser o seu próprio modelo, doutra forma qual de nós é louco, qual de nós é são? E se um homem rebaixa os seus ideais às exigências dos seus instintos inconscientes, se na linguagem psicanalista, exige que o id deva afirmar-se contra o superego, acaba na estagnação e na degenerescência. Nem o pessoal, nem o coletivo, nem o analista pode oferecer ao cliente o modelo que ele reclama, o ideal pelo qual se empenha. Só pode haver um ideal para numerosos eus diferentes, se houver uma pessoa perfeita de quem esta pessoa e aquela pessoa participem e sejam o reflexo. No desenvolvimento pessoal, como na arte, não podemos progredir se não tivermos o ideal da beleza perfeita.
Quando Humpty Dumpty [*] caiu do muro, nem todos os cavalos do rei nem todos os homens do rei puderam voltar a juntar os cacos de Humpty Dumpty. Mas se tivesse havido um ovo-modelo, não somente teria Humpty Dumpty sabido quanto se tinha ele próprio desorganizado, mas teria tido também um modelo, um padrão com o qual poderia conformar-se e assim tornar-se normal.
O cristianismo oferece tal possibilidade apresentando a Pessoa Ideal do Cristo, que oferece poder e recursos a todos os ovos partidos para que se tornem normais de novo: “Dei-vos um Exemplo” significa “Sou o Modelo, o Protótipo de uma Personalidade”. O repúdio à norma que está em Cristo Jesus é a fonte das anormalidades; a integração naquela imagem é a fonte de toda a paz e de toda a alegria. A pré-condição de uma perfeita vida humana e de uma psicologia que tenha sentido é uma Imagem Divina refletida em Cristo, Nosso Senhor. Não é o ego ideal, mas o Cristo Ideal, que pode tornar o eu mais do que ele é. Quando os psicólogos falam de uma personalidade integrada, é esse o Exemplar que eles procuram. Onde há uma deficiente perfeição de objetivos, existe alguma desintegração.
Há numerosas diferenças entre análise e confissão. Algumas delas foram apontadas pelo padre Victor White:
“Mas a “confissão” exigida ao penitente e a “confissão” exigida ao analisando são duas coisas bem diferentes; e a diferença jaz na diferença de “matéria remota” que já referimos. O que se espera que um penitente confesse está bastante definido e restrito aos pecados cometidos desde o seu batismo, ou desde a sua anterior confissão. Tal limitação não pode prender o analisando. Embora nenhum analista que conheça o seu oficio queira excluir tal material, ainda menos buscará limitar as “confissões” do seu paciente os seus erros reais ou supostos. E terá de interessar-se por eles, não precisamente como ofensas morais, mas como causas ou sintomas de neurose e como fornecedores — juntamente com as atitudes conscientes ou inconscientes do paciente — de elementos importantes para o retrato total da personalidade que ele tem que traçar. As “boas ações” do paciente o interessarão não menos do que as “más” (os confessores mostram-se notória e retamente impacientes com as narrações das “virtudes do penitente”), ao passo que os sonhos, as livres associações, as reações espontâneas e outras manifestações do inconsciente o interessarão ainda muito mais. O seu negócio é menos com o que o paciente faz, do que com o porquê ele o faz. Somente deste ponto de vista totalmente diferente pode haver alguma superposição, mas nunca identidade completa, entre “confissão” sacramental e analítica. Os processos psicológicos por qualquer delas exigidos diferem correspondentemente: a primeira requer certa concentração da memória consciente e a recitação ordenada de uma seleção do seu conteúdo; a segunda, pelo contrário, um relaxamento físico e mental que permita a livre fluência da fantasia desenfreada e a suspensão da atividade mental regular “dirigida”. O confessionário sem conforto, com o seu duro genuflexório, e o sofá ou poltrona do gabinete do analista, admiravelmente exprimem e provocam as duas diferentes espécies de “confissão” que cada qual se propõe.
A análise psicológica nada sabe de contrição ou satisfação, como atos pré-determinados a exigir-se do paciente; seria fracassar inteiramente no seu propósito assentar de antemão a atitude consciente que o analisando iria adotar com o seu material. Tanto quanto o próprio material não pode essa atitude ser pré-determinada.
Ainda há menos equivalência na análise psicológica à forma do sacramento da penitência. Esta “forma” são as palavras de perdão pronunciadas pelo padre. É o elemento especificante e determinante que faz o sacramento da penitência ser o que é. É o sinal eficaz da reconciliação com Deus e assim o verdadeiro remédio para o mal, que é a “matéria remota” do sacramento. Nada desta espécie pode ser encontrado na análise psicológica.
Alguma semelhança bastante superficial pode ser suspeitada em certos casos em que a reconciliação é efetuada com alguma imagem projetada sobre o analista; mas não haverá “remédio”, exceto até o ponto em que a transferência estiver resolvida, a projeção retirada e assimilada ao próprio ego consciente do paciente. Há ainda considerável desacordo entre analistas a respeito do que deverá ser o seu próprio e preciso papel na análise. Mas poucos, mesmo entre aqueles que mais fortemente advogam a sua intervenção “ativa” no processo, sustentariam que o derradeiro remédio venha do analista, em vez de vir do analisando e da sua própria réplica ao seu próprio material. Nenhum por certo invocaria poder e autoridade divinos para perdoar pecados.
Assim as diferenças entre a confissão sacramental, como é compreendida e praticada na Igreja Católica e a análise psicológica, como conhecida e praticada hoje em dia, são consideráveis e profundas...” [45]
O mundo moderno está cheio de gente mentalmente normal, mas fatigada, que busca a paz em qualquer lugar onde saiba que ela é oferecida, até das mãos de homens que foram preparados para tratar com insanos. Mas são bastante equilibrados. Para eles, o mundo necessita de uma revivescência dos Direitos Sagrados. Durante as épocas de fé, um fugitivo da justiça era considerado imune de perseguição pela lei civil se conseguisse agarrar o grande anel de ferro que estava preso à porta da frente duma igreja. Por este símbolo, encomendava-se à mercê das leis da Igreja. Semelhante asilo seguro e solitário é necessário hoje para as pobres almas que anseiam por confessar a sua culpa, na esperança de perdão, de reparação e de paz. E a Igreja tem tal asilo no confessionário, onde a Divina Misericórdia de Nosso Senhor, outorgada através da sua natureza humana a um ladrão penitente, a Madalena e à mulher adúltera, é posta à disposição dos nossos corações igualmente destroçados. Não é fácil caminhar até àquele confessionário, mas ao sair experimenta-se uma sensação maravilhosa!
Mais do que de qualquer forma de psicanálise, o mundo precisa de psicosíntese. Alguns psicólogos reconheceram tal necessidade: Jung, com a sua ideia de “renascimento”, e alguns seguidores de Freud que deram às suas teorias o nome de “psicanálise ativa”. O que mais necessitam os seres humanos é que se unam, não que se os analise. O pecado divide-nos contra nós mesmos; a absolvição restaura a nossa unidade. A maior parte das pessoas de hoje tem um peso na mente, porque tem um peso na consciência. O Divino Psicólogo sabia quão miseráveis seríamos, se não pudéssemos livrar-nos daquele peso.
Constroem-se hospitais porque os homens têm corpos doentes e a Igreja constrói confessionários porque os homens também têm almas doentes. A confissão regular impede que os nossos pecados, as nossas preocupações, os nossos temores, as nossas ansiedades se infiltrem no inconsciente e degenerem em melancolia, psicoses e neuroses. O tumor é lancetado antes que o pus possa espalhar-se pelo inconsciente. O Divino Mestre sabia o que há no homem; assim instituiu este Sacramento, não para as suas necessidades, mas para as nossas. Foi o seu meio de dar ao homem um coração feliz. O lado esquerdo o lado direito do coração físico não têm comunicação direta um com o outro; unem-se por meio do sangue que circula no corpo. Da mesma forma os nossos corações tornam-se também felizes pela comunicação com o Corpo Místico de Cristo e com o Seu Sangue. Não nos tornamos piores quando admitimos a necessidade de absolvição. Nem pioramos quando admitimos que temos o coração destroçado; porque a menos que o nosso coração esteja destroçado, como poderia Deus entrar nele?