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CAPÍTULO 11
Temor da Morte
Uma supervalorização da segurança temporal é compensação para uma perda de sentido da segurança eterna. Quando a alma se empobrece pela perda da sua riqueza, que é a virtude, o seu proprietário busca o luxo e as riquezas para compensar-se da sua nudez interior. Quanto mais rica a alma, menos armazena ela coisas materiais. Não é a pobreza que torna os homens briguentos e infelizes, como proclamam os comunistas, mas um excessivo apego às coisas que o dinheiro compra. Os pobres monges são geralmente mais fraternos e bem mais felizes que os milionários. E é também um erro dizer que, se as condições económicas fossem boas, não haveria preconizadores do comunismo. Os que fazem tal afirmativa esquecem-se de que: a) As condições económicas pobres são apenas uma ocasião de abraçar o comunismo e não uma causa; em alguns casos, as provações económicas são, ao contrário, uma ocasião de renovada vida espiritual; b) As condições económicas eram excelentes no Jardim do Éden, mas o primeiro “vermelho” entrou nele e foi aquela catástrofe; c) O que torna uma sociedade instável não é o facto do povo não ter o bastante, mas o de querer sempre mais. Não há limite para as exigências do homem, uma vez que a terra se tenha tornado a razão de ser e a finalidade da vida; logo querem eles utilizar-se de todos os meios possíveis para possuir o mais que possam ganhar. A causa real de tão ilimitada concupiscência daquilo que se chama muitas vezes “segurança” é o temor do eterno vazio íntimo. Nunca antes na história foi a advertência evangélica a respeito de Deus e Mamon tão claramente realizada como hoje, pois a alma que perdeu o seu Deus deve cultuar Mamon.
Deste apego aos bens resulta um temor da morte, um medo de que possamos perder tudo quanto temos acumulado, de que a nossa segurança temporal se desvaneça na insegurança eterna. Este temor da morte que o pagão moderno sofre, difere do temor da morte que tem o fiel, de várias maneiras. O pagão teme a perda de seu corpo e da sua riqueza; o fiel teme a perda da sua alma. O crente teme a Deus com um temor filial, semelhante ao que um filho devotado tem para um pai amoroso; o pagão teme, não a Deus, mas a seu semelhante, que parece ameaçá-lo. Daí o aumento de cinismo, suspeita, irreverência, greves e guerra; o próximo deve ser morto, pela palavra senão pela espada, porque é um inimigo a temer-se. O pagão moderno, recusando-se a continuar a vida pela procriação do nascimento, torna-se o semeador da morte. Negando a imortalidade da sua própria alma, recusa imortalidade à raça, sufocando a sua função reprodutiva, e dessa forma atrai duplamente o temor da morte. Freud disse que o amor e a morte estão ligados, o que é realmente verdade, mas não do modo que Freud imaginou. O amor compreendido apenas como sexo, traz a morte quando sacrifica a raça ao prazer da pessoa. O amor, compreendido como não glandular, mas como intelectual e volitivo, também implica a morte, pois procura morrer para que o amado possa viver; este amor, porém, conquista a morte, através de uma ressurreição. Mas para um incrédulo, em vez de ser um facto empírico, tornou-se a morte uma ansiedade metafísica. Como profundamente observou Franz Werfel a respeito do assunto: “O cético não acredita em outra coisa senão na morte. O crente é no que menos acredita. Uma vez que o mundo para ele é uma criação de espírito e amor, não pode ser ameaçado pela destruição eterna no seu essencial como uma criatura do mundo.”
O mundo teme as mesmas coisas que Nosso Senhor nos disse que não temêssemos. Disse que não temêssemos a morte, nem temêssemos “ser chamados ao tribunal” pela nossa fé, nem temêssemos a falta de segurança económica, nem temêssemos o futuro.
“Portanto vos digo: não andeis demasiadamente inquietos nem com o que vos é preciso para alimentar a vossa vida, nem com o que vos é preciso para vestir o vosso corpo. Porventura, não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam,nem fazem provisão nos celeiros; e contudo o vosso Pai Celeste as sustenta. Porventura não sois vós muito mais do que elas? E qual de vós por muito que pense pode acrescentar um côvado à sua estatura? E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. E digo-vos todavia que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu jamais como um destes. Se pois Deus veste assim uma erva do campo,que hoje existe, e amanhã é lançada no forno: quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos ou com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas. O vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai pois em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça: e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo. Não queirais pois andar demasiadamente inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia de amanhã cuidará de si: a cada dia basta o seu cuidado.” (Mt. 6, 25-34)
Mas Nosso Senhor nos disse o que temos de temer: as consequências do julgamento, se não vivermos corretamente, blasfemando contra o Espírito Santo e negando a nossa fé.
O homem moderno inverteu completamente esta ordem das coisas que deveriam ser temidas. Aceita levianamente aquelas coisas que o Salvador nos advertiu que temêssemos, mas treme diante daquelas coisas que o Salvador nos avisou que não temêssemos. Por vezes o seu temor doentio oculta-se sob uma capa de silêncio: isto é particularmente verdade a respeito do facto da morte. O homem moderno procura esquecer-se inteiramente da morte ou, se não pode fazer isto, tenta ocultá-la, torná-la discreta, disfarçá-la. Sente-se estúpido em presença da morte, não sabe como consolar ou o que dizer. Tudo na sua atitude contradiz a injunção cristã: “lembra-te do teu derradeiro fim.” Pois encara qualquer discussão da morte como mórbida. Contudo rirá numa comédia em que uma dúzia de pessoas são mortas e ficará acordado até à meia-noite lendo uma história policial em que há um assassinato. Isto também é morte e subjuga-o: mas concentra-se nas circunstâncias pelas quais a morte chega em vez de fazê-lo nos resultados eternos da morte, que somente estes têm toda a importância. Esta insensibilidade moderna diante da morte é uma insensibilidade diante da pessoa, da ordem moral e do destino.
Muitos factores hoje constroem uma atitude não natural para com a morte. Vãs são realmente as tentativas do pagão de transformar a morte em comédia, ou de obscurecer o seu significado por meio da gargalhada, pois quando a morte é uma ameaça pessoal, o homem moderno tem medo de encará-la face a face. Os médicos já não avisam os seus pacientes da iminência da morte; agem como se não fossem necessários os preparativos para a eternidade. Até mesmo a família do doente que está mal, desempenha um papel no grande jogo do engano de si mesmo. Os cangalheiros de hoje fazem a morte assemelhar-se à vida; pretendem que tudo quanto ela implica é um pequeno sono, depois do qual cada um despertará numa praia eterna que não tem regulamentos de passaporte. O culto da mocidade permanente contribui para o fingimento macabro de que a morte nunca chegará. Primeiro, nega as sete idades do homem de que falava Shakespeare, depois desvia o espírito dos homens do facto do juízo final que os espera no momento da morte. O totalitarismo moderno, com a sua mentalidade de horda, absorve as pessoas numa coletividade e leva-as a acreditar que vivem na massa, que são importantes apenas como construtoras de um futuro melhor para a caça. A imortalidade pessoal torna-se imortalidade de grupo, a qual não é imortalidade, pois até mesmo o grupo também perecerá a seu tempo. Além disso, a mediocridade moral de qualquer utopia terrestre jamais planejada é chocante para os mais elevados ideais morais do indivíduo; homens judiciosos não podem morrer alegremente na crença de que tal banalidade virá realizar-se algum dia. Além de que, todo o homem deve morrer antes que a Utopia que ele visiona seja atingida e a única consolação que esta filosofia lhe oferece é a de que os seus bisnetos dançarão em cima dos seus túmulos. Todos os esquemas totalitários, porém, ostentam esta esperança; colocam o jardim do Éden no futuro. Toda a sua negação da tradição, a sua paixão de relegar tudo quanto pertença à memória da raça humana é outra tentativa de fugir à realidade da morte.
Aqueles que tentam ignorar a morte dizem muitas vezes que é o medo de morrer que torna os homens religiosos. Por certo este medo tem algo que ver com a fé. É um dos factores da religião, porque põe o homem face a face com o mistério do âmago da vida: Porquê? Para onde? Por que motivo? Ignorai, negai, ride dele, mas toda a vida contrai uma dívida que algum dia deve ser saldada e com estrita justiça. Assim como o negociante à noite retira da sua caixa registadora os débitos e créditos do dia, da mesma maneira também chegará uma hora em que o negócio da vida estará feito, quando o Grande Juiz retirará da consciência, a anotação dos nossos atos certos e errados: “Todos os homens terão um dia de morrer e de ser julgados depois da morte.” Foi o Demónio quem disse: “Não morrereis.” Para libertar os homens do espírito dessa mentira, o cristianismo ordenou-lhes que perguntassem a si mesmos: “Para que estais vivendo hoje? É para que morrais amanhã.” Diz-lhes: “Onde a árvore cai, ali fica” e “Vigiai e orai, pois não sabeis a hora nem o dia.”
Não é resposta ao facto da morte dizer que a vida é como um fósforo que foi aceso, que arderá por um momento e depois cessará de existir. Se a nossa vida fosse como um fósforo, a morte não teria terrores para nós, como não tem para os animais. Mas até mesmo a analogia do fósforo não provê um exemplo para a mortalidade do homem, pois embora o fósforo esteja apagado, a sua luz ainda viaja através do espaço a uma velocidade de 186.000 milhas por segundo e sobrevive em alguma parte do universo. Nem podemos mostrar a brevidade da vida do homem, dizendo que somos como o fruto de uma árvore, que a ela se prende, amadurece e depois cai e morre, pois enquanto o fruto está preso à casca, a casca à polpa e a polpa à semente, continua não obstante verdadeiro que, embora o fruto maduro caia e o pássaro o debique por algum tempo, há ainda no íntimo dele uma semente que viverá para outra geração e proverá à sua imortalidade.
Contudo a morte é um facto. Os animais morrem e o mesmo fazem os homens, mas a diferença é que os homens sabem que devem morrer. Por este facto, nós homens superamos a morte, sobrepujamo-la, transcendemo-la, encaramo-la, examinamo-la e assim ficamos fora dela. Este ato é uma apagada antevisão da imortalidade. A nossa mortalidade só nos é amedrontada em grande parte porque podemos contemplar a imortalidade e temos uma vaga suspeita de que perdemos a imortalidade que outrora nos pertenceu. Devíamos tê-la e contudo não a temos. Algo interferiu. Não somos tudo quanto devíamos ser. Se a morte fosse simplesmente um “tem-de-ser” físico, não a temeríamos. O nosso medo provém do facto moral de sabermos que não devíamos morrer. Tememos a morte porque não foi parte do plano original traçado para nós. E também a tememos porque fizemos um pobre uso dos nossos anos de vida. Quando o senso do pecado é agudo, este temor de encarar as nossas próprias falhas pode tornar-se paradoxalmente extremado, a ponto de desejar o indivíduo perder-se, a fim de não ter que viver consigo mesmo. Isso é suicídio e niilismo.
A morte é uma fonte de meditação sobre muitas das grandes verdades. É um sinal do mal no mundo pois, para o cristão, a morte pertence não só à ordem biológica, mas também aos domínios moral e espiritual. A primeira menção que temos da morte nas Escrituras associa-se ao pecado e à revolta contra o Amor. A morte apareceu pela primeira vez neste mundo como castigo. E a morte é, desde o começo, de duplo aspecto, pois deve fazer-se uma distinção entre a morte do corpo e a morte da alma.
Como nos diz S. João no Apocalipse, “Vós vos chamais vivos e contudo sois mortos”. Justamente como a vida do corpo é a alma, da mesma forma a vida da alma é a graça de Deus. Quando a alma deixa o corpo, o corpo está morto e quando a graça deixa a alma, essa alma está morta. Foi em virtude desta distinção que o Nosso Bendito Salvador nos disse que não temêssemos aqueles que matam o corpo, mas antes temêssemos aqueles que matam a alma. A correlação entre morte e pecado é tornada bastante clara nas palavras de S. Paulo: “o pagamento do pecado é a morte”. Cada cidade está cheia de almas mortas em corpos vivos, bem como de corpos vivos e de almas vivas. A dupla morte é uma morte tanto do corpo como da alma.
Embora o cristianismo veja na morte uma tragédia e uma punição, contudo fornece à humanidade a sua vitória sobre ela. O Próprio Senhor da Vida desceu a provar daquela morte e a conquistá-la, ressurgindo dentre os mortos. Por esse meio triunfou da morte no seu aspecto mais demoníaco e destruidor. A pior coia que o mal possa fazer não é bombardear crianças, mas matar a Vida Divina. Tendo feito isto, e sendo derrotado no momento da sua maior exibição de força, nunca poderia ser novamente vitorioso.
A morte tem outros significados. Oferece uma afirmação do objetivo de vida numa existência de outro modo sem significado, pois o mundo poderia levar infindavelmente avante o seu plano ímpio, se não houvesse morte. O que é a morte para um indivíduo, é a catástrofe para uma civilização: o fim da sua perversidade. A morte é um testemunho negativo do poder de Deus num mundo carente de sentido. Graças a ela, Deus reduz a zero essa falta de significação. Uma vez que o mal entrou no mundo, a morte é vista como uma espécie de benção, pois se não houvesse morte, o mal poderia seguir adiante para sempre. É por isto que Deus postou um anjo com uma espada flamejante diante da Porta do Paraíso, para que o homem decaído, comendo da árvore da imortalidade não imortalizasse o seu mal. Mas, por causa da morte, o mal não pode prosseguir indefinidamente com a sua maldade. Se não houvesse catástrofe tal como o Apocalipse revela no fim do mundo, o universo marcaria o triunfo da carência de sentido. Mas a catástrofe é um recordatório de que Deus não permitirá que a iniquidade se torne eterna. Há um dia de juízo e juízo significa que o mal se derrota a si mesmo
O significado da vida só se pode tornar evidente no juízo e na avaliação. O julgamento pessoal no momento da morte é uma revelação do significado da vida pessoal e o julgamento cósmico no fim dos tempos é uma revelação do significado dos valores sociais. Todas as catástrofes, guerras, revoluções e civilizações derrocadas são advertências de que as nossas ideias foram deficientes, os nossos sonhos maus se realizaram. Se estes nossos pensamentos tivessem sido verdadeiros e profundos, não precisariam de ser destruídos, pois a verdade é eterna. A morte só sobrevém à vida que não cumpriu o seu sentido interior.
A revelação da vinda do Anticristo significa que os homens recusaram aceitar valores eternos, pois a morte não é o triunfo da morte, mas o triunfo do sentido. Jerusalém desapareceu porque não conhecia o momento em quer ia ser visitada. Esta mesma afirmação é verdadeira no que se refere a qualquer outra civilização. E assim, pondo fim ao mal, Deus afirma o poder do amor sobre o poder do caos. É este o significado da Sua resposta a Pilatos, que disse: “Não sabes que tenho o poder de condenar-te?” Mas Nosso Senhor respondeu: “Não terias esse poder, se Ele não te tivesse dado de cima.” Há apenas uma passagem na Sagrada Escritura em que se diz que Deus riu. Acha-se no salmo: “Aquele que está sentado nos céus rirá e escarnece deles.” A teologia desta risada é a seguinte: a incongruência desperta o riso. Um varredor de rua de chapéu alto de seda é um espetáculo risível e incongruente. A risada de Deus é igualmente provocada pela incongruência de um ditador terrestre pensando que se tornou um deus, ou que o seu poder é eterno. A morte é o dom necessário de Deus a um universo em que o mal está em liberdade.
Mas se a morte fosse irremediável, o universo não poderia ser justificado. Seria um sistema fechado. A ressureição é também necessária; não somente dá a vitória sobre a morte, mas limpa do mal ou corrupção. Mortem moriendo destruxit. Desde a Ressureição e Pentecostes, pode o homem restaurar-se no Amor Divino por meio da aplicação da redenção de Cristo através dos Sacramentos. Só recuperará a imortalidade do corpo na ressureição final. Todavia, todos os homens partilham uma intuição profunda de que as suas mortes podem servir a um propósito triunfante. Por que deseja menos um homem morrer num desastre de trem ou num acidente de automóvel do que ser morto num campo de batalha ou como um mártir da sua fé? Não é porque a morte é menos terrificante e mais significativa tão logo nos elevamos acima do nível comum e subimos para o reino dos valores eternos, onde, somente, a morte tem significado?
A morte é o fim do mal. Vemos isto revelado nos rostos dos mortos, muitas vezes mais harmoniosos do que eram em vida, como o rosto adormecido é mais tranquilo do que o despertado. Sentimentos feios e ódios, excentricidades e desacordos desaparecem na presença dos mortos, tanto que até mesmo dizemos: “Dos mortos não digamos senão bem.” Na presença dos mortos, elogiamos e adulamos: ressuscitamos as coisas boas, a caridade, a bondade, o bom génio do nosso amigo. As melhores qualidades são as evocadas postumamente, fazendo-nos imaginar se a própria morte não possa ser um adiantamento até à frente do bem que fizemos, um desprezo do mal. Não que ambos não sejam relembrados, pois serão. Mas como a vida revelou a coluna de débito do nosso amor, também a morte mostrará a coluna de crédito. A morte releva-se, assim, ligada à bondade.
E a morte está também ligada ao amor, ou antes, o amor está sempre ligado à morte. Quem aceita amor, aceita sacrifício. Damos o anel de ouro, em vez do anel de estanho, como um símbolo de sacrifício e o sacrifício é uma forma menor de morte. Ultrapassando todos os sacrifícios menores, é o amor completo que se mostra desejoso de aceitar a morte pelo amado, como o soldado morre pela pátria. Quem quer que ligue demasiado valor à vida e se afaste correndo da morte, também foge do perfeito amor: “Maior amor do que este não tem o homem, o daquele que oferece a sua vida pelo seu amigo.” A aceitação da morte é assim uma manifestação do nosso amor a Deus.
A morte individualizará e personalizará todos nós. Pelo facto de separar a alma do corpo, descobre cada um e todos na sua busca. Revelará o eu real em oposição ao eu superficial. A alma ficará nua diante de Deus, vista afinal como verdadeiramente é. E se uma alma não se acha então vestida de virtude, sentir-se-á envergonhada, como Adão e Eva se sentiram, quando pecaram e se ocultaram de Deus, pois foi somente depois de seu pecado que se sentiram nus e envergonhados. Esta relação entre nudez da alma e pecado é sempre uma relação intima. No dia de juízo das nossas almas, no Éden e nesta vida, onde quanto menos graças tiverem os homens e mulheres nas suas almas tanto mais ostentosamente se vestirão, como já acentuámos antes.
O separar-se a alma do corpo depois da morte produzirá outra mudança. Abolirá as vantagens especiais que alguns de nós gozámos nesta vida, pois o corpo em relação à alma podia ser assemelhado a uma pessoa conduzindo um automóvel. Um guia através da vida num calhambeque estragado, outro com um motor de quarenta cavalos, outro com um de cinquenta e outro ainda com um de duzentos, mas quando há uma violação da lei de tráfego, ninguém é julgado pela espécie de carro que está guiando, mas por ter violado ou não a lei. Da mesma maneira, no momento da morte, quando a alma deixa o corpo, seremos julgados não pelas vantagens terrenas que tivemos: beleza ou talento, pela riqueza que acompanhou o corpo ou pelas vantagens sociais, mas somente pelo grau em que respondemos ao Amor Divino. Assim como Divas foi separado de seus cinco irmãos pela morte, também cada um de nós será separado do grupo e da multidão. Então todos e cada um terão de dar um passo à frente, sozinho, fora das fileiras. Não haverá advogados para advogar a nossa causa, nem alienistas para argumentar que não estávamos no nosso juízo certo, quando praticávamos o mal. Só se ouvirá uma voz: a voz da consciência que nos revelará como realmente somos.
“Senhor, permaneço aberto à tua investigação; tu me conheces, sabes quando me sento e quando me levanto de novo, desde longe podes ler o meu pensamento. Desperte ou durma, podes dizê-lo, não há nenhum movimento meu que não o vigies. Antes que as palavras se formem nos meus lábios, todo o meu pensamento é já conhecido de Ti. Tu me cercaste pela retaguarda e pela vanguarda e a Tua mão ainda descansa sobre mim. Sabedoria como a Tua está bem além do meu alcance, nenhum pensamento meu pode alcançar-Te. Para onde poderei ir, pois, a fim de me subtrair ao Teu espírito e ocultar-me de Tua vista? Se subo ao céu, Tu lá estás; se desço ao abismo, nele Te encontras ainda presente. Se eu pudesse tomar asas voando para a nascente, ou encontrar um abrigo para além do mar ocidental, ainda ali Te encontraria acenando-me, com a Tua mão direita me sustendo. Ou talvez pensasses em enterrar-me na escuridão: a noite me cercaria, mais amiga do que o dia; mas não, a escuridão não é esconderijo para Ti, contigo a noite brilha clara como o próprio dia; luz e treva são uma só coisa. Teus são os meus mais íntimos pensamentos. Não me formastes no ventre de minha mãe? Eu Te glorificarei pela minha estupenda plasmação, por todas as maravilhas da tua criação. Da minha alma tens pleno conhecimento e esta minha mortal estrutura não tem mistério para Ti, que a formaste em segredo. Ideaste o seu modelo, ali no recesso negro da terra. Os teus olhos viram todos os meus atos, todos já estão anotados no Teu livro. Os meus dias já foram contados antes mesmo de existirem. Um enigma, ó meu Deus, os teus modos de proceder para comigo, tão vastos os seus propósitos.” (Salmo 138, 1-17)
A morte manifestará assim essa unicidade de cada personalidade, a qual, como diziam os Escolásticos, é incomunicável. Pascal escreveu: “Nada é tão importante para o homem como a sua própria condição, nada tão formidável para ele como a eternidade.” A morte confronta o eu com o eu no seu grande momento do despertar da manhã da outra vida. Naquele despojamento de toda a ilusão, a alma ver-se-á a si mesma como realmente é. Arrasta ainda atrás de si um trem de experiências. Tem a memória, esse armazém de bons e maus hábitos, de preces rezadas, de bondade para com os pobres, como de recusa da graça, de pecados de avareza, de luxúria e de soberba.
Desde que estamos diante desse inevitável acontecimento, como o enfrentaremos? O pagão e o cristão têm diferentes modos de responder. O pagão, enquanto vive, aproxima-se cada vez mais proximamente da morte; o cristão vai se afastando dela. O pagão tenta ignorar a morte, mas cada tiquetaque do relógio o coloca mais perto dela, pelo medo e pela angústia. O cristão começa a sua vida contemplando a sua morte; sabendo que morrerá, planeia a sua vida de acordo com isso, a fim de gozar da vida eterna. Há dois estágios na experiência do pagão: vida humana e morte humana. Na do cristão, há três: vida humana, morte humana, que é uma porta para o terceiro estágio, e vida divina. O cristianismo sempre recomendou a contemplação da morte como um encorajamento a uma vida boa e isto produz realmente efeito, pois embora não possamos regredir no tempo, podemos avançar no tempo. Um homem pode, pois, dizer a si mesmo: “Por aquilo que hoje me faz viver, morrerei amanhã.”
É duplo o princípio cristão de conquistar a morte: a) pensar na morte; b) ensaiar-nos para ela pela mortificação atual. O fim da contemplação é dominar o medo e coação da morte, encarando-a voluntariamente. Por meio da antecipação do fim derradeiro, podemos contemplar novos começos. Nosso Bendito Senhor viveu do fim da vida para trás: “Vim para dar a Minha vida pela redenção do mundo.” Pinta-se o Cordeiro como “morto desde o começo do mundo”.
A perspectiva da morte priva-nos dos nossos falsos modos de viver. Se pensamos na morte, desembaraçamo-nos da fantasia de que o universo não seja um universo moral. No tratamento da esquizofrenia, aplica-se muitas vezes um violento choque elétrico à cabeça do paciente. O esquizofrênico fica tão alarmado, sente-se tão ameaçado, que, a fim de escapar ao que lhe parece a dissolução do espírito, afugenta a sua fantasia e o paciente é recambiado para o mundo real. A meditação sobre a morte tem algo daquele efeito sobre o sistema espiritual. Quebra o encanto que nos fazia pensar que o prazer é tudo, que deveríamos continuar a ganhar mais dinheiro ou a construir mais edifícios, que a religião só serve para os malucos, e outras ilusões que tais.
Quando contemplamos a nossa própria morte, a cidadela do nosso eu, está destinada a ser atacada. Vislumbramos o nosso próprio ser íntimo e a sua pobreza. Cada um de nós entra na vida de punhos cerrados, pronto para a agressão e a aquisição. Mas quando abandonamos a vida, as nossas mãos estão abertas. Nada há na terra de que necessitemos, nada que a alma possa levar consigo que não lhe pudesse ser arrebatado depois de algum naufrágio – as suas próprias obras. Opera enin illorum sequuntur illos. A meditação sobre o nosso fim derradeiro, afasta o pensamento sobre o nosso eu actual, destrói o egoísmo excessivo e diminui os nossos temores e ansiedades, pois os temores diminuem à medida que deixamos de pensar em nós mesmos, no nosso aspecto imediato e, em vez disso, ajustamos as nossas mentes á perspectiva mais vasta da eternidade.
Pode-se arrebatar da morte o seu maior medo, se nos exercitarmos para ela. O cristianismo recomenda mortificação, penitência e desprendimento, como um ensaio para o grande acontecimento, pois cada morte deveria ser uma grande obra-prima e, como todas as obras-primas, não pode ser completada em um dia. Um escultor que deseje esculpir uma estátua de um bloco utiliza-se de seu escopro, primeiro separando grandes pedaços de mármore, depois pedaços menores, até que finalmente chega a um ponto em que basta apenas uma broca de mão para compor a figura. Do mesmo modo, a alma tem de sofrer tremendas mortificações a princípio e depois desprendimentos mais aperfeiçoados, até que afinal a sua imagem divina seja revelada. Por ser a mortificação reconhecida como uma prática da morte, foi adequadamente gravado no túmulo de Duns Scotus: Bis Mortuus; Semel Sepultus (duas vezes morto, mas enterrado apenas uma). Quando morremos para alguma coisa, alguma coisa se torna viva dentro de nós. Se morremos para nós mesmos, a caridade torna-se viva; se morremos para o orgulho, a dedicação aos outros torna-se viva; se morremos para a luxúria, o respeito à pessoa torna-se vivo; se morremos para a cólera, o amor torna-se vivo.
O princípio básico espiritual é este: que a morte deve ser conquistada em cada pensamento, palavra e ato por uma afirmação do eterno. Os escritores místicos advertem-nos de que cada coisa deveria ser feita como se fossemos morrer no próximo momento. Se tratássemos também os vivos, como se fossemos morrer, então o que de bom neles existe subiria à superfície. Tratai os mortos como se ainda estivessem vivos e as nossas preces os acompanharão. Assim a crença num lugar de purificação dos pecados depois da morte permite-nos que resgatemos a nossa falta de amor pelos nossos amigos, enquanto viviam aqui na terra. A falta de auxílio aos seus corpos poderá ser então recompensada agora pela assistência espiritual às suas almas, por meio da oração.
A morte deve entender-se como o nosso verdadeiro nascimento, o nosso começo. O cristianismo, em contraste com o paganismo, sempre abençoa o nascimento espiritual dos seus filhos para a eternidade. Na liturgia, o dia em que um santo morre chama-se natalitia, ou nascimento. O mundo celebra o aniversário no dia em que uma pessoa nasceu para a vida física; a Igreja celebra-o quando uma pessoa nasceu para a vida eterna. Há apenas três exceções a isto e foram feitas por muito boas razões: os únicos natalícios físicos da liturgia são os do Nosso Divino Mestre (25 de dezembro), e da Nossa Bendita Mãe (8 de setembro) e de São João Batista (24 de junho). Isto porque cada um desses nascimentos marcou uma infusão especial da Vida Divina no mundo: Nosso Senhor é a Vida Eterna; a Mãe Bendita, por meio da Sua Imaculada Conceição, e São João Batista foi santificado no ventre da sua mãe, quando foi esta visitada pelo Seu Senhor, ainda oculto no tabernáculo da Sua Bendita Mãe. Estas três exceções provam, em vez de contradizer, a regra de que a vida vem através da morte, a espiritualidade através da mortificação e a salvação da alma na eternidade através da perda dela no tempo, pois quando uma alma provou que amou a Deus sobre todas as coisas e provou-o pelo desprendimento de tudo quanto se atravessasse no caminho do seu amor total, está preparada para enfrentar o Amor. Então, na linguagem de Newman, sentirá a dor de nunca ter amado bastante.
“Quando — feliz de ti — o Bem-Amado vires,
Pensamentos de amor, de graça e de ternura
Pela Sua presença em teu peito arderão
E doente de amor, suspiroso, estarás.
Há de varar-te ao vivo, agitando-te a alma,
A súplica do Seu Olhar meditativo
A ti te odiarás e amaldiçoarás,
Pois sem pecado embora, haverás de sentir-te
Um grande pecador, como nunca sentiste,
Desejando fugir, evitando-Lhe a Face.
E contudo haverá um convite a repouso
Na beleza sem par do Seu rosto sereno.
Duas dores então, contrárias e pungentes,
— O desejo de O ver, quando não podes vê-Lo,
A vergonha de ti, quando pensas em vê-Lo,
Hão de ser o teu mais certo e penoso Purgatório.”