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CAPÍTULO 14
Os Efeitos da Conversão
Os espíritos atormentados de hoje não são os efeitos do nosso mundo atormentado. Foram os nossos espíritos transtornados que transtornaram o mundo. Não há essa coisa que se chama o problema bomba atómica. Há, pelo contrário, o problema do homem que a fabrica e a utiliza. Somente homens e nações cujas personalidades já estavam atomizadas podiam juntar forças às da natureza externa para usar uma bomba atómica num ataque contra a existência. O homem, tentando viver separado de Deus ou provocando a Deus, tornou o mundo tão delirante como o seu próprio espírito neurótico. A crise de hoje é tão profunda nas suas causas que todas as tentativas sociais e políticas para resolvê-las estão destinadas a não produzir efeito, como o talco na cura da icterícia. É o homem que tem de ser refeito em primeiro lugar. Depois a sociedade será refeita pelo novo homem restaurado. Os ditadores que deram às praias do século XX não são criadores da desordem, mas antes suas criaturas. São sintomas e não causas da universal derrocada de uma ordem moral no coração do homem. A constante recusa do homem em permitir que um poder divino super-Heróico penetre no seu espírito fechado é o orgulho que prepara a catástrofe. A maior parte dos homens está intuitivamente certa que nenhuma mudança, exceto uma mudança espiritual, será suficiente. A extrema sensitividade e a cólera pronta daqueles que fomentam revoluções contra a sociedade e a moralidade como remédio são uma prova da insegurança da sua posição. A violência da sua oposição a toda a crítica é um sinal seguro da indefensibilidade da sua própria posição. Suspeitam mesmo que a humanidade tem menos necessidade de revolução que de redenção.
O homem pode redimir-se pela sua própria razão ou pelo seu próprio poder, mas pode usar tanto da razão como do poder em cooperação com a Graça Divina, e é o que faz quando se converte. É tempo agora de falar do efeito de tal conversão sobre a alma. A alma acha-se agora aberta ao trabalho da Graça Santificante, que eleva a nossa natureza a ponto de nos tornarmos algo que não éramos naturalmente partícipes da natureza Divina que desceu ao nível da nossa mortalidade para nos fazer partilhar da sua vida. Esta nova graça que acrescenta a filiação divina à humana de modo que nos tornaremos Filhos de Deus tanto quanto filhos dos nossos pais, não é extrínseca à alma ou mera atribuição do mérito de Cristo. Há uma realidade na alma que não estava ali antes, uma realidade criada que vem diretamente do próprio Deus, uma realidade que nós mesmos não podemos merecer, no estrito, sentido do termo. É por isso que se chama Graça, é grátis, ou livre.
Um efeito da graça é que o Nosso Divino Salvador não é mais extrínseco a nós, como é para aqueles que pensam n'Ele como apenas uma figura histórica que viveu há mais de 2000 anos. Se o nosso Divino Salvador tivesse permanecido na terra, estariam eles certos. Seria Ele apenas um exemplo a ser copiado, uma voz a ser ouvida. Mas uma vez que Ele ascendeu ao céu e nos mandou o seu espírito, então cessou de ser apenas um modelo a ser copiado e tornou-se uma Vida a ser vivida.
Embora estejamos mais interessados em apontar aqui os efeitos psicológicos da graça sobre a alma do que os seus vários efeitos teológicos, dois destes são demasiado importantes para omiti-los. São eles a Divina Presença na alma depois do Batismo e a incorporação do indíviduo no Corpo Místico de Cristo. “Presença de Deus” é uma frase usada bastante livremente hoje para abrigar alguma coisa, desde o panteísmo dos poetas Panteísmo do Lago até o vago sentimentalismo dos românticos, que gostam dos bosques porque “sentem” Deus ali. Deus, na verdade, está presente no universo de várias formas, como um artista pode estar presente de vários modos, por exemplo, na sua pintura, como o seu criador, num museu, como representante da cultura, e em seu Filho, como pai. Deus está presente no universo todo como causa e, neste sentido, está nas flores e nas árvores. Mas uma presença bem mais íntima se evidenciou na Encarnação, em que Deus apareceu como homem no coração duma nova humanidade que iria tornar-se o Seu novo corpo.
A Encarnação (na União Hipostática) fez Deus homem. A união da graça e da natureza faz-nos homens deificados. Assim como as ações de Jesus Cristo eram tanto divinas como humanas, da mesma maneira as de um homem em estado de graça são como divinas, sendo exercidas tanto por Deus como pelo homem, estas ações merecem o céu. A presença de Deus em tal alma não é uma simples maneira sentimental de falar, mas uma posse real. Pelo facto de nos termos tornado filhos adotivos de Deus por termos nascido dele, vivemos agora pelo Espírito de Cristo. “Porque vós não recebestes o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, mercê do qual clamamos, dizendo: Abba (Pai).” (Rom. 8, 15). O corpo tornou-se agora templo de Deus.” Porventura não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que habita em vós, que foi dado por Deus, e que não pertenceis a vós mesmos? “ (Cor. 6, 19).
Cristo é a Cabeça de tais almas santificadas e elas conservam-se em relação com Ele, como membros do seu corpo. “Ele submeteu a seus pés todas as coisas, e constituiu-o cabeça de toda a Igreja, que é o seu corpo e a plenitude daquele que tudo preenche em todos. “ (Efésios 1, 22-23). A relação entre Cristo e o seu Corpo, a Igreja, disse o Próprio Cristo que era como a da vinha e dos seus ramos. “Resta ainda um pouco, e depois já o mundo não me verá. Mas ver-me-eis vós, porque eu vivo, e vós vivereis. Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós. “(João 14, 18-20). “Vós já estais puros em virtude da palavra que eu vos anunciei. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode por si mesmo dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós as varas. O que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer. “(João 15, 3-5).
Jacques B. Bossuet exprimiu esta íntima relação de Cristo com o seu corpo, a Igreja, descrevendo esta última como o “prolongamento da Encarnação”. Cristo pode ter somente um Corpo, portanto não pode haver muitas igrejas. Qualquer Igreja fundada esta manhã ou ontem de tarde, ou mesmo há cem anos passados está demasiado distante do Pentecostes para ser Corpo de Cristo. O corpo e a Alma, a Igreja e o Espírito Santo, devem ter sido aliados desde o começo.
A unidade entre os membros desse corpo não pode ser uma associação vaga e indeterminada que qualquer membro tem liberdade de mudar, da mesma maneira que um corpo humano não pode ser mudado, tendo muitas vezes um olho e uma orelha, ou não tendo coração e sete pulmões. A unidade dos fiéis no Corpo de Cristo não é organizacional, embora seja necessária uma organização e embora aqueles que admiram a Igreja pela sua unidade de crença, de fé e liturgia atribuam isto à sua organização. A Igreja é antes um organismo. Assim como um corpo humano é um porque tem uma alma, uma cabeça visível e um espírito invisível, da mesma maneira a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, é uma porque tem uma alma - o Espírito Santo de Deus, uma cabeça visível - Pedro e os seus sucessores, e uma cabeça invisível - Cristo. Assim como Cristo tomou a natureza humana no ventre da sua mãe (que engendrou pelo Espírito Santo) da mesma maneira o tomou do ventre da Humanidade (santificada pelo Espírito Pentecóstico) o seu Corpo Místico, a Igreja. Cristo ensina através do seu Corpo, portanto, a sua Doutrina é infalível. Governa por meio do Seu Corpo, portanto, a autoridade é divina. Santifica por meio do Seu Corpo, portanto, a santificação realizada pelos sacramentos não depende da personalidade ou do caráter daqueles que administram os sacramentos. A Igreja é o Totus Christus, O Cristo Inteiro, e complementa o Cristo Individual. No seu aspecto físico o Corpo de Cristo é perfeito, mas no seu aspecto místico está simplesmente crescendo em perfeição, pois agora inclui não somente Ele, mas nós, com as nossas imperfeições. As orações, os sacrifícios e as liturgias da Igreja são oferecidos não pelos membros sozinhos, não por Cristo, a cabeça sozinha, mas pela Cabeça e membros Reunidos para a Glória de Deus, o Pai Eterno. Nova célula é acrescentada ao Corpo Místico de Cristo em cada batismo.
É o suficiente para os dois mais conspícuos efeitos da conversão em termos teológicos. Mas os efeitos psicológicos da conversão e incorporação no Cristo Total são aqueles aos quais o convertido e os que o cercam se mostram muitas vezes mais sensíveis.
Há em primeiro lugar uma rescentralização de vida e uma revolução de todos os seus valores. Este reajustamento novo e intelectual da mente para dar lugar a Deus é uma prova de que a conversão não é uma questão emocional, pois as emoções não controlam normalmente os juízos. Antes da conversão a vida é um borrão confuso e ininteligível, como as figuras em uma lanterna japonesa achatada; depois, assemelha-se àquela mesma lanterna aberta em toda a sua altura, com uma vela dentro para revelar a unidade do padrão e do desenho. A fé não somente põe a vela dentro da lanterna da vida, mas também a ilumina. Uma pessoa altamente educada antes da conversão pode ter tido vasto conhecimento de história, literatura, ciência, antropologia e filosofia, mas estes ramos do seu saber estavam divididos em compartimentos estanques, sem correlação viva de um com os outros, eram apenas isoladas gulodices de informação, um vasto “hors d‘oeuvre” de pormenores. Depois da conversão os mesmos factos são reunidos numa unidade, ordenados numa hierarquia do saber que revela uma prova dominadora da providência na história e confere também nova unidade à vida pessoal de cada um. O que era antes informação tornou-se agora sabedoria.
A alma não convertida sentia-se muitas vezes exausta, fatigada de ter gasto todas as suas energias procurando encontrar um objeto na vida. Estava cansada de espírito e depois cansada do corpo. O espírito que não pode decidir para onde está indo em seguida, logo se se esgota pela indecisão. As ansiedades e temores dominam o espírito e desperdiçam a energia do corpo. Mas uma vez descoberto o alvo da vida, não se precisa gastar a sua energia tentando descobri-lo; a energia pode agora ser gasta na realização da jornada. As viagens circulares são abandonadas, quando se mergulha na alegria de uma viagem de descoberta.
Muitos jovens estudantes de colégios sentem-se confusos porque não têm uma filosofia da vida ou um padrão de existência. A sua educação é apenas uma substituição dessa teoria por aquela, um alijamento de carga de um ponto de vista relativo para outro. As estatísticas que estudou nos seus anos do secundário já estão antiquadas no ano que se segue à sua formatura. Os seus professores, que empregavam a filosofia de Spencer como sua inspiração há vinte anos passado, estão agora usando a de Marx ou Freud. Dentro de outros dez anos terão encontrado outro substituto. A educação tornou-se pouco mais do que a substituição mecânica de um ponto de vista por outro, como o automóvel substituiu o cavalo e a carroça. O espírito é constantemente solicitado por pontos de vista contraditórios, torna-se mais fatigado do que um corpo em constante oscilação entre frio e febre. Com a conversão, a educação torna-se uma progressão ordenada de uma verdade que nunca precisa ser afastada para a seguinte. O estudante recebe razões e motivos de credibilidade para uma crescente penetração num mistério central, uma sondagem de novas profundidades de verdade. O seu saber e a sua compreensão crescem como a vida se expande de célula em célula, no desenvolvimento de todo o corpo vivo.
Associada ao sentido de crescimento intelectual do convertido está a consciência de achar-se novamente possuído da herança intelectual do passado, de ter-se juntado a uma tradição viva de pensamento profundo. Um passado que se respeita é tão essencial à vida intelectual como o parentesco é essencial para a vida física, assim como o indíviduo não pode pensar sem uma memória, não pode tampouco uma sociedade pensar sem tradição. Não mais desenraizado do passado, mas tornado herdeiro da sua riqueza, o convertido deixa de visitar o passado como mero antiquário; junta o passado e o presente numa feliz conjunção, como passadeiras na direção do processo e do enriquecimento no futuro.
O julgamento de valores do convertido na sua vida pessoal não é menos radicalmente transformado. As coisas que antes pareciam preciosas são agora consideradas triviais, e as coisas que antes pareciam sem consequência tornaram-se agora a essência da vida real. Sem o senso divino dos valores que a conversão provoca, a alma é como um armazém onde onde as tabuletas de preços estão erradamente em cima de tôdas as coisas: grampos de cabelos vendidos por mil dólares e anéis de brilhantes por um níquel. A conversão pendura as tubuletas do preço certo nas coisas certas e restaura um verdadeiro sentido de valores. É por isso que a visão de um convertido se torna inteiramente mudada a respeito de assuntos tais como casamento, morte, educação, riqueza, dor e sofrimento. Assim como um vitral parece diferente, de dentro da Igreja, do que ele é de fora, da mesma forma todos os grandes problemas da vida assumem novo significado e sentido quando são encarados do interior da Fé. Ele agora vê por que a educação religiosa é essencial, pois a menos que a alma seja salva, nada estará salvo. O casamento é sagrado para ele porque é um símbolo da união de Cristo e da Igreja. O sofrimento torna-se suportável como um dom de Deus, a ser oferecido em reparação do pecado e para completar os sofrimentos que estão faltando ao Corpo de Cristo; a doença é aceita no conhecimento de que Deus está mais interessado pelo que eu sou para ele, do que pelo que eu realizei. A antiga avidez de segurança económica dá lugar a uma serenidade que não se preocupa com o amanhã antes que ele chegue e que confia em Deus a todas as horas. A paz não é mais compreendida como significando uma fuga às cruzes da vida, mas como a vitória conquistada sobre elas pela fé.
Um segundo resultado perceptível da conversão é uma definitiva mudança no comportamento e conduta da vida. Não somente a conversão muda o valor de cada um; transforma também as tendências e energias da vida, dirigindo-as para outro fim. Se o convertido antes da conversão já estava levando uma boa vida moral, há agora menos ênfase em cumprir uma lei e mais ênfase em manter uma relação de amor. Se o convertido tem sido um pecador, a sua vida espiritual liberta-o de hábitos e excessos que antes lhe pesavam sobre a alma. Não necessita mais de recorrer ao álcool ou a comprimidos para dormir. Descobre muitas vezes que essa prática eram não tanto apetites como tentativas de fugir à responsabilidade ou de tranquilizar-se, mergulhando na inconsciência, para que pudesse evitar a necessidade da escolha. Antes da conversão era o comportamento que em larga escala determinava a crença, depois da conversão é a crença que determina o comportamento. Não há mais uma tendência em procurar bodes expiatórios em quem descarregar as suas faltas, mas antes uma consciência de que a reforma do mundo deve começar pela reforma de si mesmo. Há ainda um temor de Deus, mas não é o temor servil que um súbdito tem pelo ditador, mas um temor filial, tal como o que um filho vivo tem por um bom pai a que ele nunca quereria magoar. De tal amor não necessitaremos nunca de fugir e os anteriores atos de dissipação, que eram formas disfarçadas de fuga, são agora renunciados.
Uma vez que a alma se voltou para Deus, não há mais uma luta para abandonar aqueles hábitos; estão não somente derrotados, como afastados por novos interesses. Não há mais uma necessidade de fuga, pois não se está mais fugindo de si mesmo. Aquele que outrora fazia a sua própria vontade procura agora fazer a vontade de Deus; aquele que outrora servia ao pecado, agora o odeia; aquele que outrora achava os pensamentos de Deus secos ou mesmo desagradáveis, espera agora, acima de tudo, um dia para contemplar o Deus a Quem ama. A transição que a alma sofreu é tão inconfundível como a passagem da morte para a vida; houve, não um mero abandono do pecado, mas tal submissão ao Amor Divino que o faz fugir do pecado porque não quereria ferir o Divino Amado.
A consciência, assim transformada em um convertido, sofre uma mudança paradoxal. Não é quase mais como antes um senhor tão severo, a despeito da reforma de conduta. É a verdade que o procedimento mudou, mas isto é apenas uma prova superficial do facto de que a consciência está mudada. Antes da conversão a consciência parecia ser um poder restritivo e coercivo. Deus era um juiz hostil e exigente, os mandamentos eram proibições e a Igreja uma inibição. As responsabilidades eram identificadas como obrigação, o dever era visto como oposto ao desejo, o moralmente certo era identificado como fisicamente desagradável e o amor oposto à moralidade. Mas depois da conversão a consciência não mais acusa, nunca parece mandar ordenar, ou inibir, porque não há mais duas vontades em oposição. A vontade do convertido é a vontade de Deus. Não há necessidade para uma consciência de dizer-lhe o que “deveria ser feito”. A consciência se abismou no amor e não há dever ou “deveria” entre amantes.
O dever, para o espírito pecador, era o cumprimento a contragosto de uma ordem. Agora, desejando somente o que Deus deseja, o convertido não precisa restringir os seus desejos; está além do bem e do mal, naquele reino em que não há dever de “porta-se bem”, mas apenas a alegria de viver.
O que era anteriormente uma tarefa compulsória torna-se agora um prazer espontâneo. Os convertidos, que tinham o hábito de dormir tarde, ficam receosos a princípio de que não são capazes de levantar-se suficientemente cedo para a Missa de domingo, e não por certo, dir-vos-ão eles, bastante cedo para a missa diária. Mas uma vez possuídos do Divino Amor, descobrem que levantar cedo é uma alegria, pois nada é duro para aquele que ama. Antes a vida baseava-se na autodeterminação, e a vontade sempre trabalhava para salvaguardar o interesse próprio e o amor próprio. Depois, a vida é determinada por Cristo; o convertido não quer outro espírito senão o de Cristo, nenhuma outra vontade que não seja a vontade de Cristo. O procedimento mudou na sua fonte. Agora brota uma relação de amor. A generosidade é fácil, partilhar maçãs não fará os homens irmãos, mas se estão conscientes da sua relação como irmãos, partilharão alegremente uma maçã.
A nova vida moral não é austera nem árdua, porque não há mais um sentimento de que se tem de viver ligado a um contrato odioso, em vez disso, o convertido é motivado por um sentimento de que nunca pode fazer o bastante por aquele que ama. A lembrança importuna de que se deve evitar o pecado foi substituída pelo desejo de que nada deve impedir-nos de nos aproximar cada vez mais de Deus. Desta nova orientação provêm a paixão e o zelo de um S. Paulo:
“Porque eu estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a forca, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo nosso Senhor. ” (Rom. 8,38-39)
Mas mesmo isto não termina a lista dos novos benefícios do convertido. Ele recebe também certeza. A filosofia dá uma prova da existência de Deus, a ciência da apologética dá os motivos da crença em Cristo, o Filho de Deus, mas todas as provas incontrovertíveis que oferecem são insuficientes diante da certeza que agora o dom da Fé oferece ao convertido. Imaginai um jovem cujo pai estava perdido havia vários anos. Um amigo, de volta duma viagem, garante-lhe que tem prova segura de que o seu pai existe realmente em outro continente. Mas o jovem não está plenamente satisfeito com a prova, por mais convincente que ela seja; enquanto não se realizar a presença real do seu pai, não terá paz. O mesmo se dá com a conversão, antes tinha-se conhecimento a respeito de Deus, depois conhece-se a Deus. O primeiro conhecimento que o espirito tem é imaginário e abstrato; o segundo é real, concreto e liga-se a todos os nossos sentimentos, emoções, paixões e hábitos. Antes da conversão, as verdades pareciam verdadeiras, mas distantes, não nos tocavam pessoalmente. Depois da conversão tornam-se tão personalizadas que o espirito sabe que está terminada a busca de um lugar para viver, pode agora fixar-se para a construção de um lar. A certeza do convertido é tão grande que o seu espirito não sente que foi dada uma resposta, mas a resposta – a solução absoluta e final, pela qual se daria vida, em vez de submeter-se.
Como resultado, todas as dúvidas e o desespero do intelectual desaparecem e aqui a Igreja difere de todas as outras religiões do mundo. Nas outras religiões, as dúvidas aumentam com o desenvolvimento da razão, mas na Igreja a fé intensifica-se à medida que a razão se desenvolve. Isto se dá porque a nossa razão e a nossa fé em Cristo e no Seu Corpo Místico derivam ambas do mesmo Deus da Luz, ao passo que a razão e a crença num mestre pagão tem muitas vezes fontes diferentes. A razão é de Deus, mas uma crença numa doutrina pagã provém simplesmente do ambiente externo ou através da propaganda. É historicamente verdadeiro que uma era de grande fé em Cristo é sempre uma era de razão profunda; a Suma do século treze de Tomás de Aquino é um exemplo. Esta é uma relação lógica: justamente como a razão é a perfeição dos sentidos, assim também a fé é a perfeição da razão. Um homem não vê nem anda tão bem quando está embriagado, como quando está sóbrio; os seus sentidos ressentem-se do poder aperfeiçoador da razão. Da mesma maneira, um espírito raciocinando sem fé não funciona tão bem como a razão com fé.
Aqueles que nunca passaram pela experiência de uma conversão completa imaginam que a razão deve abdicar completamente para dar um tal passo. Ouvimo-los fazer observações como esta: “Não posso compreender isto; ele parecia um homem inteligente.” Mas aqueles que passaram pela experiência de conversão vêem que justamente como o olho pisca fechando-se à luz por um instante, a fim de poder reabrir-se e ver melhor, assim também se pisca a razão naquele breve instante em que se admite que ela não pode conhecer todas as respostas. Depois, quando vem a fé, encontra-se a razão intacta e a visão mais clara do que antes. Tanto a razão como a fé são agora vistas como derivando do Próprio Deus; não podem portanto estar nunca em oposição. Sabendo disto, o convertido perde todas as suas dúvidas. A sua certeza na sua fé torna-se inabalável. Na verdade são as suas antigas noções que se acham agora aptas a ser abaladas pelo terremoto da sua fé.
Agora a certeza na divindade e infalibilidade de Cristo em tudo aquilo que implica, ultrapassa mesmo a evidência e os argumentos em favor delas, pois a certeza deriva do Próprio Deus. “Não foi a carne e o sangue que te revelou, mas Meu Pai que esta nos céus.” (Mat. 16,17.) Agora o convertido compreende que há três luzes para guiar o homem à sua felicidade: há a luz do sol para os seus sentidos, a luz da razão para as suas ciências e a teologia e a luz da fé para a sua religião e salvação. Aqueles a quem falta o dom da fé e aqueles que o têm são como duas pessoas olhando para o arco-íris: uma delas é cega e a outra é abençoada com a vista. Há criancinhas nas nossas escolas paroquiais que nunca poderiam responder às objeções de sábios professores que viessem atacar a sua fé; contudo tais objeções não abalariam a sua fé mais do que se tentassem provar que os seus olhos não podiam ver a cor, nem os seus ouvidos ouvir os sons.
Esta ausência de confusão, está convicção absoluta da Verdade Divina e Absoluta é uma das maiores consolações para o fiel. A alma convertida vê-se a si mesma como o cego de nascença, agora curado para a visão e para a luz. Em resultado a alma torna-se mais ousada nos seus julgamentos; as vendas estão agora removidas e tem ela um modelo divino pelo qual julga não somente as suas próprias ações, mas os acontecimentos do mundo que o cerca. Somente um homem de fé pode compreender a atual situação do mundo; somente ele a avalia como não sendo o choque de sistemas políticos antagónicos, mas o julgamento moral da maneira que os homens pensam e vivem. Mesmo em meio de tribulações tais como as de hoje, a sua fé produz paciência e produtividade; graças ao magneto da fé, todos os seus fragmentos de ideias espalhados são como limalhas de ferro, feitas de uma só peça e cobertas com uma só energia.
Mas alguns certamente perguntarão: “A conversão e a aceitação da autoridade da Igreja como a autoridade de Cristo não destruirá a liberdade humana? Não implicará a aceitação do absoluto da Igreja o autoritarismo?” A resposta é negativa.
A olhos míopes, poderá de facto parecer que haja uma semelhança superficial entre aceitar a autoridade da Igreja e aceitar o autoritarismo de um Estaline. Mas há três profundas diferenças entre os dois.
Primeiro, o autoritarismo da politica moderna é externo; a autoridade da Igreja é interna. A regra do ditador é imposta de fora, exerce-se sobre alguém tão insistentemente como o latido de um cachorro aos calcanhares dos carneiros e é aceita acovardamente e sob pressão. A submissão a regras arbitrárias, que não coincidem com os nossos próprios melhores julgamentos, leva à completa destruição da personalidade. Mas a autoridade da Igreja nunca é arbitrária, nem nunca comunicada inteiramente de fora. Coincide com a Verdade de Cristo, que já existe na alma e que foi aceita sob prova que a nossa razão aprova. Aqui a autoridade está de acordo com a nossa consciência e completa a personalidade que a ela se submete. A relação entre o cristão e a Igreja é bastante semelhante à que existe entre um estudante e um professor: quanto mais o estudante aceita a autoridade do professor, tanto mais aprende dele e tanto menor se torna a brecha que os separa; poderá ele mesmo tornar-se um dia um associado daquele professor. Foi semelhante submissão a esta autoridade espiritual de que falou Nosso Senhor aos Seus apóstolos: “Já vos não chamarei servos porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo aquilo que ouvi de meu Pai.”(João 15,15)
Há uma segunda diferença: o estado totalitário para tornar aceitáveis as suas caprichosas regras, deve sempre ter como objetivo a supressão da liberdade de escolha. Dirá por exemplo a um cidadão que ele não tem liberdade de trabalhar no que quiser e de viver onde lhe agradar. Mas a autoridade da Igreja procura, exercitando os seus filhos no uso próprio da liberdade de escolha, desenvolver a liberdade de perfeição. Longe de desencorajar o indivíduo a seguir as suas próprias preferências, a Igreja devota muito da sua energia a ensiná-lo como escolher e a escolher sabiamente. Um instrutor de aviação ensina a um candidato as leis do voo, os princípios de gravitação e navegação. Depois é dada ao estudante plena liberdade de escolha; pode obedecer ou desobedecer às leis do vôo. Se usa de sua liberdade para desobedecer, cairá, estatelando-se… Se usa da sua liberdade para obedecer as leis que aprendeu, gozará o prazer de voar. A Igreja igualmente nos ensina as leis que governam a realidade e as consequências da sua infração. É isto que Nosso Senhor quis significar quando disse: “E conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres. ” (João 8:32) Porque a liberdade moral, como toda outra liberdade, é limitada pela ordem do universo. Tendes liberdade de desenhar um triângulo (contanto que lhe dês três lados em vez de trinta); tendes liberdade de desenhar uma girafa (contanto que respeiteis a sua natureza dando-lhe um pescoço comprido e não um curto); tendes liberdade de ensinar química (contanto que digais aos estudantes que a água é H2O e não H2SO). O mesmo se dá com a Igreja: temos liberdade de rejeitar os ensinamentos de Cristo na Sua Igreja, justamente como temos liberdade de ignorar ou de desobedecer às leis da engenharia; mas descobriremos que a rejeição das suas leis nunca nos leva à perfeição da nossa personalidade, como loucamente esperávamos. Resulta, em vez disso, uma mórbida afirmação do ego, que pode até mesmo conduzir à autodestruição.
A vida pode assemelhar-se a um brinquedo de crianças. O totalitário construiria para elas um campo de recreio onde todos os seus movimentos são supervisionados, onde tem ordem de executar apenas aqueles jogos que o estado dita, jogos que as crianças quase todas detestam. O resultado é sem duvida faltar a liberdade de escolha; mas, em adendo, toda a esperança e toda a espontaneidade estão perdidas para as crianças. O campo de recreio, porém, estabelecido pela Igreja pode ser comparado a um rochedo no mar, cercado de grandes muros; dentro desses muros as crianças podem dançar, cantar e brincar como lhes aprouver. Os liberais pediriam à Igreja que derrubasse os muros, baseados em que são eles uma influência restritiva; mas se se fizesse isto, haveríeis de descobrir todas as crianças misturadas no centro da Ilha, com medo de brincar, com medo de cantar, com medo de dançar, com medo de cair dentro do mar. A autoridade espiritual assemelha-se àqueles benéficos muros. Ou, de novo, é como uma represa que impede o rio do pensamento de tornar-se tumultuoso e destruir a região da sanidade.
A terceira diferença entre a disciplina do estado autoritário e a da Igreja concerne ao efeito que a sua autoridade produz sobre o indivíduo. O totalitarismo gera o medo nos corações dos seus súbditos, porque habitualmente reforça a sua vontade pelo chicote, pela cadeia, pelo campo de concentração e pela falsa acusação que difama um homem. Desenvolve assim a hostilidade dentro do coração dos seus súbditos. A autoridade da Igreja, uma vez que é interna, não usa absolutamente de ameaça, medo ou compulsão; repousa antes, no eco que cada uma das suas regras desperta no coração e no espírito do indivíduo. Cada qual dos seus súbditos é tão livre de rejeitar a Igreja como o foi Judas; como Judas, no momento da sua partida, pedes-lhe que volte com a bondosa palavra “amigo”. As pessoas submetem-se à autoridade da Igreja como um filho se submete à autoridade do seu pai – e deste amor flui uma ardente admiração e gratidão. À luz dessas diferenças, é evidente que a real escolha oferecida hoje não é entre liberdade da autoridade e submissão a autoridade. É antes uma questão de escolher que espécie de autoridade aceitaremos.
O homem moderno está tão confuso que, apesar de falar em liberdade, está muitas vezes ansioso em renunciar a este dom em favor da segurança. Mesmo quando nenhuma segurança maior lhe é oferecida em troca, está ele ávido por abandonar a sua liberdade de escolha; não pode suportar a carga da sua responsabilidade. Cansado de estar só, amedrontado e isolado em um mundo hostil, quer entregar-se a alguma coisa ou a alguém, para praticar uma espécie de mutilação da vontade. Entregar-se-á à autoridade anónima de um estado coletivista, ou aceitará uma autoridade espiritual que lhe restaure a liberdade com a aceitação da verdade?
A Igreja não torna o homem menos livre do que ele era antes. Mas nós valorizamos principalmente a liberdade a fim de aliená-la. Todo o homem que ama entrega a sua liberdade, quer a sua paixão seja amor de uma mulher, o amor de uma causa ou o amor de Deus. Quando um homem ama uma mulher, diz: “Sou teu”, e a entrega da liberdade o faz cair numa doce escravidão. Todo o homem que ama a Deus diz, como Paulo disse: “Que queres tu que eu faça?” (Atos 9,6). E acrescenta, como fazemos no Padre Nosso: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.” Em ambos os exemplos, a liberdade é entregue em troca de uma alegria maior. A liberdade acumulada é de pequeno valor. Gasta, por alguma coisa que amamos, traz a paz e aperfeiçoa a personalidade na lei e no amor de Deus.
A nova certeza do convertido é, pois, uma coisa preciosa e bastante diferente do abandono da vontade do intelecto que alguns imaginam que ela seja. Mas a relação completa dos benefícios da conversão ainda não está terminada. Devemos falar de outro dom batismal: a paz da alma. Há um mundo de diferença entre paz de espírito e paz de alma. A paz do espirito é o resultado da vinda de algum princípio ordenador para equilibrar as experiências humanas discordantes; isto pode ser realizado pela tolerância ou por um trincar de dentes diante da dor, pela morte da consciência, ou pela negação da culpa ou pela descoberta de novos amores para mitigar velhos pesares. Cada um destes é uma integração, mas em um nível bastante baixo. A esta espécie de paz Nosso Senhor chama de falsa e assemelha-se ao viver sob o domínio de Satanás: “Quando um valente armado guarda a entrada da sua casa estão em segurança os bens que possui.” (Lucas 11, 21) É a paz daqueles que se convenceram de que são animais; a paz dos completamente surdos a quem nenhuma palavra de verdade pode chegar aos ouvidos; a paz dos cegos que se resguardam contra todo o raio de luz celestial. É a falsa paz do servo indolente que tinha o mesmo talento tanto no fim como no começo, porque ignorava o julgamento que exigiria uma conta da sua administração. É a falsa paz do homem que construiu a sua casa sobre a estrada movediça, de modo que desapareceu com as cheias e as tempestades. É com essa falsa paz de espírito que Satanás tenta as suas vítimas. Fá-la parece refinada aos refinados, sensual aos sensuais e grosseira aos grosseiros.
A conversão tira a alma para fora do caos ou desta falsa paz de espírito para a verdadeira paz da alma. “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz: não vo-la dou, como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se assuste” (João 14, 27). Esta verdadeira paz nasce da tranquilidade na ordem, em que os sentidos estão sujeitos à razão, a razão à fé e toda a peersonalidade à vontade de Deus. A verdadeira paz que acompanha a conversão é aprofundada e não perturbada pelas tribulações, pelos contratempos e pelas inquietações do mundo, pois todos eles são acolhidos como vindos das mãos do Pai amoroso. Esta verdadeira paz nunca pode provir do ajustamento ao mundo, pois se o mundo é mau, o ajustamento à maldade nos torna piores. Provém somente da identificação da nossa própria vontade com a Vontade de Deus.
A alma cheia de paz agora não busca viver moralmente, mas viver para Deus; a moralidade é apenas um produto acessório da união com Ele. Esta paz une a alma ao seu próximo, incitando-a a visitar os doentes, a alimentar os famintos e a vestir os nus, pois amando a outra alma damo-nos a Deus.
A única dor verdadeira que o convertido agora tem é a da sua inabilidade em fazer mais pelo amor de Deus. É fácil realizar as exigências de ideias menores, tais como o humanismo, e os seus discípulos bem depressa se tornam complacentes; são já tão virtuosos como o seu código pede que sejam. É bastante fácil ser um bom humanitário, mas é bastante difícil ser um verdadeiro seguidor de Cristo. Contudo, não é a lembrança dos pecados passados que cria esta dor em meio da paz, mas os defeitos atuais. Porque ama tanto, sente o convertido a impressão de não ter feito nada. Que dom poderá ser jamais uma expressão deste novo Amor? Se ele pudesse dar a Deus o universo, mesmo este não seria bastante.
Toda a energia que era anteriormente gasta no conflito, quer tentando descobrir a finalidade da vida ou tentando só e futilmente dominar os seus vícios, pode ser agora utilizada em servir a um único propósito. Pesar, remorso, temores e ansiedades que jorram do pecado desaparecem agora completamente no arrependimento. O convertido não mais lamenta o que poderia ter sido. O Espírito Santo enche a sua alma dum constante pressentimento do que ele pode tornar-se por meio da graça. Esta recuperação espiritual é acompanhada pela esperança, não importa em que idade a mudança ocorra, embora o convertido sempre lamente haver esperado tanto. Como disse Santo Agostinho: “Demasiado tarde, ó beleza antiga, eu te amei.” Mas desde que a graça rejuvenesce, apressa até mesmo os velhos a consagrar-se ao serviço.
E há muitos outros meios pelos quais a paz da alma se manifestará após a conversão; faz de alguém que não é nada, alguém que é alguma coisa, dando-lhe o dom da Filiação Divina. Afasta a cólera, os ressentimentos e o ódio pelo domínio do pecado; dá ao convertido fé em outras pessoas a quem ele agora vê como filhos potenciais de Deus; melhora a sua saúde curando os males que surgiam dum espírito desordenado, infeliz e inquieto; afasta provações e dificuldades, dá-lhe a ajuda do poder divino, fornece-lhe a todas as horas um senso de harmonia com o universo; sublima as suas paixões, torna-o menos irritado com os defeitos espirituais do mundo porque ele próprio está absorvido na busca da espiritualidade; capacita a alma a viver numa constante consciência da presença de Deus, como a terra, no seu giro em torno do sol carrega consigo a sua própria atmosfera. Nos negócios, em casa, nos deveres domésticos, na fábrica, todas as ações são feitas à vista de Deus, todos os pensamentos giram em torno das Suas Verdades. A censura não razoável, as acusações falsas, as invejas e amarguras dos outros são suportadas com paciência, como Nosso Senhor as suporta, de modo que o amor possa reinar e que Deus possa ser glorificado tanto no amargo como no doce. A dependência de Deus torna-se energia; não receamos mais levar a efeito boas obras, sabendo que Ele providenciará os meios. Mas acima de tudo, com este profundo senso de paz há o dom da perseverança, que nos inspira a nunca abandonarmos a nossa vigilância, a fugir das dificuldades ou a sentirmo-nos oprimidos á medida que a alma se apressa para a sua suprema vocação, em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Menos agradável é um efeito final da completa conversão: tornando-nos o alvo da oposição e do ódio. Um homem pode juntar-se a qualquer outro movimento, grupo ou culto sem provocar comentários hostis dos seus vizinhos e amigos; pode mesmo descobrir algum culto esotérico do sol por si mesmo e ser tolerado como um cidadão que exerce a sua legitima liberdade e satisfaz as suas próprias necessidades religiosas. Mas tão logo alguém adere à Igreja, o ódio e a oposição aparecem. Isto é porque os seus amigos intuitivamente sabem que ele não mais partilha do espírito do mundo, que é agora governado pelo Espírito, é elevado a uma ordem verdadeiramente sobrenatural, está unido com a Divindade de um modo especial, que é um desafio e uma censura àqueles que tirariam o melhor proveito de dois mundos.
Esta reação não é difícil de compreender. Esquecei, por um instante, que a Igreja existe, e suponde que aparecesse de repente sobre a terra uma instituição igualmente divina, que afirmasse ensinar a verdade tão verdadeiramente como Deus a ensina; que atraísse as crianças todas as manhãs a escolas onde elas começassem e acabassem as suas lições com orações; que proibisse a seus membros casados que desonrassem os liames do seu casamento; que ensinasse a pureza em um meio carnal; que, em todas as suas decisões sobre a sociedade, sobre os direitos do homem, sobre a política e a economia, partisse do principio de que nada realmente importa exceto a salvação de uma alma. Como a receberia o mundo? Com desconfiança, ódio, vilipêndio, perseguição e ataques implacáveis. Quando a voz é ouvida, a presença sentida, há tal oposição violenta como foi prometida: “Mas porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece” (João 15, 19).
Como consequência desta oposição a Cristo, aqueles que conhecem um convertido invocam mil explicações remotas para evitar a verdadeira razão, isto é, o apelo da Divindade. A conversão dos jovens é explicada como um fenómeno da adolescência, nos ligeiramente mais velhos, é censurada como um desgosto de amor; os maduros são apontados como culpados de uma aberração mental devida à mudança de vida; os velhos são acusados de senilidade; nos ignorantes é atribuída à ignorância; nos instruídos, causa levantamento do cenho e a reflexão: “É surpreendente! Pensava que ele fosse demasiado inteligente para essa espécie de coisa.”
É este temor de provocar a inimizade do mundo que desencoraja muitos a converterem-se. Disto o Próprio Nosso Senhor advertiu; de que outra maneira poderia o céu ser conhecido senão pela inimizade que provoca entre as pessoas do mundo? “Porque vim separar o filho do seu pai, e a filha da sua mãe, e a nora da sua sogra.” (Mat. 10,35) Neste sentindo, Nosso Senhor, de facto, trouxe uma espada, causando divisão entre os homens; mas trouxe também a paz que recompensa aqueles que, aparentemente, abandonando tudo, descobrem tudo.
Quais são as perspectivas para a conversão? Quais os homens e mulheres em separado que buscarão em um ano ou dois a Igreja? Que espécie de gente precisa de conversão? Não há temperamento especial, não há maneira única que assinale o convertido do próximo ano. Todos no mundo estão buscando certezas, paz de alma e liberdade de espírito. Na busca de todo o prazer, mesmo na procura do ilícito, todos os homens prosseguem sem cessar a sua busca do Infinito. Onde buscam eles Deus é a única questão sobre a qual os homens diferem. Nisto estão divididos como os amadores de música: a música que amamos é a música que já temos nas nossas almas. A alma desordenada gosta de música discordante; a vontade desregrada goza das dissonâncias desregradas e rejeita as sinfonias mais belas e mais bem orquestradas. Precisaria educação considerável e auto-disciplina para fazer espíritos amantes de “jazz” apreciar a abertura nº 4 das Quatro Estações, ou qualquer obra de Handel, Mozart ou Vivaldi. Contudo o amor da mesma espécie de música está em cada um; é na espécie de música de que alguém gosta que jaz a diferença e ninguém aprecia a boa música sem treino e disciplina.
Todos querem as coisas que somente um amor de Deus lhes trará, mas a maior parte dos homens de hoje procura-as nos lugares errados. É por isto que ninguém vem para Deus sem uma revolução do espírito; deve ele deixar de buscar o seu bem na impiedade. “E a condenação está nisto: a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz: porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não se chega para a luz, a fim de que não sejam reprovadas as suas obras.” (João 3,19-20) Quem quer que volte a sua face para a luz será convertido; mas esta volta deve ser feita pela sua própria livre vontade. Podemos subordinar tiranos, adular traidores, lisonjear ditadores, mas não há meio de conquistar o amor de Deus senão pelo amor. A cada alma está ele sempre dizendo: “Eis que estou á porta e bato.” (Apoc. 3,20) Recusar-nos-emos a abri-la? A cada espírito, Ele reitera: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (João 14,6) Estamos envergonhados de receber a verdade com receio de que ela exponha a nossa ignorância e perversidade, muito embora esta exposição nos leve para a glória e para a paz? A cada coração, Ele diz: “Eu sou o bom pastor.” (João 10,11) Recusarão os cordeiros amedrontados, perdidos nas sarças e moitas da vida moderna, a Sua Mão Salvadora? Há um único meio de começar uma conversão: deixar de perguntar que dareis a Deus. Não é o sacrifício que parece ser, pois tende-O, tereis tudo mais além disso.