Angustia e Paz

CAPÍTULO 2
A Filosofia da Ansiedade

Uma das características psicológicas favoritas do homem moderno é dizer que tem um complexo de ansiedade. A psicologia tem mais razão do que se suspeita, mas por motivos mais profundos do que se supõe. Não há dúvida que a ansiedade tem sido aumentada e complicada pela nossa civilização metropolitana e industrializada. Cada vez mais pessoas vêem-se afligidas por neuroses, complexos, temores, irritabilidades e úlceras. Talvez haja menos nelas esgotamento do que "tensão"; talvez sejam menos incendiadas pelas faíscas da vida diária, do que ardendo por combustação interna. Poucas dentre elas têm a dita da boa mulher negra que disse: "Quando trabalho, trabalho de verdade; quando me sento, sento-me à vontade e quando penso adormeço".

Mas a ansiedade moderna é diferente da ansiedade de épocas anteriores e mais normais. Noutros tempos os homens mostravam-se ansiosos pelas suas almas, mas a ansiedade moderna preocupa-se principalmente com o corpo. As maiores preocupações dos nossos dias são a segurança económica, a saúde, o bom aspecto, a riqueza, o prestígio social e o sexo. Quando se lêem anúncios modernos, é-se levado a pensar que a maior calamidade que poderia acontecer a um humano seria ter mãos estragadas por esfregar a panela da comida ou tosse na garganta. Esta excessiva preocupação pela segurança corporal não é saudável. Engendrou uma geração que se mostra muito mais preocupada com ter coletes salva-vidas para usar numa travessia marítima, do que pelo camarote que ocupará e de cujas comodidades disfrutará. A segunda característica da moderna ansiedade é que não se trata de um medo de perigos objetivos e naturais, como raios, feras, fome. É um temor subjetivo, vago, ao que seria perigoso se acontecesse. É por isso que se torna tão difícil lidar com gente que tem esses tipos atuais de ansiedade. Não adianta dizer-lhes que não há perigo externo, porque o perigo que eles temem está dentro deles e, por conseguinte, lhes parece anormalmente real. A sua condição agrava-se em virtude de uma sensação de impotência para evitar o perigo. Sentem constantemente uma desproporção entre as suas próprias forças e as de que dispõe aquilo que acreditam ser o inimigo. Essas pessoas tornam-se semelhantes a peixes apanhados em redes e a pássaros apanhados numa armadilha, aumentando as suas próprias complicações e ansiedades pelo ardor dos esforços desordenados para combatê-las.

Os psicólogos modernos fizeram um serviço admirável estudando as ansiedades e revelando uma fase da natureza humana que até certo ponto nos era desconhecida. [4]

Mas a causa da ansiedade é mais profunda do que a psicológica. A ansiedade pode adquirir novas formas na nossa civilização desordenada, mas a própria ansiedade sempre esteve enraizada na natureza do homem. Nunca houve uma época, nunca houve um ser humano na história do mundo, sem um complexo de ansiedade. Em outras épocas, foi estudado em todos os planos da vida. O Antigo Testamento, por exemplo, tem um livro que se ocupa unicamente do problema da ansiedade: o livro de Job. O Sermão da Montanha é uma advertência contra a pior espécie de ansiedade. Os escritos de Santo Agostinho concentram-se em torno daquilo a que ele chamava a alma inquieta. Pascal escreveu a sobre a desventura humana. Um filósofo moderno, Kirkegaard, baseia a sua filosofia sobre o temor ou Angst e Heidegger disse-nos que Dasein ist Sorge, "a existência é preocupação".

Será importante indagar a razão básica e a razão da ansiedade, partindo da actual condição histórica do homem, da qual a psicológica é apenas uma manifestação superficial. A filosofia da ansiedade encara o facto de ser o homem uma criatura decaída composta de corpo e alma. Conservando-se a meio termo entre o animal e o anjo, vivendo num mundo finito e aspirando ao infinito, movendo-se no tempo e procurando o eterno, é atraído num momento para os prazeres do corpo e no outro para as alegrias do espírito. Acha-se em um constante estado de suspensão entre matéria e espírito e pode ser comparado a um alpinista que aspira a atingir o mais elevado pico e, contudo, quando olha para baixo receia cair no abismo. Este estado de indeterminação e de tensão entre o que deveria ser e o que realmente é, este impulso entre a sua capacidade de gozo e a sua escassa realização, esta consciência da distância entre o seu anelo de um amor estável, sem saciedade, e os seus amores individuais, com a sensação intermitente de "fastio" que lhe produzem, esta oscilação entre o sacrifício de valores menores para atingir ideais mais altos e a renúncia a esses ideiais, essa solicitação do velho Adão e a formosa atracção do novo Adão, essa necessidade de escolha que lhe oferece dois caminhos… tudo isso torna o homem ansioso, quanto ao destino que o espera para além das estrelas e o torna receoso da sua queda nos abismos lá de baixo.

Em todo o ser humano, há uma dupla lei de gravitação, uma que o puxa para a terra, onde passa o seu tempo de provação, e outra que o arrasta para Deus, onde espera a sua felicidade. A ansiedade subjacente a todas as ansiedades do homem moderno provém do facto de que tenta ser ele mesmo, sem Deus, ou tentar ultrapassar-se a si próprio sem Deus. O exemplo do alpinista não é exato, pois não tem quem o ajude a chegar ao pico mais alto. O homem, porém, tem alguém que o ajuda: Deus, no mais alto cume da eternidade estende a Sua Mão Omnipotente para erguê-lo, mesmo antes do homem levantar a voz para pedir. É evidente que, mesmo se escapassemos a todas as ansiedades da vida económica moderna, mesmo que pudessemos evitar todas as tensões que a psicologia descobre no inconsciente e na consciência, ainda assim nos ficaria essa grande ansiedade básica, fundamental, que nasce da nossa condição de criaturas. A ansiedade brota fundamentalmente de desejos ilógicos, do querer a criatura algo que lhe é desnecessário, ou contrário à sua natureza, ou positivamente prejudicial à sua alma. A ansiedade aumenta na razão direta e na proporção em que o homem se afasta de Deus. Todos os homens no mundo têm um complexo de ansiedade, porque têm a capacidade de ser santos ou pecadores.

Não se acredite que o homem tem um complexo de ansiedade "porque conserva ainda vestígios da sua origem animal". A verdade é que os animais deixados a si mesmos nunca têm ansiedades. Têm temores naturais, que são bons, mas não têm angústias objetivas. Os pássaros não desenvolvem em si uma psicose, pelo facto de terem de fazer, no inverno, uma viagem para Califórnia ou para a Flórida. Um animal nunca se diminui ou deprime. Mas um homem pode fazê-lo, porque é um composto de espírito e matéria.

Quando vemos um macaco agindo tontamente, não lhe dizemos: "Não te portes como um idiota"; mas quando vemos um homem agindo estupidamente, dizemos-lhe: "Não faças macaquices". Porque um homem é espírito, tanto como matéria, por isso pode descer ao nível dos animais (embora não tão completamente a ponto de destruir a imagem de Deus na sua alma). É esta possibilidade que cria a trágedia peculiar do homem. As vacas não têm psicoses, os porcos não têm neuroses e os galinhas não se sentem frustradas (a menos que essas frustrações sejam artificialmente produzidas pelo homem).

Tampouco o homem se sentiria frustrado, ou teria um complexo de ansiedade, se fosse um animal feito apenas para este mundo. É necessária a eternidade para fazer que um homem desespere." O homem é ao mesmo tempo forte e fraco, ao mesmo tempo livre e escravo, cego e clarividente. Permanece na confluência da natureza e do espírito e acha-se envolvido ao mesmo tempo com a liberdade e a necessidade. Há sempre, em parte, um esforço para desprezar a sua cegueira superestimando o grau da sua visão e para encobrir a sua insegurança alargando o seu poder além dos seus limites” . [5]

O temor surge quando o homem percebe, mesmo vagamente, a sua contingência e a sua limitação. Não é o absoluto, embora o deseje ser. Não é sequer tudo aquilo que é, ou tudo aquilo que poderia ser. Esta tensão entre possibilidade e facto, esta oscilação entre querer estar com Deus e querer ser Deus, é um aspecto profundo da sua ansiedade. Alfredo Adler sempre salientou que por detrás das neuroses está a luta do homem para tornar-se como Deus, esforço tão impotente como a impossibilidade do alvo. A raiz de toda a tensão psicológica é basicamente metafísica.

O desespero e a ansiedade só são possíveis porque existe uma alma racional. Pressupõem a capacidade de reflexão. Só um ser capaz de se contemplar a si próprio pode temer a aniquilação em face do infinito, pode desesperar, de si ou do seu destino. O desespero, diz-nos Kirkegaard, é duplo. É um desesperado desejo de ser ou não ser. O homem, ou quer transformar-se num ser absoluto, incondicionado, independente, auto-subsistente, ou quer desesperadamente libertar-se de si próprio, das suas limitaçõs, da sua contingência e da sua qualidade de ser finito. Ambas estas atitudes manifestam a eterna revolta do finito contra o infinito: Nom serviam. Com essa revolta o homem expõe-se a comprovar a sua nulidade e a sua solidão. Em vez de encontrar um apoio no conhecimento de que, embora contingente, é mantido na existência por um Deus que o ama, procura confiança dentro de si mesmo e como necessariamente não a encontra, torna-se vítima do temor. Porque o temor está relacionado com algo desconhecido, dominante, omnipotente, que pode atacar não se sabe de onde nem quando. O temor está em toda a parte e em nenhuma parte, rodeia-nos, terrível e indefinido, ameaçando o homem com um aniquilamento que ele não pode imaginar ou mesmo conceber. Tal temor é exclusivo do homem. Porque os animais não têm alma capaz de conhecer o perfeito amor, nem têm de prestar contas da sua actuação para lá do túmulo, porque não se parecem com um pêndulo, oscilando entre a eternidade e o tempo, caracem dessas conexões eternas que o homem possui. Por conseguinte, podem ter apenas um corpo doente e nunca uma alma doente. Assim uma psicologia que nega a alma humana está em constante contradição consigo mesma. Considera o homem um mero animal e depois passa a descrever uma ansiedade humana que nunca se pode encontrar nos animais, privados de alma racional.

Uma vez que a causa básica da ansiedade do homem é a possibilidade de ser santo ou pecador, segue-se que há apenas duas alternativas para ele. O homem pode subir até o cume da eternidade, ou despenhar-se até aos abismos do desespero e da frustação. Contudo, há muitos que pensam haver ainda outra alternativa, isto é, a da indiferença. Pensam que, da mesma maneira que os ursos hibernam durante uma estação, num estado de vida latente, também eles podem dormir durante toda a vida, sem ter de escolher entre viver para Deus ou contra Ele. Mas a hibernação não é uma forma de escape. O inverno termina e é então forçado a tomar uma decisão - na realidade, a própria escolha da indiferença é de si uma decisão. Cercas brancas não permanecem cercas brancas, se nada faz para conservá-las assim; em breve se tornam cercas pretas. E como há em nós uma tendência que nos faz regredir à animalidade, o simples facto de não lhe opormos resistência trabalha para a nossa própria destruição. Justamente como a vida é a soma das forças que se opõem à morte, da mesma maneira a vontade do homem deve ser a soma das forças que se opõem à frustração. Um homem que introduziu veneno no seu organismo, pode ignorar o antídoto ou lançá-lo pela janela fora. Não faz diferença que ele assim proceda, pois, a morte já está próxima. São Paulo adverte-nos: "Como escaparemos se desprezarmos..." (Hebreus 2, 3). Pelo simples facto de não andarmos para diante, andamos para trás. Não há planícies na vida espiritual. Ou vamos subindo, ou descemos. Além de que a posição de indiferença é apenas intelectual. A vontade deve escolher. E embora uma alma indiferente não rejeite positivamente o infinito, o infinito rejeita-a. Os talentos não utilizados são arrebatados e as Escrituras dizem-nos que: "Mas porque és morno e não frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca." (Apoc. 3, 16).

Voltando às alternativas supremas, o homem pode escolher entre um amor terreno, com exclusão do Divino Amor, e um Amor divino que inclua um amor terreno saudável e sacramental. Pode tornar a alma sujeita ao corpo, ou pode tornar o corpo sujeito à alma. Consideremos primeiro aqueles que resolvem a sua ansiedade a favor da impiedade. Invariavelmente acabam substituindo o verdadeiro Deus de amor por um dos falsos deuses.

Este deus pode ser o ego, o próprio eu. Acontece isto no ateísmo quando há uma negação de dependência do verdadeiro Deus, ou quando há uma afirmação dos desejos e prazeres pessoais como lei absoluta, ou quando a liberdade é interpretada como o direito de fazer aquilo que nos apraz. Quando um desses falsos deuses é adorado, a religião é rejeitada como uma racionalização ou uma fuga ou mesmo como um receio de afirmar a própria supremacia.

Os ateus cometem o pecado de orgulho, pelo qual o homem pretende ser aquilo que não é, isto é, um deus. O orgulho é o amor desordenado de si mesmo, uma exaltação do eu condicional e relativo para um eu absoluto. Tenta saciar a sede de infinito dando à própria limitação uma pretensão a divindade. Em alguns, o orgulho cega ao eu a sua debilidade e converte-se orgulho "ardente"; em outros, reconhece a sua própria debilidade e supera-a por meio duma auto-exaltação que se torna orgulho "frio". O orgulho mata a docilidade e torna um homem incapaz de ser auxiliado por Deus. O limitado conhecimento da mente insignificante pretende ser definitivo e absoluto. Perante outros intelectos recorre a duas técnicas: a da omnisciência, pela qual procura convencer os outros da vastidão do seu conhecimento, ou a da insciência, pela qual se tenta convencer os outros do seu pouco conhecimento. Quando tal orgulho é consciente, torna-se quase incurável, pois identifica a verdade com a sua verdade. O orgulho é uma confissão de fraqueza. Teme secretamente qualquer competição e tem medo de todos os rivais. Raramente se cura, quando a própria pessoa é vertical, isto é, sã e próspera, mas pode ser curado quando o paciente é horizontal - doente e desiludido. É por isso que as catástrofes são necessárias numa época de orgulho para fazer os homens voltarem para Deus e para a salvação das suas almas.

O falso deus do ateu pode ser outra pessoa, adorada, não como detentora de valores humanos, mas como um objeto a ser devorado e usado para o prazer próprio. Em tal caso, o vocabulário da religião é invocado para rogar ao objeto: "adorar", "anjo", "culto", "deus" e "deusa". Daí nasce o pecado da luxúria, a adoração da vitalidade de outra pessoa como fim e meta da vida. Não é o resultado inevitável da carne, da mesma maneira que uma catarata não é diretamente causada pela vista; é antes devida à rebelião da carne contra o espírito e da pessoa contra Deus. Como diz Santo Agostinho:

"Se algum homem diz que a carne é a causa da corrupção da alma, mostra-se ignorante da natureza humana. Esta corrupção, tão pesada para a alma, é o castigo do primeiro pecado, e não a sua causa. Não foi a carne corruptível que obrigou a alma a pecar, mas a alma pecadora é que tornou a carne corruptível; dessa corrupção, embora dela surjam alguns incitamentos ao pecado e alguns desejos viciosos, não derivam todos os pecados de uma vida perversa, que poderiam ser atribuídos à carne. Senão teríamos de admitir que o diabo, que não tem carne, não tem pecados." [6]

A carne em revolta (ou luxúria) está relacionada com o orgulho. A conquista da pessoa desejada pode servir à necessidade que tem o indivíduo de excessiva auto-exaltação. Mas a luxúria consumada leva ao desespero (ou ao oposto da auto-exaltação) pela tensão interior ou loucura resultante de uma consciência inquieta. É este efeito que a divorcia de um fenómeno puramente biológico, pois em nenhuma criatura, a não ser no homem, existe qualquer ato que envolva tal interatividade de matéria e espírito, de corpo e de alma. É desnecessário observar que a luxúria não é o sexo, no sentido ordinário do termo, mas antes a sua desorientação – sinal de que o homem se tornou excêntrico, isolado de Deus e enamorado do fisicamente bem com tal excesso que é como a serpente que devora a sua própria cauda e eventualmente se destrói a si própria.

O deus do incrédulo podem ser coisas por meio das quais busca remediar a sua própria sensação de nulidade. Alguns homens procuram essa compensação na riqueza, que lhes dá uma falsa sensação do poder. O luxo externo é procurado para ocultar a nudez da alma. Tal culto da riqueza leva à tirania e à injustiça para com os outros, do qual nasce o pecado da avareza.

A avareza é a expressão material da própria insuficiência pessoal e um desafio à sublime verdade que “a nossa suficiência vem de Deus”. Enchendo o seu próprio vazio no armazém do terreno, a alma espera encontrar afinal uma fuga temporária da própria Divindade. Todo o intenso interesse pelo luxo é sinal de pobreza interior. Quanto menos graça existe na alma, tanto mais enfeite deve haver sobre o corpo. Foi somente depois da sua queda que Adão e Eva perceberam que estavam nus. Quando as suas almas eram ricas da justiça original, os seus corpos viviam tão inundados do seu reflexo que não sentiam necessidade de roupas. Mas, uma vez perdida a graça interior, procuraram uma compensação no material, no exterior.

A excessiva dedicação à segurança temporal é um dos meios pelos quais se manifesta a perda da segurança eterna de uma sociedade. A procura da riqueza e do luxo pode ser infinita e satisfaz por um momento as almas sem Deus. Um homem pode chegar a um ponto em que já não lhe interesa acumular mais objectos, mas não em acumular créditos, porque essas ambições são infinitas. E assim o homem trata de converter-se em Deus, satisfazendo ilimitados desejos de riquezas, quando se empobrece interiormente. “A vida quer segurar-se contra o vazio que se agita no íntimo. O perigo do eterno vazio deve ser compensado pelo prémio da segurança temporal: segurança social, pensões por velhice, etc. Surge não só o desespero metafisico como a angústia material.” [7]

Orgulho, luxúria, avareza; o diabo, a carne e o mundo; o orgulho da vida; a concupiscência da carne e a concupiscência dos olhos – constituem a nova trindade profana em virtude da qual o homem é afastado da Santíssima Trindade e da descoberta da finalidade da vida. Foram estas três coisas que Nosso Senhor descreveu na parábola daqueles que ofereceram desculpas por não ter comparecido ao banquete; um recusou, porque tinha comprado um campo, outro porque tinha adquirido uma junta de bois e o terceiro porque tinha casado. O amor de si próprio, o amor à pessoa e o amor à propriedade não são em si mesmos censuráveis, mas tornam-se maus quando se tornam fins, quando são desviados da sua verdadeira finalidade, que é conduzir-nos a Deus. Porque há alguns que abusam do amor a si próprios, do amor à pessoa e do amor à propriedade, encorajou a Igreja a fazer os três votos de obediência, castidade e pobreza, como reparação por aqueles que convertem em deuses as suas opiniões, a sua carne e o seu dinheiro. A ansiedade e a desilusão apresentam-se invariavelmente, quando os desejos do coração estão concentrados sobre algo menor que Deus, pois todos os prazeres da terra, perseguidos como fins definitivos, vêm a ser exatamente o oposto do que se esperava. A expectativa é jubilosa, a realização produz desgosto. Dessa desilusão nascem essas ansiedades menores que a moderna psicologia conhece tão bem. Mas a raiz delas todas é a falta de sentido da vida devido ao abandono da Vida Perfeita, da Verdade e do Amor, que é DEUS.

A alternativa para tais ansiedades consiste em abandonar-se, não por uma rendição do espírito ao mundo, à carne e ao demónio, mas por um ato de verdadeiro abandono, no qual o corpo seja disciplinado e submetido ao espírito e toda a personalidade dirigida para Deus. Então a ansiedade básica da vida é superada de três modos, cada um dos quais proporciona uma tranquilidade espiritual de que só gozam os que amam a Deus: 1. Domínando os desejos; 2) transferindo a ansiedade do corpo para a alma; 3) submetendo-se à Vontada de Deus.

1. Dominando os desejos: As ansiedades e frustações são devidas a desejos desordenados. Quando uma alma não consegue o que deseja, cai na melancolia e na angústia. Em outras gerações os desejos dos homens eram menos numerosos e mais dominados. Hoje até mesmo os luxos são considerados necessidades. A frustração aumenta na razão direta e na proporção do nosso fracasso em obter as coisas que acreditamos essenciais ao nosso prazer. Uma das maiores decepções de hoje é a crença de que a ociosidade e o dinheiro são essenciais à felicidade. A triste verdade da vida é que não há na terra pessoas mais desiludidas do que aquelas que nada têm que fazer e aquelas que têm dinheiro demais para o seu próprio bem-estar. O trabalho nunca matou ninguém, mas a preocupação sim. Muitos reformadores supõem que a principal e maior causa da infelicidade é a insegurança económica, mas esta teoria esquece que há problemas económicos apenas porque os homens não resolveram o problema das suas próprias almas.

A desordem económica é um sintoma de desordem espiritual.

Dominar a ansiedade não significa eliminar os nossos desejos, mas antes dispô-los hierarquicamente, como Nosso Senhor nos recordou quando disse que a vida é mais do que o vestido. Esta pirâmide de valores coloca as coisas na parte inferior, e por coisas entende-se tudo que é material no universo, desde a estrela que inspira o poeta ao trigo transformado em pão pelo padeiro. Acima das coisas vem o homem e no vértice da pirâmide está Deus. Um homem religioso ordena a sua vida de acordo com o modelo da pirâmide. Domina a ansiedade, sujeitando todas as coisas materiais ao ser humano, disciplinando o corpo até sujeitá-lo ao espírito e submetendo toda a personalidade a Deus. “Porque tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus.” (1 Cor. 3, 22-23). Enquanto a alma reconhece que está feita para Deus, abandona a ideia burguesa de que todas as pessoas devem ser julgadas pelo que possuem. Daí resulta não só uma renúncia ao mal, mas até mesmo uma voluntária entrega de algumas coisas lícitas, a fim de tornar o espírito mais livre para amar a Deus. Quando os sacrifícios de Nosso Senhor se tornam a inspiração de uma vida, então as suas cargas são levadas com algo mais do que resignação; são aceitas como apelos providenciais a uma maior intimidade com Ele.

Mas inteiramente à parte dos motivos cristãos, mesmo encarando-se de um ponto de vista puramente natural, é sábio da parte do homem renunciar a alguns desejos, simplesmente porque a alma não pode encontrar satisfação ao realizá-los. O desejo da riqueza é um deles. Há duas espécies de riqueza: a natural, que toma a forma do necessário (alimento, roupa e abrigo) para sustentar a vida do indivíduo ou da família; e a artificial, que é o dinheiro, o crédito, valores e ações. É possível a um homem satisfazer os seus desejos de riqueza natural, porque o seu estômago atinge facilmente um ponto em que não pode consumir mais alimentos. Mas não há limite para o desejo da riqueza artificial. Um homem que possui um milhão nunca está satisfeito com esse milhão. Há certa infinidade falsa a respeito da riqueza artificial, porque um homem pode desejá-la sempre mais e mais. como a riqueza natural impõe os seus próprios limites, a agricultura e a jardinagem contam-se entre as mais satisfatórias experiências da vida humana.

Se desejamos riquezas, nunca nos cansamos delas. E sentimo-nos frustrados. Há uma diferença psicológica entre “frustração” e “renúncia”. A frustração só ocorre quando o homem se sente uma vítima passiva de forças extrínsecas, contra as quais é impotente; a renúncia brota da livre decisão do homem. Os pais reconhecem esta diferença; uma criança que se apoderou de uma coisa que lhe não é permitido ter, diz-se-lhe: “Dá-me, ou terei que tirá-la.” Muitas vezes a criança renunciará à coisa, em vez de ver-se dela privada à força. As palavras dirigidas à criança deixaram-lhe este meio de salvaguardar a sua dignidade e independência: faz aquilo que deveria fazer, mas pelo menos com uma certa aparência de liberdade. E essa liberdade é importantíssima. Se o homem pode convencer-se de que não necessita verdadeiramente disto ou daquilo (embora possa desejá-lo), ao abandonar esse desejo não se sentirá frustado. Só se sente frustrado, quando a renúncia é forçada.

Os desejos não dominados crescem como joios e sufocam o espírito. As riquezas materiais produzem relativo prazer por algum tempo, mas mais cedo ou mais tarde experimenta-se um mal-estar, uma sensação de vacuidade, um sentimento de que algo de errado se apodera da alma. É este o meio pelo qual Deus diz que a alma está faminta e que somente Ele pode satisfazê-la. E o Salvador estende o convite a essas almas modernas frustradas, famintas e ansiosas:: “Vinde a mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mat. 11, 8)

2. A segunda forma em que o homem pode dominar a sua nociva ansiedade é a de transferir a sua preocupação do corpo para a alma, mostrando-se sabiamente ansioso. Pois há duas espécies de ansiedade, uma que se refere ao tempo, outra à eternidade. A maioria das almas mostram-se ansiosas justamente por coisas que não mereceriam ser objeto de preocupação. O Nosso Divino Mestre mencionou pelo menos nove coisas a respeito das quais não nos deveríamos preocupar: a morte corporal; o que deveremos dizer em dias de perseguição, quando formos intimados a comparecer perante magistrados; se devemos ou não construir outro celeiro (ou outro arranha-céus); discussões de família por havermos aceitado a fé; problemas com a sogra; os nossos alimentos, as nossas bebidas, as nossas modas, a nossa aparência (Lucas 12). Disse-nos que deveríamos ficar bastante ansiosos a respeito de uma coisa e de uma só coisa – a nossa alma (Mat. 16, 24-28).

Nosso Senhor não quer significar que as atividades comuns são desnecessárias. Disse somente que se ficarmos ansiosos a respeito das nossas almas as ansiedades menores desaparecerão: “Procurai em primeiro lugar (e não somente) o reino de Deus e a Sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.” (Lucas 12, 31). Era comum ficar o verdadeiro cristão separado dos outros pela intensidade da sua saudável angústia a respeito da sua alma. Agora ele é diferenciado pelo simples facto de que acredita ter uma alma para salvar. A ansiedade está presente em todo o amor, e cada ser humano tem de amar, sob pena de enlouquecer, porque nenhum homem é suficiente por si mesmo. Dirigi o amor para Deus e a paz descerá sobre a alma. Desviai-o de Deus e o coração tornar-se-á uma fonte partida onde lagrimas caem “dos ansiosos ramos do cérebro.” Quanto mais nobre for o coração que se parte, na sua recusa de mostrar-se ansioso a respeito do amor de Deus, tanto mais mesquinho se tornará na sua falta de amor e na sua impiedade. Mas há esperança: quanto maior a frustração, quanto mais complexa a ansiedade da alma irreligiosa, quanto mais capaz de ser metamorfoseada em santo.

Há esperança para todos. As coisas que alguém fez passam, quem as faz permanece responsável pelos seus atos futuros. E pode começar a cultivar agora uma sã ansiedade. Embora as almas modernas não saibam, as coisas pelas quais mais ansiosas se mostram são apenas meros substitutos de Aquele que unicamente pode acalmar os seus espíritos. Charlatões há que aconselham o homem a esquecer a eternidade e a satisfazer os seus desejos corporais; mas que homem quereria ser apenas uma vaca satisfeita? O caminho do Senhor para ser feliz é concentrar-se na porta estreita: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz á perdição, e muitos são os que entram por ela. Que estreita é a porta e que apertado o caminho que conduz à vida, e quão poucos são os que acertam com ela.” (Mat. 7, 13-14)

3. A terceira forma de superar as ansiedades consiste em aumentar a nossa confiança em Deus. O amor é recíproco, é recebido na proporção em que é dado. Geralmente confiamos apenas naqueles que confiam em nós. É por isso que há uma providência especial para aqueles que confiam em Deus. Compare-se duas crianças, uma de uma família feliz, bem alimentado, vestido e educado; a outra, um órfão sem lar, das ruas. A primeira criança vive num ambiente de amor; a segunda está longe desse ambiente e não goza de nenhum dos seus privilégios. Muitas almas preferem deliberadamente excluir-se da área de Amor do Pai Celestial, onde poderiam viver como Seus filhos. Confiam apenas no seu próprio engenho. na sua conta bancaria, nos seus recursos.. Isto é particularmente verdade a respeito de muitas famílias que consideram a educação das crianças apenas como um problema económico, e nunca invocam o Amor do Pai Celestial. São como um filho que em tempos de necessidade nunca se socorre do auxílio do seu pai rico. O resultado é perderem muitas das bênçãos reservadas àqueles que se lançam nos braços amorosos de Deus. Esta lei aplica-se tanto às nações quanto aos indivíduos:” Porque tiveste confiança no rei da Síria e não no Senhor teu Deus, em consequência o exército do rei da Síria escapou das tuas mãos. ” (2 Cr. 16, 7). Muitos favores e bênçãos estão pendentes do Céu para aliviar as nossas ansiedades temporais, bastando apenas que as cortássemos com a espada da nossa confiança em Deus. O alívio de todas as nossas erradas ansiedades vem, não de nos darmos a Deus pela metade, mas em virtude de um amor abrangente, ao qual regressamos não com medo ao passado, ou com ansiedade pelo futuro, mas para descansar sossegadamente na Sua mão, não tendo outra vontade senão a d'Ele. Então as antigas sombras da vida são vistas como “A sombra da Sua Mão estendida acariciadoramente.”

Todos têm alguma vez ansiedade; afortunadamente, nem todos têm um complexo de ansiedade. Um complexo, de acordo com o uso da psicologia contemporânea, é um grupo de memórias e desejos dos quais não temos consciência, mas que, não obstante, afetam a nossa personalidade. Um complexo de ansiedade seria um sistema de memórias infelizes submersas no inconsciente e produzindo muitas espécies de sintomas. A diferença entre paz de alma e descontentamento vem da espécie de ansiedade que temos. A mais larga separação de todas está entre a ansiedade pelas coisas do tempo e a ansiedade pelos valores de eternidade. Das primeiras, disse Nosso Senhor: “Não vos preocupeis, pois o vosso Pai Celestial sabe o que vos é necessários.” (Mat. 6, 8). A segunda espécie de ansiedade é normal porque está ligada à liberdade humana e é um resultado da nossa condição de criaturas. Esta ansiedade é uma inquietação por qualquer coisa que não seja a perfeita felicidade que é Deus.

Em definitiva, a ansiedade, ou temor, relaciona-se com a limitação do homem e com o seu vago conhecimento de um ser infinito, em comparação com o qual ele é quase nada. O homem, já se disse, pode tentar falsamente superar a sua limitação negando a sua condição de criatura (que é o orgulho), ou fugindo para uma idolatria da sensualidade. Porque o temor é uma reação a um perigo humano e, como diz São Tomás, está sempre misturado a certo grau de esperança. Mas o temor que desconhece toda a esperança exprime-se de maneiras despropositadas, pois não tem causa evidente e vem da sensação semiconsciente que o homem tem da precariedade do seu ser. Desta maneira o temor relaciona-se com a ideia de morte, a grande incógnita, a única coisa inevitável de que o homem não tem conhecimento experimental. Quando este temor se resolve devidamente reconhecendo a nossa dependência de Deus, torna-se o caminho para a paz da alma. Mas ninguém no mundo, mesmo neste caso, pode escapar à ansiedade ou deixar de lado a sensação de tensão entre o finito e o infinito. Tal ansiedade normal pode estar encoberta, mas surgirá em alguma parte, de algum modo. Alfredo Adler teve um vislumbre desta verdade, quando disse que os neuróticos são animados por uma ambição desregrada de ser “como Deus”. As várias tensões que a psicologia estuda são muitas vezes os reflexos das mais profunda tensões metafísicas, inerentes a todo o ser humano, entre o seu ser contingente e limitado e o Ser Absoluto e Infinito. Esta tensão não seria sentida, se o homem não fosse livre e não tivesse a responsabilidade de escolher entre a sua frustração e a auto-perfeição pelo uso das criaturas como um caminho para Deus.

A tranquilidade espiritual chega somente àqueles que têm uma ansiedade normal quanto a alcançar a perfeita felicidade que é Deus. Uma alma tem ansiedade porque o seu estado final e eterno ainda não foi decidido; está ainda e sempre nas encruzilhadas da vida. Esta ansiedade fundamental não pode ser curada por uma submissão às paixões e aos instintos. A causa básica da nossa ansiedade é uma inquietação dentro do tempo, que sobrevém porque somos feitos para a eternidade. Se houvesse em alguma parte da terra um lugar de repouso que não fosse Deus, poderíamos estar bem certos de que a forma humana, na sua longa história, já o teria descoberto. Como disse Santo Agostinho: “Os nossos corações foram feitos para Ti e estarão intranquilos enquanto não repousarem em Ti, ó Deus.”

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