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CAPÍTULO 5
Mobirdez e Negação da Culpa
Nenhuma influência única tem feito mais para impedir o homem de descobrir Deus e reconstruir o seu caráter, tem feito mais para baixar o tom moral da sociedade, do que a negação da culpa pessoal. Este repúdio da responsabilidade pessoal do homem pela sua ação é falsamente justificado de dois modos: admitindo que o homem é apenas um animal e dando ao senso de culpa o estigma de “mórbido”.
As desculpas novas – mas é antigo o esforço para escapar à responsabilidade dos nossos atos maus. Através das idades, o homem tem sempre tentado descobrir alguma coisa que censurar além de si próprio, isto é, a pobreza, o ambiente, os sistemas económicos, políticos e financeiros, ou a sociedade em geral. Mas todas essas coisas deixam inteiramente de convencer. Estavam claramente por demais relacionadas com a pessoa, embora todas sejam extrínsecas. Recentemente, os materialistas descobriram um novo bode expiatório, não na natureza, não na sociedade, mas dentro do próprio homem, isto é, o seu inconsciente. A culpa estava agora, não nas estrelas, mas naquela parte de nós mesmos que não podia ser tomada como responsável. Além disso, proclamou-se que a perturbação só podia ser controlada elevando-se o inconsciente desviado ao nível do consciente, por meio da psicanálise.
Para evitar mal-entendidos, fique logo aqui estabelecido inequivocamente: não há nada de errado, há mesmo alguma coisa de recomendável num método psicológico que cura as desordens mentais, tornando o inconsciente consciente. E, mesmo fora de verdadeiros desarranjos, os homens podem sofrer certos distúrbios em virtude dum complexo sem causa moral ou ética. Tratando de tais casos tem a ciência médica vasta área em que pode legitimamente operar. Estamos interessados e interessados somente nos métodos de tratamento que negam toda a responsabilidade moral e atacam o facto de admitir o paciente o seu pecado e as suas culpas pessoais, dizendo-lhe que a ideia de pecado induz à morbidez ou a um complexo de culpa, tornando-o anormal.
Tais psiquiatras fariam de toda a gente, gente "bem", complacente, com liberdade de culpa ou pecado. Graças a um toque mágico, o mundo ficaria livre da gente sórdida, ou daqueles que reconhecem que são pecadores. Esta concepção revela uma chocante ignorância da natureza humana. A verdade é que há um aumento das desordens mentais em grande escala, porque muitas pessoas pensam que são decentes, quando realmente são imundas. Foi esta a mensagem que Nosso Senhor apresentou na parábola dos dois homens que foram ao templo rezar. Parafraseando a história do fariseu (que era um homem muito decente), podemos imaginá-lo a rezar diante do altar da maneira seguinte: “Agradeço-te, ó Senhor, o ter meu conselheiro freudista dito que não há isso que se chama culpa que o pecado é um mito e que Tu ó Pai, és apenas uma projeção do meu complexo paterno. Talvez haja algo de desviado em meus instintos recalcados, mas com a minha alma tudo está em ordem. Contribuo com 10 por cento das minhas rendas para a Sociedade de Eliminação das Superstições Religiosas, e faço regime, para conservar a minha linha, três vezes por semana. Oh! Agradeço-te não ser eu como o resto dos homens, essa gente imunda, como aquele cristão ali na parte de trás do templo, que pensa que é um pecador, que a sua alma precisa de graça, que a sua consciência está sobrecarregada de violência e que o seu coração verga ao peso de um crime de injustiça. Posso ter um complexo de Édipo, mas pecados não tenho.”
Enquanto isso, lá no fundo do templo, um indivíduo imundo de vez em quando bate nos peitos e diz, “Ó Deus, tende misericórdia de mim que soupecador. ” (Lucas, 18,13) Nosso Senhor nos diz que ele voltou para casa justificado.
O fariseu que subiu ao templo para rezar tem milhões de descendentes em linha reta nesta nossa geração, que dizem: “Não tenho necessidade de um código ou de um credo.” Nisto são eles semelhantes à criancinha de cinco anos tocando piano, que faz soar a notas, batendo-as umas após outras. Como não tem regra fixa, jamais poderá merecer censura por bater uma “nota falsa”. Não professando ideal em moralidade essa gente "bem" jamais pode ser acusada de não viver de acordo com o seu credo. É esta a grande vantagem que tem sobre os cristãos, cujo credo é tão elevado que eles podem muitas vezes e com toda a razão ser acusados de não ir ao encontro das suas exigências.
Efeitos bastante danosos podem decorrer da aceitação da filosofia que nega a culpa ou o pecado pessoal e, portanto, torna todos decentes. Negando o pecado, a gente decente torna a cura impossível. O pecado é muito sério e a tragédia aprofunda-se pela negação de que somos pecadores. Se os cegos negam que são cegos, como chegarão alguma vez a ver? O pecado realmente imperdoável é a negação do pecado, porque, pela sua natureza, não há nada agora a ser perdoado. Recusando-se a admitir a culpa pessoal, a gente "bem" transforma-se em difamadora, boateira, mexeriqueira e supercrítica, pois devem projetar a sua culpa real, embora não reconhecida, sobre os outros. Isto, novamente, lhes dá uma nova ilusão de bondade: o aumento dos detratores está na razão direta e na proporção da negação do pecado. (A gente sórdida não gosta de mexericar a respeito das faltas alheias, porque tem consciência apenas das suas próprias culpas.)
É facto de humana experiência que quanto mais experiência temos do pecado – do nosso próprio pecado – tanto menos temos consciência dele. Em todas as outras coisas aprendemos pela experiência; no pecado, desaprendemos pela experiência. O pecado invade o sangue, as células nervosas, o cérebro, os hábitos, a mente e quanto mais penetra ele um homem, tanto menos percebe este a existência do pecado. O pecador torna-se tão acostumado ao pecado que deixa de reconhecer a sua gravidade. Era esta a sinistra ideia que havia por trás da tentação de Satanás a Eva. Satanás disse-lhe que se ela possuísse o conhecimento do bem e do mal, seria como Deus. Satanás não lhe disse a verdade real; que Deus conhece o mal apenas negativamente, intelectualmente, como um médico que nunca teve pneumonia a conhece como a negação da saúde. Mas um ser humano, conhecendo o mal inteiramente, deve conhecê-lo experimentalmente, isto é, o mal penetraria no seu sistema e tornar-se-ia parte dele. Como a catarata no olho cega a visão, da mesma forma o pecado sempre escurece o intelecto e enfraquece a vontade, deixando um viés para a prática de outro pecado. Cada pecado torna o outro mais fácil, a consciência menos censuradora, a virtude mais detestável e a atitude para com a moralidade mais desprezadora. Em algumas pessoas, o pecado age como um cancro, minando e destruindo o caráter por longo tempo, sem quaisquer efeitos visíveis. Quando a doença se torna manifesta, já progrediu tanto que quase se perdeu a esperança de uma cura.
Kierkegaard, com a sua habitual penetração, mostrou que há um desespero que o homem não pode facilmente compreender. Prevalece no pecador que se coloca contra Deus, que quer ser o seu próprio deus e legislador e, portanto, quer ser mais do que a natureza de qualquer homem pode permitir. Quer desesperadamente ser ele mesmo (possuir uma plenitude de ser que só tem por igual a de Deus) e de maneira igualmente desesperada não ser ele mesmo (não ser criatura finita, que não pode deixar de saber que é, por mais que tente ocultar este facto à sua própria consciência).
Raras vezes se revoltará um homem abertamente contra o Infinito. Se o homem sabe que se revoltou e pecou e ainda assim não aceita as consequências, tenta minimizar o pecado com desculpas, como fez Caim. Mas o homem moderno perdeu a compreensão do próprio nome de “pecado”. Quando peca e, de certo modo, sente os efeitos (como todos os homens devem sentir), procura alívio em cultos escapistas, ou em hábitos escapistas de beber ou tomar drogas. Atribui também a culpa da sua doença à esposa, ao seu trabalho, aos seus amigos, ou à ordem económica, social e política. Muitas vezes se lamentará de excesso de trabalho e “tensão”, desenvolverá sintomas de fraqueza física, tudo esforços inventados para evitar encarar o facto de haver pecado. Pode – e frequentemente – torna-se um neurótico. Se a sua neurose já se adiantou o bastante, ouvirá da boca de algum psicanalista que não é plenamente responsável pelas suas ações porque é “um doente”. Isto lhe dá um pretexto adicional para não reconhecer os seus pecados.
Se permanecermos no pecado pela negação do pecado, o desespero toma conta das nossas almas. Um pecador pode pecar tanto que não reconheça o caráter totalitário do seu pecar. Nunca considera o seu pecado atual como uma unidade a mais somada a milhares de outros pecados. Viajar a setenta milhas à hora num automóvel já é excessivo. Mas se acrescentarmos vinte milhas mais, o perigo aumenta. Os pecados de que não nos arrependemos geram novos pecados e o vertiginoso total provoca desespero. A alma diz então: “Avancei demasiado”. O ébrio amedronta-se com um dia sóbrio por causa da clareza de visão do seu próprio estado que ele acarreta. Quanto maior a depressão, tanto mais um pecador necessita de escapar a ela, por meio de outros pecados, até que se põe a gritar com Macbeth, no seu desespero:
“Vivi um tempo abençoado;
Mas a partir daquele instante,
Nada há de sério entre os mortais,
Tudo não passa de brinquedos:
Mortos estão renome e glória...”
A condição de desespero produzida pelo pecado sem arrependimento atinge muitas vezes um ponto em que há um positivo fanatismo contra a religião e a moralidade. Aquele que decaiu da ordem espiritual odiá-la-á, porque a religião lhe lembra a sua culpa. Maridos infiéis baterão nas suas fiéis esposas. Mulheres infiéis acusarão os seus maridos de infidelidade. Tais almas atingem finalmente um ponto em que, como Nietzsche, querem aumentar o mal, até que toda a distinção entre o mal e o bem seja apagada; então podem pecar impunemente e dizer com Nietzsche: “Mal, sê o meu bem”. A conveniência pode então substituir a moralidade, a crueldade torna-se justiça, a luxúria amor. O pecado multiplica-se em tal alma até que ela se torna residência permanente de Satanás, amaldiçoada por Cristo como um dos sepulcros caiados de branco deste mundo.
Tal é a história de uma pessoa "bem”, que acredita que nunca peca.
A gente "bem" não se aproxima de Deus, porque pensa que é boa, graças aos seus próprios méritos, ou má, graças a instintos herdados. Se praticam o bem, acreditam que devem merecer crédito por isso; se praticam o mal, negam que seja culpa deles próprios. São bons graças à bondade do seu próprio coração, dizem eles; mas são maus porque são infelizes, quer na sua vida económica, quer em virtude de uma herança de um genes maus dos seus avós. A gente "bem" raramente se aproxima de Deus. O tom da sua moral é tirado da sociedade que vivem. Como o fariseu diante do altar, acreditam que são cidadãos respeitabilíssimos. A elegância é a sua prova de virtude. Para eles a moral é a estética, o mal é o feio. Cada movimento que fazem é ditado, não por um amor da bondade, mas pela influência da sua época. As suas inteligências são cultivadas no conhecimento dos acontecimentos correntes. Leem somente os “best-sellers”, mas os seus corações são indisciplinados. Dizem que iriam à Igreja, se a Igreja fosse um pouco melhor, mas nunca nos dizem quão melhor a Igreja deveria ser, antes que eles a ela se juntassem. Condenam muitas vezes os grandes pecados da sociedade, tais como um assassinato. Não são tentados a pecados dessa natureza, porque receiam o opróbrio que sobrevém àqueles que os cometem. Evitando os pecados que a sociedade condena, escapam à censura, consideram-se bons por excelência.
Contudo o que levou o nosso Bendito Senhor a censurar não foi a maldade, mas justamente uma bondade semidireita como essa. Não encontramos palavras de condenação proferidas contra Madalena, que vivia dominada pelo problema sexual, ou contra o ladrão arrependido, que achava difícil respeitar os bens alheios, mas O vemos censurando contra os escribas e os fariseus, que eram homens decentes e semidireitos. Contra eles, proferiu as suas maldições: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas.. .” (Mat. 23,15) “Condutores cegos que filtrais o mosquito e engulis o camelo.” (Mat. 23,24) “Serpentes, raças de víboras como escapareis da condenação ao inferno? ” (Mat. 23,33) “Ai de vós,escribas e fariseus hipócritas: porque sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que por fora parecem formosos aos homens, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a podridão. ” (Mat. 23,27) Disse que as meretrizes e os traidores entrariam no Reino dos Céus antes dos cheios de si próprios e dos presumidos. A respeito de todos aqueles homens que fazem doações a hospitais, bibliotecas e obras públicas, para terem os seus nomes gravados em pedra, lembrando-os aos seus semelhantes, disse: “Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa.” (Mat 6,2) Queriam apenas a glória humana e obtiveram-na. Nem uma vez sequer Nosso Bendito Senhor se mostra indignado contra aqueles que já estão, aos olhos da sociedade, abaixo do nível da lei e da respeitabilidade. Atacou apenas a fingida indignação daqueles que vivem mais no pecado do que o pecador e que se sentem agradavelmente virtuosos, porque descobriram alguém mais vicioso do que eles. Não condenava aqueles a quem a sociedade condenou; as suas palavras severas foram poupadas para aqueles que tinham pecado e cujos pecados não tinham sido descobertos. Foi por isso que Ele disse à mulher apanhada em pecado: “O que de vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra”. (João 8,7) Somente a inocência tem direito a condenar. Não queria Ele acrescentar a Sua carga de acusação àquela que já tinha sido lançada contra os borrachos e os ladrões, os revolucionários baratos, as mulheres de má vida e os traidores. Eram o alvo de todos e todos sabiam que eles estavam errados.
E as pessoas que preferiram fazer guerra contra Nosso Senhor nunca foram aquelas a quem a sociedade condenara como pecadores. Daqueles que O sentenciaram à morte, nenhum jamais tivera ficha na polícia, jamais fora detido, jamais se soubera que houvessem caído ou fraquejado. Mas entre os Seus amigos que choraram a Sua morte, achavam-se convertidos dentre ladrões e prostitutas. Os que estavam alinhados contra Ele eram a gente decente, altamente colocada na sociedade, a gente mundana e próspera, os homens dos grandes negócios, os juízes dos tribunais que governam por conveniência, os indivíduos de “mentalidade cívica”, cujo autêntico amor próprio era supervenerado com pública generosidade.
Por que O odiavam? Porque, durante toda a Sua vida, estivera a rasgar as máscaras de falsa bondade da gente decente, expondo o mal de homens e mulheres que viviam de acordo com os padrões convencionais do Seu tempo.
Finalmente chegou uma ocasião em que os acusados não puderam tolerar por mais tempo as Suas censuras àquilo que eles eram. Nosso Senhor foi crucificado pela gente decente que afirmava que a religião estava muito bem no seu lugar, enquanto o seu lugar não fosse aqui, onde pudesse exigir deles uma mudança de coração. A Cruz do Calvário ergue-se na encruzilhada de três prósperas civilizações, como eloquente testemunho da incómoda verdade de que a gente bem sucedida, os líderes sociais, aqueles que são rotulados de “decentes” são os mais capazes de crucificar a verdade Divina e o Amor Eterno.
O erro mais grave da gente decente em todas as eras é a negação do pecado.
Contudo é a negação do pecado. Contudo é esta uma atitude desesperada e ilógica que qualquer homem possa tomar. Mesmo na ordem natural, as leis não podem ser infringidas sem desastrosas consequências. A lei da gravidade auxiliará um homem que construir o lado da sua casa direito e a prumo; mas a lei da gravidade estará contra ele e fará a sua casa vir abaixo se ele construir fora de prumo. A desobediência às leis naturais acarreta punição. A astronomia revela que, de vez em quando, certas estrelas saem das suas órbitas. Como castigo dessa desordem, desfazem-se a si mesmas em chamas no espaço.
É lei da natureza que o mais alto objeto controlará o mais baixo em toda a hierarquia de Deus. Na ordem biológica, a morte é o domínio de uma ordem mais baixa sobre uma ordem mais alta. Pois a morte sucede quando as forças vitais não mais podem integrar, nos interesses do ser total, aqueles processos físicos e químicos que se passam continuamente nas células do organismo. A vida tem sido definida como a soma das forças que resistem à morte, que impedem esta revolta da ameba. Gradativamente, à medida que envelhecemos, o processo da vida consome a substância das células e diminui o poder das nossas várias funções vitais. Os nossos processos químicos tornam-se cada vez mais independentes das forças vitais controladoras, e a sua rebelião torna crescentemente mais difícil ao organismo harmonizar as suas atividades com os interesses do homem total. Nesse preciso ponto, em que há um equilíbrio de forças a favor dos processos puramente químicos em contraposição aos poderes controladores vitais, a morte ocorre. Tendo realizado a sua plena independência, os processos químicos tornaram-se capazes de quebrar a integridade do organismo. Tal é a história de todos os seres terrestres.
Na vida humana a hierarquia estende-se mais alto, há uma superestrutura acima do físico e a mesma grande lei se aplica aqui também. Pois o homem é feito de tal maneira, que, quando tudo está em ordem, a ordem moral assume a supremacia sobre o instintivo e o físico. No momento em que num homem o carnal passa a dominar o espiritual, quando o ego triunfa dos impulsos sociais, quando o material domina o ético, um domínio de uma ordem mais baixa sobre uma ordem mais alta acaba de ocorrer. De novo isto resulta em morte – a morte chamada pecado. “Porque o preço do pecado é a morte. ” (Rom. 6,23.)
Não pode o homem romper impunemente as leis da sua própria natureza. O castigo que invariavelmente se segue a tais tentativas de rebelião pode ser mais aparente na ordem psicológica. Por exemplo, é claro que toda a pessoa concentrada em si mesma é uma pessoa frustrada. Por que deve ser assim? Porque a frustração se produz, quando um anseio natural encontra um obstáculo insuperável. Para encontrar satisfação necessita de todo o anseio natural de estar voltado para um objeto; até que isso ocorra, permanece ele um anseio, uma inclinação para certa espécie de realização. Mas a realização do anseio só pode ocorrer por meio de alguma coisa que seja ela própria real. Sendo o anseio, como tal, mera potência, não pode procurar a sua própria satisfação. O que a produz é o objeto para o qual a potência está ordenada. Enquanto estiver a pessoa interessada exclusivamente em si mesma, em vez de entregar-se ao mundo objetivo dos encargos e deveres, tal realização não pode efetuar-se e produz-se a frustração. Violando a lei da natureza, atrai assim o homem sobre si mesmo a frustração e o descontentamento.
Todo o homem e toda a mulher vivos experimentam um senso de culpa quando violam uma lei natural. Como disse Séneca: “Toda a pessoa culpada é o seu próprio carrasco”. Toda a pessoa culpada está também cheia de temor, pois “a consciência faz covardes a todos nós”. Em vez de chamar o pecado uma ficção, seria mais verdadeiro chamá-lo de fricção, uma “coceira irritante”. O senso de culpa de pecado que não se quer admitir explica muitas das doenças psicológicas do homem moderno. Contudo seria erróneo dizer que o factor moral está sempre por trás das desordens mentais, pois não é assim. As doenças mentais, usando a frase no estrito sentido do termo, podem ter causas físicas, tais como orgânicas alterações do cérebro, distúrbios nas glândulas endócrinas, malformações no sistema nervoso central e outras coisas semelhantes. Aqui abstraímo-nos inteiramente de todas as teorias a respeito da origem da esquizofrenia, tais como aquela que afirma ser ela devida a anormalidades do “nível molecular” e a teoria das causas psicogenéticas da “loucura maníaco-depressiva”. Estamos aqui tratando da filosofia da frustração. Criticamos apenas aqueles psiquiatras que, agindo como filósofos, vão além da sua própria esfera médica ou científica, para negar a possibilidade de culpa ou pecado.
Mesmo para médicos que não traduzem as suas descobertas em termos morais, está-se tornando crescentemente evidente que as perturbações mentais estão muitas vezes enraizadas em violações de uma lei natural, tendo por conseguinte uma base moral. Os doutores Marynia Farnham e Ferdinand Lundberg inculpam os crescentes distúrbios mentais das mulheres ao facto de fugirem elas às responsabilidades da maternidade. Afirmam que a mulher sem filho, mesmo embora dotada de muito talento, jamais se pôde aproximar em força pura e objetiva das mães dos homens... e mulheres. As mulheres casadas com um só filho ou sem nenhum, exceto aquelas de condições orgânicas desfavoráveis (existentes em poucos casos).
“... estão, com exceções ocasionais, emocionalmente desorientadas. Quer isto dizer que são mulheres infelizes, qualquer que possa ser o testemunho consciente delas em contrário. O abrupto declínio da natalidade, portanto, é um índice importante no aumento da desordem emocional e da felicidade, afetando tanto os homens como as mulheres, mas afetando particularmente as mulheres”. [17]
Usar de uma navalha para arrasar uma montanha, dirigir as nossas vidas para qualquer outra estrada que não aquela que termina na nossa derradeira perfeição, é não somente prejudicar as nossas mentes, mas também perder a felicidade que vem da vida direita.
Contudo, é muitas vezes afirmado pelos psiquiatras e sociólogos que o pecado nada mais é do que um desvio dos ideais aceitos pela sociedade em algum dado momento. Ora, não há dúvida que o código ético de um homem é até certo ponto determinado pela sociedade em que ele vive. Isto porém não quer dizer que o pecado e a culpa são produtos de um “instinto de manada” ou das decisões ambientais da sociedade. Se isto fosse verdade, como poderia a consciência individual muitas vezes acusar-se de erro e saber-se errada mesmo quando a sociedade diz que está direita? A consciência sabe que o direito consiste muitas vezes no repúdio dos padrões sociais duma dada época (tal como a de 1938 na Alemanha nazista). Se um homem pode estar certo quando age contra a manada, e errado, quando age com a manada, ou com a sociedade, segue-se então que há algo mais para o pecado do que a desaprovação social.
A negação da existência da culpa objetiva pelos psicólogos materialistas é devida a uma falsa compreensão da natureza humana. Há cerca de quatrocentos anos passados, alguns teólogos errados disseram que o homem era intrinsecamente corrupto e, portanto, incapaz de justificação pelas obras. Disto derivou a ideia de que o homem é justificado pela fé em Cristo, cujos méritos são imputados ao homem corrupto. Mais tarde, outros teólogos errados disseram que, uma vez que o homem é intrisecamente corrupto, é incapaz de ser justificado quer pela fé, quer pelas obras. A sua redenção seria dependente da predestinação, ou da Vontade Soberana de Deus que elege ou condena. A falsa concepção espalhou-se e muito fez para destruir a crença do homem na liberdade humana. Finalmente, entrou em cena o totalitarismo para dizer que, uma vez que o homem é intrisecamente corrupto não pode ser justificado pela fé, pelas obras ou pela Soberana Vontade de Deus, mas somente pela coletividade que absorve o homem. Isto, nos dizem, desviaria a depravação humana, substituindo-se a consciência individual pela consciência de estado e Deus por um ditador.
Rebelando-se contra esta noção de depravação total comum a esta tradição, estavam direitos os psicólogos materialistas. O homem não é inteiramente depravado. Mas os psicólogos muitas vezes erraram, não investigando o conceito tradicional do homem, que permanece no meio, entre o falso otimismo que promete torná-lo um santo pela evolução e pela educação e o falso pessimismo que vai longe, querendo torná-lo um demónio por meio do totalitarismo comunista.
O sentido do pecado é uma realidade que todos os homens conhecem. É mais do que justamente uma violação da lei. A sua pungência não estaria presente, senão pela intuição do homem de que o pecado também envolveu uma quebra de relação e de pessoas. Algumas pessoas que roubam de uma grande corporação não acham que tenham feito algo de muito errado (embora realmente tenham), porque não podem pensar na corporação senão como uma coisa impessoal. Têm uma intuição fugitiva de uma verdade, que a essência do pecado não é uma negação de um código, mas uma rejeição de uma pessoa a quem a gente se sente ligado por meio da sua bondade e do seu amor. O pecado é uma afronta feita por um espírito contra outro, um ultraje feito ao amor; é por isto que não há senso do pecado sem a consciência de um Deus pessoal. Isaías teve o profundo senso de culpa quando viu Deus e disse: “Ai de mim, que me calei porque sou um homem de lábios impuros e eu vi com meus olhos o Rei, o Senhor dos exércitos.” (Isaías 6,5) “Eu já te ouvi com os meus ouvidos, mas agora os meus próprios olhos te vêem. Por isso acuso-me a mim mesmo e faço penitências no pó e na cinza.” (Job. 42, 5-6.) “Afasta-te de mim porque sou um homem pecador, ó Senhor. ” (Lucas 5,8.)
Porque o pecado é a quebra de uma relação com o Amor, segue-se que não pode ser tratado exclusivamente pela psiquiatra. (Não estamos aqui dizendo que todas as desordens mentais são devidas a um senso de pecado. Não são. Mas há algumas que são e quando psiquiatras materialistas afirmam que a angústia devida ao pecado pode ser tratada do mesmo modo que outras doenças nervosas e psíquicas, sem referências a recursos espirituais, estão acrescentando às complexidades, desordem e frustração da vida do paciente.) Não basta analisar o pecado, a fim de destruir a consciência do pecado ou curá-lo. Se o dentista sabe que a cárie no dente é devida ao uso do açúcar, não se segue daí imediatamente que o doente fique curado. Cavando-se ao redor dum carvalho para descobrir a podridão da bolota da qual ele originalmente proveio, não quer dizer que se esteja fortalecendo a própria árvore. Descobrir os motivos do pecado, pelo estudo do passado do paciente, não é curá-lo. O pecado não está somente na compreensão, nem nos instintos; o pecado está na vontade. Daí não pode ser ele desfeito, como pode ser desfeito qualquer outro complexo pelo facto de ser trazido a lume no consciente. As doenças psíquicas podem brotar de complexos recalcados. Mas o pecado deve ser encarado como um ato da vontade que implica a personalidade inteira. A simples compreensão intelectual não destruirá os seus efeitos ou restaurará a saúde do paciente.
Não é verdade que o conhecimento dos nossos pecados como pecados induza a um complexo de culpa ou morbidez. Pelo facto de ir uma criança à escola, desenvolve-se nela um complexo de ignorância? Pelo facto de ir o doente ao médico, passa ele a sofrer um complexo de doença? O estudante se concentra, não sobre a sua própria ignorância, mas sobre a sabedoria do mestre; os doentes se concentram, não sobre as suas doenças, mas sobre os poderes curativos do médico e o pecador, vendo os seus pecados como pecados que são, concentra-se, não sobre a sua própria culpa, mas sobre os poderes redentores do Médico-Divino. Não há prova alguma que sustente a posição de alguns psiquiatras modernos quando afirmam que a consciência do pecado tende a tornar mórbida uma pessoa. Chamar de escapista a um homem porque pede perdão a Deus, é o mesmo que chamar de escapista um proprietário cuja casa está em chamas, porque pede socorro ao corpo de bombeiros. Se há alguma coisa de mórbido em admitir o pecador a sua responsabilidade pela violação da sua amizade com o Divino Amor, pode-se dizer que é uma saúde jovial, comparada com a verdadeira e terrível morbidez que sobrevém àqueles que estão doentes e recusam admitir a sua doença. O maior refinamento de orgulho, a mais desprezível forma de escapismo é impedir-se de examinar a si mesmo, no temor de descobrir dentro de si o pecado.
Assim como um bêbado algumas vezes se tornará consciente da gravidade da sua intemperança, somente por meio da assustadora visão de quanto ele desgraçou o seu lar e a mulher que o ama, da mesma forma, os pecadores podem chegar a uma compreensão da sua miséria, quando tiverem compreendido o que fizeram ao nosso Divino Senhor. É por isso que a Cruz tem sempre desempenhado um papel central na pintura cristão. Ressalta o que há de pior em nós, revelando o que o pecado pode fazer à bondade e ao amor. Ressalta o que há de melhor em nós, revelando o que a bondade pode fazer pelo pecado – perdoar e reparar no momento da maior crueldade do pecado. A Cruz de Cristo faz algo por nós que nós não podemos fazer por nós mesmos. Em toda a parte do mundo somos espectadores, mas diante da visão da Cruz, passamos da condição de espectadores à de participantes. Se alguém pensa que a confissão da sua culpa é escapismo, deixai-o ajoelhar-se, uma vez que seja, aos pés do Crucifixo. Não poderá deixar de sentir-se envolvido. Um olhar para Cristo pregado na Cruz e a crosta será arrancada das profundezas ulceradas do pecado, ao ser ele revelado em toda a sua hediondez. Um raio apenas daquela Luz do Mundo anula toda a cegueira que os pecados produziram e faz arder dentro da alma a verdade da nossa amizade a Deus. Aqueles que se têm recusado a subir ao Calvário são os que não choraram pelos seus pecados. Uma vez que uma alma tenha subido ali, não pode por mais tempo dizer que o pecado não tem importância.
Se o senso da culpa é um afastamento de Deus e tristeza por haver ferido alguém que amamos, se a dor da auto-censura é um sintoma da nossa rejeição do convite de amor, então devemos acentuar não a sensação da culpa, mas o meio de removê-la e encontrar a paz. É preciso amor para ver que o amor foi magoado. O Divino Amor sempre recompensa esse reconhecimento pelo perdão e uma vez dado o perdão, uma união se restaura de maneira muito mais íntima do que fora antes. Há mais alegria, disse Nosso Senhor, entre os Anjos do Céu por um pecador que se arrepende do que pelos noventa e nove justos que não necessitam de penitência.
Quando o amor é compreendido com acerto, não nos sentimos tristes pelo pecado, a fim de que Deus possa perdoar-nos; antes, sentimo-nos tristes por aceitar esse perdão. Deus se oferece a perdoar-nos antes de nos arrependermos. É a tristeza da nossa parte que torna eficaz esse perdão. O pai não começou a perdoar o filho pródigo, quando o viu vindo lá pela estrada. O pai já havia perdoado o filho desde o começo. O perdão só podia torna-se efetivo no momento em que o filho se sentiu triste, por ter quebrado a amizade com o pai e pensou em restaurá-la. Justamente como sempre tem havido música no ar que nós não ouvimos, a menos que o rádio esteja sintonizado, da mesma forma há sempre perdão disponível, mas não o recebemos enquanto falta tristeza à nossa alma e propósito de emenda. Só descobrimos aquilo que procuramos. A natureza tem muitos segredos para dar-nos, mas não no-los entregará enquanto não estivermos pacientemente diante dela e obedecermos às suas leis. Somente com tal submissão, receberemos. Enquanto não houver vontade implorativa de uma relação diferente com Deus, que não aquela distante e medrosa causada pelo pecado, não poderá o pecado ser perdoado. Ser pecador é a nossa desgraça, mas saber que o somos é a nossa esperança.
As pessoas decentes deveriam ver-se como pessoas más para que possam encontrar a paz. Quando mudarem a sua crença orgulhosa e diabólica de que nunca fizeram nada de errado em esperança de um Remédio Divino para os seus erros, terão atingido a condição de normalidade, paz e felicidade. Em contraste com o orgulho daqueles que negam a sua culpa, para escapar à autocrítica, está a humildade de Deus, que fez o mundo que nada acrescentou à Sua glória e depois fez o homem para criticá-Lo. As pessoas sórdidas são as conversíveis. Conscientes das suas próprias imperfeições, sentem dentro de si um vácuo. Pode parecer-lhes um vácuo sem sentido, como o Grand Canyon, mas na realidade o seu vazio é mais semelhante ao de um cesto que pode ser enchido. Têm fome e sede de alguma coisa que não de si mesmos. Este senso do pecado neles produz um desespero absoluto, mas um desespero criador, quando alguma vez sabem que podem para além de si mesmos buscar o alivío amorável.
O nosso Bendito Senhor gostava imensamente das pessoas pecadoras. Contou muitas história a respeito delas Uma das acusações que os seus inimigos fizeram contra Ele era a de que comia na companhia de gente sórdida e de pecadores. Um dos maiores apóstolos veio a Nosso Bendito Senhor através do ódio. É o pródigo colocado à frente do seu irmão virtuoso; o filho rebelado e arrependido foi preferido ao que jurou fidelidade e depois desobedeceu. A ovelha desgarrada foi posta nos ombros do Bom Pastor, enquanto as noventa e novena ficavam no campo. A moeda perdida foi encontrada e isto constituiu motivo de regozijo, mas nunca houve qualquer reunião para celebrar as outras nove. O Salvador expulsa os compradores e vendedores do Templo e depois toma nos Seus joelhos uma criança e diz que ela entrará no Reino dos Céus antes dos sábio professores universitários. Lava os pés dos discípulos que buscam os primeiros lugares na mesa, fala livremente às mulheres a quem toda a nação odeia e intervém para proteger uma adúltera de lapidação por aqueles cujo adultério ainda não havia vindo a público. O anúncio da sua Encarnação foi feita a uma Virgem, mas o anúncio da Sua ressureição dentre os mortos foi feita a uma pecadora convertida.
Porque o Nosso Bendito Senhor preferiu a gente pecadora à gente descente, é bem provável que, se pudessemos entrar no Céu, teríamos diante dos olhos certos espetáculos que nos escandalizariam. Diríamos: “Ora esta, como entrou aquela mulher ali?” ou “Como conseguiu ele entrar? Conheci-o quando...” Haverá no Céu muitos a quem nunca esperariamos encontrar lá. As surpresas serão numerosas. Mas a maior surpresa de todas será descobrir que nós mesmos estamos lá.
A gente sórdida pode alcançar a felicidade deste lado do Céu, também. A sua humildade torna isto possível. Muitos dos que chegaram à plenitude do Cristo, quando interrogados por que abraçaram a Igreja, responderam: “Juntei-me à Igreja para livrar-me dos meus pecados.” Aqueles que se recusam a admitir os seus pecados, que negam que são pecadores, descobrirão esta completa dificuldade de compreender. De facto, é difícil à gente descente compreender, porque deixa de verificar que há duas coisas bastante devastadoras que acontecem àqueles que entram em contato com Nosso Senhor: um opressivo sentimento de vergonha e uma gloriosa sensação de libertação.
Não há ninguém que negue a culpa pessoal que seja feliz, mas não há ninguém que a haja admitido, sido perdoado e viva no amor de Deus, que seja infeliz. Um senso de indignidade moral jamais entristeceu uma alma, mas muitas almas se tornaram tristes e frustradas por causa do seu amor próprio.
Quanto maior a consciência da nossa própria miséria, tanto maior a nossa confiança na bondade e na miserircórdia de Deus. Deus não podia revelar o atributo da misericórdia, se não houvesse miséria. Deus teria sido Bondade Infinita, se nunca houvesse feito o mundo; mas sem a existência da gente sórdida Ele nunca teria podido mostrar a Sua doce Misericórdia pelos nossos pecados.