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CAPÍTULO 10
Remorso e Perdão
A negação do pecado ou o esforço para reduzir a ética à psiquiatria, é um erro tão pouco sólido e anti-científico como o de negar que há perturbações genuinamente mentais, ou a redução da psiquiatria à ética e à teologia moral. Na realidade, nenhum teólogo moral nega a validez e necessidade da psiquiatria, mas, uma vez que muitos analistas negam os domínios da moral, do divino e do sobrenatural, é importante continuar a insistir na diferença existente entre ambos.
Mesmo quando um cliente tem o apoio de seu psicanalista para zombar da possibilidade do mal moral ou de um senso de culpa, como causa das suas precupações, essa rejeição dos padrões éticos é ainda uma forma de escapismo. Em tais casos, é inútil que a alma frustrada diga que resolverá o problema “por si mesmo”, pois a alma que conta consigo mesma está fora da realidade. A cura é condicionada à realidade de dois factos básicos: há algum mal na alma; e a perfeição e a cura não hão de ser procuradas na própria pessoa. Justamente como o medicamento deve vir de fora do corpo, da mesma maneira a cura moral deve provir de fora da alma. Contudo, muitos homens modernos correm até aos confins da terra para escapar à única fonte de saúde e de recuperação.
Os escapistas recusam-se a encarar o facto de que as suas próprias vidas estão desordenadas, ou então tentam um meio “fácil” de sair da sua miséria, que os faz encontrar uma confusão ainda mais confusa. Alguns dos meios “fáceis” de saída são o escapismo baseado no escândalo, que procura encontrar outros que sejam piores do que eu, fazendo com que eu pareça bom com eles comparados; o escapismo do ridículo, que zomba dos virtuosos e dos religiosos, para evitar a censura em comparação com a bondade destes; o escapismo do barulho, que mergulha na excitação, nas multidões, nos arrebatamentos coletivos, de modo que a voz mansa e suave da consciência, por meio da qual Deus fala, nunca seja ouvida; o escapismo do comunismo, revolução anárquica por meio da qual se encobre a própria necessidade de regeneração pessoal, interior e espiritual, revolucionando os outros, pois revelando as imperfeições alheias evita a necessidade de se corrigir a si próprio; difundindo a ideologia da luta de classes cria a ilusão de que o mal que ele odeia não está em si, mas no sistema social. A consciência social dispensa, assim, muitos homens de hoje de qualquer obrigação para endireitar as suas consciências individuais. Há também o escapismo de chamar “escapismo” à religião: esta subtileza ateísta é a mais disparatada de todas: aconselhá-la a um amigo perturbado é o mesmo que dizer a um homem cuja casa está a arder, que ele é um “escapista”, se for chamar o corpo de bombeiros.
O verdadeiro escapista segue caminhos bem diversos, mas nenhum deles é bastante humilde para admitir que exista algum mal que necessitam auxilio de fora para curar a sua miséria. Negando a culpa, mostrando que são covardes; negando qualquer perfeição fora de si mesmos, tornam-se presunçosos. O derradeiro e desesperado grau de escapismo é a perseguição religiosa. O ódio à religião é a projecção do ódio de si mesmo. Não é fácil para pessoas normais compreender como a bondade e a verdade possam ser odiadas, mas são. A verdade pode ser odiada, porque implica responsabilidade, porque constitui uma censura. Se o Nosso Bendito Senhor tivesse sido tolerante, nunca teria sido crucificado. Foi a perfeição da Sua virtude que constituiu um julgamento para os perversos.
Mas desde que aqueles que perseguem a religião como uma forma de escapismo devem constantemente pensar em Deus e na Sua Igreja, segue-se que eles estão muitas vêzes mais perto da conversão, do que o homem indiferente duma Civilização Liberal Ocidental, que jamais perturba o seu espírito com cogitações relativas a qualquer questão fundamental. A Rússia, no seu ódio à religião, prova indiretamente a sua influência, a fôrça da sua oposição.
O escapismo nunca é bem sucedido. Em cada pecador, cujas frustrações e neuroses são devidas a uma consciência sobrecarregada, há uma contradição latente. É empurrado em duas direções. Não fica muito à vontade com o pecado, a ponto de o tornar a sua vocação definida, nem, por outro lado, está amando a Deus a ponto de renegar as suas faltas. O dualismo surge dum desejo de Deus, por um lado, e de um abandono de Deus, por outro. Tais homens não têm a suficiente energia moral para ser maus ou bons; não têm bastante religião para descobrir a paz da alma, mas o suficiente dela para sentir intensificar-se o sentimento da frustração depois de haverem pecado.
Os homens que vivem neste crepúsculo moral, entre a fé e a falta de fé, têm realmente uma clara noção da finalidade da vida. Contudo, um homem deve ter um objetivo pelo qual possa viver. Ao fazer uma viagem, a gente decide primeiro qual o seu destino e depois os passos intermediários a dar. É isto o que significavam os escolásticos ao dizerem: “O primeiro na intenção é o último na execução.” A escolha de Paris para umas férias é o primeiro passo numa longa série de preparativos para a viagem, mas Paris é o último lugar a que se chega na viagem. As pessoas que perdem de vista a finalidade do viver, isto é, atingir a felicidade perfeita, começam por concentrar-se nos meios. Como os fanáticos, já uma vez definidos, elas “redobram os seus esforços, depois de haverem perdido de vista o seu objetivo”. A suas ações tornam-se destacadas, salteadas, uma louca colcha de retalhos desiguais. A possibilidade, no sentido de progressivo desenvolvimento e enriquecimento da personalidade, desaparece. Quando a possibilidade está perdida, acontece uma de duas coisas ao espírito: ou mergulha em trivialidades, com um cinismo, petulância e superficialidade concomitantes, ou tenta evitar a responsabilidade pela inanidade e loucura de sua vida, negando a existência da liberdade humana e da responsabilidade e anuindo ao determinismo, seja darwinista, freudista ou marxista.
Mas há alguns homens e mulheres que, admitindo os seus pecados e faltas, ainda são infelizes. Onde existe um senso de culpa genuíno, o alívio só pode provir da Misericórdia Divina em face da miséria humana. A menos que estejamos prontos a pedir a Deus o perdão de nossos pecados, o exame de consciência só pode ser uma forma vã de introspecção, que pode piorar o estado de uma alma se acaba em remorso, em vez de acabar em pesar, pois as duas coisas são inteiramente distintas: Judas teve remorsos. Pedro teve pesar. Judas “arrependeu-se para consigo mesmo” , como diz a Escritura; Pedro, para com Deus. Assim como uma doença psíquica resulta muitas vêzes duma falha de ajustamento da pessoa ao ambiente certo, da mesma maneira um mal moral resulta duma falha da alma em ajustar-se a Deus. O desespero é uma falha dessa espécie. Judas desesperou. O desespero provém da discordância, da recusa de uma alma em voltar-se para Deus. Uma alma assim opõe-se à ordem da natureza.
Quando há sete pessoas numa sala, poucas jamais se referem ao fato de que há catorze braços presentes. Mas se descobrirmos um braço arrancado, caído a um canto, causaria isto consternação; só constitui um problema porque está desprendido. Uma alma isolada de Deus é como aquele braço. A sua consciência (para citar outro exemplo) é como um osso partido. Magoa porque não está onde deveria estar. O estágio final deste pesar resultante da desligação entre o homem e Deus é um desejo de morrer, combinado com um temor da morte, pois “a consciência faz covardes a todos nós”.
Mas se o remorso é um sentimento de culpa não relacionado com Deus, é bom considerar outros estados de espírito e consciência por esse simples aspecto. Descobrimos que há várias classes de almas, ordenadas de acordo com o grau de suas relações com Deus. Há aquelas que matam a sua consciência pelo pecado e pela mundanidade e que se recusam obstinadamente a cooperar com a Ação Divina sôbre a alma, a fim de emendar o seu modo de viver, confessar os seus pecados e fazer penitência. Há aquelas que despertaram dum estado de pecado. Há aquelas que seguem a consciência e as leis de Deus por algum tempo e depois se afastam de Deus. E finalmente, há aquelas que conservam a inocência batismal e nunca profanaram a sua consciência. A segunda e a quarta classes são bem queridas de Deus. Há assim dois meios de saber quando Deus é bom: um, nunca O perdendo, e o outro, perdendo-O e achando-O de novo. As almas que se transviaram e tornaram a voltar, disse Nosso Senhor, alegram os Anjos do Céu mais do que as que ficaram firmemente fiéis. Isto não é difícil de compreender. Uma mãe de dez filhos regozija-se mais com a recuperação da saúde de um só dos filhos, doente, do que com a contínua posse de saúde dos outros nove.
Para que o pecador se sinta bem, portanto, são necessários confissão e pesar. [67]
E o pesar deve ter em si um apelo à misericórdia de Deus para distingui-lo do remorso. São Paulo faz a distinção, quando escreve aos coríntios: “Porque a tristeza que é segundo Deus produz uma penitência estável para a salvação; mas a tristeza do século produz a morte” (2 Cor. 7, 10). O remorso, ou “a tristeza do século” resulta em preocupação, inveja, ciúme, indignação; mas a tristeza ligada a Deus resulta em expiação e esperança. A tristeza perfeita provém dum sentimento da ofensa a Deus, Que é merecedor de todo o nosso amor. Esta tristeza ou contrição, sentida na confissão, nunca é uma tristeza vexatória, irritante, que deprime, mas é uma tristeza da qual brota grande consolação. Como o expôs Santo Agostinho: “O penitente sempre se aflige, e sempre se rejubila com o seu pesar.”
A experiência por que passa um pecador arrependido ao receber o sacramento do perdão foi muito bem descrita pela Bem-aventurada Angela de Foligno. Fala-nos ela da ocasião em que pela primeira vez teve conhecimento dos seus pecados.
“Resolvi fazer a minha confissão a ele. Confessei plenamente os meus pecados. Recebi absolvição. Não sentia amor, mas apenas amargura, vergonha e tristeza. Depois procurei pela primeira vez a Misericórdia Divina. Travei conhecimento com aquela Misericórdia que me afastou do inferno, que me concedeu graça. Uma inspiração me fez ver a medida dos meus pecados. Em consequência, compreendi que, ofendendo o Criador, tinha ofendido todas as criaturas.
…Por intermédio da Abençoada Virgem Maria e de todos os santos invoquei a misericórdia de Deus e, de joelhos, pedi vida. De súbito, acreditei que sentia a piedade de todas as criaturas e de todos os santos. E então recebi um dom. Um grande amor abrasador e o poder de orar, como nunca tinha orado… Deus escreveu o Padre Nosso no meu coração com tal acentuação da Sua Bondade e da minha indignidade, que me faltam palavras para exprimi-lo.”
É bem difícil para o mundo compreender tal tristeza como a dela, mas somente porque não sente tal amor. Quanto mais se ama, tanto mais se evita ferir o amado e tanto mais pesar se sente de haver feito isso. Mas este pesar não deve tornar-nos obstinados e concentrados, com aqueles que dizem: “Jamais me poderei perdoar a mim mesmo por haver feito isto.” Isto é o inferno, quando a alma se recusa a aceitar o perdão por haver ferido o Divino Amor.
A diferença de padrões entre o pagão, antigo ou novo, e o crente, resultando em remorso de uma parte e em tristeza da outra, evidencia-se pelas seis afirmativas do Senhor, que começam por “Eu vos digo”. Contradizem os seis preceitos da sabedoria do mundo, que começam por “Ouviste”.
NORMA PAGÃ
Não deixeis que ele leve a melhor. Excitai a inimizade de classes, A fim de conquistardes o poder.
NORMA CRISTÃ
Ouviste que foi dito aos antigos: Não matarás; e quem matar será condenado em juízo. Pois eu vos digo que todo aquele que se irar contra o seu irmão será condenado em juízo. E o que lhe disser: louco, será condenado ao fogo da geena. ( . 5, 21-22.)
NORMA PAGÃ
Dai livre-expansão a vós mesmos. A repressão dos instintos sexuais causa frustração. A liberdade significa o direito de fazerdes o que quer que vos agrade no domínio da carne.
NORMA CRISTÃ
Eu porém vos digo que todo o que olhar para uma mulher cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. E se o teu olho direito te serve de escândalo arranca-o e lança-o para longe de ti; porque é melhor para ti que se perca um de teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. (Mat. 5, 28-29)
NORMA PAGÃ
Obtende divórcio! Casai-vos de novo.
NORMA CRISTÃ
Eu porém vos digo: Todo aquele que repudiar a sua mulher, a não ser por causa de fornicação, a faz ser adúltera; e o que tomar a mulher repudiada, comete adultério. (Mat. 5, 32.)
NORMA PAGÃ
Resolvei vós mesmos as questões. Dizei: Que eu me dane, se não o fizer.
NORMA CRISTÃ
Eu porém vos digo que não jurareis de modo algum, nem pelo céu, porque é o trono de Deus, nem pela terra porque é o escabelo dos seus pés, nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande rei; nem jurarás pela tua cabeça, pois não podes fazer branco ou negro um dos teus cabelos. Mas seja o vosso falar: sim, sim; não, não; porque tudo o que daqui passa, procede do mal. (Mat. 5, 34-37.)
NORMA PAGÃ
Batei-lhe em troca. Liquidai-o. O perdão é fraqueza.
NORMA CRISTÃ
Eu porém vos digo que não resistais ao mal; mas se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra e ao que quer chamar-te a juízo e tirar-te a tua túnica, cede-lhe também a capa; e se alguém te obrigar a dar mil passos, vai com ele mais outros dois mil. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes (Mat. 5, 39-42.)
NORMA PAGÃ
Odiai-o, se ele vos odiar. Processai-o! Matai-o!
NORMA CRISTÃ
Eu porém vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos caluniam, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus e manda a chuva sobre justos e injustos. Porque se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem os publicanos também o mesmo? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de especial? Não fazem também assim os gentios? Sede pois perfeitos, como o vosso Pai Celestial é perfeito. (Mat. 5, 44-48.)
***
Desde que o cristão está tentando fazer algo de bastante difícil, aspirando a seguir os preceitos de Nosso Senhor, falha muitas vezes. A sua tristeza é maior do que o remorso do pagão, pois é o resultado de ter presenteado com uma afronta Aquele a quem ama.
A tristeza profunda não provém do facto de haver alguém violado uma lei, mas somente porque sabe que rompeu as suas relações com o Divino Amor. Mas ainda se exige outro elemento para a regeneração, o elemento do arrependimento e da reparação. O arrependimento é antes um negócio a olho seco. As lágrimas correm na tristeza, mas o suor destila-se no arrependimento. Não basta dizer a Deus que estamos tristes e depois esquecermo-nos inteiramente disso. Se quebrarmos a janela de um vizinho, não somente pediremos desculpas, mas também deveremos ter o trabalho de colocar nova vidraça. Uma vez que o pecado perturba o equilíbrio e o balanço da justiça e do amor, deve haver uma restauração implicando trabalho e esforço.
Para ver porque isto deve ser, suponhamos que toda a pessoa que comete uma falta lhe ordenem que pregue um prego na parede na sua sala de visitas e que sempre que for perdoada lhe mandem arrancá-lo. Os buracos ficarão ainda mesmo depois do perdão. Assim cada pecado (quer atual, quer original), depois de ter sido perdoado, deixa “buracos”, ou “feridas” na nossa natureza humana e o preenchimento desses buracos faz-se pela penitência. Um ladrão que furta um relógio, pode ter o furto perdoado, mas somente se restituir o relógio.
A diferença entre perdão e reparação está indicada na Sagrada Escritura. Quando Moisés pecou por ter duvidado, Deus perdoou-lhe, mas impôs ainda uma penitência a Moisés: “Tu não passarás este Jordão.” (Deut. 3,27.) David arrependeu-se de seu adultério e Natan, o profeta, absolveu-o: “O Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás.” (2 Reis 12,13.) Mas Deus exigiu satisfação. “Morrerá irremissivelmente o filho que te nasceu.” (II Reis 12,14.) É o mesmo hoje: o perdão de Deus no sacramento recoloca-nos na Sua Amizade, mas a dívida para com a Justiça Divina permanece no tempo ou na eternidade.
A expiação temporal para muitos pecados é necessariamente considerável e requer considerável auto-disciplina da parte do penitente. A fé somente nos méritos de Cristo não é suficiente para a remissão dos pecados; na realidade, a fé sem penitência é sempre insuficiente.
“Os méritos e satisfações infinitos de Cristo são e não são bastantes, porque Deus não nos tratará como “robots” ou autómatos. Os protestantes acusam-nos muitas vezes de atribuir efeitos mágicos aos sacramentos. Replicamos que são eles os culpados, atribuindo poder mágico à Redenção, ao passo que afirmamos que não há magia nem nos Sacramentos, nem na Redenção. Deus respeita a nossa livre vontade e sem cooperação da nossa livre vontade nada fará. A sua operação fica dependente da nossa cooperação, da mesma maneira que a corrente elétrica depende da lâmpada para produzir a luz. A confissão tem o poder inato de remover todos os traços do pecado, mas antes que isso se realize, deve haver perfeita cooperação, isto é, perfeita retificação da vontade. A livre vontade é o âmago da dificuldade.
Um exemplo ilustrativo pode ajudar a clarificar a questão. Suponde que dois homens tiveram uma zanga e um deles se deixou dominar por uma cólera incontrolável e bateu com tamanha violência no seu companheiro que acabou por magoar a sua própria mão e o pulso. Depois, o agressor pediu desculpa e a sua desculpa foi aceita. Acharíeis que a questão terminou com isto? “Não”, diríeis, “e a mão?” A aceitação das desculpas não cura a mão.
O mesmo acontece connosco. Pelo pecado, danificamos a nossa vontade e o dano não é necessariamente reparado pelo decreto de perdão de Deus. Às vezes, quando pecamos, voltamo-nos para a criatura com grande intensidade. Para retificar completamente a nossa vontade, devemos voltar para Deus com igual intensidade. Isto frequentemente deixamos de o fazer, com o resultado de ficar a nossa vontade com cicatrizes e torta. A vontade deve ser retificada, antes de podermos estar prontos para o céu.
Se voltarmos para Deus com uma intensidade igual à nossa intensidade no pecado ou maior do que ela, a Confissão retira tanto a culpa do pecado como o castigo temporal merecido pelo pecado.
Se voltarmos para Deus, com menos, embora com suficiente intensidade, a vontade ainda permanece danificada e outras boas obras serão exigidas para completar a sua retificação.
Temos aqui a explicação dos pesados castigos impostos na Igreja primitiva. Os primeiros cristãos não duvidavam da eficácia do Sacramento da Penitência, mas da adequação do seu próprio arrependimento. É esta também a explicação da própria insistência de Cristo no castigo.” [68]
Agora considerai o pecado como uma viagem que afasta de Deus. Imaginai que A é um filho menor, obrigado a respeitar a vontade de seu pai. Está em Chicago. Seu pai, B, lhe diz que vá para a esquerda do mapa, para S. Francisco. Mas, em vez disso, A segue para a direita, para Nova York. Quando A chega a Nova York telefona para B, dizendo “Perdoa-me, sim, por favor? Sinto tê-lo ofendido, que tanto merece o meu amor.” B perdoa A. Mas vede onde A está! Encontra-se a quase novecentas milhas de seu ponto de partida, Chicago. A fim de começar a satisfazer a vontade de B, A tem de voltar a Chicago antes de poder seguir para S. Francisco; ou podeis dizer que as novecentas milhas que A viajou em pecado devem ser viajadas de volta como castigo. A não pode começar a ser bom enquanto não estiver repercorrido os seus caminhos do mal.
Mas como todos os exemplos, este claudica, pois o facto é que A não precisa de caminhar de volta aquelas 900 milhas. Quando A parte, pode dirigir-se à Igreja para que o auxilie com um aeroplano cheio dos méritos de Nosso Senhor, da Bendita Mãe e dos Santos. O avião leva-o de volta no resto do caminho.
Tal remissão em todo ou em parte do castigo devido aos pecados de A é efetuada por meio das indulgências. Por meio delas, a Igreja proporciona aos seus penitentes um robusto ponto de partida. E a Igreja tem um imenso capital espiritual, ganho através de séculos de penitência, de perseguição e de martírio. Muitos dos seus filhos rezaram, sofreram e mereceram, mais do que necessitavam para a sua própria salvação individual. A Igreja tomou estes méritos superabundantes e colocou-os no tesouro espiritual, do qual os pecadores arrependidos podem sacar em tempos de depressão espiritual. Ora, este capital espiritual pode assemelhar-se a um banco de sangue. Quando qualquer dos seus membros está sofrendo de anemia espiritual ou das profundas feridas do pecado, a Igreja fornece-lhe uma transfusão de sangue. Não poderá nunca fazer isto por nós, se estivermos espiritualmente mortos pelo pecado. Uma transfusão não valerá de nada a um cadáver. De modo que para obter as indulgências ou remissão das penalidades do pecado, o recipiente deve estar em estado de graça, deve ter a intenção de ganhar as indulgências e deve executar as obras prescritas.
O pecador fará voluntariamente penitência. Sabe que todos os pecados custam alguma coisa ao homem Deus ̶ A Sua Cruz ̶ e portanto devem custar-nos alguma coisa. Além disso, não quer ser “perdoado”, mas antes “reparar” por causa dos seus pecados. Nas eras cristãs, os homens que morriam continuavam o seu arrependimento, mesmo depois da morte, deixando dinheiro ou dotando hospitais, Igrejas e escolas em nome de Cristo. (O homem moderno, a maior parte das vezes, dota um laboratório científico em seu próprio nome.)
A penitência é o reconhecimento de que temos um “passado”. Não é mórbido reconhecer tal facto. Pelo contrário, mórbido é pretender que ele não existe. O passado afetará o nosso futuro. Não somos apenas aquilo que comemos; somos também aquilo que os nossos pecados fizeram de nós. Se não nos emendarmos do nosso passado, estamos adiando e aumentando a nossa punição eterna. A única razão de nos ser dado tempo é para que possamos fazer penitência. O verdadeiro amante de Deus, cônscio de ter ferido o Amor, renunciará voluntariamente aos seus privilégios e conduzir-se-á de tal maneira a ser identificado com Cristo, que traz cinco horríveis feridas nas mãos, nos pés e no flanco.
Neste mundo, a maior parte de nós dá mais valor à dor do que ao pecado. De facto, acreditamos muitas vezes que seja a dor o maior mal. A penitência ajuda-nos a pôr estas desordens na sua reta perspectiva. Quando um homem encontra alegria na penitência, verifica que nenhum outro mal pode afetá-lo mais do que o pecado. A menos que haja amor, o sacrifício e a penitência serão sentidos como um mal, mas não quando o amor existe. Compreendemos, quando aceitamos a penitência, que o próprio egoísmo que causou o nosso pecado faz para muitos tal sacrifício necessário, como uma condição para domar os impulsos errantes que causaram a perturbação. E quando a plena luz do Amor de Cristo brilha numa alma, começa ela a incorporar, não apenas penitências impostas pela Igreja, mas todas as provações da vida na hora maior da Redenção. Em vez de romper em amargas queixas contra os reveses da fortuna e as provações da vida, recebe-os num espírito de resignação, como a justa paga do pecado. Graças a esta paciente aceitação, muitos pecados são expiados.
Há três maneiras gerais de fazer penitência: orações, esmolas e jejum. Na oração, pedimos a misericórdia de Deus para as nossas almas. Pelas esmolas, retribuímos a Deus alguns dos dons que Ele nos concedeu, para que possamos justificar as nossas posses. “Redime-te de teus pecados com esmolas.” (Dn. 4,24.) Pelo jejum, mortificamos a raiz de todas as ânsias de caráter sexual. O conforto crescente da vida moderna proporciona várias ocasiões de mortificação. Se uma pessoa não pode punir-se quanto a comida, outros prazeres dentro de seu alcance ̶ artísticos, convencionais, mecânicos e sociais – facultarão muita ocasião dum real jejum.
Mas as penitências não são feitas por nós sozinhos. O penitente é auxiliado por outros que participam do Corpo de Cristo. Isto não poderia dar-se, se fossemos indivíduos isolados, mas pode realizar-se se pertencemos a um Corpo Místico em que todos são um, governados por uma Cabeça, vivificados por uma Alma e professando a mesma Fé. Da mesma maneira que é possível enxertar pele duma parte do corpo em outra e da mesma maneira que é possível transfundir sangue de um membro da sociedade para outro, assim também, no organismo espiritual da Igreja, é possível enxertar oração e transfundir sacrifícios. Esta verdade cristã na sua plenitude é conhecida pelo nome de Comunhão dos Santos. Da mesma maneira que estamos todos ligados na culpa das faltas de um outro (como o prova tão evidentemente uma guerra moderna), assim também podemos estar ligados na expiação de outrem. Tal milagre realiza-se na reversibilidade dos méritos e na permuta de vantagens. É por isto que pedimos aos nossos amigos que rezem por nós, por isso que rezamos no texto do “Padre Nosso”, por isso que finalizamos todas as missas rezadas no mundo inteiro fazendo orações pela conversão da Rússia. Temos necessidade espiritual uns dos outros. “E o olho não pode dizer à mão: Eu não necessito do teu serviço; nem também a cabeça pode dizer aos pés: Vós não me sois necessários. Antes, pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos, são os mais necessários” (Cor. 12,21-22).
Há poucas consolações maiores do que a de saber que estamos ligados a uma grande corporação de orações e sacrifícios. A Comunhão dos Santos é a grande descoberta daqueles que, quando adultos, encontram a plenitude da fé. Descobrem que, durante anos, houve dúzias, e em alguns casos centenas de almas rezando especialmente por eles, tempestuando o céu com a súplica de que um pequeno ato de humildade da parte do convertido possa abrir uma fenda na sua armadura para deixar entrar a graça e a verdade de Deus. Cada alma no mundo tem preço marcado e desde que muitas não podem ou não querem pagar o preço elas mesmas, outras devem fazê-lo em seu lugar. Provavelmente não há outra forma de explicar a conversão de algumas almas que o facto de que neste mundo, como no outro, os seus pais, parentes ou amigos intercederam a Deus e conquistaram para elas o prémio da vida eterna.
Por que há mosteiros e conventos? Por que deixam tantas jovens almas as luzes e esplendor do mundo pela sombra e pelo amparo da Cruz onde se formam os santos? O mundo moderno compreende tão pouco a missão delas que, tão logo um repórter ouve dizer que uma linda e jovem mulher entrou para um convento, telefona a seus pais, indagando: “Teve ela um desengano amoroso?” A resposta, sem dúvida, é: “Sim, desenganou-se do amor do mundo. Apaixonou-se por Deus.” Estes ocultos dínamos de oração, os homens e mulheres enclausurados, estão fazendo mais pelo nosso país do que todos os seus políticos, os seus líderes trabalhistas, o seu exército, a sua marinha juntos. Estão expiando pelos pecados de todos nós. Estão desviando a justa cólera de Deus, reparando as barreiras tombadas daqueles que pecam e não rezam, rebelam-se e não expiam. Assim como dez homens justos teriam salvo Sodoma e Gomorra, da mesma forma dez santos justos podem salvar agora uma nação. Mas enquanto uma nação se mostrar mais impressionada pelo que faz o seu gabinete governamental do que pelas almas escolhidas que estão fazendo penitência, o renascimento dessa nação ainda não começou. Os enclausurados são os mais puros dos patriotas. Não se tornaram menos interessados pelo mundo desde que o deixaram: na verdade, tornaram-se mais interessados pelo mundo do que nunca estiveram antes. Mas não se preocupam se se comprará ou venderá mais. Cuidam ̶ e cuidam desesperadamente ̶ de que ele se torne mais virtuoso e mais amante de Deus.
Com homens e mulheres tão nobres prestando auxílio aqui e agora, ali e outrora, o restante faz bem pouca penitência pelos nossos pecados individuais. Mas, mesmo assim, muitos dos frustrados homens e mulheres modernos, procuram em torno de si avidamente algum meio mais fácil, uma religião que dê o impulso emocional sem a carreta da penitência, um culto que eleve, mas não exija demais. Tendo muitas paixões a serem mortificadas, muitos maus hábitos a corrigir, muitos egoísmos a domar, querem uma cruz aerodinâmica.
Buscam uma religião que lhes dê resplendência, mas não golpes. Alguns repudiam qualquer religião, dizendo: “Que poderá dar-me a Igreja?.” Neste estágio de orgulho, a Igreja não pode dar, mas pode tirar alguma coisa: os pecados alheios. E, como ponto de partida, é um dom suficiente.