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CAPÍTULO 6
Exame de Consciência
Durante séculos muitas almas acreditaram, como algumas ainda hoje acreditam, no exame de consciência. Este grande exercício espiritual foi afastado a pontapé da porta da frente pelos materialistas modernos na base de que é inútil examinar a consciência. Ofereciam três argumentos: que não há pecado, que a consciência é apenas o facto de reconhecermos convenções sociais e tabus e que cada homem é o único determinante do que é certo e errado para ele. Aquilo que esses materialistas afastaram da porta da frente, alguns psiquiatras agora introduzem um disfarce pela porta do fundo, sob o rótulo de novo exame: exame do inconsciente - mas com esta diferença: com eles não há Deus, não há lei moral, não há julgamento final.
Chama-se comumente psicanálise este exame do inconsciente. [18] Por causa duma confusão generalizada sobre o assunto, é importante indicar aqui, entre parentesis, a diferença entre psiquiatria e psicanálise. Psiquiatria é uma ciência que trata das doenças mentais; só pode ser praticada por doutores em medicina. Psicanálise é um método particular de tratamento de alguns males, aliviando de um mal embaraçoso e trazendo o inconsciente ao consciente. Pode-se estar em oposição a certa escola de psicanálise, como a freudiana, sem por isso ser contrário à psicanálise em geral, como se pode ser contrário ao “jazz”, sem ser inimigo da música. A psiquiatria como termo cobre mesmo um território mais amplo. Além de todas as formas de psicanálise, inclui uma dúzia de métodos diferentes. A psiquiatria, como um ramo da medicina, é não somente uma ciência perfeitamente válida, mas uma real necessidade hoje. Nos últimos cem anos, enquanto a população dos Estados Unidos aumentou apenas 6,71 por cento, a porcentagem de pacientes mentais institucionalizados aumentou de 23,328 por cento. Médicos qualificados para tratar, curar e prevenir tais doenças são uma desesperada necessidade moderna. Muitos dos psiquiatras que exercem hoje tão necessária tarefa não são psicanalistas.
Mas a psicanálise mesma, compreendida como exploração mental e tratamento, pode ser um método perfeitamente válido. Até certo ponto, poderia ser encarada como uma aplicação da doutrina cristã do exame de consciência ao exame do inconsciente. A fé cristã e a moral não podem naturalmente ter quaisquer objeções a um tratamento mental, cujo alvo é a restauração do espírito doente ao seu fim humano. Mas “a psicanálise” se torna, na verdade, bastante errada quando cessa de ser um método de tratamento e pretende ser uma filosofia. Caminha fora da sua legítima área com um ramo da medicina e torna-se perigosa, quando é transformada na base de uma concepção filosófica da natureza humana, com afirmativas tais como a de que o homem é um animal e não tem liberdade de vontade, ou que “ as doutrinas religiosas são ilusões”. [19]
A psicanálise (usando ainda este nome num sentido vasto) não pode ser inteiramente independente de uma visão filosófica da natureza humana. Mas uma filosofia profunda não se derivou das descobertas da psicanálise; antes, a interpretação filosófica precede a teoria psicológica e determina o seu objetivo particular. Se uma escola psicanalítica assevera que o homem é um animal apenas, esse dogma não é algo que o seu fundador tenha concluído dos factos descobertos pelo estudo psicológico. Foi uma suposição que ele aceitou, antes de toda a investigação e construiu como bases que sustentam a teoria. Se uma escola psicanalítica proclama que essas desordens mentais, não causadas por uma doença orgânica do cérebro, se originam de instintos, sexuais e outros, tal afirmação de novo ultrapassa o que é justificado pelos factos observados e deles deduzido. Pertence às pressuposições que os psicanalistas aceitaram como verdade, antes de haverem procedido ao desenvolvimento da sua teoria. Quando Freud escreveu o seguinte, impôs a uma teoria um preconceito irracional: “ A máscara caiu: a psicanálise leva a uma negação de Deus e de um ideal ético”. [20]
A escola psicanalítica de Freud faz isto justamente muitas vezes. Mas há outras escolas. E repito, não há objeção a fazer à psicanálise como tal, enquanto se mantém ela como simples método e não acarreta influências ou ideias contrárias à verdade (embora a psicanálise, no melhor dos casos, não seja uma panacéia aplicável tão amplamente como querem os seus mais estimados crentes). Mas uma vez que a psicanálise afirma que “o homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles” [21], ou que o pecado é um mito, a religião uma ilusão e Deus “ uma imagem do pai”, então cessa de ser ciência ou um método e começa a ser um preconceito.
Através de todas as eras tem havido alguma espécie de psicanálise - uma análise da “psyche” ou alma, de passo com a procura das causas mentais de todas as espécies de perturbações humanas..
Pensavam os gregos antigos que a base da vida normal, da sabedoria e da sanidade era o “conhecer - te a ti mesmo”. Sócrates falava da necessidade de “tomar cuidado da sua alma” e as palavras gregas que dizem isto são precisamente “terapia da alma”
As curas mentais eram aplicadas, como meios de curar certas desordens físicas, nos santuários do deus Esculápio. Os estoicos da era pré-cristã, e de modo particular Séneca, recomendavam um exame de alma todas as noites na suposição de que, quanto mais o homem moral entra em si mesmo, tanto maior é a sua paz. Marco Aurélio escreveu uma série de meditações nas quais conversa intimamente com a sua alma, discute os problemas do certo e do errado, e, geralmente falando, examina a sua consciência, dando conta a si mesmo de quão distante tem vivido dos seus princípios. Mais tarde, disse Santo Agostinho: “Não saias de ti mesmo; antes, volta-te para dentro de ti mesmo e te transcenderás”. E também disse que a verdade reside no homem interior. Santo Agostinho é retamente considerado o pai da auto-análise em psicologia, embora a psicologia científica, ou a ciência dos fenómenos mentais, se haja originado com Aristóteles.
Há outras passagens nos escritos de muitos autores medievais e posteriores que fortemente anteciparam concepções psicológicas ou psicanalíticas modernas. A análise do sonho desempenha grande papel das várias escolas psicanalíticas modernas: mas isto não é uma ideia nova, como Freud admitiu, embora proclamasse haver ido bastante além do que tinha sido feito antes, dando a esse método uma significação totalmente nova. O próprio S. Tomás observa que: “Há alguns doutores que estão habituados a examinar sonhos, afim de determinar as disposições das pessoas”. [22]
O problema dos factores mentais em todas as espécies de desordens foi um que interessou particularmente os românticos germânicos, na primeira parte do século XIX. Entre os escritores que o próprio Freud alista, como seus predecessores, há um Schubert que escreveu extensivamente a respeito de sonhos e do que ele chamava o “lado noturno” da alma.
A hipnose e a sua influência foi outro tópico que atraiu aqueles românticos, sob o nome de “influência magnética”. W. Grimm (que se estava pelo menos aproximando do Romantismo, mesmo que não pertencesse estreitamente ao grupo mais estreito, e cujo nome é famoso como um dos pais da linguística moderna) escreveu um ensaio sobre o inconsciente. Há também uma história, “O santo” entre os contos fantásticos de E. T. Holfmann. Trata-se duma moça que perdeu a voz por causa de um sentimento de culpa e a recupera quando ouve uma amiga explicar a seu pai a origem mental e o mecanismo de todo o processo.
No Evangelho, verificamos que o Nosso Bendito Senhor analisa os motivos das pessoas, usando não a mera psicanálise, mas a Análise Divina.
Olhando para dentro das almas, via os fariseus como sepulcros caiados de branco, dizendo que estavam limpos por fora, mas cheios por dentro dos ossos dos cadáveres. Penetrou por sob os fingimentos e hipocrisias das suas orações e das suas dádivas de esmolas, dizendo que eles faziam estas coisas para serem vistos pelos homens.
Analisou a alma hipócrita que foi para a dianteira do templo para rezar, revelando quão orgulhoso era no íntimo do seu coração. Quando uma mulher entrou sem ser convidada na casa de Simão e se lançou aos pés de Nosso Bendito Senhor, Simão pensou no seu íntimo: “Se Ele soubesse somente que espécie de mulher é ela!” - o que nos faz perguntar: “ como sabia ele?” Mas Nosso Senhor então analisou a alma de Simão e contou-lhe a história de dois devedores, um que devia quinhentos dinheiros e o outro cinquenta, e disso tirou ele a lição de que muito pecados eram perdoados à mulher porque amava muito. S. Paulo disse aos Coríntios: “Examine-se pois a si mesmo o homem.” ( I Cor. 11,28) e novamente: “Examinai-vos a vós mesmos, se estais firmes na fé.” ( II Cor. 13,5.) Estas palavras fazem lembrar Jeremias falando à sua própria gente: “Examinemos e investiguemos os nossos passos e voltemos ao Senhor.” ( Lam. 3,40.)
O Nosso Bendito Senhor lembrou-nos que o mundo acabará com uma grande “psicanálise”, na qual os pecados secretos e ocultos de cada homem serão revelados e ninguém sairá até que tenha pago o derradeiro vintém. Por causa desta relação básica entre a alma humana e Deus, através de toda a história humana uma das práticas espirituais mais universais de toda a alma Santa tem sido o que se conhece como o exame noturno de consciência. Os pensamentos, as palavras e os atos do dia são trazidos à superfície e examinados para se considerar se estão ou não em conformidade com a lei moral de Deus. Depois deste exame, segue-se uma resolução de emendar a nossa vida, de fazer penitência das faltas, e de entrar numa maior união com o amor que é Deus. Tal auto psicanálise é coisa séria.
Há, porém, uma profunda diferença entre psicanálise freudiana e o exame cristão de consciência, pois supõe-se que a psicanálise revele ou desvele algo que nem mesmo o mais escarniçado exame de consciência poderia descobrir. Freud proclama que o que está oculto no inconsciente é inacessível ao consciente; é proibido de emergir para a nossa visão consciente; é mantido retirado no inconsciente por uma poderosa força chamada o “censor”. Desde que não há meio para o espírito de sondar a sua própria consciência e descobrir o que está oculto e fechar-se ali, uma técnica peculiar tem de ser empregada para trazer a lume o conteúdo. Está técnica, conhecida como “associação livre” e “interpretação” é usada pela psicanálise freudista.
Todos os psicanalistas concordam em que o exame de consciência ( ou narração sincera que um homem faz a si mesmo das suas ações e intenções) fará muito para libertar a mente de inibições e preocupações. Mas consideram o auto-exame um processo um tanto superficial. Sustentam que as causas reais das dificuldades mentais, dos conflitos íntimos e inibições poderão ser descobertas somente se o inconsciente for obrigado a devolver à consciência aquilo que outrora fora exilado e reprimido.
Mesmo se as pressuposições da psicanálise freudista fossem aceitas - o que não poderão ser - é discutível se esta noção da inacessibilidade total do “inconsciente” ao nosso exame normal pode ser mantida. É concebível que a mente, quando usando do contato certo, possa realizar quase tanto pela análise sozinha, como sob a guia de uma terceira pessoa. Para esta asserção a psicanálise freudista - pelos menos a do ramo “ortodoxo” - tem, sem dúvida, uma resposta pronta. A presença da terceira pessoa (ou do analista) é encarada como uma condição indispensável para o desencargo. É ela quem, por algum tempo, se torna o objeto dos anseios instintivos recalcados, por meio do chamado processo de “transferência”. Pensam os freudistas ser isto um elo necessário no processo de arranjar e redistribuir as “energias instintivas”. Mas este argumento parece menos conclusivo do que acreditam os analistas que seja. Não há razão convincente para afirmar a indisponibilidade do próprio mecanismo da transferência. Se o analista é encarado como indispensável, só o é em virtude da teoria característica de Freud - teoria sem substância aliás - da natureza do inconsciente. De facto, tem-se notado recentemente uma tendência entre mesmo alguns seguidores de Freud a abandonar um ou outro dos dogmas da teoria original. Um desses dogmas suspeitos é o da necessidade da transferência ou da intervenção do analista. Tal nome só tem sentido se se concede que o pensamento humano pode obter acesso ao seu próprio inconsciente.
Até o ponto em que a psicanálise no século XX toma interesse pelo íntimo da alma humana, representa um grande progresso sobre as sociologias do século XIX, que pensavam que tudo quanto está errado no mundo era devido às pobreza, às más condições s, ao comércio livre, às altas tarifas, ou à política. Além disso, na extensão em que a psicanálise revelou os efeitos dos nossos pensamentos - mesmo da mente inconsciente - sobre a nossa saúde física e a nossa conduta, confirmou a grande verdade cristã de um pensamento desordenado (ou mesmo um inconsciente desordenado) leva à anormalidade.
Encontram-se em S. Tomás muitas passagens em que deplora, como deploram os psicanalistas, justamente tal repressão. A humanidade sempre reconheceu a relação entre consciente e inconsciente, como algo semelhante a de um piloto dum navio para com a casa das máquinas e o leme. (Não usamos aqui o inconsciente no sentido técnico de Freud.) O piloto na ponte pode ver à frente. Estabelece a direção e o curso a ser seguido. Estas direções são transmitidas à casa das máquinas lá embaixo e, finalmente, ao leme e em seguida à água. Da mesma maneira, é a consciência e, mais propriamente, a consciência e a vontade que dizem ao homem qual o rumo a seguir. Mas às vezes, quando as direções são comunicadas ao inconsciente, aos instintos, aos sentidos e às paixões, há uma espécie de revolta, uma desconfiança. O resultado é que, lá embaixo, no inconsciente da casa de máquinas, ou no inconsciente do leme, há um descaminho de ordens, uma revolta, destinada a deixar as suas cicatrizes na mente do homem. Pelo facto de poderem estar ainda ali os traços de tais passadas revoltas, irreconhecíveis, não há negar haver por vezes vantagem em analisar mesmo o inconsciente, justamente como é útil limpar os numerosos objetos de uma adega de casa. Um caso de emergência pode tornar tal limpeza uma necessidade imediata; se um gato se insinua ao cano de uma fornalha, encherá de mau cheiro uma casa, tornando necessário examinar as partes digamos inconscientes da casa, a fim de que se possa ter ar mais puro lá em cima. (Se, porém, o psicanalista continua a dizer que os que vivem lá em cima podem eximir-se de toda a responsabilidade, quer pelo mofo da adega ou pela presença do gato no cano da fornalha, deve ser lembrado a eles que porão e gato que abriram caminho para os canos eram ambos propriedade deles mesmos.)
A psicanálise tem, pois, uma tarefa respeitável mais limitada, a executar. Opomo-nos aqui somente àqueles determinados psicanalistas que neguem qualquer validade ao exame de consciência, na base de que o exame do inconsciente lhe toma o lugar. O cristão não contende com o psicanalista que diz que a mente de um homem é bastante semelhante a uma flor, que tem as suas raízes na lama, no lodo e na imundície da terra, mas discutirá com o psicanalista que, concentrando-se nas raízes, nega a existência do caule, ou a beleza da flor. Como não é a raiz a flor inteira, assim também o homem não deve ser compreendido inteiramente em termos do seu inconsciente. Se estamos sempre tão doentes, que necessitamos do auxílio de um psicanalista para o exame do inconsciente, nem por isso seja dispensado o exame de consciência. Aquele é por vezes necessário, mas nunca é um substituto deste.
Um médico pode muitas vezes dar-nos um remédio para curar a anemia do sangue. Isto não dispensa a maior e mais constante necessidade que temos de limpar o sangue pela respiração. Similarmente pode haver vezes em que é necessário analisar o inconsciente para descobrir se uma ideia foi recalcada ou suprimida. Mas é necessário para nós examinar a consciência para descobrir se o motivo que moveu uma ação era certo ou errado. E, descobrindo isto, pode-se também encontrar a razão da repressão. Às vezes é útil analisar atitudes e condições de pensamento, mas é sempre necessário analisar a vontade e reconhecer a sua culpa, se houver. É este um processo mais penoso que costuma ser a psicanálise: uma pessoa pode ter orgulho das suas atitudes mentais, pode vangloriar-se do seu cepticismo, do seu ateísmo, do seu agnosticismo e da sua perversão; mas a sua consciência nunca se vangloriará da sua culpa, da sua vergonha, ou da sua miséria. Mesmo isolada, uma consciência culposa sente-se perturbada.Deseja com veemência escapar à dor do autoconhecimento, lançando a responsabilidade a qualquer outra parte. Às vezes a censura por uma condição mental anormal vem a ser lançada sobre avós e avôs, sobre pais cruéis e grosseiras mestras de jardim de infância. Mas não se deve nunca esquecer que muitíssimas mais vezes a censura deve ser mais justamente lançada contra si mesmo, ao confessar, batendo no peito: “Por minha culpa, minha culpa, por minha máxima culpa.” Às vezes pode ser útil ter alguém o seu inconsciente examinado, estendido num divã, mas a menos que queira abdicar da sua inteira personalidade a outrem, é sempre necessário reservar-se o direito da escavação da sua propriedade mental, de cavar na sua própria alma. Ninguém jamais se tornou melhor por ter alguém a dizer-lhe o grau da sua podridão; mas muitos se tornaram melhores confessando eles próprios as suas culpas.
Dá-se muitas vezes o caso de, quando o inconsciente se torna consciente, desaparecerem as dificuldades mentais. (Mas isto não é um substituto para consertar uma falta cometida contra alguma regra objetiva.) Há vezes em que é moralmente útil trazer à luz da consciência o conteúdo do que se oculta no inconsciente. Se o indivíduo conhece esse conteúdo, torna-se capaz de lidar com ele e desviar para melhor uso a compreensão de si mesmo que acaba de adquirir, dirigindo as suas energias para alvos mais razoáveis. [23]
Ninguém haverá de negar que a eficácia da análise depende da técnica; mas a técnica não substitui o arrependimento. Nem tampouco penetra uma psicologia bastante profundamente nos problemas humanos, se interpreta o homem inteiramente em termos de instintos e de conflitos de instintos, ou se atribui todos os conflitos às fontes dos instintos, afirmando que não há outros elementos na pessoa humana. No animal há apenas instintos, mas não no homem. Os instintos de um animal estão tão bem ajustados às suas possíveis situações que entram em jogo automaticamente. Como mostra São Tomás, não pode haver qualquer deliberação num ser sub-racional (mesmo embora possamos ter a impressão de que haja); há apenas um entrejogo de forças, revelando-se a imagem mais atrativa, mais forte e tornando-se uma determinante da conduta. Os instintos nos animais parecem operar de acordo com o padrão das forças físicas, em que a mais forte sempre prevalece, pois ao animais estão totalmente desprovidos da liberdade que caracteriza o homem. [24]
Porque é livre, pode o homem pecar, o que não acontece com os animais. O pecador pode necessitar de auto-análise, mas com certeza necessita de auxílio de fora de si mesmo, para que se torne bom. Profunda diferença entre exame do inconsciente e exame de consciência é a de que o primeiro permanece subjetivo e pode encerrar o paciente dentro do seu próprio e apertado ego, como um esquilo numa gaiola. Como disse um psicólogo: “Não podeis ver o que estais procurando, porque permaneceis na vossa própria luz”, − estais procurando a vós mesmo, buscando aquela mesma coisa que também busca. Tal processo é bastante semelhante ao de quem tenta observar o seu próprio sono. Mas no exame de consciência a gente sai de si mesmo tão depressa quanto é possível, para deixar que a luz de Deus brilhe em nós. É Cristo Quem olha dentro da alma e Quem perscruta a consciência. Por isso a Sagrada Escritura está cheia da ideia: “Procura a minha alma, ó Deus.” E quando a Divina Luz olha dentro da mente, afasta-o de si mesmo, evitando as muitas misérias que brotam da extrema introspecção. [25] É por isso que Nosso Bendito Senhor nos incita a esquecer as nossas condições mentais, quando tal coisa é possível. “Ninguém que, depois de ter metido a sua mão ao arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus.” (Lucas 9, 62.) “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.” (Mat. 8,22.)
Algumas desordens mentais, porém, recusam ser ignoradas, mesmo depois que a culpa como causa e o exame de consciência como remédio foram aplicados.
Muitas doenças mentais que têm base puramente psicológica e nervosa, ou mesmo fisiológica, persistem. Essas, somente um bom psiquiatra pode curá-las. Mas é importante para efetuar uma cura, certificar-se de que ele é um bom psiquiatra. Um sistema de psicanálise que parte da negação da vontade, da responsabilidade humana e da culpa torna os seus seguidores incapazes de compreender a natureza humana sobre a qual operam e aumenta, em muitos casos, a própria doença que tentam curar. Almas doentes que até então têm negado a possibilidade do pecado e da culpa deveriam reexaminar as suas consciências em vez dos seus inconscientes e considerar a possibilidade de que talvez muitas das suas perturbações mentais são devidas a um senso irreconhecido de culpa humana. Há muitas almas estendidas sobre divãs psicanalíticos hoje, que estariam bem melhores se levassem as suas consciências a um confessionário. Há milhares de pacientes deitados de costas que estariam hoje melhor se se pusessem de joelhos. A própria passividade simbolizada na posição ressupina em um divã é símbolo de irresponsabilidade do paciente, asseverada pela teoria inteira de Freud. Está em chocante contraste com a humildade do homem que, de joelhos, diz não “Oh! Que louco tenho sido”, mas “Meu Deus, tende misericórdia de mim que sou um pecador”.
Aquelas almas que negam a possibilidade da sua própria culpa assim o fazem usualmente, porque são demasiado complacentes para consigo mesmas, ou demasiado pretensiosas para encarar os factos. São “escapistas” que procuram varrer a sua sujeira moral para debaixo de tapetes freudianos. Em vez de admitir os seus pecados como seus mesmos, projetam-nos para cima de outrem. Muitas das perturbações de hoje se formam, porque cada qual está procurando alguém a quem possa censurar pelos seus malfeitos. Alguns do bodes expiatórios favoritos são uma mãe que amou por demais o pecador, ou um pai que não amou bastante. Para os nazistas, o bode expiatório eram os judeus; para os comunistas são os cristãos; para os freudistas, chama-se muitas vezes uma repressão devida a “totens e tabus”.
Todos os bodes expiatórios são o resultado de esforços para eliminar tudo quanto se refira ao eu mais elevado, e assim atrofiam o senso moral.
Põem também a dormir o juízo crítico que deveria ser o ilógico dessa teoria, pois se o insconciente é a causa dos estados mentais anormais e consequentes desordens devemos perguntar: “Que é que faz o inconsciente produzir essas psicoses e essas desordens? E se a repressão é a causa, então por que a consciência quer reprimir aquilo que está errado?” [26] O psicanalista amoral, recusando admitir “certo” ou “errado”, tem dificuldade em responder. A explicação, sem dúvida, deve ser encontrada na ordem natural moral, na existência de um ethos ao qual todo o homem está sujeito e contra o qual o homem muitas vezes se rebela. Tal ordem moral é universal e tem sido universalmente reconhecida. É difícil de encontrar em qualquer literatura a asserção de que a única diferença entre um homem são e um insano reside no conteúdo da sua inconsciência, mas é bastante fácil de encontrar, através das idades, uma distinção entre o que um homem parece ser ao seu vizinho e o que ele é realmente em si mesmo, ou entre o que ele é e o que deveria ser. O homem tem de facto dois aspectos, muitas vezes percebidos por poetas e filósofos. Como Browning disse:
“Louvado seja Deus, o seu mais íntimo ser
Bifronte se apresenta: um rosto encara o mundo,
O outro só à mulher amada se revela.”
Estes dois lados da natureza humana relacionam-se com anseios por um bem maior do que podemos concretizar na nossa vida diária. Há sempre um ideal a atingir.
A tentativa freudiana de varrer fora a nossa consciência moral como versão disfarçada de algo mais, tem sido geralmente repudiada na Europa. Mais recentemente, mesmo na América, está perdendo a sua força. Os comediantes estão fazendo dela o alvo das suas pilhérias. Têm aparecido álbuns de caricatura ridicularizando-a. Quando se pensa a respeito do assunto calmamente, torna-se claro que poucas teorias mais ridículas do que essa têm sido inventadas, teoria que deriva o sentimento de culpa de uma pessoa da inibição de um desejo potencial de matar o pai e casar com a mãe (complexo de Édipo) ou matar a mãe e casar com o pai (complexo de Electra). Tal teoria não afirma erro objetivo acerca de qualquer dos desejos, mas faz somente a afirmativa calva e sem prova de que eu sou feito para sentir a culpabilidade, por causa do meu desejo recalcado de matar o pai ou de matar a mãe. [27]
C. E. M. Joad, comentando esta teoria, escreve:
Uma vez mais a explicação foge ao problema com uma petição de principio. Por que me sinto culpado agora? Porque nos disseram que eu ou possívelmente os meus antepassados remotos desejaram cometer parricídio ou incesto. E por conseguinte? Por conseguinte, presumivelmente, eu ou os meus remotos antepassados porque assim desejamos, temos um senso de culpa. Ora, ou parricídio e o incesto eram coisas que eles pensavam que não deviam fazer, ou não eram. Se eram, então a sensação de culpa, que a teoria busca explicar fora, será encontrada ligada àquilo que é invocado como sua explicação. Se não eram, é impossível ver como o processo que leva ao senso da culpa moral pode derivar de um passado remoto, no qual os homens não sentiam moralmente, do mesmo modo que os sentimentos do temor e reverência não podem derivar de um universo em que nada é sagrado ou temível, ou o sentimento de apreciação estética de um universo no qual nada é belo. [28]
O Dr. Edmundo Bergler no seu estudo psiquiátrico The Battle of Conscience (A Batalha da Consciência) [29] rompe com aqueles que consideram a consciência uma ilusão. “Todos têm uma consciência interior, todos estão constantemente sob a influência daquele departamento intimo da personalidade. O cínico que ridiculariza a consciência esquece-se de que o seu próprio cinismo tem a sua razão relacionada com a sua consciência. A violenta conduta do cínico é a expressão da guerra defensiva contra o seu “inimigo interno”. Golpeia outros, mas está atingindo-se a si mesmo”. “O velho adágio que diz que uma consciência tranquila é o melhor travesseiro para dormir, é hoje confirmado por aqueles que dormem − ou passam noites sem dormir – sobre o duro travesseiro do materialismo. Desde que essa filosofia nega a própria possibilidade de culpa, fecha-lhes as possibilidades de cura.
Silencia-se a voz da consciência de quatro modos: matando-a, negando-a, afogando-a ou fugindo dela. Nietzsche é o inspirador daqueles que matam a consciência. Este filósofo advoga francamente o pecado, até ao ponto em que a consciência se perde completamente e não há mais distinção entre bem e mal. Como disse um antigo poeta:
“Por que férias não dar à consciência,
Como aos outros humanos tribunais?
O poder de adiar uma audiência
E de ultrapassar casos fatais?” [30]
Nietzsche solicita o que ele chama uma “transvalia de valores”, a qual faz do bem mal e do mal bem. Se tal abuso é continuado bastante tempo, a consciência pode ser morta. Quando alguém vai trabalhar numa fábrica a vapor, o barulho é ensurdecedor nos primeiros poucos meses. Depois, isto não é mais ouvido. Da mesma maneira, a consciência pode ser afogada de modo que não a notamos mais, até às últimas horas de vida, quando ela regressa.
Outro modo de escapar à consciência é negá-la.
“Não deixemos que à nossa alma atemorizem
Sonhos falazes; para os fortes conservar
Em temor, inventou-se outrora essa palavra
Consciência, que vis covardes utilizam”. [31]
Esta fuga toma geralmente a forma de uma racionalização, por meio da qual há um ajustamento da nossa consciência ao modo em que vivemos. Negando qualquer derradeira norma fora de si mesmo, pode-se escapar a toda a auto-censura e atravessar a vida numa perpetua missão de manter as aparências. O marxismo é uma forma de negação da consciência, porque atribui o nosso senso de tensão intima às condições económicas.
Outras ideologias ligam a existência da consciência à influência do rebanho. Tais filosofias todas afirmam que o homem é extradeterminado e não interdeterminado. Negam que o homem seja livre e no entanto habitualmente exigem para cada homem um direito de escolher livremente as suas próprias opiniões.
A terceira fuga é pelo afogamento da consciência.
“Ó consciência, a que abismo me levastes
De terrores e medo; sem saída
Nele vou me afundando mais e mais”. [32]
Quando se verifica que nos Estados Unido se vendem por dia seis milhões de doses de comprimidos para a insónia e que o consumo de álcool per capita foi recentemente estimado em mais de mil cruzeiros por homem, mulher ou criança; quando se conta por 700.000 o número de alcoólatras confirmados e por 3 milhões o número de casos fronteiriços, há nisso na verdade um forte indicio de que muita gente há na nossa população preocupada em afogar todo o sentido da própria responsabilidade, da sua liberdade e de eliminar a dificuldade da escolha.
Não é para desprezar é o quarto método de fuga – a fuga da consciência. Este motivo é também aparente entre os que são dão às drogas e os alcoólatras. Perderam a capacidade de suportar o que quer que seja de desagradável.
“É o vício monstro tal, de fera catadura
Que somente de vê-lo a ira logo se apura;
Mas se frequentemente o rosto lhe fitamos
Temos dó, compaixão e depois o abraçamos.” [33]
Fugitivos das exigências da consciência desanimaram diante do esforço de tomar qualquer decisão ou de superar a sua condição. Encarar dificuldades implica demasiadas incomodidades. A sua inquietação já foi chamada de “idolatria do conforto”. É uma queixa comum. O homem de hoje sente que a vida deveria correr suavemente, que nada deveria incomodá-lo, que tudo deveria funcionar tão perfeitamente, como as máquinas de que gosta de cercar-se e das quais depende. Somente na certeza de recompensas especiais aceitaria de boa vontade um trabalho pesado. Muitas pessoas são ainda capazes de suportar certa quantidade de incómodos por coisas que acreditam que valem a pena. Farão grandes esforços para garantir-se uma renda mais elevada ou prestígio social. Mas há entre nós alguns outros que não podem suportar nem mesmo os pequenos e inevitáveis sofrimentos da vida cotidiana. Buscam libertar-se dessas coisas pelo álcool, ou por meio de qualquer das outras fugas à responsabilidade. Nessa tentativa de fuga a todo o esforço justificam o conceito do Livro do Génesis de que o trabalho é um castigo que o homem não pode aceitar com prazer.
Poder-se-ia mostrar que todas as quatro formas de repressão da culpa humana produzem os seus efeitos sobre o inconsciente e sobre o corpo humano. Qualquer negação da consciência como a voz de Deus pode ser momentaneamente eficaz, mas um dia virá em que a consciência enganada voltar-se-á com fúria e hostilizará a sua vítima, atormentando-lhe a vida desperta e tornando os seus sonhos um veneno e a sua treva um pesadelo. Quando a noite dá desafogo à nossa visão interior, a consciência culpada permanece desperta, temerosa de ser conhecida em toda a sua fealdade. Não há nada que tanto desperte o medo doentio como uma culpa oculta.
Este medo evidencia-se de muitos modos: quando uma pessoa não está bem por dentro, nada pode estar bem nas suas atividades exteriores. Projetará nos outros o seu próprio descontentamento. O que deveria ser uma autocrítrica não revelada expressar-se-á em críticas e exigências contraditórias. Se tal homem é rico, pode tentar obter compensação – talvez por causa de bens mal adquiridos – esposando uma causa comunista, ou fundando jornais esquerdistas. Se faz parte dos intelectuais (o que significa que foi educado muito além da sua inteligência), tentará aliviar a sua consciência por um pretenso interesse pela justiça social ou zombando da religião. O homem culpado procura ajustar-se ao seu ambiente, embora saiba que a causa da sua perturbação é o desajustamento consigo mesmo. (Pode estar bastante errado isto de procurarem as pessoas ajustar-se ao seu ambiente, enquanto não estejam certas de que esse ambiente é o que lhes convém perfeitamente). Essa alma consome-se até à morte, enquanto corre dum psicanalista para outro, lutando com o problema do eu doente. A despeito desse esforços aparentes para encontrar uma cura está fugindo à verdade a respeito de si mesmo, como um homem pode ter medo de abrir as suas cartas julgando-as memorandos das suas contas não pagas.
Os psicólogos sensatos revelam que certas emoções têm repercussões sobre a natureza física do homem, como a medicina psico-somática testemunha. Assim poderiam também mostrar que as repressões imorais da consciência podem ter efeitos ainda mais sérios. Não somente destroem o caráter, mas criam também desordens no pensamento inconsciente. Assim como um galo cantou, quando Pedro negou Nosso Senhor, da mesma forma a natureza levanta-se em rebeldia contra nós, quando praticamos um pecado. Um médico tratando 100 casos de artritismo e colite descobriu que 68 por cento dos pacientes sofriam um sentimento oculto de culpa. Há um caso registado em Inglaterra de uma mãe cujo leite envenenou o seu filhinho, por causa dum intenso ódio que votava ao seu marido: o estado espiritual doentio da sua alma havia prejudicado não só o seu próprio espírito mas o corpo do seu filho.
Numa das histórias do Evangelho, quando um paralítico foi descido pelo teto, o Nosso Bendito Senhor disse-lhe: “Os teus pecados estão perdoados.” Aconteceu estarem presentes numerosos escapistas que riam diante da culpa e da ordem moral, e escarneceram dessa importância dada publicamente a pecados. O nosso Bendito Senhor encolerizou-se contra eles e disse: “Que é mais fácil dizer: “Teus pecados te são perdoados” ou “Levanta-te e caminha?” (Mat. 9,5.) E o homem imediatamente caminhou. Mas notai a ordem: primeiro os pecados do homem foram perdoados e depois pôde ser curado. Na actualidade existe uma considerável quantidade de testemunhos médicos que demonstramn que recordações de culpabilidade podem aumentar a probabilidade de fracturas, que os pacientes depois atribuem à sua “má sorte”. Os “propensos a acidentes” estão sempre quebrando pratos e braços, perdendo coisas, caindo de escadas, mas estes acidentes são menos “acidentais” do que parecem – podem ser secretos esforços para escapar às exigências do dever, podem ser uma “autopunição” por uma culpa que cometeu. A autodestruição torna-se um caso extremo de atitude que incita um homem a dizer: “Merecia bater em mim mesmo por fazer isto.” Alguns suicídios são claramente expressões de tais impulsos inconscientes.
Uma consciência desprezada pode vingar-se de vários modos tortuosos. Há muitos homens que sofrem desordens físicas, achando difícil manter relações normais uns com os outros, nervosos e descontrolados em casa e no escritório, simplesmente porque têm uma culpa reprimida. Ou esta não foi trazida à superfície de modo algum, ou tiveram-na explicada por aqueles charlatões sem ciência que não vêm na natureza do homem nenhuma diferença ou transcendência sobre a de uma barata. Mas não há escapatória à lei da natureza humana. Como é lembrado na Escritura: “Os vossos pecados vos descobrirão.” Justamente como uma recusa ao estudo na meninice produz uma ignorância que nos é revelada na vida madura, quando nos descobrimos incapazes de lutar contra as dificuldades económicas, assim também aqueles pecados que nós pensamos que não têm importância, que pusemos de parte pelo raciocínio, ou negámos, ou lançámos no nosso inconsciente, far-se-ão de certo modo sentir nos seus efeitos sobre a nossa saúde, a nossa atitude de pensamento e a nossa visão geral da vida. O pecado reside primariamente na alma, mas secundariamente reside em cada nervo, em cada célula e em cada fibra do nosso ser e em cada canto do nosso cérebro. Numerosos indivíduos que vivem em casamentos inválidos não estão gozando do aspecto físico do seu casamento simplesmente porque tem de viver com consciências que não lhes darão nem mesmo descanso do seu corpo. Isto é particularmente verdade a respeito daqueles que tiveram outrora fé e a perderam. Depois de morto o primeiro ardor da excitação do namoro, a consciência começa a reafirmar-se. Descobrem que não se entregaram completamente um ao outro, porque não estão de posse de si mesmos, uma vez que cometeram uma clara e consciente violação de uma amizade com o Pai Celestial.
Há muitos homens que cumprem os seus deveres à luz do dia com uma aparente paz de espírito, mas que, à noite, por causa dum não reconhecido sentido de culpa, sentem aqueles tormentos que os tornam, como ateus, medrosos do escuro. Como um homem pode ter uma mente limpa e um pensamento ativo, mas também pode ter uma doença do cérebro que mais tarde se revelará, da mesma maneira muito homem pode aparentar retidão e espírito nobre, generosidade e tolerância, embora vá sendo gradualmente devorado interiormente por uma culpa oculta. Por isso é que os homens espiritualistas de outrora exclamavam: “Limpa-me das minhas faltas ocultas, ó Senhor.”
Como poderemos evitar estes modernos sofrimentos que brotam da culpa oculta? Muitos deles cederiam a um exame de consciência à noite.
Não há que negar que a análise do inconsciente é muito mais popular do que um exame de consciência. Como substituto, parece muito mais atraente no princípio. Ninguém faz questão de examinar o seu inconsciente ou mesmo de deixá-lo ser examinado; mas quem é que não se incomoda com examinar a sua própria consciência ou deixá-la ser examinada? Um escapista não tem coração, nervo ou estômago para encarar a sua própria consciência, pois ao longo de cada um deles existem três poços que produzem três reflexões diferente. Olhamos para dentro de um poço e ficamos satisfeitos connosco, porque neste poço nos vemos como somos aos nossos próprios olhos. No segundo poço, vemo-nos como o nosso próximo nos vê. Mas no terceiro poço vemo-nos como Deus nos vê, isto é, como realmente somos. É esse terceiro poço que o exame de consciência nos leva ao findar de cada dia. Da mesma maneira que um homem de negócios ao fim do dia retira da sua caixa registadora a relação de dívidas e créditos, assim também ao fim de cada dia, cada alma deveria examinar a sua consciência, não fazendo de si mesma modelo, mas vendo-a como aparece à luz de Deus, o seu Criador e seu Juiz.
O exame de consciência traz à superfície as faltas ocultas do dia. Busca descobrir as cizânias que estão sufocando a seara da graça de Deus destruindo a paz da alma. Diz respeito a pensamentos, palavras e obras, a pecados de omissão e a pecados de comissão. Por omissão queremos dizer o bem que não é praticado, o deixar-se sem auxílio o próximo necessitado, a recusa de oferecer uma palavra de consolo àqueles que estão sobrecarregados de tristeza. Os pecados de comissão implicam observações maliciosas, mentiras, atos de desonestidade e aqueles sete pecados que são os sete carregadores de enterro da alma: a soberba, o amor desordenado do dinheiro, as relações sexuais ilícitas, o ódio, a extrema complacência, a inveja, a preguiça. Em acréscimo a tudo isto, há o exame para aquilo que os escritores místicos chamam o nosso “defeito predominante”. Cada pessoa no mundo tem um pecado que comete mais que os outros. Os diretores espirituais dizem que se riscássemos um grande pecado durante um ano, dentro de pouco tempo seríamos perfeitos.
Pelo facto de se relacionar com a culpa, como uma ofensa contra o amor a Deus ou ao próximo, o exame de consciência é completamente distinto das tentativas de cura das formas patológicas de culpa, que obcecam alguns espíritos conturbados. Aquela nunca poderá ser obliterada por qualquer forma de análise ou psiquiatria; estas últimas podem ser incluídas naquele campo e podem igualmente pertencer ao domínio espiritual. Daí, devermos distinguir entre culpa, no estrito sentido do termo. O sentimento de culpa implica sempre a certeza de ter deixado de cumprir algum dever: as diferenças nas duas formas de culpa surgem dos deveres reconhecidos pelo indivíduo. A culpa, no sentido lato do termo, não necessita de ser relacionada a uma falta de obediência às leis morais; lei infringidas ou tarefas não realizadas podem ser de outra espécie e ainda causar-nos remorsos. Se um homem estabelece para si mesmo um alto padrão para todas as suas realizações e, por sua própria culpa ou por causa de circunstâncias adversas, deixa de viver segundo ele, pode sentir-se culpado. Na verdade, um homem pode sentir-se culpado porque não deu a resposta certa num programa de perguntas e respostas; um cavalheiro pode sentir-se culpado porque manchou a reputação da família; um cavaleiro medieval sentia-se culpado porque tinha deixado de observar o código de noblesse oblige. Contudo em nenhum desses casos estava o pecado necessariamente envolvido.
Há um sentimento de culpa que se prende ao orgulho. Algumas pessoas, porque não vivem de conformidade com as suas próprias expectativas, sentem-se culpadas. É difícil saber se este factor desempenha determinado papel no desenvolvimento da melancolia, com o seu excessivo sentimento de culpa. Pierre Janet pensava que cada ataque de melancolia patológica era precedido por uma experiência de derrota. Acrescentou, porém, que tais disposições de ânimo podem ter longo período de incubação e que a experiência de abandono pode ter ocorrido vários meses antes de haver-se a depressão melancólica desenvolvido. Em casos em que os sentimentos de culpa parecem ser infundados, uma pesquisa mais indagadora no passado da pessoa aflita muitas vezes revela que há, na verdade, uma boa razão para que ela tenha uma má consciência. Não é preciso regredir a uma meninice remota ou postular uma situação edipiana para descobrir isto. Todos os homens praticam coisas que prefeririam nunca ter praticado. Nietzsche, bem antes de Freud, observou: “Fizeste isto”, diz a memória. “Não posso ter feito isto”, diz o orgulho. E a memória dá-se por vencida.
Alguns psicanalistas afirmam que o simples rastejar retrospectivo do sentimento de culpa até as raízes instintivas do inconsciente libertará o paciente deste sentimento. Quando não se segue este efeito, diz-se ao paciente que o que quer que ele tenha trazido a lume até agora não é a memória correta – o “trauma” – e que pode não encontrá-la, a menos que retrograde às suas verdadeiramente primeiras experiências. O seu sentimento de culpa é explicado como o efeito de forças inconscientes apagando toda a ação que ele pode preferir não se lembrar de ter feito. Mas isto equivale a dizer que o sentido de culpa do paciente despertou num período da sua vida em que não somos responsáveis: na infância. Seria esta crença confortadora se não violasse a experiência humana universal de que a culpa e a liberdade são inseparáveis; somente seres livres podem pecar. Somente o homem pode escolher entre obedecer ou desafiar as leis da sua natureza. O gelo nunca peca por derreter, nem o fogo comete falta por apagar-se.
Este afastamento dos nossos erros para a nossa meninice irresponsável, é mais um exemplo da forma curiosa e prejudicial de pensar, comum à moderna psicologia com base freudiana. Não pode encarar o facto de que o homem possa ter um sentimento de culpa, porque se reconhece culpado de haver feito algo mau. O freudiano não considerará nem mesmo a possibilidade de que o sentimento de culpa possa desaparecer, uma vez que as suas raízes verdadeiras (e não o seu “inconsciente”) sejam revelados, contanto que a pessoa culpada expie e torne em bem o mal que havia feito. Tal psicanalista não considerará esta possibilidade, porque está convencido de que somente a pesquisa inconsciente pode acarretar melhora – o que significa, para ele, fazer desaparecer o “sintoma”. Tal psicanalista não está, naturalmente, em condições de sentenciar sobre a eficácia ou não eficácia da confissão e da penitência.
O freudiano por vezes argumenta que a confissão não faz bem em curar complexos, quer se originem eles de uma ofensa contra a lei moral ou não. Usualmente define erradamente a confissão como um simples “desabafo”. Esquece-se de que a confissão implica reparação. O dinheiro roubado deve ser restituído. O equilíbrio da justiça deve ser restaurado. Quando a culpa deriva de um pecado verdadeiro, há um poder curativo neste desandar de passos falsos. Na prática, vê-se muitas vezes um mórbido sentimento de culpa desaparecer quando a sua causa real – o maldizer – é reconhecida primeiro por nós mesmos, depois admitida perante outrem e finalmente compensada por uma adequada expiação. Mesmo pondo de parte o caráter sacramental da confissão, há o conforto psicológico em “fazer penitência”, de modo que o mal praticado no passado possa ser compensado por algum bem feito agora. (Por esta razão, poderia ser bom para a Igreja restaurar algumas das rigorosas penitências impostas aos penitentes na sua história primeva.)
Os sentimentos de culpa têm, muitas vezes uma causa razoável e profunda nas recordações que o homem sente de um pecado não admitido. Aqui uma prestadia distinção feita pelos Escolásticos deve ser relembrada. Há duas espécies de mal: malum culpae, ato executado com liberdade, responsabilidade e repúdio de Deus; e malum poena, que é algo que nos acontece fora da nossa deliberada escolha – algo como uma dor no pescoço. Uma é um mal moral; a outra um mal físico ou mental. O Sacramento da Penitência só tem que ver com a primeira; a psiquiatria, propriamente, lida com os males mentais resultantes originalmente de causa não morais.
Às vezes há repercussões mentais ou físicas por causa do pecado; nestes casos, devia haver paz de alma antes de poder haver paz de espírito. As duas não são a mesma coisa: a paz de alma implica tranquilidade de ordem, com coisas materiais ordenadas ao corpo, o corpo à alma, a pessoa ao próximo e a Deus. Paz de espírito é tranquilidade subjetiva – uma coisa mais limitada. Requer-se grande esforço moral para atingir a paz de alma, mas mesmo aqueles que são indiferentes ao bem e ao mal, muitas vezes logram realizar a paz de espírito (o que Escrituras chamam de “falsa paz”). Por outro lado, pode ser que as desordens mentais impeçam o progresso moral e espiritual. Neste caso um profundo exame psiquiátrico é preciso preliminarmente para o auxílio esclarecedor ao padre. O psiquiatra profundo e o diretor espiritual podem contribuir, mutuamente, em auxílio um do outro. Isto e tão óbvio que desenvolvê-lo seria tão vão como criar uma sociedade de admiração mútua.
Mas o nosso primeiro interesse aqui é mostrar a diferença entre culpa e doença, protestar contra a redução de uma a outra e indicar algumas vantagens de auto-exame nos casos em que ele é exigido.
Todas as pessoas têm um cantinho no coração aonde nunca querem que alguém se aventure, mesmo com uma vela. É por isso que podemos iludir-nos a nós mesmos e que os nossos vizinhos nos conhecem melhor do que nos conhecemos. O exame do inconsciente, se usado como substituto do exame da consciência, somente intensifica esta ilusão. Nós muitas vezes nos justificamos dizendo que estamos seguindo as nossas consciências, quando estamos apenas seguindo os nossos desejos. Acomodamos um credo ao modo em que vivemos, em vez de acomodarmos o modo em que vivemos a um credo; ajustamos a religião às nossas ações, em vez de ajustarmos as ações à religião. Tentamos conservar a religião numa base especulativa a fim de evitar censuras morais à nossa conduta. Sentamo-nos ao piano da vida e insistimos que cada nota que tocamos está certa... porque a tocamos. Justificamos falta de fé dizendo: “Não vou à Igreja, mas sou melhor que aqueles que ali vão”, como se se pudesse dizer: “Não pago impostos, nem sirvo a nação, mas sou melhor que aqueles que o fazem.” Se cada homem é o seu próprio juiz e modelo, então quem poderá dizer que ele está errado?
Não somente o exame de consciência nos curará de tal auto-engano, mas também nos curará da depressão. A depressão origina-se, não do facto de ter culpas, mas da recusa em enfrentá-las. Há dezenas de milhares de pessoas hoje sofrendo de temores que, na realidade, nada são senão os efeitos de pecados ocultos. A consciência depravada é sempre uma consciência medrosa. As maiores conturbações nos vêm do nosso fracasso no encarar a realidade. (É por isso que uma dor que está presente é mais suportável do que uma preocupação igual que ainda está por vir.) A morbidez aumenta com a negação da culpa, com a sua modificação ou a ocultação da parte ulcerada. [34] Donde vem a depressão da autopiedade, se não de uma total indiferença pelos interesses de outros, o que é um pecado? Um soldado num campo de batalha ignora a ferida se ama a sua causa e a alma que pode lançar a sua ansiedade e a sua angústia sobre um Deus todo amor está a salvo da autopiedade.
Muitas almas são como pessoas com furúnculos, que poderiam ser curadas lancetando-os, o que permitiria ao pus sair. Os seus pecados reprimidos dão origem a esta forma de tristeza. [35] Nunca houve na história da Igreja um santo que não fosse alegre: tem havido muitos santos que foram pecadores, como Agostinho, mas nunca houve santos tristes. Isto é compreensível: talvez não pudesse haver uma coisa na vida mais deprimente do que o conhecimento que se tem de que se foi culpado dum grave pecado, sem a sorte de que gozam os cristãos de recomeçar de novo do ponto de partida. S. Paulo, sabiamente distingue entre a tristeza da culpa que conhece a Redenção e a depressão daqueles que negam tanto a sua culpa como a possibilidade do perdão. “Porque a tristeza, que é segundo Deus, produz uma penitência estável para a salvação; mas a tristeza do século produz a morte.” (2 Cor. 7, 10.) “Pois sabei que, desejando ele ainda depois herdar a benção, foi rejeitado, porque não lhe foi possível fazer com que mudasse de resolução, posto que lhe pedisse com lágrimas.” (Hebreus, 12, 17) O exame de consciência não somente alivia a nossa tristeza, não somente nos dá uma segunda oportunidade quando perdoados, também nos restaura no Amor.
No exame de consciência, uma pessoa concentra-se menos no seu próprio pecado que na Misericórdia de Deus – como o ferido se concentra menos nas suas feridas do que no poder do médico que trata e cura as feridas. O exame de consciência não desenvolve complexos porque é feito à luz da justiça de Deus. O eu não é o modelo, nem a fonte da esperança. Toda a fragilidade humana e toda a humana fraqueza são vistas à luz da infinita bondade de Deus e nem uma só vez uma falta é separada do conhecimento da Divina Misericórdia. O exame de consciência apresenta o pecado, não como a violação da lei, mas como a ruptura de uma relação. Gera pena, não porque um código foi violado, mas porque o amor foi ferido. Assim como a despensa vazia leva a dona de casa à padaria, da mesma forma a alma vazia é levada ao Pão da Vida.
O arrependimento não é o olhar para si mesmo, mas olhar para Deus. Não é auto-censura, mas amor a Deus. O cristianismo manda-nos que nos aceitemos tais como realmente somos, com todas as nossas faltas, as nossas quedas e os nossos pecados. Em todas as outras religiões, a pessoa tem que ser boa para chegar a Deus. No cristianismo, não. O cristianismo pode ser descrito como uma “reunião venha-como-está”. Manda que paremos de nos preocupar connosco, de nos concentrar nas nossas faltas e nas nossas quedas e confiá-las ao Salvador com um firme propósito de emenda. O exame de consciência nunca induz desespero, mas esperança. Alguns psicólogos, pelo próprio uso do seu método, têm levado a paz mental a indivíduos, mas somente porque descobriram uma válvula de salvação da pressão mental. Deixaram sair o vapor, mas não repararam a caldeira. É esta a tarefa da Igreja.
Pelo facto de ser o exame de consciência feito à luz do amor de Deus, começa com uma oração ao Espírito Santo para iluminar a nossa mente. Uma alma age então para com o Espírito de Deus como para com um relojoeiro que acertará o nosso relógio. Pomos um relógio nas suas mãos porque sabemos que ele não o forçará, e pomos a nossa alma nas mãos de Deus porque sabemos que, se Ele a inspecionar regularmente, funcionará como é devido.
É verdade que quanto mais perto estamos de Deus, mais vemos os nossos defeitos. Uma pintura revela poucos defeitos à luz duma vela, mas a luz do sol pode revelar que não passa de uma borradela. Os verdadeiramente bons nunca acreditam que são bastante bons, porque se estão julgando em comparação com o Ideal. Em perfeita inocência cada alma, como os Apóstolos na Última Ceia, exclama: “Porventura sou eu, Senhor?” (Mat. 26,22.)
O exame de consciência é principalmente uma concentração sobre a bondade e o amor de Deus. Toda a alma que se examina a si mesma olha para um Crucifixo e vê uma relação pessoal entre si mesma e o Nosso Divino Senhor. Admite que a Coroa de Espinhos teria sido menos dolorosa se ela houvesse sido menos orgulhosa e vã e que se tivesse sido menos ligeira em despenhar-se pelos atalhos do pecado os Divinos Pés teriam sido menos perfurados pelos cravos. Se houvesse sido menos avarenta, as mãos não teriam sido tão fundamente pregadas pelo aço e se houvesse sido menos carnal, o Salvador não teria sido despojado das Suas vestes.
Essa figura sobre a Cruz não é um agente da MVD ou um inquisidor da Gestapo, mas um Médico Divino, que somente pede que Lhe levemos as nossas feridas, a fim de que as possa curar. Se os nossos pecados forem escarlates, ficarão brancos como a neve, e se forem vermelhos como carmesim, ficarão brancos como a lã. Não foi Ele Quem nos disse: “Digo-vos que do mesmo modo haverá maior júbilo no céu por um pecador que fizer penitência, que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência”? (Lucas 15,7.) Na história do filho pródigo, não descreveu Ele o Pai como dizendo: “Comamos e banqueteemo-nos: porque este meu filho estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado”? (Lucas 15, 23-24.)
Por que há mais alegria no céu pelo pecador arrependido do que pelo homem reto? Porque a atitude de Deus não é julgamento, mas amor. No julgamento, não nos sentimos tão jubilosos depois de cometer o mal como antes; mas no amor, há alegria porque o perigo e a preocupação de perder aquela alma já passou. O que está doente é mais amado do que aquele que está são, porque necessita mais. Alguns fingem-se doentes para receber amor e pretextarão feridas para que o amado possa curá-las.
Aqueles que negam a culpa e o pecado são como os fariseus de outrora que pensavam que o Nosso Salvador tinha um “complexo de culpa”, porque os acusou de serem sepulcros caiados, limpos por fora, e por dentro cheios de ossos de mortos. Aqueles que admitem que são culpados assemelham-se aos pecadores públicos e aos publicanos de quem disse Nosso Senhor: “Na verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos levarão a dianteira no reino de Deus.” (Mat. 21, 31) Aqueles que pensam que são saudáveis, mas têm um cancro moral oculto, são incuráveis; os doentes que querem ser curados têm uma oportunidade. Toda a negação de culpa mantém as pessoas fora da área do amor e, gerando o orgulho, impede a cura.
Os dois factos de cura na ordem física são estes: um médico não pode curar-nos a menos que nos entreguemos nas suas mãos e não nos entregaremos nas suas mãos a menos que saibamos que estamos doentes. Da mesma maneira, a certeza que tem do pecado um pecador é um requisito para a sua cura; o outro requisito é o seu anseio por Deus. Quando ansiamos por Deus, agimos não como pecadores, mas como amantes.
É verdade que, depois do nosso exame de consciência, descobrimos que somos indignos de ser amados, mas é precisamente isto que nos faz desejar Deus, porque Ele é o Único que ama os indignos de serem amados. “Quem encontrarás que te ame, indigno, salvo Eu, somente Eu?”” [36]