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CAPÍTULO 4
Será Deus Difícil de Encontrar?
Deus não é difícil de encontrar, porque pode ser rapidamente descoberto pela razão, ou pelas nossas tentativas, ou pelo seu próprio dom.
S. Tomás diz-nos que a nossa razão, contemplando a ordem do universo, conclui imediatamente pela existência de alguém que o governa. Assim como o espírito conclui pela existência do relojoeiro vendo o relógio, da mesma maneira também conclui por um Divino Espírito, ao ver a ordem do cosmos. Este conhecimento imediato de Deus, porém, não é claro e distinto. Por esse motivo é que se faz necessário um estudo mais completo para pôr em relevo a natureza de Deus. A distinção entre este confuso conhecimento de Deus e o completo e refletido conhecimento produzido pelas provas formais em favor da Sua existência é bastante semelhante à diferença entre o conhecimento que a maior parte das pessoas têm da água e o conhecimento que o químico tem dela, como composta de dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio. A razão claramente utilizada pode provar que há um Poder por trás do universo, que o fez, uma Sabedoria dirigindo as suas leis e uma Vontade para fazer que todas as coisas alcancem o seu objetivo. Deus está mais perto de nós do que sabemos, “pois n'Ele vivemos, nos movemos, existimos” (Atos 17, 28) Santa Teresa disse certa vez: “Alguns homens ignorantes costumavam dizer-me que Deus estava presente somente pela Sua Graça. Não podia acreditar nisso porque, como estava dizendo, a mim me parecia que Ele próprio estivesse presente. Finalmente um homem sábio libertou-me desta dúvida, pois me disse que Ele estava presente no mundo e em nós e como comunga connosco, tendo sido isto grande conforto para mim.”
Francis Thompson, o poeta, baseando-se na ideia de S. Tomás de que Deus está em todas as coisas intimamente, escreveu:
“Ó mundo invisível, nós te vemos,
Ó mundo intangível, nós te tocamos,
Ó mundo incognoscível, nós te conhecemos,
Mundo inapreensível, nós te agarramos!’’ [14]
Deus é fácil de descobrir de uma maneira pelo menos confusa e primitiva, por meio do esforço e aspiração da nossa vontade e do nosso coração. Pois a grande diferença entre um animal e um homem está em que um animal pode ter os seus desejos satisfeitos, enquanto que o homem não pode. Tudo quanto qualquer animal quer é ter satisfeitas as suas necessidades imediatas. Com o homem nunca se dá esse caso. O homem é animado por uma necessidade, um desejo insaciável de alargar a sua visão e de conhecer o último significado das coisas. Se fosse apenas um animal, nunca usaria símbolos, pois o que são esses se não tentativas de transceder o visível? Não, ele é um “animal metafísico”, um ser sempre ansiando pelas respostas à derradeira questão.
A tendência natural da inteligência para a verdade e da vontade para o amor só significaria que há no homem um desejo natural de Deus. Não há uma única tentativa, esforço ou anseio do coração humano, mesmo em meio dos prazeres mais sensuais, que não seja uma confusa luta em busca do Infinito. Da mesma maneira que o estômago pede comida, o olhar luz e o ouvido harmonia, assim também a alma anseia por Deus.
Há muitos que se enganaram a respeito da natureza deste Infinito e buscam satisfazer o anseio em outra parte que não em Deus, justamente como há aqueles que sabem que o alimento é necessário para o estômago e, não obstante, arruínam os seus estômagos ingerindo constantemente genebra. Muitas almas são semelhantes a uma agulha magnética que se agita primeiro aqui, depois ali, buscando pela manhã quando evita de noite, depois ao descobrir que todos os outros pontos da bússola não passam de uma fraude, vem repousar afinal somente em Deus.
Deus nunca é difícil de encontrar, porque Ele se dá a nós como Divino Dom, A própria vida natural é um dom. A alma tem de aceitar o corpo exteriormente, como uma dádiva das mãos de Deus. E a vida sobrenatural também nos é dada de fora. Todo o significado do cristianismo está contida na simples frase do credo: “Desceu do Céu.” A cada alma particular, Nosso Senhor dirige as palavras que pronunciou, junto ao poço, para a samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dai-me de beber, talvez lhe houvesse pedido e ele te daria uma água viva. ” (João 4,10.) Como São Paulo disse aos romanos: “A graça de Deus, a vida eterna, em Jesus Cristo Nosso Senhor.” (Rom. 6,23) E mais tarde aos Efésios: “É pela graça que fostes salvos mediante a fé e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus.” ( Efésios 2,8)
Deus é apresentado simultaneamente através das Escrituras como ao mesmo tempo, a Dádiva e o doador, pois tal é a natureza do amor. Ninguém pode comprar a Dádiva Divina (embora possa vendê-la, depois de recebida, como Judas fez.) Se a dádiva de Deus fosse a verdade apenas, alguns espíritos fracos poderiam fugir de procurá-la. Se a dádiva fosse apenas a justiça, os nossos pecados poderiam erguer-se e atemorizar a dádiva, afugentando-a. Mas quando a dádiva de Deus é o amor, então não deveria haver ninguém que não tomasse o Coração d'Ele como seu.
Se, pois, Deus é fácil de encontrar e pode ser descoberto, quer por meio da beleza das estrelas quer em qualquer pequenino prazer da terra, o qual como uma concha marinha fala do oceano, por que é que tão poucas almas vêm para Ele? A culpa está na nossa parte não em Deus. A maior parte das almas são como homens vivendo num quarto escuro, durante o dia, lamentando que a luz seja difícil de encontrar, quando tudo quanto eles necessitariam fazer para descobri-la seria abrir as janelas.
Deus é o facto mais evidente da experiência humana. Se não estamos certos d'Ele, é porque somos demasiado complicados e porque os nossos narizes estão bem arrebitados de orgulho, eis aí! Ele encontra-se aqui junto dos nossos pés.
Necessitamos apenas “mover uma pedra e deslocar uma asa.” A graça de Deus chega ao homem justamente no mesmo grau em que o homem abre a sua alma para ela. O único limite é a capacidade do homem em recebê-la é a sua vontade de assim fazer. Alguns corações sedentos abrem apenas uma brecha enquanto outros, num abandono completo, entregam todas as suas cisternas vazias para serem cheias com as águas da Vida. Algumas almas sufocam, aferrolhadas nos seus próprios espíritos inconscientes, com as suas pesadas frustrações e temores, recusando abrir a porta para deixar entrar o ar refrescante da graça de Deus. “Eis que estou à porta e bato: Se alguém ouvir a minha voz, e me abrir a porta, entrarei nele, cearei com ele, e ele comigo.” (Apoc. 3,20) O ferrolho está do nosso lado e não no de Deus, pois Deus não derruba portas. Nós barramos-Lhe a entrada. Por vezes nós fugimos mesmo d'Ele, como os pintainhos fugindo da mãe galinha. “Quantas vezes eu quis juntar os teus filhos, como a galinha recolhe debaixo das asas os seus pintos, e tu não quisestes!” ( Mat. 23,37)
Por que agimos assim? É difícil acreditar, mas temos a divina garantia de que alguns “homens amam as trevas em vez da luz.” A tragédia aumentada do pecado é que depois de praticarmos o mal não podemos deixar que Deus nos ajude a fazer o que é correto e bom. Quebramos o arco para que ele não possa tocar o nosso violino. Conservamo-Lo distante, porque recusamos ser amados. Estamos naufragando e não nos agarramos á Sua Mão misericordiosa, porque no nosso orgulho dizemos que devemos “fazer isto por nós mesmos.” A verdade da questão não é que Deus seja difícil de encontrar, mas antes que o homem tem medo de ser encontrado. É por isso que nós tantas vezes ouvimos na Sagrada Escritura as palavras: “Não temais.” Bem no começo da vida de Deus em Belém, os anjos acharam necessário advertir os pastores: “Não temais.” No meio da vida pública de Nosso Senhor teve Ele de dizer aos seus atemorizados apóstolos: “Não temais.” E depois da Sua Ressurreição, teve de prefaciar as suas palavras sobre a paz com a mesma injunção: ‘’Não temais.’’
Nosso Senhor acha necessário advertir-nos de que não tenhamos medo, porque há três falsos medos que nos conservam afastados de Deus: 1 - Queremos ser salvos, mas não privados dos nossos pecados; 2 - Queremos ser salvos, mas não a muito grande custo.; 3 - Queremos ser salvos ao nosso modo e não ao Dele.
1. Queremos ser salvos, mas não privados dos nossos pecados. O grande temor que muitas almas têm de Nosso Divino Senhor é apenas o de que Ele venha a fazer justamente aquilo que o seu nome “Jesus” implica — ser Aquele que nos salva dos nossos pecados. Estamos querendo ser salvos da pobreza, da guerra, da ignorância, da doença, da insegurança e da insegurança económica. Tais tipos de salvação deixam intactas as nossas extravagâncias individuais, as nossas paixões e concupiscências. É esta uma das razões pelas quais o cristianismo social seja tão popular, havendo muitos que sustentam que a obrigação do cristianismo é não fazer outra coisa se não ajudar o saneamento das favelas ou desenvolvimento da amizade internacional.
Está espécie de religião é de facto, bastante confortável. Pois deixa a consciência individual sozinha. É mesmo possível que algumas pessoas estajam prontas a reformas corajosas das injustiças sociais por causa da verdadeira inquietação e mal-estar das suas consciências individuais: sabendo que algo está errado do lado de dentro, tentam compensar isso consertando o torto do exterior. É esse também é o mecanismo daqueles homens que, tendo acumulado grandes fortunas, tentam aliviar as suas consciências subsidiando movimentos revolucionários. A primeira tentação de Satanás no monte foi tentar induzir Nosso Senhor a abandonar a salvação das almas e a concentrar-se na salvação social, transformando pedras em pão, na falsa pressuposição de que eram os estômagos famintos e não os corações corrompidos que tornam infelizes uma civilização. Porque muitos homens pensam que o primeiro objetivo da Divindade é avaliar a adversidade económica, vão para Ele, no momento da provação e depois se revoltam contra Deus porque Ele não lhes enche as bolsas. Sentindo uma maior necessidade de religião, outros estão desejosos a ingressar numa seita cristã, sempre que esta se dedique ao “progresso” social ou à eliminação da dor, mas deixando intacta a necessidade individual de expiar o pecado. Na típica mesa de jantar os homens não fazem objeção a que seja introduzido na conversa o tema religioso, contando que a religião não tenha nada a ver com a expiação do pecado e da culpa. De modo que muitas almas atemorizadas permanecem trémulas diante da porta da felicidade e não ousam aventurar-se a entrar, “com medo de que, tendo-O, não terem nada mais além disso."
2. Queremos ser salvos, mas não a muito grande custo. O Deus que estruma os seus campos com sacrifício para produzir o Vinho da Vida sempre amedronta os tímidos. O moço rico afastou-se triste do Salvador, porque tinha grandíssimas posses. Felix estava querendo apenas ouvir Paulo “noutra ocasião”, quando Paulo falava do julgamento e do abandono do mal. A maior parte das almas tem medo de Deus precisamente por causa da Sua Divindade, que o faz ficar insatisfeito com qualquer coisa imperfeita. O nosso maior temor não é que Deus não possa amar-nos bastante, mas que possa amar-nos demasiadamente. Assim como o amante quer ver a pessoa amada perfeita em maneiras e comportamentos da mesma forma também Deus, amando-nos, deseja que sejamos perfeitos como Seu Pai Celeste é perfeito. Assim como o músico ama o violino e aperta as cordas com uma torcedura sacrifical, a fim de que possam produzir melhor som, da mesma forma Deus nos submete ao sacrifício para tornar-nos santos.
Este temor de que o amor de Deus nos faça exorbitantes exigentes explica por que muitos homens de saber, que chegaram ao conhecimento de Deus, se tenham contudo recusado a aventurar-se no Seu rebanho. O mundo esta cheio de sábios que falam de estender as fronteiras de conhecimento, mas que nunca usam o conhecimento que já foi adquirido: que gostam de bater à porta da verdade, mas que tombariam mortos se esta porta se abrisse alguma vez para eles. Porque a verdade implica responsabilidade. Todo o dom de Deus, tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural, exige uma retribuição da parte da alma. Na ordem natural, os homens recusam-se a aceitar a dádiva da amizade porque cria uma obrigação. A dádiva de Deus implica igualmente um momento de decisão. É porque aceitando-O exige uma submissão daquilo que é básico, muitos se tornam caçadores de pechinchas em religião e diletantes em moral, recusando quebrar os falsos ídolos dos seus próprios corações. Querem ser salvos, mas não ao preço de uma cruz. Ecoa através das suas vidas o desafio de outrora: “Desce dessa cruz e nós acreditaremos.”
3. Queremos ser salvos, segundo o nosso modo e não o de Deus. Muitas vezes ouvimos dizer que os homens devem ter liberdade de adorar a Deus, cada qual ao seu modo. Isto de facto é verdade, até aonde implica a liberdade de consciência e o dever de cada homem de viver com as luzes especiais que Deus lhe deu. Mas pode estar muito errado, se significa que adoramos a Deus do nosso modo e não ao d'Ele. Considerai uma analogia: a situação do tráfego seria confusa e desesperante se disséssemos que o modo de vida americano permite que cada indivíduo dirija o seu carro a seu modo e não de acordo com as regras de trânsito. Catástrofes resultariam, se os doentes começassem a dizer ao médico: “Quero ser curado a meu modo, mas não ao do senhor”, ou se os cidadãos dissessem ao governo: “Quero pagar os meus impostos, mas a meu modo e não ao vosso.” Similarmente, há um tremendo egoísmo e presunção naqueles artigos populares e conferências intitulados: “A minha ideia de religião” ou “A minha ideia de Deus.” Uma religião individual pode ser tão desencaminhadora e ignorante como uma astronomia individual ou uma matemática individual. Indivíduos que dizem: “Servirei a Deus a meu modo e o senhor servirá a Deus ao seu”, deveriam indagar-se se não seria aconselhável servir a Deus ao modo d'Ele. Mas é precisamente esta perspectiva de uma religião estável e universalmente verdadeira que amedronta a alma moderna. Pois se a sua consciência está inquieta, deseja uma religião que deixasse de fora o inferno. Se já se casou de novo, contra a lei de Deus, quer uma religião que não condene o divórcio. Tal reserva significa que o homem quer ser salvo, mas não ao modo de Deus, mas a seu modo. Nesta recusa de mudar as penas dos seus vãos desejos, perde o voo para aquele “Amor que deixa todas as outras belezas penar.”
Se muitas almas deixam de encontrar Deus, porque querem uma religião que refaça a sociedade, sem se refazer a si próprias, ou porque querem um Salvador sem uma coroa de espinhos e uma cruz, ou porque querem as suas próprias cópias e não as de Deus, resta indagar o que acontece a uma alma quando responde a Deus. Entre muitos outros efeitos, vários podem ser mencionados.
Primeiro tal alma passa do estado de especulação ao de submissão. Não mais se vê perturbada com o porquê da religião, mas com o deve. Quer agradar e não somente analisar a Divindade. Há um mundo de diferença entre conhecer Deus por meio do estudo e conhecê-Lo pelo amor, tão grande como a diferença entre um amor por correspondência e outro por contato pessoal. Muitos professores céticos conhecem as provas das evidências de Deus melhor do que alguns que rezam as suas orações; mas porque os professores nunca agiram de acordo com o conhecimento que tiveram, porque nunca amaram o Deus a Quem conheciam pelo estudo, nenhum novo conhecimento de Deus lhes foi dado. Gostam de conversar a respeito da religião, mas nada fazem a seu respeito e em resultado o seu conhecimento permanece estéril.
Com a alma que responde a Deus, pelo contrário, um pouco de conhecimento de Deus foi recebido com amor; em resultado, novos portões de sabedoria foram abertos. Em tais almas, o amor de Deus traz um conhecimento de Deus que na sua certeza e realidade ultrapassa a informação teorética do professor. Esta verdade sublime vem expressa na Sagrada Escritura: “Se alguém ama a Deus, esse é conhecido d'Ele ” (1 Cor. 8,3). A mulher do poço foi precocemente cética ; querendo manter a religião num nível puramente especulativo, levantou a questão de saber se se deveria praticar o culto em Jerusalém ou na Samaria. Nosso Bendito Senhor retirou a questão do campo da teoria, falando-lhe a respeito dos seus cinco maridos, lembrando-lhe que ela havia evitado fazer as correções morais que a verdadeira religião exige.
A alma que responde a Deus pensa na religião em termos de submissão à vontade de Deus. Não olha para o infinito esperando que Ele o auxilie nos seus interesses finitos, mas pelo contrário, busca submeter os seus interesses finitos ao infinito. A sua oração é: “Não a minha, mas a Tua vontade seja feita, ó Senhor.” Não mais interessada em utilizar-se de Deus, quer que Deus se utilize dela. Diz, como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”, ou pergunta como São Paulo: “Que queres que eu faça, ó Senhor?” ou diz como São João Batista: “Eu devo diminuir, Ele deve crescer.” A destruição do egoísmo e do orgulho, de modo que toda a mente possa assim estar sujeita à Divina Pessoa, não impõe desinteresse pela vida ativa. Produz um interesse maior porque o homem agora compreende a vida do ponto de vista de Deus. Por causa desta unidade com a Divina Fonte de energia, tem maior poder para fazer o bem, como um soldado é mais forte às ordens de um grande general do que às ordens de um menos competente. “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e ser-vos-á concedido. Nisto é glorificado meu Pai, em que vós deis muito fruto. ”(São João 15,7-8) É difícil para criaturas reconcentradas compreender que haja almas que são verdadeira e realmente apaixonadas de amor por Deus. Mas isto não deveria ser tão difícil de entender. O que ama a luz e o calor da vela deveria por certo amar a luz do sol ainda muito mais.
A vida para as almas que respondem a Deus começa agora a mover-se duma circunferência para um centro. As coisas exteriores da vida, tais como a política, a economia da sua rotina diária, importam menos, enquanto que Deus importa mais. Isto não significa que a humanidade passa a ser desamada, mas somente que é mais amada em Deus. O momento agora torna-se servo do momento Eterno. O desinteressante, o irreal passa a ser agora aquilo que não é usado ou não pode ser usado para os fins de Deus. Não há dardo na aljava duma alma religiosa para outra coisa que não seja o Divino Alvo.
Todas as censuras que os egoístas atiram contra os santos são ardis para acobertar as censuras feitas a si mesmos. Suspeitam que deveriam compreender. Contudo escarnecem, como dizem muitas vezes as pessoas a respeito de amantes humanos: “Não posso compreender o que ele vê nela”. Sem dúvida que não – porque o amor é cego! É cego não só para os defeitos do amado; é também cego para tudo que não seja o amado. O amor tem os seus olhos próprios. Todos os outros que não o amante só vêm com os olhos do corpo e perguntam a si mesmos o que há para ser amado. Mas o amante vê através dos olhos do coração e descobre no outro uma doçura e um amor que corações cegos não percebem. Erguei esta analogia ao nível divino e compreendereis porque as almas não convertidas pensam que o Divino Amor é loucura. Não podem ver o que um santo pode ver em Deus, “O homem-animal não discerne.”
O segredo da felicidade é a centralização. A alma que responde a Deus torna-se surda às instigações dos sentidos, pois para ela Deus é tudo. Como grandes dínamos cósmicos estas almas geram energia, graças à qual outras almas na circunferência podem viver. Falando das almas contemplativas, disse Pio XI:
“É fácil compreender como aqueles que assiduamente cumprem o dever da oração e da penitência contribuem muito mais para o progresso da Igreja e o bem-estar da humanidade do que aqueles que trabalham no cultivo do campo do Senhor. Porque se aqueles não atraíssem do céu uma chuva de graças divinas para aguar o campo que está sendo lavrado, os trabalhadores evangélicos só colheriam de facto do seu trabalho uma messe mais escassa.” [15]
A alma verdadeiramente centralizada em Deus não é governada apenas pelos seus próprios hábitos de bondade ou mesmo pelas suas virtudes. É movida diretamente pelo Espírito de Deus. Há uma diferença entre um homem remando num bote e o mesmo homem sendo conduzido por uma vela cheia de vento. A alma que vive pelos Dons do Espírito é a própria razão. Tal alma tem uma sabedoria que sobrepassa todo o saber livresco. Como no caso da jovem Catarina de Alexandria, que confundiu os filósofos. É dotada duma prudência e dum parecer mais sábios do que qualquer coisa derivada da sua própria experiência.
A filosofia explica isto duma maneira mais clara. Toda a inteligência tem dois lados, um especulativo, que estuda a teoria e um lado prático, que dirige e guia os negócios humanos. Uma vida de pecado não destrói o primeiro. É por isso que o homem mau pode ser tão bom matemático como um santo. Mas uma vida de pecado arruína a inteligência prática. Daí, um sábio matemático que se mete a escrever sobre moral e religião muitas vezes não passa dum feixe de confusão. A pessoa dirigida por Deus, é capaz de guiar e dirigir outras melhores do que os homens que sabem mais, mas de maneira puramente teórica.
Nem todos podem ser guias. O divorciado não pode guiar o casado; o professor ou o psicólogo, cujo coração não esteja purificado, não pode guiar o jovem. “Se um cego guia outro cego, ambos caem na fossa.” (Mat. 15,14)
Um parecer que envolve o certo e o errado nunca deveria ser procurado num homem que não reza as suas orações, embora pudesse saber mil vezes mais a respeito dum gânglio ou duma tiróide do que o homem de oração. Assim como o olho munido do telescópio pode ver as estrelas melhor do que a olho nu, da mesma forma a razão iluminada pela fé compreende a realidade melhor do que a razão nua.
Mesmo julgando um assunto secular como o comunismo, vale a pena apontar que o homem de fé, que viu o comunismo como intrinsecamente mau, mesmo quando os seus líderes eram os aliados da democracia, era melhor juiz do que iria acontecer num mundo pós-guerra do que o político. Pelo facto de ser a crise do mundo atual também moral e espiritual, não pode ser compreendida pelo homem animal. O homem concentrado em Deus vê isto plenamente, e o vê como Lincoln viu a Guerra Civil, como um justo castigo mandado por Deus por causa dos nossos pecados.
As almas divinamente sábias causam muitas vezes furor nas mundanamente sábias, porque sempre vêm as coisas do ponto de vista divino. As almas mundanas acham bem que cada qual acredite no Deus que lhe agradar, mas, somente sob condição de que uma crença em Deus não signifique mais de que uma crença em outra coisa mais. Permitirão Deus, contanto que Deus não importe. Mas tomar Deus a sério é precisamente o que faz o santo. Como expôs Santa Teresa: “Nada é para mim aquilo que não seja Deus. ” Esta paixão é chamada fingida, intolerante, estúpida e uma intrusão injustificável. Contudo aqueles que a sentem profundamente desejam em seus corações possuir a paz interior e a felicidade do santo.
E assim essa questão de saber se Deus é difícil de encontrar, só em nós tem a resposta. A maior parte de nós é como o homem que havia trinta e oito anos se colocava ao lado do Poço da Piscina Probática e ainda não estava curado. A sua desculpa era que, quando as águas eram agitadas, não havia ninguém que o pusesse lá dentro. Necessitava de cura mas na realidade não a queria. Há muitos homens como ele, que ficam justamente como são, inculpando a outrem pela sua situação. Mas quando Nosso Senhor apareceu, disse àquele homem que fizesse precisamente aquilo que pensava fosse impossível, isto é, levasse a sua cama. O que lhe estivera faltando era vontade, estava moribundo porque não queria estar melhor. Muitos fracassos na vida são, como o dele, evitáveis, desnecessários. Persistem somente porque nenhum esforço é feito para remediar a condição. O homem de hoje diz que não quer guerra, mas quer as coisas que causam guerra. Do mesmo modo, há muitos que dizem que querem ser felizes, mas recusam querer aquilo que lhes trará a felicidade. “Vós me procurareis e me achareis, quando me procurardes de todo o vosso coração” (Jer. 29, 13) A razão básica pela qual os homens são infelizes nesta vida é que eles não desejam verdadeiramente a felicidade.
Em toda a literatura, nada há tão expressivo da inescapabilidade de Deus como o salmo 138. O argumento parece ser que nós podemos escapar de qualquer coisa que seja finita: espaço e tempo são o ambiente de toda a fuga, mas o inescapável é o Infinito. Tirar a própria vida não oferece escapatória, pois o suicida cai nas mãos do Deus vivo. A destruição de si mesmo só é possível porque alguém pode contemplar outro “estado” preferível a este, mesmo se o chama não-existência, A morte mediante qualquer outra causa não é ainda escapatória, pois Ele, de cujas mãos viemos, espera para receber-nos de volta, carregando connosco a responsabilidade de todas as nossas ações. O ateísmo, que rejeita este facto majestoso, não é o conhecimento de que Deus não existe, mas apenas a vontade de que ele não exista, a fim de se poder pecar sem censura, ou exaltar o seu eu sem brado de alerta. Os pilares sobre os quais monta o ateísmo são a sensualidade e o orgulho. Um ateu pode ser moral, na acepção popular do termo, mas não é humilde. Como diz Franz Werfel: "O ateu em primeiro lugar e sempre denuncia a sua própria psicologia, quando pensa que está desvendando o mistério e a sua negação torna-se involuntariamente a prova de Deus confirmando, contra a sua própria vontade perturbada da percepção". [16]
Como o ateísmo não oferece escapatória de Deus, não o faz a escuridão duma adega ou do nosso próprio inconsciente. Podemos tirá-lo para fora das nossas mentes, argumentar contra ele, mas sabemos que se Ele não existisse, seria na verdade estúpido gastar a nossa energia combatendo contra o inexistente. “Para onde poderei ir para ocultar-me de Tua Face? ” implica ser o homem um escapista. Jamais procuraria fugir de um Deus Que aprovasse o seu modo de pensar, de viver e de agir. Tal Deus seria à imagem e semelhança do homem e, por conseguinte, seria algo digno de abraçar.
Se fugimos de Deus, é porque a Sua Divindade constitui censura para nós e porque a união com Ele exige desunião e divórcio com o mal. Não podemos por muito tempo suportar um Deus que olha dentro da nossa alma e vê a sua fealdade, sem cair de joelhos. Mesmo a fuga de Deus testemunha a nossa necessidade de beleza, o nosso amor ao Belo. Como a luz revela todas as coisas e contudo não é uma parte daquilo sobre o qual brilha, da mesma maneira o Poder, a Sabedoria e o Amor de Deus nos inundam, pois Nele vivemos, movemo-nos e temos o nosso ser. Nós O conhecemos, mas poucos querem ser conhecidos por Ele. Nós amamos as coisas criadas por Ele porque pôs algo do Seu amor nelas; doutra forma não poderiam elas ser amadas. Contudo poucos querem amá-Lo, porque Ele ama demais. Ele quer que sejamos perfeitos e nós não queremos ser perfeitos. Mas mesmo na nossa fuga ao perfeito, somos arrastados de volta para Ele no nosso descontentamento pela mediocridade, no nosso desgosto pelo ordinário. Deus é omnisciente; por conseguinte a nossa condição é revelada. Deus é omnipresente: portanto os nossos pecados ocultos são vistos. Não há escapatória de Deus.
Estas ideias são apenas um fraco comentário do salmo acima mencionado:
“Senhor, permaneço aberto à Tua investigação; Tu me conheces, sabes quando me sento e quando me levanto de novo, desde longe podes ler o meu pensamento. Desperte ou durma, podes dizê-lo; nenhum há movimento meu que não o vigies. Antes que as palavras se formem nos meus lábios, todo o meu pensamento é já conhecido de Ti. Tu me cercaste pela retaguarda e pela vanguarda e a Tua mão ainda descansa sobre mim. Sabedoria como a Tua está bem além do meu alcance, nenhum pensamento meu pode alcançar-Te.
Para onde poderei ir, pois, a fim de me subtrair ao Teu espírito e ocultar-me da tua vista? Se subo ao céu Tu lá estás; se desço ao abismo, nele te encontras ainda presente. Se eu pudesse tomar asas voando para o nascente, ou encontrar um abrigo para além do mar ocidental, ainda ali Te encontraria acenando-me, com a tua mão direita me sustendo. Ou talvez pensasse em enterrar-me na escuridão: a noite me cercaria, mais amiga do que o dia: mas não, a escuridão não é esconderijo para Ti, contigo a noite brilha clara como o próprio dia; luz e trevas são uma só coisa.
Teus são os meus mais íntimos pensamentos. Não me formaste no ventre de minha mãe? Eu te glorificarei pela minha maravilhosa formação, por todas as smaravilhas de tua criação. Da minha alma tens pleno conhecimento e esta minha mortal estrutura não tem mistérios para ti, que a formaste em segredo, ideaste o seu modelo, ali no recesso negro da terra. Teus olhos viram todos os meus atos, todos já estão anotados no teu livro. Os meus dias já foram contados antes mesmo de existirem.
Um enigma, ó meu Deus, os teus modos de proceder para comigo, tão vastos os seus propósitos! Tentar contá-los o mesmo seria que tentar contar os grãos de areia e se minha fosse essa habilidade, o teu próprio ser é ainda quem está diante de mim. Não acabarás ó Deus, com os pecadores? Assassinos, conservai-vos distantes de mim! Traiçoeiramente revoltam-se contra Ti, infielmente desconfiam de ti, Senhor, porventura não odeio eu os homens que te odeiam e não sinto horror pelas suas sedições? Com ódio transcendente eu os suporto e os conto como meus inimigos jurados. Sonda-me, ó Deus, à tua verdade, e lê no meu coração. Submete-me à prova e examina os meus pensamentos inquietos. Vê se o meu coração enveredou por algum falso caminho e tu mesmo conduze-me pelos caminhos eternos.”
Contudo, sempre desde os dias de Adão, o homem vem-se ocultando de Deus e dizendo: “Deus é difícil de encontrar.” A verdade é que, em cada coração, há um jardim secreto que Deus fez unicamente para Si Mesmo. Esse jardim está trancado, como uma adega para depósitos de segurança, e tem duas chaves. Deus fica com uma. Por isso a alma não pode deixar entrar ninguém mais senão Deus. O coração humano tem a outra chave. Por isso nem mesmo Deus pode nele entrar sem o consentimento do homem. Quando as duas chaves do Amor de Deus e da liberdade humana, da Vocação Divina e da resposta humana se acham juntas, então o Paraíso volta a um coração humano. Deus está sempre no Portão daquele Jardim com a Sua chave. Nós pretendemos procurar a nossa chave, tê-la perdido, ter desistido da procura, mas durante todo o tempo está na nossa mão, se quiséssemos mesmo vê-la. A razão de não sermos tão felizes como os santos está em que não querermos ser santos.